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Reinventar a lida

Cláudio Ribeiro Cláudio Ribeiro claudioribeiro@opovo.com.br

Foi a necessidade, mas, principalmente, a esperteza. Um dia, já sabido de mexer na Internet, seu Luiz viu um rapaz - não lembra de onde - mostrar no vídeo uma geringonça pequena que, acionada por uma alavanca manual, desenterrava do chão a brabeza de uma macaxeira gigante. Seria ali força pra talvez quatro homens, mas que o equipamento feioso tornava fácil para um cabra apenas. Coisa simples. De uma olhada, meteu-se a recriar e, no seu jeito, aperfeiçoou uma colhedeira de mandioca.

A “invenção” nasceu três anos atrás. Seu Luiz usa quando precisa arrancar manivas mais difíceis. Maniva é o caule, debaixo está a mandioca. Com a colhedeira, ganha tempo na lida do roçado, poupa cansaço debaixo do sol. É uma riqueza, sopro no calor de uma seca de quatro anos emendados. Ele mora em Pau dos Ferros, no Rio Grande do Norte, mas arrenda terras irrigadas no Assentamento Curupati, em Jaguaribara, no Ceará.

 

Foto: FÁBIO LIMA
Luiz Nogueira, inventor conectado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mandioca, mamão, banana, goiaba, vem pra ganhar a vida ao lado do açude Castanhão. Paga o chão plantado, mas acompanha de perto a época da colheita. “Cheguei a arrancar uma mandioca de 32 quilos sozinho”, exalta, da colhedeira que botou no mundo. Luiz Nogueira do Rêgo, 66 anos, aprendeu a ser desacomodado pela insistência do pai, Raimundo Guedes do Rêgo.

Na infância em São Miguel, também no Rio Grande do Norte, diz que o pai “botava a gente pra trabalhar de graça, trabalhei meses e meses só pra aprender a profissão”. Como o Chico Bento de Rachel de Queiroz, em O Quinze, o pai de seu Luiz queria que as crias de casa tivessem destino melhor. Que não fosse o de só esperar os desígnios de Deus quando alguma nova seca firmasse.

“Isso que fez até hoje a gente não ter medo de enfrentar as dificuldades que existem”. Seu Luiz até foi embora da região seca, tentar a vida em São Paulo. Como o Chico Bento de Rachel que um dia, já na desesperança, também foi “por cima da água do mar, às terras longínquas onde sempre há farinha e sempre há inverno...”. Nunca se soube se o vaqueiro de O Quinze quereria voltar à sua Quixadá. Mas seu Luiz preferiu o regresso.

“Morei 18 anos lá, foi 18 anos dizendo que vinha embora. Lá aprendi mais coisa. Cheguei à conclusão que o importante é amar o que se faz e fazer com vontade”. Seu Luiz viveu pelo Interior paulista. Dobra erres, canta a frase de outro jeito, adquiriu sotaque. Sabia de roça, só que desembarcou no Sudeste como peão de construção. Foi o que o pai mais ensinou. Entrou nos canteiros como servente de pedreiro, mas dedicação e a mesma insistência que seu Raimundo pregava o fizeram mestre de obra.

No seu tempo de vida, seu Luiz lembra de muitas secas atravessadas. Onde foi criado, nem açude tinha. Água era de cacimbão. O pai também inventava. Fez um guincho que limpava lama de fundo de cacimba, para que a água nova brotada fosse limpa. Faziam reserva num inverno para esperar outro ano estiado. A sabedoria repassada pelo pai encorpou o filho.

Debaixo de sol e chapéu de palha, é seu Luiz quem agora ensina: “Quem só se lamenta é uma tristeza. A seca é um dos ensinamento maior que pode existir na nossa região. Se não fosse uma seca em nossa região a cada dez anos, essas quatro secas agora ia todo mundo morrer de fome, porque não teria o açude Castanhão, nem outros açudes. Porque o pessoal aprende. Aqueles que querem aprender, né. Os que não querem vão ficar se lamentando a vida inteira”. (Com Ana Mary C. Cavalcante)