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Os Reis da Palma

Cláudio Ribeiro Cláudio Ribeiro claudioribeiro@opovo.com.br

O filho mais velho de José Daldécio Rocha, Dalton, 17 anos, se encaminha para ser doutor de prédio e casa. Daldécio hoje pode bancar os estudos de Engenharia Civil do menino, caros, numa universidade particular na Capital. O mais novo, Saulo, 14 anos, hora dessas deve ir também no rumo de Fortaleza, quando findar o Ensino Médio. O rancho Santo Antônio, distrito Cajazeiras, em Madalena, que era do pai de seu Daldécio, hoje tem mais de 12 hectares de cactos ao redor e, por isso mesmo, recuperou um futuro.

Pouco mais de meia década atrás, a família quase se desinteressou pela terra, agora próspera com o plantio de palma. “Pensamos em vender, ir embora pra cidade”, admite o ex-caminhoneiro, sobre a ideia já totalmente descartada. “Foi justamente na seca que teve a virada”, demarca.

 

Foto: RODRIGO CARVALHO
Daldécio Rocha cultiva palma no rancho Santo Antônio, em Madalena
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desde 2012, Daldécio tem quatro campos plantados de palma forrageira. Há uma paisagem de cactos que se estica no horizonte de frente de seu terreiro. Totalizam 15,75 hectares, onde são produzidas as sementes (raquetes) de palma da espécie gigante. O maior dos campos, o de 12,04 hectares, é o que está em frente ao seu rancho. Dependendo do porte da planta, pode passar de dois metros de altura e cada palma, com o devido controle de pragas, brota de 40 a 400 raquetes. A unidade é vendida a R$ 0,20 - ele assumindo o frete, sai a R$ 0,15.

Em Madalena, pelos números de controle da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ematerce), Daldécio é o rei da palma. Em 2015, ele venderá ao Estado um lote de 1 milhão e 90 mil raquetes. Será apenas sua segunda colheita no rancho Santo Antônio. No Ceará, são 18 produtores que plantam para revender. No perímetro irrigado do Tabuleiro de Russas, um produtor vendeu mais três milhões dessas raquetes este ano. A colheita é comprada pelo programa estadual Palma Forrageira, que repassa as raquetes a pequenos agricultores familiares. Para que sejam replantadas e delas se forme a reserva alimentar dos rebanhos particulares. Triturada ou cortada, a raquete garante água, energia e sais minerais ao animal.
Pode ser combinada a alimentos fibrosos para ganhar maior valor nutricional.

As palmas de Daldécio serão colhidas e distribuídas de outubro a março próximos. Há poucas chuvas projetadas para 2016 e a palma será uma garantia a mais para sustentar o animal no ano que vem. Porque a seca é certeza, a chuva é que nem sempre. Em Madalena, 400 propriedades cultivam a cactácea com acompanhamento técnico, para alimentar suas reses.
Daldécio não ficou rico, mas progrediu. Passou a investir no patrimônio, herança familiar, que um dia quase desacreditou. Às custas de palma. O poço novo, recém-cavado a 60 metros de fundura, não foi barato, deu trabalho, garante água para a travessia de mais um tempo de estio. O açude de frente da casa, seco há quatro anos, foi recuperado. Aumentou-se a parede para esperar a nova chuvada boa - que hora volta.

Daldécio comprou um trator novo, que não tinha, e adesivou sua marca de ferrar gado ao lado do motor. Orgulho. A cerca está pintada, alpendre arrumado. Gado, cabras e porcos gordos, as galinhas ciscam fartura. Casa cheia de sorrisos. Nem parece cenário de cinco anos de seca. Entre julho e agosto, n’O Quinze, a solidária Conceição visitava campos de concentração que guardavam esfomeados da penúria cearense. Sem perspectiva alguma. Madalena, que três décadas atrás era distrito de Quixeramobim, cruza novos julhos e agostos, tempos menos piores das secas de agora. (Com Demitri Túlio)