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EDITORIAL -

Outros Quinzes

O Semiárido não é um oásis. Nunca será. Ainda mais porque, atravessado pela seca, faz da chuva uma exceção. Espanto seria se não tivesse estiagem todos os anos. É que os olhos não percebem quando ela rasteja. A não ser quando some com um mar de água doce feito o açude Banabuiú, no sertão Central do Ceará. Seco, quase morto, minguando no 0,94% de 1,6 bilhão de metros cúbicos que se foram em quatro anos de suplício para a maioria.

 

Foto: reprodução


Nos 100 anos da Seca de 15, melancolia que virou livro pelas mãos de Rachel de Queiroz e a geração de 30, regressamos ao Semiárido. Sempre retornamos. Fomos narrar sobre quem, rodeado pela exceção, fez com a chuva guardada a vida ter outras possibilidades e tons. Feito a chita transformada.

Gente que deixou de viver da mão pra boca e se recusou a reencarnar personagens de O Quinze. A maioria nem leu Rachel de Queiroz. Nem carecia, a memória da seca atravessou as gerações. Dos tataravós, bisavós, avós, chegou, em memórias, pela boca do pai ou dos vizinhos.

Fomos ter com 15 personagens, e suas estratégias de sol a sol, para saber como transformaram a seca em excedente. Como reinventaram o inevitável. Com dores e delícias. Doces, bolos, farinha de mandioca, leite, carne, verdura. Gente que, mesmo rodeada pelos últimos quatro anos de seca, de 2012 a 2015, cultua um açude que nunca secou desde que foi construído num sovaco de serra, em Canindé.

Ou um homem, feito Daldécio Rocha, que transformou 15,7 hectares de solo pedregoso, no município cearense de Madalena, em campos prósperos de palma forrageira e hoje ganha dinheiro do governo e iniciativa privada. Gente que não vive a pedir, de mão estendida. São recortes que, nem de longe, indicam que estamos próximos a findar o drama que a estiagem causa ao nosso vulnerável semiárido, mas dão conta de mostrar que há caminhos possíveis, que há programas governamentais com soluções simples capazes de mudar o cenário.

Assim como há o aprendizado, a observação, a sabedoria de quem se dispõe a transformar o cotidiano. Ao percorrer 2.500 quilômetros de chão cearense, repórteres do O POVO encontraram muitas histórias de Inácias, Conceiçãos, Vicentes, perpetuados no O Quinze, de Rachel de Queiroz. Experiências contadas neste especial - Os Quinzes – e no próximo, na próxima terça-feira, 25.

Os dois especiais Os Quinzes são parte de uma investigação jornalística (etnográfica) que o Núcleo de Reportagem Especial do O POVO vem fazendo, ao longo de mais de uma década, sobre a vida do brasileiro que habita o Semiárido nordestino. São da mesma série, as trilogias Mares, Desertos e Chuvas do Sertão; Autoestima Cearense; Inquisição: No Rastro dos Amaldiçoados; Santificados; e as publicações Planeta Seca; Peleja da Água; O Sertão a Ferro e Fogo; A Saga dos Arigós; Brasil 500 Séculos e a Transposição do São Francisco.

 

CAPÍTULO 2
Na próxima terça-feira, 25,
O POVO publicará o segundo especial Os Quinzes, com novas experiências de convivência com a seca no Interior cearense do século XXI