O labirinto das saudades

Este especial Universidade e Saudade investe em temas que andam de mãos dadas. Quem almeja o curso superior precisa despertar, muitas vezes, a ausência de muitas presenças conhecidas. A casa materna, o idioma, os filhos, a cidade, os lugares. Visitar o tema significa encontrar histórias de amor e superação. Por isso, ao longo de três semanas, vamos alimentar este especial com a cartografia de saudades. Boa leitura!

Por Isabel Costa

Foto: Mateus Dantas/ Especial para O POVO

A abertura de novos campi universitários no interior do Ceará provocou um movimento de migração. Diferente do observado nas décadas de 1980 e 1990, quando centenas de estudantes chegavam à Capital para prestar vestibular, os jovens fortalezenses voltaram os olhos para cidades como Barbalha, Sobral e Juazeiro do Norte. Motivados pela recente oferta de cursos superiores, eles partem em uma jornada de autodescoberta, estudo, ausências e lembranças. O POVO traz uma série sobre múltiplas saudades que perpassam alunos de graduação e pós-graduação.

O cearense vive um eterno movimento de ir e ficar. Desde que Moacir - filho da índia Iracema e do colonizador português Martin - deixou as terras alencarinas, nós ficamos divididos entre os verdes mares e as possibilidades do “estrangeiro”. Depois, durante as secas históricas, era o andar por quilômetros que definia o morrer ou o viver. Como andarilhos que somos, caminhamos bem do litoral ao sertão. Desde os anos 2000, as universidades investem em estruturas no Interior. E é para lá que os jovens têm ido.

Foto: Mateus Dantas/ Especial para O POVO

Larissa Andrade, aluna do último semestre de Psicologia da Universidade Federal do Ceará, em Sobral, partiu em busca do almejado curso superior - mas manteve várias saudades na mente: a família, os amigos, o quarto, os livros. “Eu estava no movimento inverso. Indo de Fortaleza - uma cidade onde temos vida noturna e vida cultural – para um lugar mais tranquilo. Eu curto a Praia de Iracema. Eu curto nossos espaços públicos. O Estoril, que a gente conseguiu resgatar. O Passeio Público. Sou apaixonada pela nossa Cidade. Gosto de sair para reencontrar todo mundo na efervescência do Dragão do Mar”, aponta.

Foi por essas saudades que, durante os cinco anos já passados na graduação, Larissa retornava à Fortaleza a cada fim de semana. “Eu gostava de estar em casa aqui e ter possibilidades de coisas legais para acontecer, pessoas para encontrar no fim de semana. Ou de acontecer simplesmente nada. Estava sempre dentro de um ônibus Guanabara indo e voltando, indo e voltando”. Agora, ela retornou à Capital para redigir o trabalho de conclusão de curso. “Mas Fortaleza atrapalha. Preciso escrever e a Cidade chama pra rua”.

A saudade é, por natureza, um sentimento ingrato. Nós não nos damos conta do quanto uma pessoa, um objeto ou uma situação são importantes até eles se tornarem inacessíveis – analisa Fábio Gomes de Matos, pós-doutor em Psiquiatria e professor da UFC. É o caso de André Câncio, 25 anos, estudante de Medicina. Foi chegar em Barbalha, onde estuda, e começou a sentir falta do mar. “Era característico ir todo fim de semana para a praia com meus pais”, lembra. Os sábados e domingos em casa foram rareando na medida em que o curso avançava. “Vieram as monitorias, os internatos. De uma vez por mês, passei a ir de três em três meses”, lamenta. E a saudade – ou presença da ausência – ficou mais forte.

A saudade não tem definição científica formal. Conforme Fábio, os dados guardados na memória recebem uma “coloração afetiva” com o passar dos anos. “O tempo solidifica ou gaseifica as emoções. E ela é algo agradável. Senão não seria saudade, seria alívio”, ensina. Por isso, sentimos saudades daquilo que não é mais acessível – como uma conversa face a face com a mãe, uma saída ao cinema, uma comida ou até um objeto característico de casa.
“Temos que equilibrar os três instantes na vida: presente, passado e futuro. Ter memórias antigas e a inserção do presente, mas definir para onde está caminhando”, diz Fábio.

Saiba mais
A maioria dos estudantes segue para cidades do interior pela concorrência menor em cursos de alto padrão – como Medicina, Psicologia, Engenharia Civil e Odontologia.

O baixo custo de vida e a maior disponibilidade dos professores também são apontados como fatores para a mudança Capital-Interior.

Com a entrada da população jovem, as cidades interioranas começam a mudar a dinâmica – oferecendo mais opções de lazer e impulsionando o comércio.

Depoimentos

“A diferença gritante é a questão do movimento. Amanhecer em Fortaleza, olhar para a janela e o movimento da nossa cidade é outro. Pode ser um movimento acelerado, mas não vejo como algo ruim. Vejo uma coisa viva, um vício, uma energia - que a nossa cidade tem. Eu não encontrei isso em nenhum outro lugar que eu fui. Já Sobral oferece uma calmaria, tem o seu movimento e suas vivências próprias. Não sei se a minha sensação de amor por Fortaleza é pelo movimento ou pela intimidade com esse movimento, com esse dia a dia, com esse amanhecer”. Larissa Andrade, 25 anos, estudante de Psicologia

“Antes, estudava Pedagogia em Fortaleza e eram 50 minutos para chegar na faculdade. Aqui demoro cinco. Não tem a loucura de Fortaleza, almoço todos os dias em casa, o custo de vida é baixo. Na minha turma, apenas quatro pessoas são naturais da cidade. As outras vieram do Ceará ou do Piauí. Atraídos pelo baixo custo de vida. Mesmo para quem precisa pagar aluguel, energia elétrica e telefone, ainda é mais barato do que custear uma faculdade particular em Fortaleza. Na regra, o plano geral, é que eu consiga transferência para Fortaleza, para ficar perto dos meus pais”. Lia Mapurunga, 22 anos, estudante de Psicologia

 

“Estar agora no Cariri me dá saudades de minha família, de meu sobrinho Gabriel, dos amigos, claro. Mas não posso deixar de dizer que minha grande saudade é do mar! Puxa vida! É uma das primeiras coisas que faço: ir à praia. Vou e tomo banho de roupa e tudo! Preciso dessa conexão. Família e amigos e a gente pode ir falando por telefone, internet... mas não acesso o mar no mundo virtual. Também sinto falta de algumas comodidades de Fortaleza, como a vasta opção de lugares para sair, restaurantes, barzinhos... Mas nada se compara com minha saudade do oceano atlântico”. Luana Lanzana, 32 anos, estudante de Educação Física.

Saudades do além-mar

Mais de 2 mil estudantes africanos têm registro de residência no Ceará e estão distribuídos por Fortaleza, Redenção, Sobral e Barbalha. No estado que os acolheu, precisam aprender a conviver com a distância e o racismo

Por Jáder Santana

“Eu deixei de contar quantas vezes fui discriminado aqui. Já passava das 60”. É o que responde o moçambicano Ercilio Langa quando perguntando sobre como o Ceará o recebeu seis anos atrás, quando veio de Maputo a Fortaleza fazer um mestrado em sociologia na Universidade Federal do Ceará (UFC). A maior saudade é a de quando podia andar pelas ruas sem se sentir observado, de quando não temia ser temido.

“É uma coisa muito corriqueira e é bastante difícil. Causa danos psicológicos e em tua saúde mental e física, em teu relacionamento com a população”, avalia. Casado com uma cearense desde 2014 e atualmente cursando doutorado na UFC, Ercilio conta que, apesar de estar em uma cidade mais desenvolvida que a sua e com um sistema de transporte público que julga “luxuoso”, precisou aprender a conviver com uma negação da cultura negra: “É um estado que se nega a aceitar suas influências africanas”.

O angolano Abiude Wica, residente em Fortaleza há dois anos, também guarda histórias de preconceito, mas as associa ao medo que nasce de uma impressão exagerada sobre violência urbana. “Fortaleza é boa, mas existem muitos comentários sobre violência e as pessoas andam traumatizadas. Elas estão nas ruas, assustadas, muitas vezes pela nossa cor, e pensam que você vai chegar nelas e fazer alguma coisa”, explica. Sua avaliação particular é a de que vive em uma cidade tranquila povoada por amedrontados.

Abiude já voltou algumas vezes ao seu país natal desde que chegou ao Brasil, em 2014, para cursar Ciências Sociais na UFC. Está em contato constante com amigos e família pelas redes sociais, mas não há conexão digital que substitua a pele: “Falta o contato físico, e é isso que me atrai”. Bolsista de uma instituição angolana que financia estudantes no exterior, está há alguns meses sem receber subsídios e precisa da ajuda dos pais para se manter, já que seu visto estudantil não permite que se dedique a atividades remuneradas. “Eu não estou sofrendo, mas que a situação está difícil, está”.

Ercilio não voltou ao Moçambique uma vez sequer desde que chegou ao Brasil. Tem vontade de cruzar o atlântico com a esposa cearense e apresentá-la a sua família e aos sobrinhos que nem ele chegou a conhecer. O preço das passagens, de em média R$ 6 mil, é um problema. “Além do dinheiro, também temos um problema político militar, com conflitos armados por todo o País”, explica. Enquanto esse dia não chega, encontra diversão nos bares do Benfica e na programação do Dragão do Mar.

Nascido na República Democrática do Congo e residindo em Fortaleza há cinco anos, Bertrand Wadi é estudante de Engenharia de Telecomunicações no Instituto Federal do Ceará (IFCE). Antes de chegar à capital, morou em Barbalha e Tauá. Por aqui, aprendeu a gostar dos sabores da tapioca e do cuscuz, que não existem em seu país natal. Mata a saudade de casa acompanhando os noticiários congoleses, ouvindo música local e conversando com amigos pela internet.

“Faz cinco anos que estou aqui e nunca voltei ao meu país. Meus familiares também não vieram me visitar aqui”, conta Bertrand. A saudade aperta sobretudo nas datas que marcam efemérides do Congo, como no Dia da Independência (30 de junho) e no Dia da África (25 de maio), e quando assiste a alguma missa festiva. “O pior é não participar diretamente das alegrias e tristezas da sua família. Já me senti muito impotente diante de certas realidades. Longe casa, você sempre será estrangeiro”, explica, garantindo que seu maior objetivo é voltar pra casa depois de formado.

Um cordão para cortar

Mesmo perdurando por apenas algumas horas, a separação entre mães e filhos dói em quem é acostumada ao contato diário integral. Outroscordões umbilicais precisam ser cortados quando as mães iniciam ou retomam o ensino superior

Por Isabel Costa

Foto: Camila de Almeida/O POVO
 

No momento do parto há um cordão físico para cortar. Outros laços, entretanto, permanecem ligando mães e filhos. São pactos tão característicos da relação maternal que se torna difícil descrever. Afinal, há sentimentos que não podem ser definidos. Apenas vivenciados. Mas, na esteira da vida, nem sempre é possível manter por perto os seres amados. Na rotina de jovens mães, existe mais uma obrigação que as separa dos filhos: a universidade. Mesmo por poucas horas, o distanciamento machuca quem é acostumada a ter a criança em todos os momentos do dia. E cordões adicionais necessitam ser rompidos.

A publicitária Patrícia Ribeiro sentia falta, sobretudo, de ficar junto da filha na hora do sono. Anja Sophie, hoje com quatro anos, tinha como hábito dormir agarrada ao colo da mãe. “Era o nosso momento juntas”, conta Patrícia. Mas a presença física precisou ser interrompida por algumas horas do dia. Quando a menina tinha 1,5 ano, a mãe a matriculou numa creche e retomou a graduação. Era o necessário paraconcluir o curso. “Eu deixava de manhã, ia para a faculdade e depois estágio, saia 17 horas para buscá-la”.
 
“Quando a Anja foi para a creche, perdeu alguns hábitos. Lá haviam regras e ela ficou independente.  Antes, eu dava a comida, banho, ninava. Na creche, trabalham para a criança ser independente. Contribuindo com socialização e desenvolvimento. Acho que sofri mais na adaptação do que ela”, pontua Patrícia. Com o curso terminado, a publicitária partiu para a especialização em Marketing. As noites de sexta-feira e o sábado são dedicados as aulas. “Não tem mais a creche. Ela vai para a escolinha e eu cuido dela na semana. Trabalho na minha área e nós conseguimos ficar juntas. Mas nas aulas da pós houve umchoque, pois há um ritmo de proximidade da semana que é quebrado”, explica.
 
Segundo Neide Veras, chefe do Departamento de Fundamentos da Educação da UFC, com a virada no mercado de trabalho – ocorrida entre 1960 e 1980 – as mulheres passaram a ingressar com força nas empresas e nas universidades. “É uma quebra de cordão umbilical. Precisa existir confiança nas pessoas que vão cuidar dos filhos. E fica a ausência do contato físico, a chamada ausência da presença”. A redução histórica no número de filhos dificultou o processo de “quebra do cordão”. Antes as mães costumavam ter até 12 crianças para cuidar. Mas, desde a década de 1990, a média é de duas ou três – aponta.
 
Rotina

Por quase uma década, a professora Carla Patrícia Souza manteve uma rotina de estudos. Concluiu curso técnico em Telecomunicações e graduação em Matemática, ambos no Instituto Federal do Ceará (IFCE). A dedicação, entretanto, veio com o preço de ficar longe do filho por horas. Quando começou a estagiar, permanecia os três turnos fora de casa. “Toda noite ele estava no sofá ou esperando na calçada. Ansioso para brincar e contar como tinha sido o dia”. Carla descreve a “aflição” de perder momentos da rotina e do desenvolvimento. “Sentia uma culpa por estar ausente ou cansada demais”.
 
Carla engravidou na adolescência. Viu muitas colegas entrando no nível superior e quis, entre outros sonhos, ter uma profissão. “Tentei trabalhar, mas não tinha experiência. Acompanhei o crescimento dele, integralmente, até os quatro anos – quando ele começou a estudar na escola e voltou minha esperança de recomeçar os estudos”, explica. Ela acordava cedo, arrumava a casa, deixava o garoto na escola e seguiapara o IFCE. “Chegando atrasada para as aulas. E sempre saía cedopara pegá-lo. No início, os professores pensavam que era corpo mole, mas, aos poucos, todos começaram a fazer parte da minha história. Nosso amor superou tudo. E hoje sei que os momentos ruins existiram, mas os momentos bons superaram e ficaram nas nossas memórias”. 

Foto: Camila de Almeida/O POVO

Entenda a série

                                                  Universidade e Saudade
O POVO conta histórias de saudades inerentes ao ensino superior. Falamos sobre fortalezenses que deixam o agito da Capital paratentar o sonho da graduação em cidades interioranas. Depois, mostramos narrativas de jovens africanos que chegam ao Ceará paraestudar e alimentam as saudades de além-mar. Por último, discutimos histórias de mães universitárias que precisam conviver com a saudade dos filhos.