De Michael Jackson à cena punk: conheça a trajetória de Jonnata Doll

A série Safra 2017 - Música CE traz histórias de bandas e artistas cearenses que lançaram discos no último mês de janeiro

Por Lucas Mota
Jonnata Doll, líder dos Garotos Solventes (Foto: Mateus Dantas/O POVO)

O ano de 2017 chega de forma promissora para os protopunks Jonnata Doll e Os Garotos Solventes. Criado em 2010, o grupo deve circular pelo Brasil apresentando o novo álbum e segundo disco dos cearenses, "Crocodilo", lançado em novembro passado. O primeiro compromisso da série de shows de lançamento do atual trabalho foi em Fortaleza, cidade-natal da banda, na última sexta-feira, 6.

Jonnata dos Santos Araújo, conhecido como Jonnata Doll, subiu ao palco do anfiteatro do Dragão do Mar e comandou os Solventes na apresentação ao público das 12 faixas do vibrante disco "Crocodilo". Antes de se entregar em mais um show performático, ele conversou com O POVO Online em entrevista para a série Safra 2017 - Música CE - que traz histórias de bandas e artistas cearenses que estão lançando discos no mês de janeiro -, e demonstrou certa ansiedade para saber como os fãs reagiriam ao novo álbum.

"Vamos ver hoje", disse em voz mansa e sorriso no rosto delineado por um bigode a lá Freddie Mercury.

Horas depois, assumindo os vocais dos Solventes, entregou uma apresentação forte e marcante. O público não se segurou nas cadeiras do anfiteatro e pulou e cantou junto do palco. Para fechar o show, Jonnata tocou aquela que é considerada o hino da banda, "Cheira Cola", transformando o local em um caldeirão punk, se despedindo do palco com direito a nudes.

No bate papo pré-show, Jonnata relembrou a infância, o início na música, as inspirações, a relação de experiência com as drogas, o encontro com o Legião Urbana, a nova fase dos Solventes, entre outras curiosidades da trajetória.


Infância e inspirações

Cria de família evangélica, Jonnata dos Santos Araújo cresceu num ambiente dominado por mulheres, na casa dos avós maternos, onde viviam a mãe dele, Miriam, mais três tias, a avó e o avô. A rotina no bairro Álvaro Weyne, à época, era preenchida em três espaços: casa, igreja e escola.

Ao mesmo tempo que eu tinha uma família afetuosa, havia uma situação sufocante. Eu deslumbrava o mundo que queria participar na TV

Jonnata Doll

Na escola, a hora do recreio era o momento de liberdade na vida do garoto. Na vida colegial, Jonnata buscava chamar a atenção com ações escatológicas diante dos colegas, "esquisitice", como ele mesmo define, que teve espaço ao descobrir o rock.

E o despertar para a música veio com o interesse pela cultura pop, a partir de filmes como Superman e Star Wars. "Ao mesmo tempo que eu tinha uma família afetuosa, havia uma situação sufocante. Eu deslumbrava o mundo que queria participar na TV, nas mídias da cultura pop, e não poderia estar lá por causa da família", comenta. "Superman explodiu minha cabeça. O Superman era como se fosse Jesus, mas mais legal, sem a parte do inferno. E mais cool", completa.


Doll comanda os Solventes desde 2010 (Foto: Mateus Dantas/O POVO)

A trilha sonora desses filmes era a parte que mais fisgava a atenção do menino Jonnata. Na escola ganhou o apelido de "Jonnata Tantantan" porque cantarolava as músicas tema de clássicos do cinema, como a marcha imperial de Star Wars. "O que me viciava era a trilha sonora. Cantarolava direto nas aulas, e a galera ficava puta. Depois comecei a gostar muito de videogame".

O interesse pelos games marcou a primeira inspiração musical do vocalista dos Solventes. Frequentador da locadora do "Senhor Walber", figura do Álvaro Weyne que mais tarde virou canção da banda punk, Jonnata se encantou com o jogo "Moonwalker" da plataforma Megadrive. "Eu acho que o cartucho havia acabado de chegar. Comecei a jogar o jogo e pirei no Michael Jackson. Passei a imitar o Michael Jackson e a dançar, meio tosco, mas dançava. E isso que me trouxe para a música. Dançava na sala de aula. A primeira menina que me apaixonei pedia para eu dançar".



Até os 13 anos, Michael Jackson foi a principal referência de Doll. Na fase adolescente, ele descobriu o rock e decidiu que era por esse caminho que seguiria. Três bandas o inspiraram: Pink Floyd, Queen e Legião Urbana, na qual participou da turnê de 30 anos do grupo brasiliense. Do âmbito familiar, Jonnata também tirou inspirações da mãe, da tia Zu e do tio Sam, que escutavam rock em casa.

Comecei a ter relação de experimentar diversas drogas. Lia muito sobre as drogas, gostava de fazer sessões com alguma substância e gravava, tocava sob efeito para ver como era

Jonnata Doll

Depois de descobrir o rock e entrar em contato com ideias Darwinistas, o adolescente resolveu se rebelar e parar de ir à igreja. Juntou-se aos amigos Caetano e Peter, amigos do Álvaro Weyne, trio que mais tarde fundaria a banda Kohbaia (1997 a 2009), e passou a "tocar o terror" na região.

"Antes de ter a banda (Kohbaia), não sabia tocar. Nos vestíamos a caráter e saíamos com o microsystem no ombro ouvindo punk pelo Álvaro Weyne. Rodava o bairro, fazia vandalismo, jogava lixo na casa dos outros e apedrejava ônibus. Saíamos para tocar o terror", relembra.


Drogas

No início da vida de roqueiro, Jonnata tinha aversão às drogas. Antes de ter uma relação próxima com os entorpecentes, o líder dos Solventes tinha orgulho de não se envolver com substâncias ilícitas por causa da família. "No início, não usava drogas porque não me interessava. Meu lance era o som. E também minha família era oito ou 80. Ou era evangélico ou era cachaceiro drogado. Então eu tinha resistência, até certo orgulho de não usar drogas e me declarar roqueiro", explica.

O primeiro passo da trajetória de experimentação de drogas veio com o contato com a cola de sapateiro. "Uma vez experimentei ouvindo rock. Quando vi o efeito na realidade, o som, o ego se dissolvendo. Vi que não bastava fechar os olhos e ouvir o som. Isso não era o suficiente para quebrar a barreira. Comecei a ter relação de experimentar diversas drogas. Lia muito sobre as drogas, gostava de fazer sessões com alguma substância e gravava, tocava sob efeito para ver como era", afirma.

O músico acabou descobrindo na morfina o seu "calcanhar de Aquiles". Ele conta que quase todos da antiga banda, Kohbaia, ficaram dependentes de droga. Doll começou a ver os sonhos na música morrerem por conta das drogas. "Não conseguia botar nada em prática por causa da necessidade de dose diária. Muitas vezes estava trabalhando (fora da música) e toda a grana que ganhava torrava na morfina".


Virada com os Garotos Solventes e Crocodilo

Após o fim da Kohbaia, Jonnata Doll criou os Solventes, em 2010. A banda ganhou um tom de ressurgimento na carreira do vocalista, principalmente, na produção do novo álbum. Apesar de Crocodilo ter sido lançado no fim de 2016, quase todas as faixas do disco foram compostas ainda em 2012, quando a banda estava prestes a gravar o primeiro CD.



Naquele ano, o cantor se refugiou no sítio do avô Bibiu por cerca de três meses, descobriu um novo amor, se afastou da morfina e ganhou inspiração para escrever as letras de "Crocodilo". "Encontrei uma menina pela qual me apaixonei, a Carmen, uma espanhola, morando no sítio (do avô) no Iguape. Daí veio grande parte das músicas de Crocodilo, para Carmen, do renascimento da morfina que tive uma volta ao corpo não drogado, digamos. Tem também músicas antigas que sempre quis gravar, como Cheira Cola".

Cresci ouvindo as guitarras do Dado no Legião. Tocar com o Dado foi uma realização muito grande. Como músico, acompanhar a turnê do Legião, vi o que é estar no topo do rock no Brasil

Jonnata Doll
Encontro com Dado Villa-Lobos e o Legião

Uma das figuras determinantes na carreira de Jonnata é o músico Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, que o levou pela primeira vez para São Paulo e ascendeu a chama no Garoto Solvente. Foi através dele também que Doll conheceu Dado Villa-Lobos, que o convidou para participar da turnê de 30 anos do Legião Urbana.

"Cresci ouvindo as guitarras do Dado no Legião. Tocar com o Dado foi uma realização muito grande. Como músico, acompanhar a turnê do Legião, vi o que é estar no topo do rock no Brasil. Uma coisa que talvez eu nunca alcance com o meu trabalho, mas pude viver isso com o Legião. Aprendi muito. E ele me fez expandir o público dos Solventes", conta. A participação no Legião rendeu críticas positivas na imprensa especializada e encantou os fãs da clássica banda do rock brasileiro. Um fã clube de São Paulo do Legião chegou a comprar uma geladeira para ajudar os Solventes, que estão morando na Capital paulista.



O encontro com Dado ocorreu em um almoço "exótico" na casa do amigo Catatau, que rendeu uma situação inusitada. "O Catatau fez um prato exótico das Arábias: frango com manga. O Dado tinha um trauma. Quando pivete, ele comeu muita manga e teve intoxicação. Quando ele viu o Catatau fazendo o prato, por etiqueta, resolveu comer e gostou. Mas depois confessou. E o Catatau aproveitou e confessou que meses antes foi para o aniversário da Fernanda (esposa do Dado), que serviu um prato com camarão. O Catatau achava que tinha alergia ao camarão, mas comeu também e não passou mal".

Após o almoço exótico, Jonnata passou a tarde ouvindo música com Dado e apresentou a música "Namorada Fantasma" no violão. O guitarrista do Legião gostou e, desde então, os dois já emplacaram algumas parcerias. No disco Crocodilo, Villa-Lobos coloca seu som em "Swing de Fogo" e "Quem é que precisa?".

Dez anos do samba rock cearense da Groovytown

Por Lucas Mota
Banda Groovytown (Foto: Tatiana Fortes/O POVO)

Para coroar dez anos de samba rock e musicalidade, os garotos da Groovytown lançaram o primeiro álbum autoral, "Santo Remédio". Mesclando músicas que marcaram a trajetória do grupo com inéditas, o novo trabalho da banda seguiu apostando na batida swingada e mistura de estilos. O lançamento exclusivo aconteceu no dia 14 de janeiro, no Anfiteatro do Dragão do Mar.

O processo de criação do disco é fruto da caminhada iniciada pelo grupo em 2007, segundo o vocalista Caio Batista, 24 anos, o quinto a assumir os vocais da banda. O produto final, de certa forma, é a somatória do trabalho de todos que já passaram pela Groovytown.

O disco começou a ser gravado em fevereiro de 2012, logo após o Carnaval daquele ano, mas foi finalizado apenas em 2015. O grupo segurou o trabalho e resolveu lançar na comemoração dos dez anos da banda. Em dez faixas, o samba rock dos cearenses passa por músicas já conhecidas do grupo, como "Mistura Popular", "Menina", "Minha Preta" e "Samba de Brasileiro", que lançou a Groovytown nacionalmente ao vencer um concurso no “Domingão do Faustão"

As novidades ficam por conta de Aluá, que tem participação de Margareth Menezes, Deixa Pra Lá e Malandro e Coisa e Tal. A música Menina, que já era tocada nos shows, ganha participação de Junior Meirelles no CD. Mistura Popular, primeira do álbum, se destaca na mescla do baião com o samba rock.



O disco estará disponível nas principais plataformas digitais, como Spotify, Itunes e Deezer. O show de lançamento no Dragão trará ao palco ex-membros e parceiros do grupo, como os vocalistas Andersoul, Diego Planária, o multi-instrumentista Cláudio Mendes, o guitarrista Cainã Cavalcante (Guitarrista), o cantor Junior Meirelles e o percussionista e cantor Felipe de Paula.

A Groovytown é mais uma banda cearense que começa 2017 movimentando a cena musical local. O grupo dá sequência à série do O POVO Online, Safra 2017 – Música CE, que traz histórias de artistas do Estado que estão lançando novos discos no mês de janeiro.


Início da Groovy

Fã de Jorge Ben, Seu Jorge, Tim Maia, entre outros, o baterista Adriano Azevedo reuniu os amigos no meio musical para levantar o projeto de fazer um som swingado com misturas de samba, soul music, samba rock e música nordestina. Montado o time, era hora de batizar a turma. O batera explica que juntou o "groovy", expressão da Inglaterra que significa diversão, com "town" que saiu da referência da gravadora Motown, conhecida por seus artistas negros norte-americanos.

A gente está voltando agora com gosto de gás. Está todo mundo bem estruturado psicologicamente

Adriano Azevedo (baterista)

A canção dos cearenses "Mistura Popular" resume bem o espírito da turma da Groovy: "Não aguentei essa monotonia popular/Pra balançar o esqueleto tive que inventar/Botei um samba rock e um xote pra dançar", diz trecho da melodia. "Chamei todos meus amigos para fazer esse projeto samba rock. Estávamos cansados da monotonia da época, as mesmas coisas da Cidade. Fizemos um lance com vontade, gostávamos de tocar e de colocar composições de artistas cearenses na mídia", conta Adriano.

Depois de ganhar repercussão nacional com a participação no Faustão, a banda tocou em vários festivais e projetos ligados à música independente pelo país, dividindo o palco com grandes nomes da música brasileira e internacional como: Jota Quest, Jorge Benjor, Lulu Santos , Seu Jorge, Maria Rita, O Rappa, Paralamas do Sucesso, Titãs, Orishas, Biquini Cavadão, Vanessa da Mata, Charlie Brown Jr, Chico César, Monobloco, dentre outros. E, claro, os encontros resultaram em histórias curiosas.

Após abrir um show do Lulu Santos em Camocim, interior do Ceará, os músicos foram surpreendidos pelo carioca. "O Lulu, a gente achava ele todo estrela. Fizemos o show e ficamos no camarim. De repente, o Lulu saiu (do camarim dele) e ficou olhando de longe pra gente. Veio falar e perguntou por que Groovytown? Olhei pra ele e disse: 'cara, não sei', e rimos. Ele nos elogiou e deu conselhos. 'Pô, a banda é massa, poderia ter um nome mais brasileiro, mas já que está dando certo, deixa esse mesmo", conta. O baterista também lembra de referências para o som da Groovytown curtindo o show da banda. "O Seu Jorge e Jorge Ben sempre foram muito receptivos. De repente, nos shows, estavam à beira do palco".



Já os mineiros do Jota Quest possuem uma relação de proximidade com o grupo cearense. Rogério Flausino e banda são padrinhos musicais da Groovy e ajudaram a divulgar o samba rock do Ceará. "A gente conheceu eles após o nosso primeiro show, em Viçosa. Ensaiamos muito e fizemos um show muito legal. Quando terminamos de tocar, me avisaram que o Flausino estava chamando a gente. E eu: 'quem é Flausino?'. 'É o vocalista do Jota Quest', me alertaram. Quando chegou lá, os caras estavam de braços abertos, nos elogiaram, chamaram para tomar um vinho. Viramos amigos dos caras", relembra Adriano.

Com o novo disco, o fundador da banda aposta no retorno da Groovytown no cenário musical. "A gente está voltando agora com gosto de gás. Está todo mundo bem estruturado psicologicamente, e vamos trabalhar", brinca.


Vocalista da Groovytown era roqueiro
Caio Batista, atual vocalista da banda (Foto: Tatiana Fortes/O POVO)

O jovem Caio Batista surgiu no caminho da Groovytown em 2011 para preencher a vaga deixada por Andersoul, ex-vocal do grupo. Com 18 anos na época, a oportunidade apareceu para ele, que curiosamente era distante do universo do samba. Antes de assumir os vocais da Groovy, Caiô, como é conhecido, curtia rock e chegou a ter banda cover do Nirvana.

Tinha a viagem de ser roqueiro, de não poder gostar de samba

Caio Batista (Vocalista)

A aproximação da Groovytown ocorreu quando Caiô procurava se distanciar da música para se dedicar ao teatro. O vocalista conheceu o músico Felipe de Paula, compositor de várias músicas da Groovy, no curso Princípios Básicos de Teatro, do Theatro José de Alencar (TJA). Foi Felipe quem fez a ponte de Caio com a banda de samba rock, que naquela altura estava sem vocalista.

"Tinha a viagem de ser roqueiro, de não poder gostar de samba. E lá (na Groovytown) é a galera do samba, e eu era roqueiro. Entrei na banda e fui testando, fizemos vários shows até que se tornou natural estar na Groovytown. Entrei com o bonde andando", relembra. "Hoje tenho consciência da Groovytown, enquanto integrante, enquanto pessoa. Me sinto em casa tocando na banda", completa.

Sem músicos na família, o jovem se enveredou para esse lado por interesse próprio. Criado na casa dos avós, ele conta que foi na vitrola da matriarca, com um vinil do Roberto Carlos, que o teve o primeiro despertar para a música. "O primeiro momento de interesse pela música foi no final dos anos 90. Minha vó tinha um disco do Roberto Carlos, e eu fazia scratch com ele. Deixava todo arranhado. Tentava imitar o som que meu tio escutava do hip-hop", conta.

No violão do tio, o músico aprendeu a tocar de forma autodidata assistindo a clipes em programas da TV. Além de bandas covers, o vocalista da Groovytown chegou a criar um grupo autoral de pop-punk, mas durou apenas um show.

Foi no samba rock da Groovy que o cearense encontrou o seu espaço na música. Já são seis anos à frente da banda, completados no último dia 8 de janeiro. “Espero que esse ano a gente toque bastante. É um momento especial pra mim (show de lançamento), pra gente (da banda). Sou o quinto vocalista da banda nestes dez anos, já passaram várias pessoas. Estamos reunindo esse pessoal, de diversas formações para colocar no palco, num grande encontro”.

Com DNA musical, cearense Laya lança primeiro disco solo em Fortaleza

Cantora Laya (Foto: Tatiana Fortes/O POVO)

A música está no DNA da francesa-cearense Laya Borges Lopes, 33 anos. Filha da dupla André López e Cristina Francescutti, que dividiu o palco nos anos 80, ela cresceu num ambiente de musicalidade e de agenda de shows pelo Brasil afora. Virou mulher de voz pulsante para embalar ritmos brasileiríssimos. Deixou o Ceará para voos maiores na carreira, em São Paulo, onde mora desde 2007. Dez anos depois, retornou a Fortaleza com o primeiro disco solo. Lançou o álbum em show no Anfiteatro do Dragão do Mar, no dia 15 de janeiro.

Laya exibe todo seu talento passeando com segurança pelas 14 faixas do disco, numa viagem por batidas de rock, MPB e raízes nordestinas. O álbum também dá força ao lado compositora da cantora, com três canções de sua autoria e cinco em parceria com outros músicos, destaque para as duas faixas que abrem o álbum: "Mais brilhantes" e "A luz que corta". Como intérprete, ela impõe vibração em "Hotel das Estrelas" (ards Macalé/Duda Machado), na dançante "Alheia" (Igor Caracas/Maria Ó) e "Diosa Pájaro", da parceria entre Mauricio Tagliari e Ava Rocha, que escreveu a música especialmente para a cearense.

O disco solo já estava na cabeça. Fazia muito tempo que estava com vontade de fazer

Laya

A veia nordestina está presente no disco em canções como "Bela do Cariri" e "Visão". Nesta última, a cearense é acompanhada apenas pelo som do acordeon. "Queria falar no meu disco do sertão, é algo muito forte em mim. Cresci no Ceará, sou uma menina cabocla do sertão. A música fala de chegar no sertão, de estar voltando, dessa coisa emocionante. E o sertão tem isso, dessa coisa bonita que emociona", diz.

A carreira solo de Laya começou a ganhar força com o encontro dela com o seu produtor atual, Mauricio Tagliari. Curador do show em homenagem a Caetano Veloso, em São Paulo, o músico convidou a cearense para participar do projeto, em 2015.



"O disco solo já estava na cabeça. Fazia muito tempo que estava com vontade de fazer. E se concretizou com o aparecimento da oportunidade que foi o encontro com o meu produtor Mauricio Tagliari. Ele gostou do meu trabalho e me chamou para gravar o disco. Começamos a trabalhar juntos e super fluiu", conta Laya.

Para a criação do álbum, um time de músicos foi formado. O disco ganha diversas formações ao longo das 14 faixas do CD. As parcerias foram fundamentais dentro do processo criativo do disco.

"Eu e meu produtor buscamos fazer coisas simples. Fomos muito pelo caminho da simplicidade e de chamar bons músicos criadores. E foi tudo muito espontâneo. A gente trazia uma canção e íamos construindo. Tem uma música do Rômulo Fróes e do Clima. Mandaram com voz e violão, meio triste. E eu propus fazer um funk carioca. Depois ela já virou outra coisa, uma música bem macumbaço. Cada música teve uma história no disco".


Laya também canta na banda O Jardim das Horas (Foto: Tatiana Fortes/O POVO)

Trajetória

Laya é a filha mais velha dos quatro filhos do casal de músicos, o cearense André López e a gaúcha Cristina Frascecutti. Foi a única dos irmãos a seguir profissionalmente pela arte da música. Nasceu em Estrasburgo, na França, onde ficou até o primeiro ano de vida. Os pais retornaram ao Brasil, para o Rio de Janeiro e, em seguida, foram morar em Fortaleza. Na Capital cearense, a cantora morou até os 23 anos, quando seguiu para São Paulo.

Com uma dupla de artistas em plena atividade dentro de casa, Laya foi criada nos palcos e viu de perto o que é ser músico. "Dormia debaixo dos palcos. Minha mãe levava a gente para todo canto. Eles tocavam juntos (pais), e a gente viajava muito. Minha mãe armava uma rede debaixo do palco. Eu subia no palco quando criança. Todo mundo é artista em casa, não tinha para onde fugir", conta.

Apesar da proximidade com a música, virar cantora foi parte de um processo com passagens por seguimentos da arte. Ainda criança, começou a fazer teatro. Depois pulou para a dança. Iniciou no balé com a bailarina e coreógrafa cearense Silvia Moura. Ingressou na Companhia Avatar e passou a viajar pelo Brasil para se apresentar. Lá conheceu Davi Brasileiro e Leco Jucá, que faziam a trilha ao vivo nas apresentações da Cia.



Naquela altura, Laya, além da bagagem musical de casa, já havia realizado alguns projetos na música. Do encontro com Leco e Davi nasceu a banda O Quarto das Cinzas que, posteriormente, se tornaria O Jardim das Horas.

"Na companhia, conheci o Davi e o Leco, que já tocavam e tinham um projeto de música eletrônica. A gente marcou de se encontrar para fazer um som e foi o Carlos (Eduardo Gadelha) também, que já tocava com eles. Daí começou O Quarto das Cinzas, em 2003", narra. O grupo passou a se chamar O Jardim das Horas quando lançou o primeiro disco, em 2009. A banda deu um tempo para projetos paralelos dos músicos, como o caso de Laya, que foca atualmente na carreira solo. A formação atual é Laya, Carlos Eduardo Gadelha, Raphael Haluli, Vitor Colares e Victor Bluhm.

Laya é a terceira entrevistada para a série Safra 2017 - Música CE, do O POVO Online, que traz que traz histórias de bandas e artistas cearenses que estão lançando discos no mês de janeiro. Jonnata Doll e o grupo Groovytown também foram entrevistados.


Do surfe ao Lollapalooza: Daniel Groove e a força da música cearense

Daniel Groove, cantor e compositor cearense (Foto: Mateus Dantas/O POVO)

Prestes a completar 20 anos de carreira, Daniel Saraiva Costa, 41 anos, mais conhecido sob a alcunha de Groove, vive uma fase de sucesso na música popular brasileira, carregando na bagagem dois álbuns solos elogiados pela crítica, com indicações e prêmios, e um convite para tocar no Lollapalooza 2017, em março. Transitando pelo brega, rock e pela MPB, o cearense, radicado em São Paulo, retornou a Fortaleza para o show de lançamento de "Romance Pra Depois" em disco físico e nas plataformas digitais, que ocorreu no Anfiteatro do Dragão do Mar, no dia 22 de janeiro.

E a volta de Groove à Cidade natal vai além do show de lançamento do disco "Romance Pra Depois". Após dez anos morando em São Paulo, onde ganhou visibilidade na música, fortaleceu parcerias e gravou os dois álbuns solos, o compositor de "Novo Brega" tem planos de estender a passagem pela Capital cearense para ficar mais próximo da filha e movimentar a cena local.

Quem curte o som do barbudo o terá por perto, em Fortaleza, pelo menos até março, quando tem compromisso com o Lollapalooza, em São Paulo. Até lá, a ideia do cantor é emplacar novos projetos na terrinha, como o bloco de Carnaval "Iracema Bode Beach", no qual comandará os vocais de ritmos carnavalescos ao lado de Nayra Costa. E não para por aí. Ele comanda toda sexta, no Café Couture (Praia de Iracema), o Antena Groove, um encontro musical, trazendo músicos cearenses para um bate papo e fazer um som.

Dividido entre São Paulo e Fortaleza, Daniel só quer aproveitar o momento em terras Alencarinas. "Estou sentindo a necessidade de voltar. Está rolando uma coisa muito bacana em Fortaleza que a minha geração que foi para São Paulo também tem contribuição e reflete aqui. No outro lado da moeda, tem uma nova geração de músicos muito instigante. Acho importante fortalecer isso", comenta. "Vivo uma dicotomia de pensamentos, porque amo minha terra e aprendi a amar São Paulo. Quando estou lá, sinto saudade daqui e vice-versa. Entreguei o imóvel lá, ainda não aluguei aqui. Quando vou lá o selo paga um hotel, quando venho, fico na casa de amigos ou dos pais. Ainda não decidi", completa.

Daniel Groove é mais um entrevistado da série Safra 2017 - Música CE, que traz histórias de bandas e artistas cearenses que estão realizando shows de lançamentode disco no mês de janeiro. O artista bateu um papo descontraído com O POVO Online sobre o início de sua trajetória, que tem relação com a prática de surfe, o show em Fortaleza, o álbum "Romance Pra Depois", o convite do Lolla, entre outras novidades e curiosidades da carreira.



Lollapalooza para coroar

Os primeiros contatos com a música ocorreram em meados de 90. De lá pra cá, teve duas bandas, "Groove" (1998-2002), da qual herdou o nome artístico, e "O Sonso" (2004-2010), até seguir carreira solo, que resultou nos discos "Giramundo" (2013) e "Romance Pra Depois" (2015). Com trajetória reconhecida pela crítica, Daniel se tornou um dos compositores e intérpretes mais irreverentes da sua geração. O ano de 2017 vai coroar a caminhada na música com show no Lollapalooza, um dos maiores festivais de rock do mundo.

Quando eu era 'pivete', começando a tocar nas bandas de garagem de Fortaleza, nos anos 90, via os festivais pela TV. No íntimo, sonhava em tocar num festival desses

Daniel Groove

As indicações, os prêmios, as críticas positivas e o convite do Lolla são motivos de felicidade nestes quase 20 anos de carreira, que serão completados em 2018. Entretanto, o cearense tenta encarar os resultados dos trabalhos com naturalidade e humildade para não cair em deslumbramento. "O Lollapalooza, as indicações, os prêmios que estamos ganhando são reflexo de trabalho feito com seriedade e dedicação. Mas eu falo para os meninos da banda: 'é mais um dia de trabalho'. Vivo muito o momento da criação, esse é meu barato, fazer o disco. O reflexo disso tudo, eu nem me empolgo muito. Quando você está ansioso pode acabar se frustrando. Quero estar sempre chegando, e o Lollapalooza é um passo desse sempre chegando", explica.

Daniel conta que a produção do festival procurou o produtor do cearense, Paulo André, pedindo indicações. "Eles ouviram e gostaram bastante da gente. Nos procuraram, disseram que tinham interesse de ter a gente no Lollapalooza neste ano. Foi algo muito feliz e gratificante", diz Groove, que relembra os tempos de criança e o sonho distante de tocar em um grande festival.

"Quando eu era 'pivete', começando a tocar nas bandas de garagem de Fortaleza, nos anos 90, via os festivais pela TV. No íntimo, sonhava em tocar num festival desses, mas nem no maior dos sonhos achava que isso iria se concretizar", completa.


Daniel tocará no Lollapalooza em março deste ano (Foto: Mateus Dantas/O POVO)

'Romance Pra Depois'

O atual trabalho do cearense veio em um momento de separação de uma relação que durou dez anos. O músico estava no processo de criação de um disco em outra direção até passar pelo momento do fim do relacionamento. "Vamos combinar, o 'Romance' é um disco de fossa mesmo. O Giramundo é mais solar, com um personagem mais otimista. No 'Romance Pra Depois', ele deu com os burros n’água, fracassou em geral mesmo. É um disco muito conceitual da minha vida".

A gente tem público agora, que não tem vergonha de gostar de si mesmo

Daniel Groove

Para o músico, o público tem valorizado cada vez mais o som local. "A gente tem público agora, que não tem vergonha de gostar de si mesmo. Por muito tempo a gente gostou do que Recife fazia, do que Belém fazia, que fazem coisas muito boas mesmo, e a gente quer continuar recebendo a turma do Brasil inteiro. Mas percebemos que a gente faz muito coisa boa também e o público percebeu isso".

"Romance Pra Depois" chega às lojas em março. O disco, que conta com a parceria entre o selo SeteSóis, a editora Sony e distribuição da Tratore, terá tiragem nacional. Segundo Daniel, está nos planos lançar LPs, mas na ordem cronológica dos álbuns do cearense.



Início: surfe, punk e rock

Devido à rotina de trabalhos dos pais, Daniel foi criado na casa das avós, na Aldeota antiga. Depois a família se mudou para a Praia do Futuro. E a criação do músico se resume na conexão praieira da Praia de Iracema e do Futuro, por onde se divertia praticando o surfe e deu os primeiros passos musicais.

"Vivi a juventude na Praia do Futuro, gostava de surfar. Passava o dia na praia. Via vídeos de surfe e sempre tinha aquelas banda que tocavam nos vídeos. Comecei a curtir bandas como o Ramones, me apaixonar também pela coisa do rock. O Ramones é muito importante na minha vida por causa do punk, da ideia de que qualquer um pode tocar. E eu não tocava porra nenhuma, era mais bandalheiro, queria brincar, me divertir", conta.

Daniel completa 20 anos de carreira em 2018 (Foto: Mateus Dantas/O POVO)

Na rotina de surfe no pico da Ponte Metálica, na Praia de Iracema, ele teve contato com outros músicos importantes da cena atual. "Na Ponte Metálica, era todo o dia surfando. Na época, começamos a descobrir o som de outras bandas da geração em que vivíamos, que resultou em vários artistas. O Fernando Catatau tinha a Companhia Blue, o Danilo Guilherme, A Tribo, o Régis Damasceno, o Velúria. Era uma cena seminal, início dos anos 90".

As primeiras apresentações saíram da parceria com o primo Otávio, hoje neurocirurgião. Os dois encontraram um contrabaixo de um tio na casa da avó e tiveram aulas informais com um funcionário da matriarca que tocava forró. "Ele (funcionário) começou a mostrar pra gente e meu primo se interessou. Decidimos montar uma banda. A gente passava o dia inteiro indo em lojas de instrumentos musicais e fazendo orçamento para um dia comprar. Não existia sala de ensaio. Minha mãe era uma santa, aguentava três a quatro bandas ensaiando na casa dela. As bandas eram horríveis", relembra.

Em 1998, Daniel criou a "Groove" e deu início a carreira profissional na música. O grupo chegou a lançar o disco "Tá na mão", em 1999. No começo dos anos 2000, o cearense liderou a banda "O Sonso", parceria que rendeu um disco homônimo em 2010.


Vitor Colares e a guitarra que toca solidão

Vitor Colares (Foto: Éden Barbosa/Divulgação)

O cearense Vitor Colares, 38 anos, precisou passar por um processo de reconstrução para encontrar respostas aos anseios do cotidiano e da carreira artística. E a redescoberta na música está relacionada com o retorno dele a Fortaleza em 2014 - após cinco anos morando em São Paulo -, o amadurecimento como compositor e o foco na carreira solo. O resultado da caminhada é uma viagem minimalista por tons escuros e solitários exposta nas oito faixas do seu segundo álbum, intitulado como "Eu Entendo a Noite como um Oceano que Banha de Sombras o Mundo de Sol", do trecho da música "Beira Mar", de Zé Ramalho, referência musical para o artista.

O novo trabalho está disponível para download gratuito e no Youtube desde o dia 10 de janeiro. Vitor lançou o disco em show no Anfiteatro do Dragão do Mar, no dia 26 de janeiro. Colares é mais um músico cearense entrevistado para a série Safra 2017 - Música CE, do O POVO Online, que traz histórias de bandas e artistas locais que estão realizando apresentações de lançamento de disco no mês de janeiro.

Com 15 anos de carreira, o cearense criado em Messejana foi guitarrista do quinteto instrumental Fóssil e chegou a integrar outras formações, como o grupo Jardim das Horas e a banda do cantor Daniel Groove. A vontade de se dedicar ao trabalho solo levou o músico a um momento de reflexão. As oito canções do novo álbum foram criadas e gravadas em 2014, mas acabaram descartadas, num primeiro momento, porque Vitor não gostou do resultado final. "Acho que não era um disco que estava dizendo como eu estava querendo dizer naquelas músicas", explica.


Apesar de gostar muito de guitarra, descobri que não queria ser só guitarrista, ser instrumentista. Vi que queria me dedicar a isso, de ter meu disco

Vitor Colares

E o processo de reconstrução levou Vitor a encontrar um som minimalista que dialoga com a solidão. Em 2016, ele voltou para os estúdios e gravou as mesmas músicas, mas com os arranjos diferentes. "Passei 2015 inteiro me apresentando sozinho, com guitarra e violão. Esse formato me ajudou a trazer essas músicas para esse lugar como estão no disco. Na primeira versão, tinha bateria e mais ritmos. Agora apenas uma música tem bateria em toda a canção. É um lugar mais delicado, que para achar tem que rolar a desconstrução da banda, de como tocar", resume.

O segundo álbum solo do cearense traz suas experiências e reflexões do momento vivido em São Paulo, de 2009 a 2014, até o retorno a Fortaleza. "Fui para São Paulo com a Fóssil, que está parada. Cheguei lá com vários pensamentos de como ser músico, tentar a carreira em São Paulo. Comecei a tocar com uma galera. Passei a me sentir sem tempo para mim. Gosto de escrever, de transitar por outras áreas. Apesar de gostar muito de guitarra, descobri que não queria ser só guitarrista de tocar com muita gente, ser instrumentista. Vi que queria me dedicar mais a isso, de ter meu disco, de buscar outro objetivo de vida, continuar na música, mas não só instrumentista".



Veia de compositor

O talento de Vitor não se resume apenas a parte instrumental. Ele também se revelou na arte de contar histórias através das músicas. Um dos principis nomes oriundos da cena cearense, Daniel Groove, tem a canção feita em parceria com Colares, "Jardim Suspenso", como destaque do seu segundo álbum solo, "Romance Pra Depois". A melodia integra o novo trabalho do musicista criado em Messejana.


Vitor traz som minimalista em segundo álbum (Foto: Clara Capelo/Divulgação)

Todas as músicas e letras de "Eu Entendo a Noite como um Oceano que Banha de Sombras o Mundo de Sol" são de criação do próprio Vitor, exceto Jardim Suspenso, Vermelho Azulzim e Portentosa, fruto de parcerias com Groove, Juliane Peixoto e Uirá Reis, respectivamente. Na hora de compor, o cearense prefere escrever sobre as próprias vivências.

"Me sinto mais à vontade quando é coisa minha para se dizer. Desde que comecei a compor, minhas composições são voltadas para o lado sentimental. Quero variar um pouco mais, abordar outros temas. Mas falando desse disco, essas letras foram de vários processos dos últimos anos. Vem de lugares diferentes, de conversa com amigos".

O passeio pelo sertão presente no novo álbum de Vitor, "Vermelho Azulzim", surgiu de um papo de internet com a amiga Juliane Peixoto, que rodava um filme no interior da Paraíba. "Ela estava falando sobre uma lua cheia que teve, aquela super lua. Ela estava filmando no interior da Paraíba, e perguntei como tinha sido, se a lua tinha sido bonita mesmo. Na conversa, ela já escreveu metade de Vermelho Azulzim. E eu disse pra ela que aquilo era letra de música. 'Pois faz o resto', ela me falou".



O cotidiano é palco principal das inspirações para as canções de Vitor. De amores saudosos e intensos (como Jardim Suspenso, O Silêncio é o Espaço Entre as Bocas e Portentosa), do sumiço de um gato (Pistoleto) a experiências de um ciclo carnavalesco (Carnaval), ele cria uma atmofesra de ritmos delicados.

Em Solidão, o músico constrói um ambiente escuro sob trechos utilizados do filme "Songs of Avignon", de Jonas Mekas, que narra dúvidas e vazios de um homem de 40 anos. Vitor complementa "O Silêncio é o Espaço Entre as Bocas" com o poema "Separação", de Leonardo Marona, lido numa cena do filme "Doce Amianto", de Uirá dos Reis e Guto Parente.


Trajetória

No sítio que a gente morava também vivia a família do caseiro. Um dos filhos dele que tinha a minha idade tocava baixo em uma banda de forró, comecei a me interessar

Vitor Colares

A música era apenas mais um hobby de Vitor até a adolescência. Sem parentes no meio musical, o guitarrista só se interessou por instrumentos de cordas após o contato com o filho de um caseiro do sítio da família, que era baixista de uma banda de forró. Criado em Messejana, ele também demorou para interagir com a cena alternativa de Fortaleza, que surgia em pontos mais centrais da Cidade.

O primeiro violão veio aos 16 anos. Precisou convencer os pais de que o instrumento era um bom presente. "No sítio que a gente morava também vivia a família do caseiro. Um dos filhos dele que tinha a minha idade tocava baixo em uma banda de forró, comecei a me interessar. Convenci os meus pais a me darem um violão e já fui montando uma banda", comentou.

A primeira banda saiu no início dos anos 90. Na época, fã de grupos como Nirvana e Soundgarden, montou a No faith, seguindo o ritmo punkrock. O passo inicial durou pouco. "Só tocamos duas vezes em casas de amigos em Messejana. A galera bebia vinho e a gente tirava um som", relembra aos risos.

Mas o cearense não desistiu. A segunda banda, Cooling Down (99 a 2002), foi a porta de entrada na cena alternativa de Fortaleza. Também integrou o grupo 2Fuzz, entre 2002 a 2008.

Foi na banda instrumental Fóssil que o trabalho ganhou mais evidência. Integrando o quinteto, Vitor rodou por várias cidades brasileiras com shows. Em dez anos de parceria, entre 2004 a 2014, saíram dois discos: Insônia (2008) e Mocumentário (2012). Com os instrumentistas, ele se mudou para São Paulo em busca de dar sequência a carreira.



Além dos shows e o contato com outros músicos, o período em São Paulo rendeu histórias curiosas. "Eu e o Victor Bluhm (bateria) estávamos morando na sala de uns amigos. Tinha um show marcado do Fóssil. Os nossos amigos saíram para trabalhar e esquecemos de pedir dinheiro para a passagem de metrô para ir ao show. O local era muito distante de onde estávamos. Saímos a pé duas horas antes da apresentação. Levamos o mínimo de equipamento. Fomos bem devagar, parando em restaurantes, pedindo copos d'água. No fim, chegamos e tocamos. Foi bom o show".

Focado na carreira solo, o guitarrista espera circular com o novo trabalho, algo que ele não conseguiu fazer como gostaria no primeiro disco. "Em 'Saboteur' (2012), nunca tinha lançado um disco solo, demorei para fazer show. Tinha a questão da timidez, de como lidar com a banda, de se empoderar do próprio trabalho. E agora estou mais tranquilo, sei melhor os músicos que estão comigo. Estamos numa ideia de família", finaliza.

Soledad: múltiplas linguagens artísticas em um só palco


Arte dos pés à cabeça. Soledad é música. É dança. É teatro. A musicalidade própria que transborda é herança de família. Da mãe Maria ganhou não somente traços do rosto, os cachos, mas bebeu da literatura e da boa música. A avó Olga Gordiano, musicista. O avô, Seu Barbosa, seresteiro. O lar foi escola.

Não à toa, Maria Soledad Brandão, 26 anos, abraçou a música com potência e personalidade nos vocais. O palco, a banda e a melodia formam o cenário pelo qual a artista espera se perpetuar. Com sete anos de carreira, ela lançou o seu primeiro disco solo, sob a tutela do selo EAEO Records, no fim de janeiro, em show no Anfiteatro do Dragão do Mar. O álbum está disponível, de forma gratuita, no Youtube.  

Pra mim, os momentos mais fáceis de lidar com o mundo são quando estou no palco

Soledad

Soledad faz parte da geração atual da cena cearense que tem se destacado nos palcos musicais. Há um ano e meio morando em São Paulo, a cantora retorna à cidade natal para dar um passo importante de uma trajetória dedicada à cultura.

A cearense é mais uma entrevistada da série Safra 2017 - Música CE, do O POVO Online, que traz histórias de bandas e artistas locais que estão realizando shows de lançamento de disco no mês de janeiro.



Primeira apresentação

Interpretando "Punk da periferia", de Gilberto Gil, Soledad fez sua estreia nos palcos, no antigo Fafi Bar, em 2010. Foi por causa do incentivo do namorado na época, o músico Ivan Timbó, que ela acabou tendo as primeiras experiências na área. "Fiquei muito nervosa, foi foda", lembra.  



Pouco tempo depois, veio o primeiro show. "Bossa-Jazz era o nome do show. Estava morrendo de frio na barriga no dia do show. Sempre sinto, não como nada, choro, passo mal. Todo show é assim, mesmo depois de sete anos", conta Soledad. "Tipo, pra mim, os momentos mais fáceis de lidar com o mundo são quando estou no palco. É algo transcendental, me sinto mais confortável", completa.


Arte sempre presente

Antes de se apresentar pela primeira vez como cantora, Soledad teve experiências em outros palcos. A música era encarada apenas como um hobby. "Sempre tive muito amor por música, mas nunca desejei ser cantora na minha vida. Queria ser atriz e professora de história da arte", diz a artista.

A criação de Soledad deu bagagem e proximidade com as artes. "Minha mãe, professora de Literatura, sempre trouxe isso pra gente. Ela sempre colocava que a gente tinha que ler. Tive a sorte de ela ouvir músicas maravilhosas. Minha vó é musicista. Meu avô era tocador de seresta".

Aos seis anos, ela teve contato direto com o teatro. Por insistência, conseguiu um lugar na peça do dramaturgo e diretor teatral Yuri Yamamoto, fundador do Grupo Bagaceira. "Ele montava uma peça no colégio em que eu estudava. Um dia soube por amigos, que iam participar da peça dele, sobre a apresentação. Cheguei nele (Yuri) e implorei por dias e dias, e ele topou. A partir desse momento, virei a atriz das peças dele".  



Do primeiro papel, Soledad não parou mais no caminho das artes. A cearense é produtora cultural e tem formação em teatro e dança. No trajeto profissional, cruzou com o grupo Mira Ira, onde aprofundou seus estudos na cultura popular.

A relação com o teatro musical foi deixando a cearense cada vez mais próxima da música. Após a primeira apresentação como cantora, ela criou o projeto cênico-musical "O Circo dos Beatles", um alavanco para seguir carreira nos vocais.

"Comecei a querer viver disso. Fui me afastando do teatro, cada vez mais fazia trabalho na música, queria me aprofundar. Muita coisa se afirmou quando criei O Circo dos Beatles. Envolvia várias linguagens. Depois desse show, decidi viver disso. Fui montando outros projetos, que deram aparato para eu chegar no meu disco", explica.


Acho que é um disco galeroso porque teve muita gente envolvida, mas ao mesmo tempo solitário. O que está ao redor dele tem bastante solidão

Soledad

Álbum solo

O disco 'Soledad' nasceu de um processo de três anos, passando pela experiência no Laboratório de Música do Porto Iracema das Arte, a ida para São Paulo e o financiamento coletivo por meio do Catarse. O primeiro trabalho da cantora privilegia a criação cearense, principalmente através das composições de artistas locais, como Vitor Colares, Daniel Groove, Uirá dos Reis e Bruno Rafael, presentes no álbum de estreia. Quando se aperta o play, ouve-se uma voz que potencializa solidão por arranjos musicais.

"Acho que é um disco galeroso porque teve muita gente envolvida, mas ao mesmo tempo solitário. O que está ao redor dele tem bastante solidão. Inclusive, quis que o nome do disco fosse o meu nome porque Soledad significa solidão", comenta. "Sempre gostei de ouvir músicas tristes. A solidão, claro que intimamente, é uma questão. Entretanto, eu fui conseguindo transformar isso no meu trabalho, foi algo natural. Música pra mim é expurgação, alivia. As músicas que escolhi para o disco saíram de um processo natural. É um disco sincero", complementa.

O Porto Iracema foi o primeiro passo. Após cinco meses sob a tutoria do produtor musical Gui Amabis, parceria que se estendeu no novo trabalho, Soledad decidiu partir para a produção do disco. Isso em meados de 2014. Sem apoio financeiro para a criação do álbum, a cantora seguiu rumo a São Paulo, em 2015, onde vive até hoje. Os músicos que formam a banda da cearense - Vitor Colares, Guilherme Mendonça, Bruno Rafael e Felipe Lima -, compraram a ideia do CD e toparam fazer uma produção colaborativa.

Na Capital paulista, recebeu o apoio do selo EAEO, que já trabalhava com alguns artistas cearenses, como o Cidadão Instigado e Jonnata Doll e Os Garotos Solventes. E o disco ganhou forma de vez com o financiamento coletivo por meio do Catarse, que tinha como meta arrecadar R$ 14.690 e chegou aos R$ 16.490.



O grito de resistência de Shalon Israel

O cantor de 34 anos é o último entrevistado da série Safra 2017 - Música CE. Shalon Israel se prepara para lançar 'Fonte em Terra Sagrada Nunca Seca', seu primeiro álbum oficial

Por Rubens Rodrigues
Cantor se prepara para lançar o álbum Fonte em Terra Sagrada Nunca Seca (Foto: Julio Caesar)

Encontro marcado. A equipe de reportagem do O POVO Online se deslocou até o Cuca Barra, ponto de convergência e aprendizado da juventude local, para encontrar o cantor Shalon Israel às 16 horas da última quinta-feira, 2. Ele chegou com alguns minutos de atraso, boné, óculos vermelhos e um pouco de timidez. Da pista de skate do Cuca, atravessamos a av. José Lima Verde e já estávamos à margem do Rio Ceará, coração da comunidade.

Emblemático, o mais antigo bairro de Fortaleza guarda suas memórias no encontro do rio com o mar. Filho da Barra do Ceará, o cantor, nascido Shalon Inácio da Silva, entende bem a importância do berço histórico do Estado para sua trajetória artística. Adentramos o píer, onde já estavam alguns jovens.

"Eu nunca me canso de ver isso aqui", disparou. "Sempre me impressiono". Foi na Barra que o cantor de 34 anos cresceu e se encantou pela música. Aos 13 anos, se viu tirando um samba de mesa e quando percebeu já estava em uma banda de baile. Tocava o samba na escola, em aniversários, batizados e casamentos, mas diz que cresceu mesmo foi ouvindo heavy metal por causa do pai. Até o ano de 2005 o samba foi presente. "Mas o meu negócio era reggae".

Shalon começou no reggae fazendo backing vocal para a banda até então conhecida como Profetas da Babilônia, hoje Mentalize. Depois, ele cantou nos grupos Filosofia Rasta e Irmandade Raiz, com quem gravou três discos.

"De repente cheguei cantando um Bob Marley, um Peter Tosh. Aí o pessoal estranha, né", brinca. "Me identifiquei muito". Ele conta que a reação da família não foi boa. O problema, contudo, não era a música. Era o reggae. "Para uma família de militares, artista era vagabundo. Era aquele cara que não queria estudar e escolheu fazer música", lembra. O lado materno da família é cearense e o pai chegou do Piauí quando o avô veio servir ao Exército no Ceará e trouxe a família.



"Fui vítima do preconceito dentro da minha própria família. Eles queriam que eu fosse militar", conta. "Essa coisa negativa foi superada porque o amor atrai tudo. O que é feito com amor resiste", continua. "No reggae é assim: resistindo e insistindo".

Mas nem sempre o reggae foi um porto seguro. Há cinco anos, Shalon parou. "É muito difícil fazer reggae em Fortaleza, cara. Sempre foi. Há discriminação. E tem o problema do espaço". Em seus primeiros anos no reggae, Dona Leda e Rebel Lions eram as bandas que já tinham força na cidade.

"Continua muito difícil. Aqui na Barra, por exemplo, tem várias bandas boas com ideias massa, mas ainda falta investimento", avalia. Israel conta que já viu artistas talentosos deixarem a música pela falta de oportunidade. Na época, falta de espaço foi o que fez ele parar. "O público ainda precisa aprender muito. Fui a Alagoas e ao Pará e lá o público é muito forte. É preciso instigar e incentivar a galera a continuar".

Dos cearenses que ainda resistem, Shalon lembra os cantores Andread Jó (ex-Donaleda) e Carlinhos Nação e a banda Irmandade Raiz. "São as colunas do reggae em Fortaleza".


É de Shalon Israel o hit 'Cabeça de Gelo', inspirado no popular Riddim jamaicano (Foto: Julio Caes

Cabeça de Gelo

Uma das coisas que manteve o compositor na música foi o hit Cabeça de Gelo, inspirado no popular Riddim jamaicano. "Começou de uma brincadeira. Eu trabalhava em uma lavanderia como auxiliar de produção e cantava minha própria versão em cima do Riddim". Ele conta que o verso "esse bicho tá desconsiderando o nego" já surgiu como crítica à falta de espaço para o gênero na cidade.

'Cabeça de Gelo' virou hit quando o DJ Cleiton Rasta, de Alagoas, passou a tocá-la em seus shows. Foi quando o hit composto em 2011 ganhou o Brasil. No Carnaval do ano passado, o cantor dividiu o palco com a banda Cidadão Instigado, no Aterrinho da Praia de Iracema. E não deu outra: 'Cabeça de Gelo' animou o público. Ele também cantou com a banda Selvagens à Procura de Lei e até o rapper paulistano Criolo pediu permissão para cantar a música em seus shows.

O sucesso, ele atribui à letra que se comunica com o discurso de protesto. "O 'fogo na Babilônia' é algo que se fala até hoje quando as pessoas 'torram um', só que é mais uma manifestação de colocar fogo nas ideias que nos impedem de progredir", explica.

Completamente a favor da regulamentação de drogas leves como a maconha, afirma que a proibição é uma das causas do crescimento do tráfico e a popularização de drogas mais pesadas. "É difícil, mas a gente tenta desassociar a imagem do reggae às drogas. (O gênero) é religioso. Traz a mensagem de paz, união e esperança", continua. "O reggae fala muito de amor e de Deus, bate no mesmo compasso do coração".


Fonte em terra sagrada nunca seca

Mas a música não trouxe só coisas boas. Shalon Israel já chegou a ser impedido de cantar seu maior sucesso quando foi vítima do que chama de "golpe". "Foi um susto. Santo de casa não faz milagre, mas faz um movimento grande. Na época recebi muito apoio da Barra". Foi quando ele começou a compor para o que será seu primeiro disco oficial, intitulado 'Fonte em Terra Sagrada Nunca Seca'.

Com previsão de lançamento no fim deste mês de fevereiro, o disco, que vem depois de dois EPs promocionais, é produzido por Moisés Veloso. Nas guitarras, uma colaboração de peso: Fernando Catatau, líder do Cidadão Instigado. Com mais de 40 canções compostas ao longo dos anos, Shalon reconhece que 'Cabeça de Gelo' é a responsável por arrastar o público para seu novo trabalho. Além do hit, entra a também conhecida 'Da Favela'. Dentre as oito canções inéditas estão 'Não Sofro Mais' e 'Tudo Fica Mais Bonito'.

"O novo álbum é uma resposta do que tentaram fazer comigo. Tentaram acabar com a minha carreira, né?" Ele diz que a música 'Vítima do Sistema', do novo disco, narra o caso que corre na Justiça. O registro também traz músicas inspiradas nos últimos relacionamentos: "tô mais romântico".

Com uma sonoridade mais voltada para as referências na soul music, Shalon mistura reggae com funk e promete músicas mais "elétricas". "Venho para mostrar que o cearense também sabe fazer reggae, mas o que eu estou fazendo é algo diferente. Estou resgatando as raízes da música negra, do gueto".

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