Passos Livres

Esporte, lazer ou arte; se há uma palavra para definir a dança, é multifuncional. Do ballet ao hip hop, cada movimento envolve, seduz, encanta, apaixona e transforma não apenas quem assiste, mas também quem pratica. Ela pode ser buscada em qualquer idade da vida e não se esconde dos que a procuram e a desejam. Em cada canto da Cidade, vemos sapatilhas, collants, cores e ritmos. O POVO Online buscou em Fortaleza locais onde a dança é ensinada de forma gratuita, seja com intenção técnica, de formação, seja como agente de transformação social. Sinta-se convidado para entrar na dança. O estilo? É livre.

O transcender dos movimentos

O ato de dançar, longe de ser bom apenas para o corpo, afeta a mente de forma positiva

Por Mariah Costa (textos)

(Foto: Fábio Lima/O POVO)

De acordo com Allana Scopel, professora do curso de Gestão Desportiva e de Lazer do IFCE, dançarinos adquirem um maior domínio e conhecimento do seu próprio corpo e das possibilidades de movimento. Ela completa ainda que “a dança permite a realização do potencial inato do corpo para a ação e a expressão. Sem esta possibilidade não somos completos”.

O professor de Educação Física da Universidade Federal do Ceará, Marcos Campos, aponta que a dança pode ter finalidade artística, de lazer, de atividade física, profissional e pedagógica. Ele explica ainda que não há idade para a prática da dança, mas que cada tipo de dança é recomendado para um tipo de situação. “A dança promove o desenvolvimento das emoções, ela permite expressar por meio do corpo o que não se pode expressar com palavras”, explica Campos.

"Ela (a dança) permite a expressar por meio do corpo o que não se pode expressar com palavras"

Marcos CamposProfessor de Educação Física da UFC
 

No caráter físico, a prática de modalidades de dança promove a melhora da flexibilidade, aprimoramento da coordenação motora e pode agir com auxiliador da perda de peso. Ernesto Gadelha, coordenador da escola de dança da Vila das Artes que vive no universo da dança há mais de 30 anos, aponta ainda que a dança pode exercer um papel importante na sociedade atual devido ao extremo sedentarismo causado pelo uso das tecnologias. “Nas sociedades contemporâneas, herdeiras da separação entre corpo e mente, a prática da dança, quando orientada por um profissional qualificado, para além da repetição motora esvaziada de sentidos que vemos na maior parte das atividades de fitness, pode representar uma possibilidade de autoconhecimento”, afirma Gadelha.

Arte que transforma vidas

Por Isaac de Oliveira (textos) Por Aurélio Alves (fotos)

A dança, além de expressão artística, é a realidade de gente que sonha com passos, piruetas e sorrisos. Ela encanta, emociona, seduz. É uma forma de viver. No bairro Vila Velha, inclusive, a dança se confunde com a vida no projeto Vidança.

A iniciativa surgiu do sonho de ser artista de uma menina que dançava imitando as nuvens. Após tornar-se bailarina e coreógrafa, Anália Timbó, 60, queria que novos artistas se descobrissem. Assim, em 1981, montou a própria companhia de dança que, anos mais tarde, cresceu e virou escola.

Para além da formação de talentos, o Vidança compete com as adversidades da periferia em busca de transformar vidas a partir da arte. É nele onde crianças, jovens e familiares desenvolvem habilidades, seja estudando, trabalhando, ou, claro, dançando.

Anália Timbó montou, em 1981, a própria companhia de dança que, anos mais tarde, cresceu e virou escola. (Foto: Aurélio Alves/Especial para O POVO)
 

O projeto atende cerca de 200 alunos que têm acesso ao ensino de diferentes ritmos e estilos. Para participar não é necessário teste de admissão. Basta ter, pelo menos, sete anos, e estudar. As aulas acontecem nos períodos da manhã e da tarde, com atividades práticas e teóricas.

A aprendizagem se dá mediante dois eixos educativos. O primeiro é voltado às modalidades corporais, que exigem movimentação. Nestas, os alunos aprendem a dança propriamente, trabalhando aspectos como coordenação e postura. Já o segundo eixo, de caráter teórico, exercita as artes visomanuais, que englobam criação literária, contação de histórias, percussão, produção de bordados, fuxicos e reutilização de materiais.

O projeto tomou forma através do balé clássico. Mas, ao longo dos anos, novos estilos se juntaram para fortalecer a experiência artística. As danças dramáticas abrangem o ensino de ritmos da cultura popular, sobretudo a cearense, como o reisado, coco, maracatu e o boi. A dança contemporânea também se faz presente no ensino, assim como a capoeira e o hip-hop.

Com idade mínima para ingresso, dar adeus ao projeto é um passo que custa a entrar na coreografia. Após anos no curso, muitos alunos decidem permanecer, dividindo o conhecimento adquirido. Com exceção da capoeira e do hip-hop, modalidades recentes na escola, todos os professores foram formados no Vidança.

Elisilene Alves deixou o interior e veio para Fortaleza com o Vidança (Foto: Aurélio Alves/Especial para O POVO)

Quem faz o projeto

A história de Elisilene Alves, 33, com o projeto começou há 15 anos, quando conheceu o Vidança em Itapajé (CE). O rápido encontro encantou a jovem do interior de tal modo que, com o fim das atividades em sua terra, Elis, à época com 18 anos, fez as malas e rumou para Fortaleza sob as asas do projeto. Por estes lado, dançou, trabalhou, estudou e se transformou. Hoje, divide o tempo entre a pedagogia, o ensino da dança e a filha Sofia, de 9 anos, que já é bailarina do Vidança desde os seis. Para Elis, a rotina sobrecarregada é difícil, mas a gratidão ameniza.

“Pra gente não deixar o projeto, a gente tem que se desdobrar pra ter outro recurso, porque a gente tem que sobreviver. Eu tenho uma filha que depende de mim. Eu corro atrás de outros trabalhos, me sobrecarrego, mas o desejo de estar aqui se sobrepõe a isso”, justifica a professora.

Dona Francisca das Chagas cuida da limpeza do projeto (Foto: Aurélio Alves/Especial para O POVO)

Familiares e moradores também têm lugar no Vidança. Dona Francisca das Chagas, 68 anos, é responsável por deixar tudo limpo e organizado. A aposentada, que viu os filhos crescerem no projeto, adora ver as meninas dançando. Se passa alguns dias sem ir, logo fica preocupada com as crianças, as plantas, a limpeza. E ela também gosta de dançar. “Apesar da minha idade, eu me solto, pulo do jeito que posso. É vida!”, ensina Dona Francisca.

Essa gratidão de Elis e o amor de dona Francisca são visíveis nos olhos de crianças que ainda dão os primeiros passos na escola de dança. Numa rápida conversa, meninas entre 8 e 13 anos enxergam no Vidança um refúgio para as ameaças sociais, comuns à periferia, e querem, no futuro, ensinar aquilo que hoje lhes fazem felizes. Para Thayane Castro, a dança “inspira em algo que você planeja pro futuro porque deixa se levar”. É por isso que a menina de 13 anos deseja ser arquiteta, mas espera não parar de dançar.

Show à parte

Outro destaque no Vidança são os espetáculos. O curso trabalha cerca de dois anos na montagem. O processo conta com todos os braços do projeto, que participam desde o processo criativo, passando pela produção de figurino, até chegar à execução. A ideia, segundo Anália, é que todos se integram e entreguem no processo para que, no fim, vejam-se sujeitos da montagem e valorizem o trabalho.

 

Serviço

O Vidança atende na comunidade da Vila Velha e região próxima, e não possui período de inscrição. Os interessados devem comparecer ao projeto - menores de idade acompanhados por responsável - para solicitar a matrícula. Além dos documentos de identificação e residência, é necessário apresentar documentos escolares, como declaração e boletim. No mais, só precisa disposição.

Endereço: Avenida L, 402, Vila Velha - Fortaleza

Telefone:  (85) 3262-7599

Além do espetáculo

Por Mariah Costa (textos)

“A arte possibilidade visualizar e realizar o novo, recriar a realidade tendo o belo, o bom e o justo como meta. Desta forma, as crianças e adolescentes se percebem capazes de reinventar suas vidas e interferir positivamente no mundo que a circunda”, acredita Andréa Soares, coordenadora de atividades da Edisca, um projeto fundado em 1991. Com intenção social, a Edisca, além da dança, desenvolve ações de incentivo à leitura, aulas de Português e Matemática e outras atividades.

A Edisca recebe alunos de 7 a 24 anos. (Foto: Fábio Lima/OPOVO)
 

Os interessados em participar das aulas na Edisca devem ser comprovadamente de baixa renda e fazer parte de um dos seguintes bairros, escolhidos pelos índices de vulnerabilidade e risco para a infância e adolescente: Bom Jardim, Vicente Pinzon, Jangurussu, Conj. Palmeiras, Conj. Alvorada e Edson Queiroz. Hoje, a Edisca atende cerca de 250 educandos de 7 a 24 anos. Pensando também na formação de crianças e jovens no universo da dança, a Vila das Artes, da Prefeitura de Fortaleza, oferece diversos programas de ensino, entretanto, o principal é o Curso Básico de Formação em Dança para crianças, cuja faixa etária para participar é de 7 a 13 anos.

"A dança é uma manifestação que atravessa a vidas das pessoas e das comunidades".

Ernesto GadelhaCoordenador da Escola Pública de Dança da Vila das Artes

Por seis anos, os alunos da Vila das Artes assistem a aulas gratuitas de dança clássica, contemporânea, popular (danças brasileiras), capoeira, danças urbanas, além de ateliês de repertório, composição e oficinas diversas. Para Ernesto Gadelha, coordenador da Escola Pública de Dança da Vila das Artes, a prática da dança ajuda no “preparo corporal, no desenvolvimento da criatividade, na sensibilização musical, na experiência cênica, além de favorecer o desenvolvimento das competências pessoais, relacionais, cognitivas e produtivas dos alunos”.

Saindo da prática infantil, o projeto de extensão do IFCE, Dançar é Lazer, possibilita que servidores, alunos do instituto e a comunidade externa tenham aulas gratuitas de dança de salão. No semestre 2017.1, o projeto oferece os ritmos Bachata, Forró e Zouk. O Dançar é Lazer já levou aos alunos, por exemplo, o samba, o tango, a salsa e o bolero.

A Vila das Artes possui programas para diversas faixas etérias e níveis de formação (Foto: Igor de Melo em 2012)

Allana Scopel, professora do curso de Gestão Desportiva e de Lazer do IFCE e responsável pelo projeto, afirma que os alunos do Dançar é Lazer costumam possuir entre 17 e 68 anos. Ela acredita ainda que a prática da dança de salão atua na desconstrução de preconceitos e estereótipos. “Um exemplo claro é mudança do conceito de ‘damas e cavalheiros’ para ‘condutor e conduzido’; tudo depende do que você deseja aprender. Todos os corpos podem dançar, sem distinção”.

A Universidade Federal do Ceará também possui projetos que oferecem aulas de dança gratuitas, que funcionam no núcleo do Instituto de Educação Física e Esportes (IEFES). Devido ao fim do período letivo pós-greve, as atividades serão retomadas somente em março. No IEFES, há desde aulas de balé para adolescentes e adultos até dança de salão para a comunidade. A turma de balé, por exemplo, possuía cerca de 70 alunos no último semestre, com aulas duas vezes por semana enquanto as de dança de salão aconteciam aos sábados. Informações extras podem ser buscadas pelo telefone do Instituto. 

Serviço
Edisca
Aulas de dança para crianças e adolescentes
Endereço: rua Desembargador Feliciano Ataíde, 2309
Telefone: (85) 3278-1515
Redes sociais: /ediscaong e @edisca
Vila das Artes
Curso de Formação Básica em Dança para crianças
Endereço: rua 24 de Maio, 1221 - Centro
Telefone: (85) 3252-1444
Redes Sociais: /viladasartesfortaleza e @viladasartesfortaleza
Projeto Dançar é Lazer
Aulas de dança de salão para adultos
Endereço: av. 13 de Maio, 2081 - Benfica
Redes Sociais: @dancarelazer e /dancarelazer

Instituto de Educação Física e Esportes da UFC

Aulas de balé e dança de salão à comunidade

Endereço: av. Mister Hull, s/n - Parque Esportivo - Bloco 320 - Campus do Pici

Fone: (85) 3366-9533

Um porto de ritmos

O Curso Técnico em Dança do Porto Iracema é referência na capacitação artística do Estado. A formação é voltada para que os dançarinos se tornem criadores da própria técnica

Por Isaac de Oliveira (textos) Por Aurélio Alves (fotos)

(Foto: Fábio Lima/ O POVO)

Quando se fala em arte como profissão, talento e dom são palavras que chegam rápido à mente. A cobrança por capacitação, contudo, é uma demanda que o mercado de trabalho impõe a diversas ocupações, e não seria diferente com os artistas. E foi dessa necessidade que, em 2005, surgiu em Fortaleza o Curso Técnico em Dança, fruto de uma luta política da classe artística cearense em busca de capacitação para os profissionais de dança do Estado.

"A partir do curso (os alunos) percebem que podem transitar por outros territórios"

Thiago BragaCoordenador-assistente
 

O curso tem duração média de dois anos e, atualmente, é ofertado e certificado pelo Porto Iracema das Artes, equipamento do do Instituto Dragão do Mar, ligado à Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult). Nesses 12 anos de história, mesmo enfrentando desafios como a incerteza de recursos a cada mudança de gestão, quatro turmas foram concluídas, com aproximadamente 150 alunos formados. A quinta segue em andamento com previsão de término no final deste ano. Segundo o coordenador-assistente Thiago Braga, a previsão é que nova turma seja iniciada em 2018.

Apesar da formação técnica priorizar a prática, no Porto, a teoria não é deixada de lado. O curso é planejado de modo que o pensamento crítico acompanhe o fazer artísticos em um processo cruzado. A matriz curricular é dividida em cinco blocos de qualificação, que englobam disciplinas como Dança Clássica, Dança Contemporânea, Composição e Improvisação, entre outras. O aluno também deve passar pelo estágio supervisionado.

(Foto: Aurélio Alves/Especial para O POVO)
 

A abordagem transdisciplinar também permite que estudantes de outras linguagens artísticas procurem a formação técnica. Pois “a partir do curso (os alunos) percebem que podem transitar por outros territórios”, pontua Thiago. É o caso do ator Victor Hugo, graduando em teatro pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), que após entrar na escola do Porto, enxerga um lugar híbrido entre as duas linguagens.

A bacharel em dança, Janaina Bento, formada pela Universidade Federal do Ceará (UFC), procurou o curso no Porto porque acredita que a aprendizagem não deve ser estática. Para ela, a “oportunidade de estar em contato com outras formas de compor em dança” a fez, mesmo graduada, buscar a formação técnica.

 

Serviço

Para participar, é necessário passar por uma audição. Os interessados devem possuir idade mínima de 16 anos completos no ato da matrícula, ter concluído ou estar cursando 2º ano do Ensino Médio e ter disponibilidade nas manhãs de segunda-feira a sexta-feira.

Endereço: Rua Dragão do Mar, 160 - Praia de Iracema

(85) 3219-5842