Pórtico onde Nossa Senhora apareceu aos pastores Lúcia, Francisco e Jacinta, no início do século passado

Não que esse inexplicável e intrigante universo da fé careça, porém, a celebração de um século de um dos maiores fenômenos católicos causa essa espécie de frenesi coletivo de emoções que merece todos os registros. Assim, os 100 anos das aparições da Virgem Maria aos três pastores, em Fátima, ganham celebrações pelo mundo. Em Portugal, em Fortaleza e onde haja devotos.

No 13 de maio de 1917, data da primeira aparição, o cenário global era dramático. Tempo de Primeira Guerra Mundial e Revolução Russa. Neste 13 de maio de 2017, o mundo não está menos dramático. O que mudou foi a prática religiosa. O ceticismo vem dando lugar ao fervor. E um fenômeno como o de Fátima ganha, talvez, muito mais relevância.

Para marcar a data, O POVO preparou cobertura especial. Vem publicando reportagens desde o último domingo, preparou este suplemento, um curta de animação e um canal especial no O POVO Online. Para contar essa história, os jornalistas Daniela Nogueira, Émerson Maranhão e Igor Cavalcante, aqui em Fortaleza, prepararam a memória do fato e buscaram nossa devoção. Em Portugal, a jornalista Ariadne Araújo passou cerca de 150 horas em Fátima, divididas em quatro visitas. Percorreu o Santuário, a cidade e a região e traz histórias exclusivas e impressionantes de se conhecer.

FÁTIMA SUDÁRIO,

Editora-executiva do Núcleo de Reportagens Especiais

AS SEIS APARIÇÕES

por ÉMERSON MARANHÃO

Três pastorinhos, um vilarejo no interior de Portugal, um milagre. O século XX, ainda nos cueiros, toma novo rumo pelo olhar de três crianças periféricas, que garantem enxergar além das carrasqueiras na paisagem que as cercam. Uma questão de fé, acima de tudo.

13 /maio/1917

Lúcia, Francisco e Jacinta pastoram ovelhas na Cova da Iria. De repente, um clarão rasga o céu e nele está Nossa Senhora. Ela pede aos pastorinhos que rezem o terço e que voltem a encontrá-la nos próximos cinco meses, no mesmo local

13 /junho/1917

Em sua segunda aparição, Nossa Senhora anuncia que em breve levará Francisco e Jacinta com Ela para o céu. Antes de partir, a Virgem lhes mostra, na palma da mão, um coração cercado por espinhos. É o Imaculado Coração de Maria.

13 /julho/1917

Nossa Senhora revela aos pastorinhos um segredo dividido em três partes: a primeira é uma visão do inferno; a segunda é a conversão da Rússia e a devoção ao Imaculado Coração de Maria;a terceira é o atentando ao papa.

15 /agosto/1917

Na véspera do quarto encontro marcado com Nossa Senhora, os pastorinhos são sequestrados e mantidos em cárcere por três dias para que revelem os segredos. A Virgem só lhes aparece dois dias depois, de surpresa.

13 /setembro/1917

A quinta aparição de Nossa Senhora aos pastorinhos atrai cerca de 20 mil pessoas à Cova da Iria. Todos querem vê-La,falar com Ela e rogar-Lhe milagres. Aos pastorinhos, a Virgem pede que continuem a rezar o terço.

13 /outubro/1917

Na última aparição, a Virgem pede que construam uma capela e anuncia a proximidade do fim da guerra. Após Sua partida, o sol começa a dançar e soltar fogo pelo céu. O fenômeno dura 10 minutos e é visto a até 40km de distância.

CURTA DE ANIMAÇÃO

ACREDITAR NO QUE NÃO É CRÍVEL
Milagres não se reproduzem. A não ser no território do arrebatamento, onde encontram pátria. E é este território a ponte entre as aparições da Virgem de Fátima aos três pastorinhos e o curta de animação que tem por missão contar esta história. Assim como ante as situações que fogem às regras da normalidade, deixar-se levar por uma narrativa constituída de desenhos animados requer, imprescindivelmente, disposição a acreditar no que não é crível; ânimo para vivenciar o que não nos está ao alcance; coragem para emocionar-se com o que pode soar risível. Nossa escolha por uma animação para contar o milagre vivido por Lúcia, Francisco e Jacinta não foi à toa. Foi movida por dois eixos. O primeiro constitui-se na decisão de nos valer da mesma fonte dos que creem no que transcende o natural: a vontade inequívoca de acreditar. O segundo é propor uma possibilidade de simulacro dos olhares dos três pastores. Só a percepção infantil do mundo forneceria-nos a chave para acessar o milagre como eles o viram. Daí, a ferramenta narrativa tão afeita aos pequenos. Nada mais que uma tentativa de viver o arrebatamento que permite a reprodução dos milagres.

Canonizações. A freira que recolhe milagres

Da esquerda para direita - JACINTA MARTO. A caçula dos pastorinhos contava apenas 7 anos quando assistiu ao milagre. Menos de um ano depois, caiu doente, com bronco-pneumonia, e morreu em abril de 1920. LÚCIA DE JESUS. Havia vivido uma década até aquele 13 de maio. Foi a única do grupo a conversar com Nossa Senhora. Jacinta só A via e ouvia; e Francisco apenas via a Virgem. Morreu aos 97 anos. FRANCISCO MARTO. O menino tinha 9 anos de idade quando, ao lado da irmã e da prima Lúcia, testemunhou as aparições da Virgem. Morreu 1 ano e 11 meses depois da primeira aparição.

O milagre que, neste 13 de Maio, vai fazer de Jacinta e Francisco os dois santos mais jovens não mártires do mundo aconteceu em março de 2013, com uma criança brasileira. Na época com cinco anos, sobreviveu a uma queda de sete metros. Três meses depois, a irmã Ângela Coelho, 45, recebeu em Fátima a carta da família brasileira, relatando o caso da cura milagrosa. Arrumou, então, as malas para ver in loco o que tinha se passado. Como além de freira é também médica, ela constatou no Brasil que a história tinha potencial, recolheu todas as informações e voltou esperançosa, tinha um excelente caso nas mãos. Se a irmã Ângela se deu ao trabalho de ir atrás desse milagre, é porque ela é a postuladora, espécie de advogada de defesa da causa dos pastorinhos.

Em Roma, a Congregação das Causas dos Santos pediu a ela três anos de espera, para ver se haveria sequelas, tão grave foi o caso. A criança miraculada, no entanto, continuou a ter vida normal. Estava aberta a porta para o processo de canonização dos dois pastorinhos, chamados a intervir, pelos pais da criança, na hora da queda. A irmã Ângela está impedida de falar do assunto, só a família mesmo pode revelar os detalhes, contar a história. Mas, hoje, presentes ao ritual de canonização feito pelo papa Francisco, devem dar o testemunho de fé, acredita a irmã. “Posso adiantar, é lindíssima a história”.

Irmã Ângela Coelho tem experiência em creditar milagre. Além de advogar a causa dos pastorinhos, ela é vice-postuladora da causa de Lúcia. Por isso, passaram pelas mãos dela todas as provas e testemunhos no caso dos dois novos santos. Ela tinha tentado antes com dois outros casos de curas, mas a comissão médica que examina os supostos milagres não considerou que havia inexplicabilidade científica, segundo a arte médica atual. No caso da criança brasileira, foi sim em todas as comissões: médicos, teólogos, bispos e cardeais. A última palavra foi do papa Francisco.

Irmã Ângela creditou milagre de Jacinta e Francisco no Brasil

Na canonização hoje em Fátima, a presença de familiares dos dois novos santos. São ainda vivos dez sobrinhos, bem visíveis à multidão hoje no Santuário, assim como as famosas relíquias que todo santo precisa. Nesse caso, um pedaço da costela de Francisco e uma ponta de cabelo de Jacinta, guardados pela irmã Ângela, na Casa das Candeias. É um núcleo museológico que serve tanto para palestras como de quartel-general da causa dos pastorinhos. “Leva-se para o rito o que é possível”, diz a freira, lembrando que alguns mártires foram queimados. “Pode-se decidir abrir túmulos e retirar a relíquia. Mas, nesse caso, durante a trasladação dos corpos para a Basílica do Rosário, alguém tirou um pedacinho”, conta.

Para quem visita o pequeno espaço da Casa das Candeias, a entrada é grátis, com direito a um tour acompanhado, além de ver outras relíquias. Por exemplo, a veste batismal dos dois irmãos, presentes que o papa João Paulo II deixou e o registro de morte de Jacinta, onde consta “pastora” como profissão. “Ainda recebo aqui muitas cartas com milagres e não quero que isso pare”, explica a irmã. Vêm da Nova Zelândia, Tailândia, Brasil, Estados Unidos, mesmo Taiwan. “Onde eu esperaria uma coisa destas?”, diz. “É para que se saiba que o culto continua. Que eles são santos. E santos lindíssimos!”.

FRANCISCO E JACINTA

Milagre no Brasil e a santificação

O acidente foi no Paraná, no Brasil. Lucas, na época com cinco anos, estava brincando quando caiu da janela, uma altura de sete metros, equivalente a um segundo andar de um prédio. O prognóstico médico não era nada animador. Com um traumatismo craniano severo e perda de massa cerebral, a criança ficaria em estado vegetativo ou teria graves sequelas neurológicas. Em desespero, os pais devotos invocaram a interseção de Francisco e Jacinta e, com um grupo de freiras, iniciaram a ciranda de orações.

O milagre, então, aconteceu. Poucos dias depois o menino recebeu alta. Os médicos não entenderem tão rápida recuperação. Mais incrível, ainda, sem sinais de sintomas e sequelas. Foi depois disso que a família do pequeno miraculado enviou uma carta ao Santuário de Fátima, em Portugal, para divulgar o acontecido. Em Roma, a Congregação das Causas dos Santos pediu prudência, ainda esperou três anos para ter certeza que o quadro não se reverteria, que não surgiriam outras consequências inesperadas da queda e que não houvesse nenhuma explicação médica para o caso.

Passados os três anos, Lucas continuava a desfrutar de uma vida normal. Por isso, depois de rigoroso processo de avaliação e discussão dentro do Vaticano, o milagre foi aprovado pelo papa. Hoje, os dois pastores viram santos. O anúncio de que o rito de canonização seria realizado, em Fátima, pelo papa Francisco, foi comemorado pelo Santuário com o repique de sinos. Em 2000, durante a visita a Fátima, João Paulo II beatificou os dois pastorinhos portugueses. O milagre que levou os dois à condição de beatos aconteceu em Portugal, com uma velha devota da Senhora do Rosário.

O capelão do Santuário, padre Manuel Antunes, conta que conheceu esse caso. E de muito perto. A portuguesa Maria Emília dos Santos, completamente paralisada, por duas décadas, vinha de maca, algumas vezes, em retiro espiritual. “Ninguém podia nem mesmo tocar nela, tamanhas eram as dores”, lembra. Um dia, conta, em pleno sofrimento, ela reclamou aos pastorinhos que não tinham escutado suas súplicas. “A partir daí, as dores passaram e um dia estava aqui, nos visitando, mas desta vez de pé”. Examinada por vários médicos, também neste caso constatou-se a inexplicabilidade pela ciência médica atual. 

FASES DO PROCESSO

1. FASE DIOCESANA (1952-1979): coleta de testemunhos que conheceram os pastorinhos Jacinta e Francisco, como pais, irmãos e vizinhos. Objetivo é saber como praticavam as virtudes cristãs (fé, esperança, caridade, temperança)

2. FASE ROMANA (1988): síntese dos escritos e/ou testemunhos recolhidos. É o chamado positio, um para cada criança

3. FASE TEOLÓGICA: Os dois resumos (positio) são entregues a um grupo de teólogos independentes que vai dar parecer e dizer se as crianças praticaram a virtude cristã em grau heroico

4. SAI O DECRETO da heroicidade das virtudes. A partir dessa fase, de servos de Deus passam a ser veneráveis (1989)

5. INÍCIO DO PROCESSO de beatificação com aprovação de um milagre atribuído às crianças em 1999. Papa João Paulo II beatifica Jacinta e Francisco em 2000

6. INÍCIO DO PROCESSO de canonização com a análise e aprovação de um milagre (registrado no Brasil em 2013),atribuído aos dois beatos

7. PAPA FRANCISCO CANONIZA
hoje Francisco e Jacinta

PROCESSO DE LÚCIA

Fase inicial

Irmã Lúcia (1907-2005), a mais velha das três crianças que viram a Senhora do Rosário, morreu no Carmelo, já idosa. Ia fazer 98 anos. Por isso, seu processo está ainda na fase inicial. Quer dizer, já foram recolhidas provas e testemunhos, além de tudo o que ela escreveu em vida. O calhamaço de 15.483 páginas foi enviado a Roma. É lá que tudo acontece. “Vai demorar muito tempo antes de vermos a irmã Lúcia santificada”, diz Ângela Coelho.

No Carmelo de Coimbra, a irmã Ângela visitou algumas vezes uma irmã Lúcia muito brincalhona e com uma grande visão prática da vida. Depois da divulgação da última parte do segredo, em 2000, a restrição quase total de falar com as pessoas baixou. Por isso, conta Ângela, era possível ir, com grupos pequenos, cantar-lhe os parabéns nas datas de aniversário e conversar um pouco. Se ela era santa? “Claro que sim!”, responde. “As virtudes que nos deixa como exemplos são muitas”, diz.

Fátimas Peregrinas: a primeira imagem

Imagem original de Nossa Senhora de Fátima tem quase 100 anos e só sai em ocasiões muito especiais

A agenda é cheia, o ano inteiro. Os inúmeros pedidos, que não param de chegar ao Santuário, levam as 13 réplicas oficiais da Senhora do Rosário para os lugares mais longínquos do Planeta. Elas viajam em estojos almofadados, em assentos reservados na classe executiva de aviões de linha regular, em helicópteros fretados, em carros de luxo e em cima de andores pesados de rosas brancas. São conhecidas como as Virgens Peregrinas e cada uma delas tem número e documentação própria, espécie de passaporte que indica os lugares por onde andam.

Se elas ganham o mundo é para deixar em paz e em segurança a valiosa imagem original de Nossa Senhora de Fátima, quase 100 anos de existência, que reina absoluta em uma coluna de mármore, na Capela das Aparições. Esculpida em 1920, dois anos depois das aparições na Cova da Iria, esta primeira imagem só sai agora do Santuário em ocasiões muito especiais. Nas 12 viagens que fez até hoje, sob os olhos atentos de guardas e agentes da companhia de seguros, ela peregrinou dentro de Portugal, foi à vizinha Espanha e atendeu três vezes aos chamados de papas, em Roma. Mas já vão lá três anos que ela não sai de casa.

A primeira imagem peregrina foi esculpida em 1947 e fez sua primeira viagem histórica ainda no rescaldo da Segunda Guerra Mundial. Pedido do então bispo de Berlim, a ideia era que a imagem levasse a mensagem de paz para todas as capitais europeias em fase de reconstrução, até a fronteira com a Rússia. A peregrina fez mais: 64 países, inclusive em outros continentes, em quase 50 anos de viagens. Chegou a ter mesmo avião próprio. Na volta de missão espiritual e geopolítica, a imagem ganhou altar especial na Basílica do Rosário, dentro do Santuário, e só teve permissão para um último tour. Em 2014 e 2015, visitou todos os mosteiros de clausura de Portugal, uma vez que as freiras não podiam se deslocar para vê-la.

Agora viajam as 13 cópias peregrinas. Algumas compradas nas lojas de artigos religiosos do Santuário. Por isso, há diferenças no tamanho, na expressão do rosto e no tom do branco do manto. Detalhes sem importância aos olhos devotos. Vê-se pelo volume de pedidos para visitas de uma imagem desta. Neste ano do Centenário, não deu pra quem quis. Segundo a revista Fátima, Luz e Paz, pelo menos 14 países já têm garantidas visitas de peregrinas em 2017.

Cidades de Angola, Hungria, República Checa e Brasil estão já em preparativos. Aliás, segundo o calendário, três delas estarão em solo brasileiro. A imagem número 5, por exemplo, vai estar em Santos de 20 de junho a 11 de julho. Mas a número 3 já está há muito em São Paulo e só retorna no final de outubro, quando se encerram as comemorações do Centenário. Mesma data de volta para a imagem número 12, que está visitando o Santuário de Nossa Senhora de Fátima do Rio de Janeiro, desde maio de 2013.

Com relíquia. As joias da coroa

Valor histórico, simbólico e material, a coroa de Nossa Senhora abriga a bala que atingiu João Paulo II
 

Ela é preciosa. A coroa de Nossa Senhora de Fátima é toda de ouro, tem mais de 313 pérolas e 2.650 pedras preciosas. Para fazê-la, um comitê de mulheres de Portugal saiu em peditório em 1942 e recolheu uma quantidade de anéis, alianças, medalhas, brincos, pulseiras, cordões, botões e alfinetes. Derretido tudo isso, apurou-se 7,8 quilos. As pedras preciosas também vieram na mesma campanha,em agradecimento à Fátima pela graça de Portugal não ter entrado na II Guerra Mundial.

A curiosidade é que a coroa leva também uma relíquia. A bala que quase matou João Paulo II, em um atentado na Praça de São Pedro, em maio de 1981. A coincidência é que havia um orifício com a exata dimensão do projétil, o que permitiu a incrustação sem alteração na peça. A coroa de Fátima segue o mesmo figurino das coroas das rainhas. Ou seja, oito gomos que se fecham em um globo cravejado de turquesas e que serve de base para a cruz.É neste globo que está encaixada a bala.

De tão valiosa, a coroa só vai para a cabeça da imagem de Fátima em dias solenes. A visita de um papa e a santificação de Jacinta e Francisco são ocasiões assim. O resto do tempo, a joia fica guardada no Museu do Santuário. No dia a dia, para os olhos dos devotos, a santa ostenta uma outra, menos valiosa, mas no mesmo design. Há ainda uma segunda cópia guardada na reserva do museu

A AZINHEIRA

Única azinheira da época das aparições que restou na área

Árvore muito abundante em Portugal, sobre a qual a Senhora do Rosário teria aparecido aos três pastores, foi destruída por completo. A multidão que vinha à Cova da Iria, logo após o fenômeno, levava galhos como lembranças e terminou por cortar o tronco em pedaços para servirem de relíquias.

13

são as virgens peregrinas que percorrem o mundo a pedido de paróquias e santuários. Este ano estão em visita ao Brasil, Itália, França, Luxemburgo, Holanda, Angola, Hungria, República Checa, entre outros. As imagens viajam de avião, em assentos só pra elas.

2ª aparição

Em 13 de junho de 1917, havia cerca de 50 pessoas acompanhando as três crianças, na Cova da Iria. Em 13 de julho, já eram cerca de 2 mil pessoas. Na 6ª aparição, dia 13 de outubro, milhares dizem ter visto o milagre do sol.

Vera-efígie. Orientação de Lúcia para obra

Dois anos depois das aparições, a notícia tinha se espalhado e atraía uma multidão à Cova da Iria, em Fátima. O povo tinha já tratado de construir uma capela muito simples e pequena, mas faltava a imagem da Senhora do Rosário. O devoto Gilberto Fernandes dos Santos tomou a missão nas mãos. Foi a Lisboa para comprar no comércio a imagem, mas não encontrou nada que satisfizesse os requisitos. Voltou com solução em mente. Mandou fazer a santa em Braga, no atelier de imagens e artigos religiosos Teixeira Fanzeres.

O santeiro José Thedim folheou um dos catálogos em uso na Casa Fanzeres e escolheu a imagem da Nossa Senhora da Lapa como modelo de base. O desafio era conseguir reproduzir ao máximo, na peça de cedro do Brasil que ele ia modelando, o relato dos videntes sobre o rosto, a roupa e a posição do corpo da Senhora da Cova da Iria. Olhos pretos, as mãos postas um pouco acima da cintura e delas descendo um terço branco. Branco também o manto que, da cabeça, descia até a orla da saia. Os detalhes eram muitos. Muitas as expectativas também.

Apesar da pressão das autoridades da época, que não viam com bons olhos o que se passava em Fátima, em junho de 1920 a imagem já estava na Capela das Aparições. A vidente Lúcia, no entanto, ao que parece, não gostou, achou barroca demais. Nos anos 50, o santeiro alegou a urgência de um restauro e ajustou o trabalho às críticas de Lúcia: tirou as sandálias, a estrela que ornava o vestido na cintura, afilou o rosto e deixou as roupas mais elegantes. Estava, finalmente, pronta a vera-efígie da Senhora do Rosário de Fátima.

Em 1922, a imagem de Fátima escapou de um primeiro atentado. Salva pela primeira zeladora do lugar, conhecida por Maria da Capelinha, que levava a sério o ofício: a santa dormia na casa dela, todas as noites. As cargas de dinamite, segundo fontes da época, foram postas por maçons e deixaram só as paredes em pé. A capela foi reconstruída, a segurança reforçada, mas os atentados continuam. Ano passado, por exemplo, um jovem entrou de carro no Santuário, bateu na grade de proteção da Capelinha, desceu com um objeto de ferro na mão e tentou quebrar a pancadas a redoma da santa. Sorte, o vidro é inviolável.

Santuários. Penitências e orações para Fátima

De joelhos, no caminho dos penitentes. Os mais exaltados circulam todo o espaço em volta da Capelinha das Aparições e voltam até o ponto inicial. Transidos de dor, já que é esse mesmo o sacrifício prometido em troca de graças recebidas. Há de se dizer, a fila indiana de devotos, dobrados e em súplica, não para um minuto. Ela se forma muito cedo, com as primeiras missas no Santuário, e termina muito tarde, ao final da procissão das velas, por estes dias, já quase meia-noite. Passam indiferentes aos olhares, às máquinas fotográficas, no transe da oração e do terço debulhado. Nos rostos e nas vozes apenas murmuradas, as várias nacionalidades do Planeta.

Vêm uns na solidão da experiência pessoal. Vêm outros na solidariedade de famílias inteiras, todas as idades em cumprimento de votos. Tem gente que fica no meio do caminho, frustrada e em débito, depois de arrastar o corpo já todo no chão. Mas há também profissionais nesse negócio de andar de joelhos. Os mais sabidos trazem de casa um engenho fabricado por eles mesmos. Almofadas fofinhas, costuradas a elásticos, para os joelhos. E meias bem grossas em proteção para as pernas e pés sem sapatos. Para completar, bom ter um ex-voto de cera, indicando a parte do corpo salva ou curada por interseção da santa.

Os penitentes ajoelhados não são, claro, a maioria no mar de devotos que chegam a todo instante, no Santuário. Mas, nestes dias que antecederam as comemorações do Centenário das Aparições, da vinda do papa Francisco e do ritual de santificação de Jacinta e Francisco, eles são muitos. Mesmo, são a parte mais impressionante na paisagem local, cujo coração pulsa na Capela das Aparições. É lá o primeiro destino de penitentes determinados, devotos mais ou menos ardorosos, grupos inteiros de religiosos, turistas descrentes em visita de curiosidade, levas de peregrinos que chegam a pé e fatigados, outros nem tanto porque vêm em ônibus fretados. Todos querem ver a imagem original da Nossa Senhora do Rosário de Fátima, protegida em sua redoma de vidro, flutuando no alto da sua coluna de mármore, no exato local onde, cem anos atrás, apareceu aos pastorinhos.

Todos, salvo um velho cão de rua que achou de se instalar bem na entrada da Capelinha. Justo no caminho dedicado aos penitentes, obrigados, nos três dias em que a reportagem do O POVO lá esteve, a adaptarem um pouco a rota. O folgado deve lá estar há muito, pois acostumou-se à multidão, ao som das missas sucessivas, das ladainhas e rosários sem fim e dorme a sono solto bem no local mais povoado do Santuário. Curiosos do inusitado da cena, os visitantes deixam-lhe biscoitos, tentam uma festa na cabeça, fotografam-no, mas nada. Ele não acorda. E a presença do cão que dorme indiferente não é única distração para os que não estão na corrente de rezas em coro e em voz alta. Muitas vezes, em outras línguas.

PEREGRINAÇÃO ÁRDUA: Depois de 9 horas sem parar de caminhar, os quatro peregrinos de Turquel, 50 quilômetros de Fátima, entram no Santuário. Sofia (D), acompanhada do marido Tiago (D), vem caxingando, o pé quase a não poder mais tocar o chão. “Saímos de casa às duas da manhã”, eles contam. Mas, sem tempo para conversas com a reportagem, pois, depois de tanto tempo em movimento, os músculos das pernas estão no limite e fica difícil e doloroso andar de novo depois de uma parada. E é preciso ainda alguns últimos metros para o fechamento da peregrinação: a saudação à Senhora do Rosário, na Capela das Aparições.

SUVENIRES. A água milagrosa embalada

 

Dizem! A água que sai das torneiras da fonte, embaixo do monumento ao Coração de Jesus, bem no centro do Santuário, é milagrosa. A notícia das graças dessa água ainda não correu o mundo, mas os habitantes de Fátima e alguns turistas bem informados vêm à fonte encher garrafas plásticas e vidrinhos de suvenires. Tem gente que leva litros, mas não quer dizer pra o que é.

Em lugar santo e de frente pra Capela das Aparições, o poço da água curadora foi cavado para resolver um problema que começou logo após o fenômeno da Senhora do Rosário. É preciso explicar que o terreno onde as três crianças pastoreavam cabras e ovelhas era seco, pedregoso e árido. Com a chegada, cada vez mais numerosa, de devotos, começou-se um comércio no local, uma espécie de feira selvagem onde se vendia de sopas, copos de vinho, artigos religiosos a baldes d’água, produto raro naquelas bandas. Chovia pouco, não havia poços nem cisternas. Por isso, era caro um copo d’água.

A Igreja mandava para o local algumas vasilhas de água, mas não era suficiente. Assim, em 1932, construiu-se um fontanário com 15 torneiras, tendo em cima o monumento ao Coração de Jesus. Com as outras obras, anos mais tarde, o fontanário foi soterrado, ficando visível apenas o monumento que se vê no lugar ainda hoje. Da fonte, restaram quatro destas torneiras. É delas que sai a água que os devotos bebem, passam no rosto, nas pernas e braços em esperanças de curas. Ou levam para casa, em vidrinhos vendidos no comércio para isso, para parentes e amigos queridos.

CRUZ DE ALECRIM: Joaquim e Gracinda pegam o carro todos os anos e vêm de Montemor-o-Velho, distrito de Coimbra, até Fátima. Uma semana antes, Joaquim começa a pensar no que vai levar. Todos os anos há novidade. Neste, ele preparou uma cruz com ramos de alecrim e galhos de oliveira, tirados do quintal da casa. Só não vem mais vezes ao Santuário porque os ossos doem. O papa, então, só pela televisão.

BUDISTA DEVOTO: O tibetano Lobsang Tsultrim, 50, possui o alto título budista acadêmico para monges - Geshe. Significa dizer que ele é uma espécie de PhD em filosofia budista. Dando palestras pelo mundo, pediu aos hóspedes de Portugal que o trouxessem a Fátima porque o Dalai Lama, que já visitou o Santuário, recomendou-lhe que viesse. “O Dalai Lama me disse que é um lugar sagrado, um lugar muito forte, por isso estou aqui”, comenta.

PIQUENIQUE: Os dois são espíritas, mas vêm este ano ao Santuário, em especial, pedir pela saúde do neto. Com um casal de amigos, Mario e Maria do Sacramento fizeram uma hora de viagem de carro e agora, depois da reza, é já hora do almoço. No estacionamento do Santuário, debaixo da sombra de uma Azinheira e em meio ao barulho do vai-e-vem de ônibus fretados, eles montam rapidamente uma mesinha e tiram caçarolas do porta-malas. Vão se deliciar com um porco estufado, cozidão que leva quatro horas para ficar pronto, feito pela amiga especialmente para a visita ao Santuário. “Estas crianças tinham alto grau de mediunidade”, dizem. “Mas, isso a gente não pode falar por aqui”, completa Mario.

PAGADORES DE GRAÇA

Tocheiro engolidor de velas

Vem de trás da Capela das Aparições aquele cheiro inconfundível de velas queimando. A coluna de fumaça preta anuncia que estamos mesmo ao lado do tocheiro, como se diz por aqui. Na fila, pagadores de promessas e suas velas que podem medir 1,8 metro de altura. Gente que chega com os braços a não poder mais, ao abarcar, de uma vez só, um feixe delas. De todos os tamanhos e formas, elas queimam rápido e em toneladas nessa espécie de fornalha. Um aviso explica que, dado o volume de pessoas, não há como acender as velas da forma tradicional. Melhor jogá-las diretamente ao fogo, em intenção às graças e pedidos.

Mas as gentes têm seus costumes. Poucos passam e jogam maquinalmente as velas. Muitos, ao risco de queimadura do calor intenso que vem das bocas, equilibram as de menor tamanho nos candelabros deixados para dias de menor público e rezam ali mesmo uma Ave Maria, ventres encostados na beira do tocheiro. Para os que trazem ex-votos de parafina, há um setor especial, espécie de depósito em formato de caixa. Mas aquela senhora francesa, chapéu de palha para proteger a cabeça sem cabelos, resultado da quimioterapia, veio jogar a imagem do seu peito de parafina na fornalha mesmo. É para pedir à Senhora que dê forças ao meu corpo para resistir ao tratamento, ela diz.

8 milhões

é o número de visitantes que o Santuário deve receber este ano, segundo dados estimados pela Comarca de Leiria e Fátima. Em 2016, foram 6 milhões de pessoas. Para o dia de hoje, com a visita do papa Francisco, santificação de Jacinta e Francisco e aniversário de 100 anos das aparições, a estimativa é de 1 milhão de pessoas em Fátima.

300 mil

é o número previsto de terços comemorativos do Centenário de Fátima. Desse total, apenas 50 mil são produzidos na Marinha Grande, em Portugal. Por falta de capacidade, o resto é produzido na República Checa. Cada terço custa 12 euros e, para cada peça vendida, 1 euro é destinado à construção de uma residência para adultos com deficiência.

PROFISSÃO DE FÉ

Eterna reciclagem

O tocheiro das velas queima dia e noite. Para dar vazão a tantas toneladas, o funcionário passa, em tempos como estes, 40 dias sem ir em casa. Dorme no Santuário, depois de garantir que os caixotes de velas estão repostos e cheios, antes da famosa procissão das velas, que vem acontecendo todas as noites, na programação do Centenário. Pedro Luz, 57, não para um minuto. Diz que não existe coisa igual no mundo.

Só em agosto do ano passado, mês da tradicional visita a Fátima dos imigrantes, ou seja, portugueses que vivem no estrangeiro e voltam de férias, foram queimados 5 mil litros por dia de velas. “Imagina agora, nesse 13 de maio?” Para dar vazão, o caminhão cisterna fica encostado ali, levando as toneladas de parafina 15 quilômetros além, numa pequena aldeia chamada Mira de Aire, onde as toneladas de parafina vão ser recicladas, transformadas de novo em velas, levadas de novo ao Santuário, vendidas de novo e queimadas de novo. “Ela protege-me!”, diz Pedro. “Se eu acendo velas? Sim, para os meus pais que perdi menino”, responde. “Ela entregou esse trabalho só pra mim!”, explica. “Assim fico aqui, sempre ao pé dela!”.

Pedro Luz aproveita pra dizer que fala cinco línguas. “Queria ser guia turístico, mas Ela me chamou pra cá”, diz. “Aqui é o local da magia”, explica. É aqui que tudo acontece. “Três crianças analfabetas tinham lá capacidade de manter uma mentira assim?”, argumenta, sorriso nos lábios e braços cheios de velas. 

Infográfico

1

Basílica do Rosário

Foi iniciada em 1928 e é dedicada a Nossa Senhora do Rosário de Fátima. É lá que estão sepultados os corpos dos três videntes: Lúcia, Jacinta e Francisco

2

A Imagem de Fátima

Sob a coluna de mármore, na Capela das Aparições, está a primeira imagem esculpida de Nossa Senhora de Fátima, feita em 1920. Em dias solenes, a imagem é adornada por uma coroa toda em ouro e pedras preciosas que leva incrustadas, inclusive a bala do atentado de João Paulo II, em 1981

3

Capela das Aparições

Coração do Santuário, foi o primeiro edifício construído. É o lugar das aparições de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, na Cova da Iria, assinalado por uma coluna de mármore sobre a qual está a primeira imagem esculpida da santa

4

Azinheira Grande

Ao lado da Capela das Aparições, ela tem mais de 100 anos. Protegida por um muro e grades, é a única árvore que restou das que existiam no local, na época das aparições de Nossa Senhora. A Azinheira menor, sobre a qual Nossa Senhora apareceu, foi destruída pela multidão que levou para a casa galhos e pedaços do tronco

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Monumento Sagrado Coração de Jesus

Foi construído no centro do Santuário em 1932. Originalmente, era um fontanário com 15 torneiras. Hoje é visível apenas o monumento ao Coração de Jesus, mas foram deixadas à disposição dos devotos quatro torneiras. Diz-se que a água benta desta fonte tem operado milagres

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Igreja da Santíssima Trindade

Situada na Praça Pio XII, logo na entrada do Santuário, é a mais nova igreja do local, com capacidade para 9 mil pessoas

Aljustrel e Valinhos. Onde nasceram os videntes

Em Valinhos, o local da aparição do Anjo e da Senhora aos videntes Jacinta, Francisco e Lúcia: levas de penitentes passam por lá

Sem Aljustrel e Valinhos, a ida ao Santuário não está completa. Foi lá que os três pastorinhos nasceram, trabalharam na lida com as ovelhas e testemunharam parte das aparições do Anjo e da Senhora do Rosário. É um local a meio do caminho, entre o passado e o presente, digamos. Na pequena aldeia de Aljustrel, ruas estreitas e casas simples, inclusive as pequenas moradias das três crianças. Os ônibus de turismo forçam a passagem e cospem centenas de visitas todos os dias. A população já se acostumou e o comércio de objetos religiosos se multiplica.

Nem é preciso seguir placas em Aljustrel, basta seguir a multidão. Pois, o grande afluxo mesmo é na casa onde nasceram e viveram os dois novos santos da Igreja e a irmã Lúcia. Ambientadas como na época, funcionam como pequenos museus, a entrada é grátis e lá aprendemos como era o cotidiano dos pequenos pastores. Visitar as casas, no entanto, é tarefa difícil. Muita gente se acotovela no exíguo espaço. Por isso, não é o caso de passar muito tempo a entrançar nos minúsculos quartos e ver as camas infantis dispostas. O que se tira da vista é a extrema pobreza em que vivia a família Marto.

Do lado de fora, misturados aos moradores, restam ainda muitos descendentes. Sobrinhos vivos de Jacinta, Francisco e Lúcia, que vivem ainda ali nas vizinhanças, vendo da janela o número de devotos e curiosos se multiplicar por aqueles lados, nas últimas décadas. Com 97 anos, Maria dos Anjos é a parente mais famosa. Uma atração à parte, digamos, para os sortudos que passam por ali bem na hora em que ela costuma botar a cadeira à porta. A reportagem do O POVO não a encontrou, ela anda adoentada, dizem, mas é personagem habitual nos jornais locais.

Casa onde nasceram e viveram os irmãos Francisco e Jacinta

Maria dos Anjos é filha de João, irmão de Jacinta e Francisco, cujos pais – Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus – tiveram sete filhos. Segundo o jornal eletrônico português Observador, Maria dos Anjos tem ainda boa memória. Em entrevista ainda este ano ao Diário de Notícias, conta o que ouvia do pai: “tudo se estava a cumprir conforme eles tinham dito”. Francisco tocava flauta, Jacinta dançava, mas, segundo os parentes vivos, tudo isso se acabou com as aparições. Os meninos passaram a ter horas de rezas, jejuns e outras privações do corpo como sacrifícios à Senhora do Rosário. Além, claro, dos inúmeros interrogatórios de autoridades locais e da multidão que passou a visitar a casa familiar na esperança de uma graça.

Foi em Aljustrel, no quintal da casa dela, ao lado do poço d’água, que Lúcia e os primos viram uma vez o Anjo sem asas. O Anjo apareceu também não muito longe dali, em Valinhos – pode-se ir a pé -, num local chamado Loca do Cabeço, onde ensinou uma oração aos pastorinhos. Também em Valinhos, a Senhora do Rosário, excepcionalmente, apareceu em agosto, inclusive fora do dia de costume, o 13° de cada mês. As três crianças não tinham podido comparecer ao encontro com a virgem, dia, hora e local marcados, porque foram vítimas de uma espécie de rapto e interrogatório, engendrados pelo administrador do Conselho local. As outras aparições da santa foram na Cova da Iria, em Fátima.

Vale dizer, a visita a Valinhos é uma boa surpresa. Cheio de oliveiras, é calma e fresca. O lugar das aparições do Anjo e da Senhora estão marcados e levas de penitentes vêm fazer a via-sacra. No lugar, O POVO cruzou com um grupo de coreanos em preces, pesada cruz de madeira nos ombros do penitente à frente. Em coreano, um rosário inteiro em alta compenetração. Os estrangeiros, aliás, são maioria no lugar. Por isso, há um trenzinho que faz os dois quilômetros do Santuário-Aljustrel-Valinhos, um vai-e-vem que ajuda, e muito, os turistas que não vieram nos inúmeros ônibus fretados.

PROCISSÃO

Devoção ilumina as noites

As velas iluminam as noites de procissão e vigília no Santuário de Fátima

À noite, o Santuário de Fátima é todo luz de velas. Multiplicadas nas mãos de cada devoto, o grande pátio vira um oceano de pequenas chamas, protegidas do vento frio por uma espécie de copo plástico. A missa na Capela das Aparições já vai longe. O padre fala da presença de 51 grupos de peregrinos, recém-chegados de diferentes países. Filipinas, China, Coreia do Sul, Nigéria, Polônia, Eslováquia, Estados Unidos, Brasil. A lista que parece não ter fim ajuda a identificar as várias bandeiras.

Por isso, o padre e seus ajudantes rezam Ave Marias e cantam em outras línguas. Como não há espaço pra todo mundo na Capela, a multidão se espalha, senta em banquinhos trazidos a propósito, são muitas as cadeiras de rodas, grupos se acomodam no chão. Pelo sistema de som, segue-se o desenrolar da missa e espera-se o momento apoteótico, já anunciado pelo padre: a saída de uma enorme cruz brilhante, espécie de neon que, no escuro da noite já alta, pode ser vista de todos os pontos do Santuário. Atrás da cruz, vai o povo, levando suas velas, uma coluna imensa de gente, quase a correr para seguir os passos de quem leva este estandarte iluminado.

No meio da multidão, passos mais calmos, vem o grupo que traz nos ombros o andor da Nossa Senhora de Fátima, a imagem original feita em 1920 e que, excepcionalmente, sai de sua coluna de mármore. A segurança, por isso, é rigorosa. Ninguém se aproxima demais da santa, sob risco de empurrão. Mas, o percurso é pequeno. A procissão circula a grande área aberta do Santuário e já voltam, aos seus lugares de costume, a cruz e a santa.

Agora, nem missa nem mais procissão, é a vez do tocheiro atingir seu ponto máximo. Cada devoto passa ali para jogar na fornalha seu toco de vela. E, depois disso, o Santuário poderia cair num silêncio profundo, sob as luzes dos postes de iluminação elétrica. Mas eis que na Capela já se organizam vigílias de terços madrugada adentro e, no caminho dos penitentes de joelhos, tremulam novas chamas. São os últimos pagadores de promessas do dia, discretos a estas horas, mas inabaláveis.

PRECE E PENITÊNCIA

Grupos organizados vêm de longe

Grupo de sul-coreanos em peregrinação na Via Sacra de Valinhos

Eles têm todos um agente de viagem e um padre. São os grupos organizados que, como bandos de pássaros, se deslocam para um lado e outro do Santuário. À frente de um guarda-chuva fechado ou uma bandeira do país de origem, eles querem tudo ver. Pelo que O POVO apurou, grande maioria está de passagem para outros destinos religiosos, um programa apertado que os deixa, no máximo, dois dias em Fátima. Depois é Lurdes e, via de regra, buquê final, a Terra Santa, em Jerusalém.

Silvia Delgadillo, do México, leva pra onde vai a sua Virgem de Guadalupe, pintada em tecido, que ela exibe como uma bandeira. Mas, foi só o tempo de uma foto, pois já tinha que correr com o resto do grupo para ver o filme oficial do Santuário. A responsável pela viagem, Adriana Lechuga, explica que Nossa Senhora de Fátima e a Virgem de Guadalupe são a mesma, só muda a roupa. Por isso, em todos os santuários que vão, é como se vissem a Senhora de Guadalupe. A prova é o padre Fernando Félix, que, após o filme, chega munido de estoque de santinhos, saco plástico preso na cintura, a distribuir a Senhora dos mexicanos. “É pra quem me pedir”, explica, sorrindo.

Mudança de bandeira. Os 106 franceses vieram em missão de catequese de um grupo de jovens que se prepara para a crisma. De Argelès-Gazost, a apenas 13 quilômetros do Santuário de Lurdes, eles lotaram dois ônibus e fizeram 12 horas de viagem para cumprir uma tradição. A responsável pelo grupo, a portuguesa Maria Arminda Haurine, 50, diz que a ideia é sair de casa e viajar a um lugar santo com espírito de peregrino. “Educar esses meninos para a beleza do que outros fizeram porque tinham fé”, completa. A visita do papa e as comemorações do Centenário, ela e o grupo vão ver em um telão, em transmissão ao vivo, no Santuário de Lurdes.

Os preços altos dos hotéis em Fátima, por estes dias, assustaram e encurtaram a estadia do grupo brasileiro que veio de São José dos Campos, São Paulo. O roteiro religioso vai terminar em Santiago de Compostela, na Espanha. O dono da agência de viagem que traz os brasileiros, Altair d’Ávila, 47, já foi padre franciscano no passado. Por isso, logo que abriu a agência, veio a Fátima e, em Aljustrel, falou com uma sobrinha da vidente Lúcia e pediu que rezasse para que tudo desse certo. Em troca da graça, ele voltaria no Centenário. Deu certo também para Jurema da Conceição Floriano, 76, que se apressou a contar seu milagre. Vim agradecer o pedido para meu filho parar de beber, diz. Desde 2013 não bota uma gota de álcool na boca. Para o agraciado, a mãe leva de presente a imagem benta da santa. 

Obra-símbolo. Coração iluminado de Maria

Cristina Leiria é a artista que fez a escultura símbolo do Centenário

De queixo caído fica quem se aventura em visitas ao ventre do Santuário - uma ala de salas de exposição e capelas no subsolo - e entra inocente no anexo da Capela do Santíssimo. Pois é lá que está exposto o símbolo oficial do Centenário das Aparições, uma enorme obra de arte que mostra um coração suspenso nas mãos de Deus. Não é um coração qualquer, diga-se, é o de Maria. Os devotos que lá chegam descobrem na hora a simbologia. Mas há uma surpresa que faz muita gente chorar de emoção.

Foto: Cristina Leiria

No meio do coração iluminado e coroado, um espelho. Isso mesmo, onde a visita vê-se dentro do coração de Nossa Senhora. Foi por isso que a advogada mexicana Ângela Guarneros, 52, desfez-se em prantos quando aproximou-se para ver do que se tratava e entendeu, de imediato, todo o conceito da obra. “É impactante”, resumiu. “Choro de agradecimento por esse coração cheio de luz”, acrescentou a devota da Virgem de Guadalupe. Ela ainda ia peregrinar em Lurdes, depois era a volta pra casa. Mas leva para sempre a lembrança dessa experiência diante do coração da Senhora, disse.

O coração veio para o Santuário há quatro anos. A artista, Cristina Leiria, 71, pensou primeiro em fazer o grande Anjo sem asas que apareceu aos pastorinhos. Uma divindade do Ocidente, já que, tempos atrás, tinha feito uma do Oriente, explica ela, referindo-se a uma imagem da deusa da compaixão e da misericórdia, Kuan Yin, que ela esculpiu em Cantão, na China. Mas o cliente preparava já o Centenário, queria o Imaculado Coração de Maria. Encomenda nas mãos, ela então fez as malas e voou para o Brasil. Mais precisamente para o Ceará, onde tinha amigos e poderia beber de outras inspirações. “Ia pensando em Iemanjá”, diz.

Escolheu um espaço de silêncio e paz, a Oca dos Índios, uma pousada à beira da praia, em Beberibe, Litoral Leste do Ceará, e começou um difícil processo de criação. Na cabeça de Cristina, perguntas sem respostas. Por exemplo, onde sustentar o coração de Maria? Inaceitável, para ela, que ele ficasse banalmente pousado sobre uma base. A mente dando voltas em torno dos problemas, ela lançou mão de uma dieta libertadora à base de água de coco e alimentos leves. As ideias fluíram, finalmente, e ela foi construindo, com argila trazida de Cascavel, os primeiros moldes das imensas mãos divinas sustentando o coração ferido de espinhos da virgem.

Concepção concluída, a obra foi esculpida na cidade do Porto, na volta dela a Portugal. O trabalho todo tem três metros de altura. As mãos de Deus são de madeira lacada, o coração e a coroa são feitos de um tipo de resina, a iluminação é a bateria. O que deu mais trabalho, conta Cristina, foram os espinhos, todos feitos de folhas de ouro. A técnica de trabalhar folhas de ouro ela aprendeu com o avô, artista restaurador. Muito difícil de fazer, explica. Tão precisa essa fase da escultura que ela teve que fazer uma cirurgia de catarata pra ter olhos novinhos e o resultado ficar perfeito.

Os espinhos que ela costurou em folhas de ouro são uma referência à visão da vidente Lúcia, quando Nossa Senhora abre as mãos que estavam postas e mostra “um coração cercado de espinhos que pareciam estar-lhes cravados”, conta ela no Santuário. “Tenho muito amor dentro de mim”, diz Cristina, mãos igualmente postas no próprio coração. “Foi isso que eu quis passar”, acrescenta a artista, também devota de Fátima.

Com a chegada de um novo grupo de turistas boquiabertos, Cristina corre em socorro. Em inglês, ela se apresenta, sorriso rasgado no rosto, mostra às visitas novos aspectos e ângulos da obra de arte e tem um prazer quase infantil em tirar fotos dos espelhados no coração de Maria. Câmera fotográfica alheia nas mãos, ela borboleteia de um lado a outro do coração, criando para a visita novos cenários e poses. “Gosto que eles toquem”, diz a artista. “A obra não pode ser um objeto distante, inatingível”, completa. Ela fica feliz com o sucesso do seu trabalho, mas acha que não fez isto sozinha. “Foi com ajuda do Alto. Fui só o veículo”.

PARA CONHECER

Mais sobre o trabalho da escultora portuguesa Cristina Leiria no site:
www.cristinarochaleiria.com

Ariadne Araújo

FÉ QUE TOCA

A magia chama

Vai-se a Fátima por muitas razões. Nem todas católicas, diga-se. Vezes é levar amigos muito devotos, alguns com dívidas velhas à santa. Outras é levar turistas com lista de coisas a ver em Portugal. Mas, vai-se, sempre. Fátima chama, dizem. Inevitável, deixa-se uma vela acesa, uma Ave-Maria sob encomenda. Às vezes, assiste-se à missa completa, traz-se terço, vidro de água benta. E, nestas idas tantas, sem que se note, o coração amolece. Vez derradeira foi a trabalho. A editora Fátima me expediu. “A santinha já fez muito por mim”, acrescentou.

Voltei ao Santuário levando pedidos de orações e textos a escrever. Dessa vez, o lugar transbordava de gente, levas de peregrinos, cheiro de centenas de velas queimando, murmúrio incessante das ladainhas, histórias de graças, lágrimas de emoção, penitentes de joelhos em agonia física da paga da promessa. Explosão de fé que toca. Energia pura. Deixei os agradecimentos das graças alheias aos pés da santa e me atrevi a incomodar Fátima com pedido meu. Novata em devoção, fui conquistada por essa aparição velha de 100 anos. E o distante fenômeno do 13 de maio na Cova da Iria que eu, menina pequena, tantas vezes ouvi abismada, materializou-se para mim. Ficou promessa amarrada nos mistérios de Fátima. As voltas futuras não têm data, tampouco razão. A gente vem porque a magia chama. Isso basta. 

ARIADNE ARAÚJO é jornalista: trabalho e estreia na devoção

Paróquia de Fátima. A devoção mariana

A Paróquia Nossa Senhora de Fátima fica localizada na av. 13 de Maio, s/nº

A devoção à Nossa Senhora de Fátima em Fortaleza encontra uma referência forte na igreja dedicada à Santa. Instalada na avenida 13 de maio, o templo que fez surgir o bairro tem congregado cada vez mais fiéis em uma intensa peregrinação mariana. A cada dia 13, o mar branco toma conta da área.

São milhares de fiéis que recorrem à intercessão de Fátima. Cerca de 40 mil pessoas passam pela Paróquia de Fátima (aclamada santuário popularmente) em todo dia 13. Em maio e outubro, meses especiais que incluem a procissão do Carmo à Fátima, esse número dobra, de acordo com o padre Ivan de Souza, pároco da Igreja de Nossa Senhora de Fátima. A fé continua a mover as pessoas. “As pessoas se colocam muito nos testemunhos dos pastorinhos, que nos pedem oração, penitência e conversão, como a mensagem de Fátima nos ensina. E a gente atualiza isso para os nossos dias. Afinal, a nossa oração é uma resposta ao dia a dia, a fé é uma resposta à vida”, justifica o pároco.

Para padre Ivan, a figura de Maria como mãe é um elemento especial que atrai os fiéis. “Maria tem esse ‘chama’ de mãe, que reúne, que acolhe, que vem pra unir. E a Virgem de Fátima é especial”, acrescenta. Os filhos vêm de todo lugar. Há caravanas que chegam de madrugada de outras cidades da Região Metropolitana. Saem na noite anterior para chegar cedinho à igreja. “Parece que tem algo místico que move essa gente, algo que diz assim: aqui tem um sinal de salvação para você”, comenta.

Os testemunhos são muitos. Da mulher que consegue engravidar, do emprego conquistado, da vitória na luta contra a dependência química, lista. “Uma das coisas que muito me surpreendem é a confiança em Nossa Senhora. Ela é uma intercessora que não falta, que não falha, é fiel”. Só é preciso cuidado, ressalta, para que a devoção à Maria não se sobreponha à adoração a Cristo. O trabalho de evangelização, portanto, é enfatizado na crença de que Jesus é o centro da fé cristã católica e que Nossa Senhora é o caminho, destaca padre Ivan.

Neste 2017, em que a Igreja instituiu o Ano Mariano, devido aos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida, os 100 anos das aparições de Fátima se relacionam com as comemorações. Padre Ivan analisa os 300 de Aparecida e os 100 de Fátima como “uma feliz coincidência de Deus”. Explica: “Em 1917, em Fátima, era período de guerra e ela dizia: irmão não pode matar irmão. Em 1717, em Aparecida, vivia-se o período da escravidão e ela trouxe uma mensagem: irmão não pode escravizar irmão. Atualizando isso para hoje, percebemos os sinais de Deus, compreendemos a mensagem da Mãe. Querem até nos escravizar quando ameaçam tirar os nossos direitos, as nossas conquistas trabalhistas”.

Para celebrar o Ano Mariano, padre Ivan promete que colocará uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, na Paróquia de Fátima, a fim de marcar as comemorações da mesma Mãe de Deus.

PÁROCO: Padre Ivan de Souza, 56, assumiu o cargo de pároco na Igreja de Fátima no início do ano de 2008. Ele é o quarto pároco a estar à frente da Igreja. Esta é a segunda vez que padre Ivan atua em uma paróquia de Nossa Senhora de Fátima. A primeira foi na cidade do Crato (CE), na Região do Cariri, onde nasceu.

SAIBA MAIS

1. A TRADIÇÃO: Em Fortaleza, a tradição de se comemorar a primeira aparição de Nossa Senhora de Fátima começou em 1952, quando a imagem peregrina da santa visitou a capital cearense pela primeira vez. Foi o que mostrou O POVO em 14/5/1992. Na falta de um local apropriado, onde os fiéis pudessem ver a imagem vinda de Portugal, foi escolhido o terreno onde hoje estão a Igreja de Fátima, o Colégio Santo Tomás de Aquino e a Praça Pio IX. Após a repercussão da festa, o dono do terreno, o empresário Pergentino Ferreira, doou a área para se reerguer a Igreja de Fátima, cuja construção foi iniciada em 1955. A Igreja de Fátima completará 62 anos em setembro deste ano.

2. A ESTÁTUA: A estátua de Nossa Senhora de Fátima, na Praça Pio IX, em frente à Igreja, foi inaugurada em 13 de maio de 2008. À época, houve um dia inteiro de comemorações. É um trabalho do artista plástico Franciner Macário Diniz. A imagem tem 15 metros de altura: 1,5 metro de base, 13 metros da santa e 0,5 metro da coroa. Foi montada sobre ferro, brita, cimento e gesso.

3. AS CELEBRAÇÕES DO DIA 13: Em todo dia 13, as missas na Igreja de Fátima, na avenida 13 de Maio, são celebradas nos seguintes horários: às 5 horas, 6 horas, 7h30min, 9 horas, 10h30min, 12 horas, 14 horas, 15h30min, 17 horas e 18h30min. Nos dias 13 de maio e 13 de outubro, há procissão saindo da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, no Centro, até a Igreja de Fátima. Na chegada, é celebrada a última missa do dia: às 20h30min.

FERNANDO ANTONIO

O filho que é milagre da Santa

Juliana e Fernando Viana são um exemplo de que a fé e a persistência ajudam em conquistas inimagináveis. Aos três anos de casados, não conseguiam engravidar. Um filho? “Naturalmente só um milagre” - foi o que ouviram de um médico, para o quase desestabilizar do casamento. Mantiveram-se firmes.

Procuram ajuda de outro especialista e o impossível se tornou no muito difícil. Sopro de esperança. “Os exames realmente não eram bons. Começamos os tratamentos e os exames, bastante dolorosos, física e emocionalmente”, narra Juliana.

No fim daquele ano, o casal programou uma viagem à Europa. No roteiro, uma passagem em Fátima, Portugal. E lá viveram uma experiência incrível. “A cada igreja que a gente ia, a gente fazia um pedido. O meu era um só - quero engravidar de forma natural. Queria que fosse a vontade de Deus. E lá em Fátima, fizemos uma promessa”. Juliana e Fernando acenderam uma vela aos pés de Nossa Senhora e pediram um filho - de forma natural, repetia. Se ele viesse, voltariam lá, os três, para agradecer pelo milagre e consagrar a criança à Virgem de Fátima.

Pediram e acreditaram. Na escadaria da igreja, antes de irem embora, um sinal. Uma senhora pediu ajuda para subir os degraus. O casal ajudou e ouviu da mulher um agradecimento em forma de bênção: “Toda graça que vocês pediram hoje foi alcançada”. Juliana lembra e se emociona. Ali tinha certeza de que o milagre viria. “Aquilo mexeu muito com a gente”, exclama. Vinte dias depois da viagem, já de volta a Fortaleza, retomaram o tratamento. Nem foi mais necessário. Juliana estava grávida.

“Pedi com muita fé, como nunca pedi nada na vida. Isso mudou minha relação com Nossa Senhora. A fé muda e passei a me apegar muito mais a ela. Hoje, se eu fraquejo, meu marido me lembra: para Deus, nada é impossível. E ela ajuda”, conta a mãe de Fernando Antonio, hoje com dois anos e meio - mais um milagre de Fátima. A família foi com o pequeno, aos 6 meses, a Fátima (Portugal), consagrá-lo à Nossa Senhora. Pedido feito, milagre recebido, bênção agradecida.

TESTEMUNHO

Sou filho de Fátima

Marcelo Andrade

A minha relação com o dia 13 de maio vem desde o meu primeiro sopro de vida. É com orgulho que minha mãe fala sobre a alegria de saber que o primogênito nasceria no dia 13, dia dedicado à Nossa Senhora de Fátima. Quando você nasce numa família católica, numa cidade do Interior (no meu caso, Campos Sales), aniversariar a 13 de maio é uma graça divina.

Desde pequeno, o dia 13 é dedicado a agradecer aos pés de Nossa Senhora de Fátima. De participar da procissão com o andor da Virgem pelas ruas, entoando “A 13 de maio na Cova da Iria”, e de sempre rezar pedindo a intercessão da Mãe antes de partir o bolo. Lembro bem que aos 10 anos o presente de aniversário dos meus pais foi uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, a qual tenho comigo até hoje. Não são poucos os amigos que sempre se lembram do meu aniversário, graças à Nossa Senhora de Fátima. Alguns defendem que eu deveria me chamar “Fátimo”. Nessas horas, eu respondo com um sorriso, feliz de ser lembrando por meio da Mãe de Fátima.

Neste ano, a festa do dia 13 tem um caráter particular. Tenho dois motivos para comemorar. São três décadas de vida e um século da primeira aparição em Fátima. E como todo 13 de maio, é dia de acordar cedinho, participar da missa às 5 horas da manhã na igreja de Fátima e me juntar a milhares de filhas e filhos de Fátima que, assim como eu, sentem muita felicidade em chamá-lá de “Mãe”.

MARCELO ANDRADE, jornalista, devoto de Nossa Senhora, nascido no dia 13 de maio.

Fátima, um grito de Deus ao mundo

Por PADRE RAFHAEL SILVA MACIEL*

Em 13 de maio de 1917 um evento especial começou a manifestar-se para o mundo, quando três crianças, Lúcia, Jacinta e Francisco, de origem muito simples recebiam a primeira visita da Mãe de Jesus, na Cova da Iria, em Fátima, Portugal.

As mensagens tinham como assunto central a conversão e a penitência, “tal é a mensagem de Fátima, com seu veemente apelo à conversão e à penitência. E isso se pode concluir do texto de Ir. Lúcia: “O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: penitência, penitência, penitência!” .

Fátima foi um grito de Deus e clamava por uma resposta humana e da Igreja. Bento XVI disse que a resposta para a mudança e do enfrentamento do mal “não consiste em grandes ações políticas, mas, ultimamente, pode chegar somente da transformação dos corações”. Fátima transformou-se num altar do mundo, de onde emana o convite à conversão dos corações. João Paulo II disse que “a meta última do homem é o Céu, sua verdadeira casa onde o Pai celeste, no seu amor misericordioso, por todos espera”.

Cem anos passados e a mensagem de Fátima “é, sem dúvida, a mais profética das aparições modernas”, porque denuncia o mal presente no mundo e a necessidade de conversão pessoal para a mudança da realidade. Por isso, “na sua solicitude materna, a Santíssima Virgem veio aqui” e “dizia aos pastorinhos: ‘Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas’” (J. Paulo II).

Atualizar Fátima é fazer com que a sua mensagem encontre eco no coração de cada pessoa. A penitência e a oração serão meios eficazes na luta contra o mal, o materialismo, a busca extenuante pelo prazer e o poder. Para isso, o pedido da Mãe aos pastorinhos para a oração do Rosário é agora para nós. Assim, seguimos “a admoestação que a própria Nossa Senhora nos deu: a da oração e da penitência; e, por isso, queira Deus que este quadro do mundo nunca mais venha a registar lutas, tragédia e catástrofes, mas, sim, as conquistas do amor e as vitórias da paz” (Paulo VI).

Celebramos com alegria os 100 anos das aparições da Virgem de Fátima, e “cada um de nós é chamado a ser, com Maria e como Maria, um sinal humilde e simples da Igreja que continuamente se oferece como esposa nas mãos do seu Senhor” (Bento XVI).

*Reitor do Seminário Propedêutico de Fortaleza; Missionário da Misericórdia

Aparições da Virgem, um insistente apelo à oração

por VASCO ARRUDA*

No verbete Oração, escrito especialmente para a magistral Enciclopédia de Fátima, Manuel de Fátima e Oliveira Morujão afirma: “A oração é um ponto essencial para compreender as aparições e o fenômeno de Fátima. Sem oração, Fátima seria incompreensível, degeneraria em esoterismo ou folclore, num mero fenômeno de massa” (p. 175).

O Anjo da Paz, que antecedendo Nossa Senhora, apareceu por três vezes aos pastorinhos entre a primavera e o outono de 1916, logo na primeira manifestação se dirige aos três infantes com estas palavras: “Não temais! Sou o Anjo da Paz. Orai comigo”. A seguir, pondo-se de joelhos, inclina a fronte até o chão e convida os três para que rezem com ele a oração: “Meu Deus! Eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam”. E a própria Virgem, na última aparição, no dia 13 de outubro de 1917, se apresenta com essas palavras: “Sou a Senhora do Rosário”, fazendo, a seguir, a conclamação: “Rezai diariamente o terço”.

Usando a expressão do autor citado no início deste artigo, pode-se afirmar que Fátima se tornou, ao longo destes cem anos de história, uma “Escola de oração”. É impossível postar-se ante a imagem compassiva de Nossa Senhora de Fátima sem que nos sintamos imediatamente compungidos a nos recolher em uma prece silente e atenciosa. É como se o doce e compassivo olhar da Virgem penetrasse diretamente a nossa intimidade sussurrando quase num murmúrio: “Acolhe o meu convite para que eu acolha tuas súplicas e as leve ao meu Filho que muito te ama”.

Há dez anos tive o privilégio de peregrinar a Fátima, ocasião em que pude testemunhar a veracidade da assertiva de Manuel de Fátima e Oliveira Morujão: “De fato, é isso que se faz em Fátima: reza-se de muitos modos, cumprindo promessas de joelhos em terra e terço na mão, participando na Eucaristia, ouvindo a palavra de Deus, desfiando as contas do rosário, cantando, pedindo e agradecendo, de olhos fitos na imagem de Nossa Senhora e num silêncio que diz tudo...” (p. 378).

*Psicólogo e membro da Academia Brasileira de Hagiologia 

Liturgia da Celebração de 13 de maio de 2017. Nossa Senhora de Fátima

A missa desta data celebra os 100 anos das aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos, em Fátima (Portugal)

MEMÓRIA FACULTATIVA
RITOS INICIAIS

A memória remete às aparições de Nossa Senhora a três adolescentes em Fátima, Portugal (1917). Sua mensagem pedia orações pela conversão e pela paz mundial. Que Nossa Senhora nos ajude a ser mais comprometidos com a paz e com a dignidade de cada pessoa.

Antífona da entrada: Os discípulos unidos perseveraram em oração com Maria, a mãe de Jesus, aleluia! (At 1,14)

ORAÇÃO DO DIA

Ó Deus, que vos dignastes alegrar o mundo com a ressurreição do vosso Filho, concedei-nos
por sua mãe, a Virgem Maria, o júbilo da vida eterna. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

LITURGIA DA PALAVRA

A vivência da palavra de Deus é prenúncio de felicidade, pois ela nos leva a reconhecer o Senhor Deus como artífice da justiça e nos faz exaltar a sua glória diante dos povos.

LEITURA (ISAÍAS 61,9-11)

Leitura do livro do profeta Isaías -

A descendência do meu povo será conhecida entre as nações, e seus filhos se fixarão no meio dos povos; quem os vir há de reconhecê-los como descendentes abençoados por Deus. Exulto de alegria no Senhor e minha alma regozija-se em meu Deus; ele me vestiu com as vestes da salvação, envolveu-me com o manto da justiça e adornou-me com um noivo com sua coroa ou uma noiva com suas joias. Assim como a terra faz brotar a planta e o jardim faz germinar a semente, assim o Senhor Deus fará germinar a justiça e sua glória diante de todas as nações. – Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL 44(45)

Escutai, minha filha, olhai, ouvi isto!

1. Escutai, minha filha, olhai, ouvi isto: / “Esquecei vosso povo e a casa paterna! / Que o rei se encante com vossa beleza! / Prestai-lhe homenagem:
é vosso Senhor!

Escutai, minha filha, olhai, ouvi isto!

2. Majestosa, a princesa real vem chegando, / vestida de ricos brocados de ouro. / Em vestes vistosas ao rei se dirige, / e as virgens amigas lhe formam cortejo.

Escutai, minha filha, olhai, ouvi isto!

3. Entre cantos de festa e com grande alegria, / ingressam, então, no palácio real”. / Deixareis vossos pais, mas tereis muitos filhos; / fareis deles os reis soberanos da terra.

Escutai, minha filha, olhai, ouvi isto!

EVANGELHO (LUCAS 11,27-28)

Aleluia, aleluia, aleluia.
Feliz quem ouve e observa a palavra de Deus! (Lc 11,28)

Proclamação do evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas – Naquele tempo, enquanto Jesus falava, uma mulher levantou a voz no meio da multidão e lhe disse: “Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentarem”. Jesus respondeu: “Muito mais felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”. – Palavra da salvação.

PRECES DA ASSEMBLEIA

1. Pela Igreja no Brasil, para que faça deste Ano Mariano ocasião propícia para aprender com Nossa Senhora a crescer na fidelidade à palavra de Deus, rezemos.

AS: Pela intercessão de Maria cheia de graça, ouvi-nos, Senhor.

2. Pelas nossas autoridades, para que se preocupem com a situação dos pobres e desvalidos, rezemos.

3. Pelos que vivem o mistério do sofrimento, para que a fortaleza de Maria lhes dê esperança, rezemos.

4. Pelos cristãos que andam tristes, para que sintam a presença da mãe consoladora, rezemos.

5. Pelos jovens das comunidades, para que sejam mensageiros da paz e da solidariedade em seus círculos de convivência, rezemos.

Preces espontâneas.

LITURGIA EUCARÍSTICA

Exultemos no Senhor, porque ele nos prepara mesa farta onde todos podemos partilhar o alimento sagrado.

SOBRE AS OFERENDAS

Festejando a Virgem Maria, nós vos trazemos, ó Deus, nossas oferendas. Venha em nosso socorro o vosso Filho feito homem, que se ofereceu na cruz em oblação puríssima. Por Cristo, nosso Senhor.

Antífona da comunhão: Alegrai-vos, virgem mãe! Cristo ressurgiu do sepulcro, aleluia!

DEPOIS DA COMUNHÃO

Ó Deus, confirmai em nossos corações os mistérios da fé, para que, proclamando o Filho da Virgem verdadeiro Deus e verdadeiro homem, cheguemos à felicidade eterna pelo poder da sua ressurreição salvadora. Por Cristo, nosso Senhor.

De pobres pastorinhos a santos videntes

A mãe de Lúcia não acreditou assim fácil. Botou a filha debaixo de confissão, ameaçou mostrar-lhe o que era sofrer se ela não contasse a verdade. A menina, em coro de voz com os dois primos, Jacinta e Francisco, insistia que tinha visto e falado com uma Senhora que trazia um rosário, na Cova da Iria. Segundo eles, tudo começou com uma espécie de relâmpago. Eles, pensando que ia começar a chover, acabaram as brincadeiras e preparam-se para levar as ovelhas de volta pra casa. Mas, de repente, em cima de uma pequena azinheira, viram a imagem de uma mulher toda de branco e mãos postas. Era a primeira das seis aparições de Nossa Senhora de Fátima.

Dizem os documentos da época, o 13 de maio da primeira aparição na Cova da Iria, era um domingo como qualquer outro, naquelas terras de gente pobre e analfabeta, que vivia da agricultura e criação de animais. Tanto fazia, nos fins de semana e nos dias úteis, a criançada ajudava os pais no pastoreio do rebanho. A Cova da Iria, em particular, não passava de um descampado pedregoso, o mato crescia selvagem e as ovelhas que pastavam buscavam sombra e algo a comer debaixo das azinheiras, carrasqueiras e oliveiras que existiam no lugar. Os três primos nunca tinham ido à escola, situação comum por aquelas bandas, e passavam os dias entre o trabalho de pastoreio, brincadeiras e a obrigação de rezas de terços. No caso deles, tão pequenos, meio às pressas.

Os pastores foram, digamos assim, preparados para as aparições que viriam. Na primavera de 1916, um ano antes das aparições da Senhora do Rosário, eles estavam como de costume, com suas ovelhas e não muito longe de casa - lugarejo era Valinhos, no alto do Cabeça do Loca. Deve ter sido espantoso ver, então e de repente, bem no alto de uma colina e entre o matagal, uma cena sobrenatural. Em meio a rajadas de vento e dentro de uma luz brilhante, um jovem, segundo eles aparentava ter entre os 14 e 15 anos, surgiu do nada. Vendo o pânico nos três rostos abismados, ele diz : “Não temeis! Rezai!”.

Os registros históricos dão conta que os três pastores viram o Anjo sem asas ainda outras duas vezes. Uma, inclusive, no quintal da casa de Lúcia. O Anjo ensinou aos três uma oração e deu-lhes a comunhão – o cálice e a hóstia consagrada flutuavam no ar enquanto rezavam juntos. Hoje, em Valinhos, no exato local desse fenômeno, vê-se uma estátua dos meninos e Anjo, em representação da cena. É, inclusive, um dos pontos de peregrinação dos devotos mais bem informados, já que em Valinhos dá-se também uma das aparições da Senhora do Rosário. Mas, voltemos à primeira vez, para aquele domingo na Cova da Iria, a santa pairando sobre uma pequena azinheira.

Lúcia perguntou logo: “ de onde a senhora é?”. A santa apontou para cima e disse: “do céu”. Os três ajoelhados, mas só Lúcia, a mais velha, podia ver, ouvir e falar. Jacinta via e ouvia, mas não falava. Já Francisco, só via. Começa aí um diálogo onde a Senhora do Rosário pergunta às crianças se eles querem oferecer a vida deles a Deus e marca para o mês seguinte, mesmo lugar, mesma hora, mesmo dia 13, a segunda de seis aparições que fará. Os três saíram de lá com pacto de segredo. Mas, na hora da janta, a mais nova, Jacinta tinha apenas 7 anos, bate com a língua nos dentes. O caso começaria assim, a se espalhar, de boca em boca, pela vizinhança.

No mês de agosto de 1917, a Senhora do Rosário fez sua aparição em Valinhos, muito perto da casa dos pastorinhos ( Robert Frans/ Especial para O POVO)
 

O segredo revelado em 2000

Junho de 1917, os três meninos já não estão mais sozinhos na Cova da Iria. Um punhado de curiosos veio também, negócio de dar uma espiada no fenômeno. Nesta segunda aparição, a Senhora do Rosário abre as mãos que estavam postas e mostra o Coração Imaculado, avisa que vai levar para o céu dois dos pastorinhos, Jacinta e Francisco, e que Lúcia fica mais tempo na Terra. Mas, a aparição mais quente, digamos, é a seguinte, a terceira delas, a de julho. É neste momento que a Senhora revela o famoso segredo que foi dividido, nos escritos de Lúcia, em três partes. Ele fala da visão do inferno, do sofrimento dos bons, de nações aniquiladas, da conversão da Rússia e de um bispo vestido de branco que será morto.

João Paulo II, logo após o atentado de que foi vítima, em 1981, em Roma, acreditou que tinha sido salvo por interseção de Nossa Senhora e que era isto a que referia-se a visão profética dos pastorinhos, em Fátima. Vale dizer que o cardeal Joseph Ratzinger, papa emérito Bento XVI, não personalizou esta visão. Para ele, a profecia refere-se a todos os papas. Lúcia guardou com ela esta terceira parte do segredo e só em 1944 relatou a totalidade da visão profética em uma carta. O documento, no entanto, só foi revelado ao público em 2000, ano da beatificação dos dois primos pastores, Jacinta e Francisco. (Ariadne Araújo)

O dia em que o sol dançou no céu

A Senhora do Rosário tinha avisado: “em outubro proclamarei quem sou”. Por isso, já no meio-dia, na Cova da Iria, uma multidão, encharcada da chuva torrencial, que caía sem parar, aguardava o milagre anunciado e esperava graças para os seus problemas. As três crianças chegaram mais tarde, com os pais – Jacinta com a cabeça coberta de flores. Maria Rosa, a mãe de Lúcia, com medo que tudo aquilo terminasse mal, caso não houvesse milagre nenhum, resolveu acompanhar para defender filha. Os pastorinhos se ajoelharam diante da aparição. Lúcia transmitiu o recado - todos devem fechar os guarda-chuvas. É hora do sinal prometido.

De repente a chuva parou, as nuvens se dissiparam. Lúcia gritou, dedo apontado para cima: “Olhem o sol!”. A massa de crentes e descrentes levantou os olhos e viu, então, algo espantoso. Como um disco fosco, podia-se olhar sem ferir os olhos tal e qual um eclipse solar, eis que o sol começou a girar ao redor do próprio eixo, subindo e descendo, em movimentos nunca imaginados. “Milagre, milagre”, gritavam alguns, caindo na terra lamacenta de joelhos. Dizem, o espetáculo foi visto num raio de até 40 quilômetros de distância. O alarido foi, aos poucos, se acalmando. No dia seguinte, o jornal O Século, que tinha enviado jornalista ao local, publicou na primeira página a espantosa notícia: “Como o sol bailou ao meio dia em Fátima”.

A Igreja nunca deu crédito a esse milagre do sol, os psicólogos dizem que foi sugestão, outros que foi alucinação coletiva. Mas o caso é que quem viu não duvidou mais. A mãe da Lúcia, que até então achava que a filha tinha inventado esta história, voltou para casa com a cabeça a girar. Teria dito aos filhos - segundo imagens de arquivo de Maria dos Anjos, uma irmã de Lúcia, divulgadas pela Rede de Televisão de Portugal (RTP) -, que “ninguém tinha tocado no sol, não. Tinha sido o dedo de Deus que tinha feito aquilo”. Foi também a partir daí que os meninos começaram a ser chamados pela boca do povo de “santinhos” e que a vida deles e de toda a cidade mudaria para sempre. Era a última das aparições da Cova da Iria.

Vida e morte dos pastorinhos

Casa de Jacinta e Francisco, em Aljustrel

Com 10 anos, Lúcia Rosa era mais velha que os dois outros primos diretos, Francisco, com 9 anos, e Jacinta, com apenas 7 anos. Dizem que, de crianças normais como as tantas outras de Aljustrel, eles mudaram de comportamento depois das aparições. Francisco sempre muito sério, não tinha mais tempo para tocar pífano. Jacinta, ainda muito criança, tagarela e que gostava de dançar, também já não era a mesma. Os três faziam penitências diárias, jejuns e privações de água, rezavam terço atrás de terço e suportavam ainda, de quebra, os ferozes interrogatórios das autoridades civis e religiosas da época.

Chegaram a ser presos e ameaçados de morte como forma de pressão para confessarem que tudo era mentira. A casa dos pais vivia cheia de curiosos e gente pedindo graças. O terreno da Cova da Iria não prestava mais para o pastoreio. Pisado e repisado por devotos novos, transformava-se em local de culto da Senhora do Rosário e já abrigava um pórtico simples de madeira, marcando o local das aparições. Mas, o sofrimento das perseguições e interrogatórios estava longe de ser o pior. Como a Senhora das aparições tinha avisado, os dois irmãos pastores teriam vida breve e morte dolorosa.

No final do ano de 1918, uma terrível gripe pneumônica se abateu sobre Portugal. No mundo, segundo os jornais, foram mais de 40 milhões de mortes. Na pequena casa dos Marto a situação era de desespero. Francisco e Jacinta adoeceram quase ao mesmo tempo – os pais perderam ainda outros dois filhos. Foram cinco meses de agonia para o menino. Segundo a família, ele não tinha medo nem reclamava, dizia que iria para o céu e que era a vontade de Deus. Jacinta foi a que sofreu mais. Foi internada, meses no leito de hospitais por conta de um abcesso que se abriu no peito, infecto e doloroso.

Os médicos ainda tentaram uma cirurgia com os recursos que tinham, ou seja, anestesia local que nem pegava nesse tipo de ferida, para tirar o pus, desinfetar a área e ainda serrar um osso. Jacinta, coragem rara para criança tão pequena, dizia apenas e baixinho: “Ai, meu Jesus!”. A operação não deu jeito. A menina morreu em fevereiro de 1920. Quando, anos depois, trasladaram os dois pequenos corpos para a Basílica do Rosário, dentro do Santuário de Fátima, onde estão até hoje, testemunhas contam que o rosto da menina estava intacto.

Lúcia não foi tocada pela peste. Após a morte dos primos, foi lavada pelos padres para receber instrução e se afastar multidão que tentava vê-la noite e dia. Com 14 anos foi entregue a um colégio de irmãs doroteias do Asilo de Vilar, no Porto, para fazer os primeiros anos de primário. Como deveria manter-se incógnita e não atrair atenção sobre ela, ganhou um novo nome de Dores. Passou um tempo em um convento na Espanha e quando volta à Portugal já vem freira. Em 1948, Lúcia ingressa no Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra, onde fica, até a morte, na clausura. Morreu idosa, em 2005, tendo deixado já revelado a terceira parte do segredo de Fátima. 

Como as celebrações movimentaram os negócios em Fátima

Os brasileiros são bons fregueses em Fátima, dizem os comerciantes. Em geral, não compram nada grande ou caro. Mas voltam para casa com as mãos cheias de uma infinidade de lembranças do Santuário: tercinhos, medalhas, pingentes. De lei mesmo, o que não pode faltar na mala de um devoto brasileiro é a imagem da Senhora do Rosário. A menor, pra caber na mala. Mas, nestes tempos de celebração do Centenário e a visita do papa Francisco, a carteira se abre mais facilmente.

A sergipana Mônica de Oliveira já tem a imagem de Fátima, comprada pela família há anos. Agora ela aproveita para levar a coroa que falta. Fora de questão que não seja cópia exata da que orna a cabeça da imagem original da Senhora do Rosário, que está na Capela das Aparições. Folheada a ouro e cravejada de pedras, o preço deve ter sido alto, mas ela não quer falar disso, paga sem pechinchar. A funcionária que fez a venda explica que os produtos se vendem bem, se forem feitos em Portugal.

Se vêm da China ou não, o caso é que fazem sucesso as imagens fluorescentes da santa, os mais diversos tamanhos e preços, que, segundo consta, ficam bem nos quartos de crianças porque à noite se iluminam. Outro xodó por aqui, mas desta vez bem mais no gosto das clientes brasileira, são as bonecas de porcelana. “Não sei porque, mas os brasileiros são os únicos que compram. As avós, então, ficam loucas por elas, levam para as netas”, conta Lúcia, a vendedora. De loja em loja, as surpresas se multiplicam.

Garrafinhas de água benta de Fátima, água de colônia da marca 13 (referencia ao 13 de maio), bolo do peregrino de Fátima, o vinho Colinas de Fátima. A marca Fátima vende bem, mesmo nos produtos mais inesperados. A reportagem do O POVO não viu nas vitrines, mas os jornais portugueses alardearam o novo negócio de um ucraniano que teve a ideia de enlatar ar de Fátima e vender a 3 euros. No Diário de Notícias, Sergey Pankovets diz que as latas têm validade de 99 anos e que são sucesso entre os turistas asiáticos e sul-americanos.

Os negócios e a devoção cresceram de braços dados em Fátima. Mas já vão longe os dias em que o comércio local não passava de barracas feitas de tábuas e plásticos. Nos primeiros dez anos, após espalhar-se a novidade das aparições, estas vendas se instalaram ali perto da Cova da Iria e, a cada 13 de maio, as notícias dos jornais da época dão conta de uma verdadeira feira, onde aconteciam furtos e brigas. Mas, tudo isso evoluiu ao mesmo tempo que o Santuário. Com as obras da Basílica e das novas casas das várias congregações que se instalaram na cidade, chegaram também pedreiros e suas numerosas famílias, outras profissões afins e muita gente deixou o campo para morar ao lado do Santuário. Fátima ganhou, assim, rapidamente, centenas de novos habitantes.

Em 1946, mal havia terminado a II Guerra Mundial, veio a primeira grande enchente de peregrinos de todos continentes do Planeta para ver a coroação da imagem da Senhora do Rosário. Daí por diante, essa onda de visitas peregrinas só cresceu. Com ela, a venda de artigos religiosos. Hoje o Santuário também tem uma parte dos negócios de Fátima. Além de gerenciar os milhões de euros em ofertas e dons de peregrinos, mantém uma livraria, uma loja de artigos religiosos e 90 postos de vendas nas pracetas São José e Santo Antônio, segundo reportagem publicada pela revista Visão.

Com a visita do papa Francisco, da santificação de Jacinta e Francisco e das comemorações do Centenário, novos produtos chegaram às lojas. Os fãs do Papa podem encontrar imagens dele de todos os tamanhos e preços. Dos três pastorinhos, dois deles agora santos, nem se fala, tamanha é a quantidade e modelos. As vendas, inclusive, modernizaram-se e evoluíram para a Internet. O Santuário, por exemplo, mantém uma loja online (www.fatima.pt) da linha de artigos lançados para o Centenário. Recebe, inclusive, encomendas. Mas é o terço oficial dos cem anos de aparição que tem estado no top das vendas.

CURIOSIDADES

ESPUMANTE DAS APARIÇÕES. Uma edição limitada de espumante com 1917 garrafas. O número faz alusão ao ano das aparições em Fátima. A ideia é de 12 produtores portugueses, da região da Bairrada, que já se apressaram a ir à Roma e entregarem nas mãos do papa Francisco a garrafa número 1. Segundo jornal Expresso, no rótulo podemos ler 1917-2017: Centenário das Aparições de Fátima. Na caixa luxuosa toda branca, uma marca d’água com a figura do Papa soltando uma pomba. A campanha não tem fins lucrativos e a receita da venda das garrafas vai ser revertida a instituições de caridade.

KIT PARA PEREGRINOS: São T-Shirts, bonés, lenços para os ombros e outros menorzinhos para a hora do adeus ao Papa e à Virgem, na procissão final. As peças, todas em branco e com o símbolo da peregrinação, foram desenvolvidas, segundo o Santuário, para atender a inúmeros pedidos. Nas costas da camiseta está escrito Com Maria, Peregrino na Esperança e na Paz.

Enchente de gente e bons negócios para os hotéis

A visita de um papa divulga Fátima, atrai os olhos do mundo e multiplica a fama do Santuário. Paulo VI veio em 1967. De João Paulo II, foram três visitas – 1982,1991, 2000 - e Bento XVI veio em 2010. O popular papa Francisco deve trazer para a cidade, só no dia de hoje, um milhão de devotos, segundo estimativa da Associação Empresarial Ourém-Fátima (Aciso). O número parece exagerado, pois é difícil imaginar caber tanta gente, de uma vez só, num lugar onde vivem 15 mil pessoas. Mas não deve estar longe da verdade.

O fato é que os hotéis de Fátima estão hoje superlotados. A procura foi tanta que toda a rede hoteleira das cidades próximas, ou nem tanto, num raio de 150 quilômetros, lotou também. Lisboa, Coimbra, Aveiro, Leiria, Pombal, por exemplo, tudo esgotado, anuncia Domingos Neves, presidente da Aciso. Os jornais de Portugal denunciam, no entanto, que os preços dispararam e há muita exploração.

Domingos Neves acha que centenário vai aquecer comércio local

As notícias falam de quartos de hotéis a preços que chegam a 2 mil euros, ou mais, a noite. Como não há leitos de hotéis suficientes, muitos particulares vêm nisso oportunidade de ganhar dinheiro. Alugam também quartos e a preço de ouro. Para Domingos Neves, o setor deve ainda crescer e não é ainda grave o problema, porque, como o acesso a Fátima é fácil, as pessoas pernoitam pouco tempo ou vêm e voltam no mesmo dia.

Os devotos chegam em massa. E não só para o dia de hoje. Muita gente, temendo a multidão e os preços altos, deixou pra vir depois que tudo se acalmar. É a repercussão do Centenário, diz o presidente da Aciso. Ano passado já vieram à Fátima mais de 6 milhões de devotos. Este ano espera-se uma enchente: 8 milhões de pessoas. Para estes turistas, Fátima quer também oferecer hotéis de luxo e spas. Um deles, cinco estrelas, novinho em folha, lotou antes de abrir as portas.

O peregrino que vem hoje à Fátima não quer mais só um quartinho, diz o presidente da Aciso. Ele quer qualidade, um bom hotel, um bom restaurante, isso sem perder aquele momento de reflexão espiritual, acrescenta. Em outras palavras, a rede hoteleira de Fátima está de olho no futuro próximo. Voos diretos a partir de julho entre Portugal e China já foram anunciados. Três vezes por semana, um nova classe média chinesa, com muito dinheiro no bolso, vai desembarcar em Lisboa, disposta a pagar pequenas fortunas pelo conforto e qualidade. São os asiáticos, aliás, os que mais crescem nas estatísticas de Fátima.

Se os projetos de Domingos Neves derem certo, a Aciso vai acabar atraindo mais e mais novas nacionalidades para Fátima. Com um grupo de empresários, ele visita vários países divulgando esse destino de turismo religioso. Segundo ele, no passado, havia uma certa vergonha de falar de Fátima, em Portugal. “Hoje nosso presidente da República, jogadores de futebol, artistas famosos, príncipes vêm ao Santuário. O tempo da vergonha terminou. Fátima é um patrimônio português, como são o fado e o futebol”, diz.

Contas sopradas na Chequia

A maioria das lindas contas de vidro do terço comemorativo do Centenário está sendo sopradas na República Checa. É que a capacidade de produção de contas da Marinha Grande, 120 quilômetros de Lisboa, cidade portuguesa com referencia nesse tipo de trabalho em vidro, esgotou-se com a demanda deste ano 2017. Nos cálculos da Associação Empresarial Ourém-Fatima (Aciso), dos 300 mil terços produzidos até agora, só 50 mil são soprados artesanalmente em Portugal.
Segundo o presidente da Aciso, Domingos Neves, já todo o encadeamento das contas continua a ser feito em Ourém, vizinho a Fátima. Ao preço de 12 euros – deste total, um euro destina-se à construção de um lar para deficientes físicos -, o terço oficial do Centenário tem certificado da Casa da Moeda de Portugal. É este selo que garante a qualidade e a autenticidade do produto, diz. Junto com o terço, vendido em uma caixa especial, vem um livrinho escrito em sete línguas, contando a história do fio de 55 contas. São 300 lojas vendendo o produto, acrescenta. Mas, no comércio, a procura é tanta que os donos de lojas temem que seja preciso, e com urgência, uma terceira edição do terço. (Ariadne Araújo)

Imagens de bem com o planeta

Imagens são pintadas a mão

Em Fátima, entre o Santuário e Aljustrel - a aldeia onde nasceram os três pastorinhos -, um exército de imagens da Senhora do Rosário está em vias de sair para o comércio local. Feitas em plástico reciclado granulado, antes de irem às lojas, elas passam por uma sessão minuciosa de pintura à mão. Segundo Purificação Reis, a dona da fábrica de artigos religiosos, esse processo manual e artesanal é demorado e, por isso, não há como aumentar a produção, mesmo que os pedidos de novas encomendas tenham dobrado este ano.

Com uma equipe de 11 pintoras, a Farup está na sua capacidade máxima. Segundo ela, as imagens de Fátima têm papel principal, mas não exclusivo. A fábrica produz também São Bentos, Santo Antônios, Nossas Senhoras de Lurdes, terços, presépios. Mas as imagens de Fátima vendem muito bem. As pequenas, em média 40 centímetros, são as preferidas do público estrangeiro porque são fáceis de acomodar na mala. As grandes, que podem ir a até 1,2 metro de altura, são mais para congregações ou igrejas. E como os produtos feitos na China invadiram as lojas da cidade, ela pensa em fazer uma espécie de certificação na base das imagens que saem de seu ateliê. Muita gente faz questão de um produto feito em Portugal e esse selo de certificação vai fazer a diferença e evitar a confusão, diz.

Selfie com artistas devotos

Zando Miranda

O brasileiro Zando Miranda, 32, é um colecionador de selfies com artistas. Morando já há nove anos em Fátima, o Santuário é o terreno preferido de caça dele. Enquanto não passam potenciais clientes na praceta em frente ao restaurante onde trabalha, o serviço dele é o de apresentar ao público a placa do menu e convencer gente a entrar, ele mostra com orgulho as fotos que ele posta no Facebook.

Segundo Zando, já são mais de 200 poses com famosos. Hebe Camargo, Toni Ramos, Fafá de Belém, Roberto Carlos figuram no mural. Tem também futebolistas e gente do estrangeiro, como os estilistas italianos Dolce e Gabbana, diz. O segredo, segundo o rapaz, é ficar atento às horas preferidas dos artistas, ou seja, a partir das 18 horas para clicar o selfie. Minha fé é só pra mim, acrescenta. “Só vou ao Santuário atrás dos famosos”.

Terços desde os 5 anos

 

Aos cinco anos de idade, as mãos pequeninas da menina tinham que produzir, nada mais nada menos, que seis terços por dia, antes de ser liberada para brincar. Por isso Júlia Silva, hoje com 66 anos, é uma espécie de campeã sem medalhas da arte de fazer rápido os terços que são vendidos na loja dela, aos devotos de Fátima. Um piscar de olhos e o bico do alicate vai funcionando como uma agulha no tricô.

O pai era rigoroso. Ela tinha que rezar enquanto encadeava terços. E à noite, ao fim do dia, quando a família numerosa se juntava, eram oito filhos, ainda havia que debulhar um rosário inteiro, a pedido do avô. Logo depois das aparições, quando a multidão de gente começou a chegar no terreno pedregoso e seco da Cova da Iria, o pai montou uma venda de terços. Era só uma barraca simples de tábuas, como todas as outras que vinham surgindo ali, na carona do fenômeno.
Depois, a Igreja local, que havia comprado o terreno, pediu ao pequeno comércio, surgido sem ordem no lugar, que se instalasse nas novas lojinhas construídas pelo Santuário. No local das barracas, foi erguida, segundo ela, a primeira cruz alta. Assim sendo, Júlia assistiu às transformações do lugar e ao crescimento da cidade. Hoje, bem instalada em sua própria loja, ela ainda encadeia terços. Tudo o que vendo aqui é feito em Portugal, diz, referindo-se à invasão de produtos chineses que os concorrentes expõem nas vitrines. (Ariadne Araújo)

Filmes que falam de Fátima

O Centenário das Aparições inspirou também a indústria cinematográfica, em Portugal. Nos cinemas do país, dois filmes em cartaz para os que querem entender mais o fenômeno de Fátima. O primeiro deles é Jacinta: a profecia. Primeiro nas telas dos cinemas antes de passar às telinhas de televisão. É baseado em livro com o mesmo nome e mostra as aparições sob o olhar de Jacinta. Outro em cartaz é Fátima e conta a história de 11 mulheres que partem em peregrinação ao Santuário. Nove dias de caminhada com suas dificuldades, mas também fé e coragem. Ainda em produção uma animação 3D: Fátima e o Tesouro Secreto. A ideia era lançar ainda este ano, mas não foi possível. Uma das vozes dos personagens é a do treinador de futebol, o português José Mourinho.

Folclore no Santuário

Laurinda Gonçalves canta as músicas típicas do Minho

As cores extravagantes das roupas deste grupo chamam a atenção de todo mundo. No pátio do Santuário, eles são 60, cada um tem traje diferente. Tem gente vestida de rico, os lenços da cabeça têm franjas douradas e as grossas correntes do pescoço imitam ouro. Outros vêm de trabalhador do campo e alguns, bem a calhar, vestidos de roupa de missa domingueira, como é o caso.

Vieram ao Santuário representar o Rancho Folclórico Os Minhotos da Ribeira da Laje. Agora que a missa e a missão terminaram, também já vai passando, e muito, a hora do almoço, o assunto é buscar nas redondezas uma boa sombra para distribuir o comer que veio de casa pronto e está à espera no ônibus fretado. A curiosidade é que nenhum deles vive no Minho, região que dá nome ao Rancho. Mas, em Oeiras, já muito perto de Lisboa.

É que a tradição veio dos avós, passou para os pais, agora está na terceira geração. A pedido da equipe do O POVO, já no parque do estacionamento do Santuário, eles tiram a concertina, espécie de sanfona, e dão uma palhinha para o público que correu para ver as danças e as músicas típicas do Minho. O mais jovem tem sete anos de idade, mas não conta até três ao sair saracoteando ao som do folclore minhoto. Festa para as câmaras dos turistas.

Do grupo das roupas de rica, Laurinda Gonçalves, 67, é uma das mais velhas do Rancho. Aproveitou a viagem e comprou 12 terços do Santuário para oferecer aos amigos. “Eu rezo todos os dias”, ela diz. “Posso não acabar o terço de tanto cansaço, mas eu rezo”, completa. Laurinda conhece bem o Santuário, é peregrina de longa data. Foram décadas de todos os anos a pé até Fátima, mas um problema na perna acabou em cirurgia e ela ganhou uma prótese. “Agora tenho de vir de autocarro, mas venho de todo o jeito”, explica. “Só peço a Fátima pra ela me dar o dia-a-dia”.

Saiba mais

1. Depois dos portugueses, foram os espanhóis, pela proximidade geográfica, os que mais visitaram Fátima em 2016, segundo dados do Santuário. Os italianos, polacos, americanos, ucranianos vêm na sequência. O Brasil ficou em 6ª posição. Mas, neste ano de 2017, a grande presença de asiáticos vem alterar esta ordem.

2. Coreia do Sul figura no top das 10 nacionalidades que mais visitam Fátima. Segundo dados da embaixada da Coreia do Sul, publicados no jornal Público, a população de católicos mais que duplicou, nas duas últimas décadas, na Coreia. Neste ano de 2017, os coreanos já são mais que os brasileiros nas visitas a Fátima.

3. 5 mil litros de cera por dia, em média, foi a quantidade gerada pelas velas queimadas no Santuário, em agosto de 2016. Para a festa de Centenário deste ano, a quantidade diária deve dobrar. Além das velas acesas durante todo o dia, as procissões das velas à noite contribuem, em muito, para essas toneladas de cera. Toda as velas derretidas são recicladas e revendidas no Santuário.

Página Peregrinos a pé: o prazer e a dor de vir a pé

A última leva deve estar entrando em Fátima neste sábado, 13. Mas os peregrinos mais cautelosos chegaram antes. Vêm de vários pontos de Portugal, na grande peregrinação anual do 13 de maio. Este ano, a expectativa é de que mais de 40 mil peregrinos tenham feito o caminho à pé para ver o papa Francisco. Grande maioria saiu de casa há uma semana, pelo menos, e enfrentou sol e chuva na estrada, em estirões de poto horas de caminhadas por dia, em média. Os de mais longe, devem ter passado 10 dias até, finalmente, entrarem no Santuário.

Imagina-se o estado físico destes peregrinos obstinados. Com suas mochilas pesadas às costas, cajado improvisado para apoio nos terrenos acidentados, chegam com os pés em frangalhos, inchados, cheios de bolhas e feridas. Trazem também queimaduras solares, músculos nos limites, alergias e, muitos, no cansaço geral e emoção da entrada em Fátima, passam mal. Desmaios e problemas de hipertensão não são raros. Principalmente porque não há idade limite nesse negócio de peregrinar: vêm jovenzinhos iniciantes de 10 anos, vêm octogenários ainda bons de luta.

Sorte deles que há anjos de carne e osso na estrada, aliviando-lhes as dores, medicando as feridas, servindo água e merendas, oferecendo uma cama para descanso. Os jornais dão mesmo notícia de um verdadeiro exército de socorro, à prontidão e pra todo lado, de olho nos mais frágeis. Bombeiros, Cruz Vermelha, Proteção Civil e Forças Armadas de Portugal botaram gente e carros nas estradas e ruas de Fátima. O esquema, neste período mais movimentado, concentra-se, claro, já dentro da cidade, com hospitais de campanhas e suas UTI’s, prontas para qualquer emergência. Isso porque os peregrinos à pé são um caso à parte.

Os Paramédicos de Catástrofe Internacional receberam, este ano, até ajuda de voluntários da Espanha para darem conta do serviço. Durante os últimos dez dias, eles montaram oito hospitais de campanha – cada um com 46 leitos - em grandes tendas de lona. Dentro, toda a estrutura médica, mesmo para casos mais graves. Bruno Reis, 40, o presidente da entidade, explica que até paradas cardíacas já aconteceram em anos anteriores. E agora, a presença do papa potencializa tudo. “É muita emoção”, diz o médico que só volta pra casa neste domingo, 14, quando os hospitais forem desmontados e o longo plantão da equipe de 170 paramédicos, massagistas e fisioterapeutas terminar.

Nos últimos quatro dias, o trabalho apertou. Em média, foram 900 a mil peregrinos por dia. Muitos chegaram já tarde da noite. Mas a megaestrutura é rodada. Afinal, estes paramédicos têm anos de experiência em ajuda humanitária no mundo todo. Por outro lado, os peregrinos também vêm mais organizados. Às vezes, trazem com eles uma enfermeira-peregrina, uma farmácia para pequenas mazelas, até um cozinheiro e todo o material para um almoço no caminho. Estes grupos telefonam, avisam que vêm a caminho, dizem quantos são, conta o médicos. Segundo ele, tem turista que vem a Portugal de avião e, já do aeroporto, começa a peregrinação.

Peregrina e voluntária

Médica Maria Alice Menezes

Maria Alice Menezes dá plantão como médica-voluntária no Santuário, na Casa Nossa Senhora das Dores, mas uma semana atrás ela tirou a bata branca e vestiu o seu colete refletor, material obrigatório para quem anda nas estradas. Tornou-se também peregrina. Vem há 14 anos, de Lisboa à Fátima, com um grupo de quase 300 pessoas. Pra garantir, ela leva seu material médico.

O grupo vem devagar, em paradas estratégicas para não cansar, ela explica. “O que se vê são pessoas começarem o caminho ateus e, a meio caminho, comungam”, conta, emocionada. Segundo a médica, quando começou, ouvia gente dizer: “Ah, estas são as minhas férias”. Achou exagerado. “Agora eu entendo, são férias espirituais, onde a gente arranja forças para o resto do ano”, completa.

O parente voluntário de Vasco da Gama

Dom Vasco Teles da Gama

São 17 gerações de distância, mas, mesmo assim, ele é neto do  célebre navegador Vasco da Gama. Voluntário há 30 anos da Ordem de Malta de Portugal, Dom Vasco Teles da Gama tem grande experiência no apoio aos peregrinos à pé. Na estrada, aprendeu a furar bolhas de pés calejados, desinfetar feridas e identificar queimaduras de segundo grau nas pernas dos que vêm, dias e dias,  andando no asfalto quente.

“Temos que fazer de um jeito o tratamento que eles possam voltar à estrada e continuarem a peregrinação”, diz o cavaleiro da Ordem de Malta. Hoje, trabalho nos postos terminado, ele pode esperar as contas finais das dezenas de Ave-Marias que ele e os companheiros voluntários fizeram todos os dias, durante o apoio aos peregrinos à pé. Um papelzinho com o número total de todas as Ave-Marias rezadas será entregue hoje aos pés da Senhora de Fátima.

A CAMINHO DE SANTIAGO

Robert e Beatriz

De Lisboa, a pé. Para os peregrinos franceses Robert e Beatriz, o Santuário de Fátima é passagem obrigatória nestes dias de celebrações, mas o destino final deles é mesmo Santiago de Compostela. Bem treinados, os dois fazem regularmente longas caminhadas em Nantes, onde moram, a peregrinação é mais um prazer que um sacrifício. “Faço como treino de caminhada, como esporte. Não é uma viagem espiritual”, diz Beatriz. “Mas a gente aprende muito”, completa o marido. Não crentes, por via das dúvidas, antes de prosseguirem o caminho, foram os dois acender uma vela. Nunca se sabe. 

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Em Fortaleza, No Santuário de Fátima, a imagem do altar é a uma réplica da imagem peregrina original, que está na Basílica do Rosário, no Santuário de Fátima. Na base da imagem, tem uma pequena porção de terra retirada da Cova da Iria. Já o site do Santuário de Fortaleza conta que tudo começou durante a visita da Santa Peregrina original, que viajava o mundo logo após à II Guerra Mundial, à Fortaleza.

Em 1952, ela levou cerca de 100 mil pessoas à Praça José de Alencar, mas, durante a procissão, caiu e quebrou. Os organizadores resolveram, então, interromper a peregrinação. A imagem voltou para Fátima. No ano seguinte, a semente da Igreja de Fátima já plantada, a Peregrina volta outra vez ao Brasil. Em dezembro de 1953, volta a Fortaleza e fica exposta durante a primeira celebração no lugar. Segundo o site, a celebração foi em um areal em frente à igreja que conhecemos hoje, mas que, por estes dias, ainda estava sendo levantada.

Outra curiosidade do Santuário de Fátima, em Fortaleza, é a imagem gigante que foi inaugurada em 2008, em frente à igreja, na pracinha. A estátua da virgem tem 15 metros de altura, da base à coroa.

Em São Benedito. A peregrinação que trouxe a imagem de Fátima a Fortaleza, em 1952 e 1953, inspirou os devotos da Serra de Ibiapaba. Com a construção da Igreja em São Benedito, passou a ser considerado um dos maiores centros de romarias da Região. A imagem do Santuário é uma doação do Santuário de Fátima.

 

 

Matérias publicadas no O POVO ao longo da semana sobre o centenário de Fátima:

Segredos de Fátima

Santuário trouxe prestígio a Fátima

Presentes papais

Peregrinos: é pelo caminho que eles vão

O milagre no Brasil que santificou Jacinta e Francisco

Megaevento para a canonização dos videntes com celebração em português

Lava-pé no Santuário

Chuva e reflexão na jornada dos peregrinos a Fátima

 

 

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