Natal A Arte do Reencontro

Amar (de novo) é para os fortes

Por Ana Mary C. Cavalcante

Foram muitas e muitas tentativas de reencontro até chegar às histórias de Tâmara e Daniel, Águeda e Sandoval, que (re)escrevi para este caderno de Natal. Durante uma, duas semanas, multipliquei a procura em redes sociais, grupos de WhatsApp, rodas de conversas: “Alguém conhece alguém que conhece alguém que ... tenha reencontrado um amor antigo, um amigo de infância, um familiar perdido? isso não é um verso, é para uma matéria mesmo. E é urgente, como quem ama.”

Quase não houve retorno no tempo necessário para a produção das entrevistas e dos textos. Por pouco não havia histórias para salvar dezembro. A maioria das pessoas contatadas não quiseram expor os sentimentos ou fazer a travessia pelo tempo. Reencontrar o passado e amar de novo é mesmo para os fortes. O que me faz concluir: sempre que tiver a oportunidade de amar na vida, ame de maneira definitiva.

Os caminhos até o coração

Por Rômulo Costa

Vez em quando eu me pego feito besta pensando como é esquisito os caminhos que a vida forja até chegar ao amor. Imagino a porção de variáveis que fizeram aquela pessoa encontrar os olhos de outra no meio de uma multidão. Como cada decisão tomada, ainda que miúda, influenciou aquele encontro. E o enlace das mãos. E o equilíbrio dos desejos rumo ao infinito enquanto dure, traçado pelo poeta.

Pela Teoria do Caos, é assim que segue a vida: cada mínima resolução tomada repercute em uma vida inteira de encontros e desencontros. Lembrei disso enquanto ouvia e escrevia as histórias que se desenrolam a seguir.

É simples. Se Maciel não tivesse decidido morar no Crato talvez nunca teria encontrado Theluí. Assim como Fabrízia jamais poderia redescobrir o amor por Airles, se não fosse a um aniversário de um desconhecido.

A vida é mesmo feita de improváveis. Não me canso de me impressionar com os caminhos que ela arranja. Não me canso de reafirmar minha crença no “sim” e na força de uma segunda chance.

Carta de Intenções

"Vasculho o corpo do outro, como se quisesse ver o que tem dentro, como se a causa mecânica do meu desejo estivesse no corpo adverso (me pareço com esses garotos que desmontam um despertador para saber o que é o tempo)" Roland Barthes in Fragmentos de um discurso amoroso

Por Émerson Maranhão

Na bela canção Futuros Amantes, Chico Buarque de Holanda serena os afobados. “O amor não tem pressa. Ele pode esperar em silêncio, num fundo de armário, na posta restante”. Estes versos sintetizam o conceito do projeto Natal: A Arte do Reencontro. Nele, nos debruçamos sobre histórias reais de pessoas que embora na vida adulta tenham seguido outras afeições, resgataram, de algum escaninho da alma, a memória de seu amor antigo (e o ressuscitaram), como um dia disse Fernando Pessoa, outro grande artífice da Língua.

Estabelecida a essência, o desafio audiovisual foi transbordá-la, mais que apenas traduzi-la em imagens em movimento. O que implicou decisões difíceis, em busca de soluções delicadas. O resultado pode ser conferido na websérie homônima, composta por cinco episódios, autônomos e complementares, disponível a partir de hoje no canal de vídeos do O POVO.

A narrativa baseia-se em dois eixos. O primeiro é formado por relatos dos personagens documentados. Cada um dos integrantes dos quatro casais participantes do projeto conta, individualmente, como se conheceram, como formaram um par romântico, como se separaram e como, anos depois, seus caminhos voltaram a se cruzar. Na edição, o relato de um é pontuado pelas memórias do outro, criando assim um “diálogo” entre as lembranças de ambos, onde se espelham versões dos mesmos fatos a partir de pontos de vistas distintos.

O outro eixo é formado pelo que chamamos de sequências de transição. São cenas gravadas em lugares de impermanência por definição. Aeroporto, rodoviária, estações de metrô, terminais urbanos. Espaços físicos destinados àqueles em trânsito, de passagem, indo ou chegando, nunca se estabelecendo.

Estes dois eixos se unem na estrutura dramática dos episódios. Cada um dos capítulos é formado por três atos: Encontro, Desencontro e Reencontro, com os depoimentos dos casais. Cada ato é encerrado por uma sequência de transição. Estas sequências trazem ainda citações literárias “comentando” acontecimentos relatados pelos entrevistados ou antecipando o teor do que será narrado no ato seguinte.

As citações foram extraídas do livro Fragmentos de um discurso amoroso, do escritor e semiólogo francês Roland Barthes (a quem também recorro providencialmente na epígrafe que abre este texto). E a escolha das citações foi uma das tais decisões difíceis que citei lá no começo. Primeiro, resistir à tentação fácil de usar os versos de Chico Buarque em Futuros Amantes ou até mesmo se valer desta canção na trilha sonora da websérie.

A recusa a este artifício deriva do conceito do transbordar, para além do mero traduzir. Se estava posto do que trataríamos, se sintetizamos nossa intenção nos versos de Chico, por que não ampliarmos esta compreensão ao estabelecer conexões possíveis com outras criações artísticas? Assim, a partir desta inquietação, começa a se estabelecer, a se construir o discurso sígnico de Natal - A Arte do Reencontro. E se definem as funções dramáticas de seus dois eixos narrativos.

Há o eixo que conduz a ação, que relata os acontecimentos (portanto, tem caráter discursivo), e há o eixo das subliminaridades, do encantamento (de caráter metafórico). O segundo eixo se constitui de metáforas que se estabelecem no “não-lugar” onde as cenas das sequências de transição se dão, e passam pela percepção temporal distorcida dos amantes, presente na representação alterada do tempo em algumas situações.

Os comentários de Barthes, um dos mais importantes pensadores contemporâneos, sinalizam para a universalidade e atemporalidade de histórias aparentemente tão pessoais e datadas (abrangência que é reforçada visualmente pelos muitos que embarcam e desembarcam, perpetuamente em busca de) e ao mesmo tempo servem de intervalos narrativos para a reflexão/absorção do que é dito.

Enfim, tudo isso para mostrar que muito de nós está ali, naquelas histórias que estão sendo contadas por seus protagonistas. Que apesar de serem deles os relatos, aqueles sentimentos transbordam e nos chegam, porque também existem aqui, dentro de nós, de mim e de você, caro leitor.

Voltando a Roland Barthes, e à sua citação que abre este texto, brinquei aqui de desmontar o despertador para tentar descobrir o tempo. Desconfio inexistir nudez mais absoluta que a de um criador ao explicitar as intenções de sua obra. Pois eis-me aqui, panoramicamente desnudo, despido, pelado. Espero que tamanha exposição tenha valido a pena. Espero que desperte em você a vontade de ver (ou rever) nossa websérie.

Émerson Maranhão é editor de conteúdo do Núcleo de Audiovisual

Entre dezembro e janeiro

O Grupo de Comunicação O POVO deseja a todos um Natal de amor e reencontros

Esperamos um ano até este dezembro, ou mesmo esperamos uma vida. Esperamos até que houvesse o tempo da chuva, ou da desculpa, ou do olhar outra vez, ou deste cartão de Natal.

E esperamos sem nem saber ao certo o que esperávamos. Se um novo amor, se uma nova amizade, se alguma chance de felicidade.

Guardamos fotografias, palavras e beijos; levamos a despedida. Chegadas e partidas sempre caberão em nós.

Fomos porque a vida nos chamou lá fora. Fomos para descobrir certezas, ou para sanar medos, ou para saber de nós mesmos. Fomos porque, simplesmente, era preciso ir.

Passamos no vestibular e arrumamos um emprego, e outro, e outro. Andamos meio mundo, houve mil paixões, tivemos filhos, criamos coragem.

Mudamos o corpo, o cabelo e o pensamento. Conservamos o riso e o coração abertos.
Ainda somos os mesmos de sempre, sendo outros, sendo muitos.

Foi assim que esperamos um ano até este dezembro, ou esperamos uma vida. Esperamos até que o sertão florescesse, até que os filhos crescessem.

Esperamos em nossos silêncios, sem nem saber ao certo o que esperávamos. E nunca ficamos velhos demais para a felicidade.

Então, aconteceu outro tempo, e outro abraço, e o mesmo olhar.

E a própria vida escreveu este cartão de Natal.

Viver a segunda chance

Namorados na adolescência, Theluí e Maciel foram separados pela família e passaram 43 anos distantes. Há seis anos, eles exercitam formas de reviver o amor reencontrados

Por Rômulo Costa (textos) Por Julio Caesar (fotos)

Theluí e Maciel: O nervosismo do reencontro virou a certeza do cotidiano dividido

Se tudo tivesse saído como planejado, Theluí e Maciel já estariam casados há pelo menos 40 anos. Talvez, morassem no Crato, perto da pracinha onde conversaram pela primeira vez equilibrando a vergonha e a falta de jeito dos namoros da juventude. Ele recém chegado na cidade para ocupar o primeiro emprego em um banco da região. Ela, aos 14 anos, descobrindo a adolescência entre risadinhas tímidas com as colegas da escola. Foi naqueles dias que se aproximaram pela primeira vez. Mas a vida contrariou os planos.

O fato é que Thereza Luiza Bezerra, 66, e José Maciel, 71, passaram mais tempo separados do que juntos. O namoro, aquele no tempo da pracinha, não passou de dois anos. A distância, ao contrário, estendeu-se por mais de quatro décadas. Para entender esse amor é preciso se ater à lógica dos desencontros (se é que elas existem) e às decisões do acaso.

Era 1971. Maria Thereza ainda namorava o jovem José Maciel, sempre na sala de casa sob o olhar rígido da mãe. Juntos, eles projetavam os passos seguintes. Pretendiam casar, fazer família. Talvez, isso até daria certo, caso a mãe não torcesse o nariz para o perfil do rapaz.

Ele é uma criança. Eu gosto dele por isso. Ele continua a mesma criança de sempre"

Theluí

Maciel era do tipo boêmio. Dedicava-se ao romance com Theluí, mas não negava algumas cervejas com os amigos do banco onde atuava como escriturário. A mãe da menina, vendo que o namoro se encaminhava para compromisso, achou que aquela brincadeira já estava indo longe demais. “Meu pai também era farrista. Acho que minha mãe tinha medo que eu sofresse o mesmo que ela sofreu”, tenta entender Theluí, ainda hoje.

A família da jovem valeu-se da interferência política que mantinha na região para pôr fim ao romance. Trataram de abafar o amor imputando o casal a distância física. Não se sabe como, mas Maciel fora transferido para São José do Egito, uma cidadezinha no interior de Pernambuco. Longe.

De lá, os dois trocavam cartas diariamente para distrair a vontade de estar perto. Porém, as cartas rareavam. Theluí já não recebia mais as respostas de Maciel. Depois, descobriu-se que os envelopes eram interceptados nos Correios, por ordem da mãe que deixou uma amiga vigilante na agência. Apesar das tentativas de subverter, o amor se rompeu. Ou melhor, foi rompido.

Os dois até se encontraram outras vezes, mas a vida já era outra. Theluí se casou, foi morar em São Paulo e teve três filhos. Maciel também encontrou outros rumos. Casou-se duas vezes, morou em pelo menos três outros estados e foi pai. Foram 30 anos sem notícias consistentes. Sem reconhecer a passagem do tempo no rosto do outro, sem saber o que cada um fez com as cartas da adolescência.

Theluí teve todas as correspondências queimadas pela mãe. Já Maciel manteve todas intactas, guardadas em uma caixa, resistindo aos novos amores que a vida trazia. Para ele, o rosto de Theluí nunca esteve em um lugar do passado. A menina de lenço no cabelo estava eternizada em um retrato branco e preto, que ele vez ou outra se perdia mirando.

Em 2009, quando Maciel se separou da segunda esposa, foi essa a foto que estacionou nas mãos dele novamente. Até aquele momento só existiam perguntas. Theluí ainda estava casada? Como seriam os filhos? Morava em Fortaleza, no Crato ou em São Paulo?

“Fazia seis meses que eu a procurava no Orkut. Em uma das vezes, eu encontrei uma mulher com o mesmo nome, mas sem foto”, relembra Maciel, que não hesitou em mandar mensagem. Apresentou-se. Contou das tardes no Crato. Refez a memória dos adolescentes na pracinha.

Do outro lado, Theluí - que estava viúva há pouco meses - assustou-se. A princípio, não quis ampliar o assunto porque também guardava em si muitas perguntas. Maciel era o mesmo? Mudou os gostos? Fazia o que da vida? Optou por não dizer nada. Mas não conseguiu.

Durou pouco tempo, até que por apoio de uma das filhas ela tomou coragem de respondê-lo. Fez isso uma única vez para nunca mais pararem de conversar. Os dois - ele em Fortaleza e ela em São Paulo - descobriram que a identificação não se perdeu no tempo dos silêncios. “No fundo, eu não respondi logo porque eu tinha medo dessa identificação. Eu não sabia se ele era casado ou não. Eu não sabia de nada da vida dele”, conta.

Mais rápido do que esperavam, eles estavam juntos novamente um em frente ao outro. Theluí saiu da cidade onde morava para encontrar Maciel. A primeira reação foi dar-lhe um abraço que resumiu 30 anos de ausência. “Eu tremia toda. A gente se tremia. Era como se fôssemos adolescentes de novo”, narra.

Dali para o sempre foi um caminho natural. Maciel e Theluí se redescobriram. No beijo, no toque das mãos, na juventude que traziam no peito. “Ele é uma criança. Eu gosto dele por isso. Ele continua a mesma criança de sempre”, identificou-se.

Aquele abraço se prolonga por seis anos. O nervosismo do reencontro virou a certeza do cotidiano dividido. Os dois guardam no apartamento onde moram todos os sonhos que costuravam no passado. Exercitam a prática. Maciel e Theluí mudaram, mas não deixam de trazer em si o arrebatamento da juventude. Hoje, inseparáveis, dividem os beijos, o gosto pela dança e a certeza de que todo amor merece uma segunda chance.

Natal

A arte do Reencontro

O começo depois do fim

A família uniu Fabrízia e Airles Júnior em um romance de juventude, que não deu certo. Anos mais tarde, eles entenderam que a paixão pode superar o ponto final

Por Rômulo Costa (textos) Por Tatiana Fortes (fotos)

Fabrízia e Airles: Juntos, eles insistem em reescrever uma história iniciada no passado

Ninguém sabe o momento exato em que o destino vai unir ou separar as pessoas. Viver é se equilibrar nessa incerteza. Foi mais ou menos assim que Fabrizia Tavares, 46, e Airles Bastos Júnior, 51, se reencontraram após mais de 20 anos de distância. De surpresa. Se no começo do namoro, lá nos anos 1980, o encontro entre os dois tinha o incentivo da família, a reconciliação era improvável.

Tudo começou com uma amizade de famílias. A mãe de Fabrízia era uma das melhores amigas da tia de Airles. As visitas frequentes despertaram nelas uma possibilidade jamais imaginada até ali. Fabrízia, no início dos 13 anos, bem que poderia juntar os sonhos da juventude com o jovem Airles, à época com 18 anos. As amigas alcovitaram o romance.

Com uma conversa dali, um encorajamento de acolá, as duas conseguiram o que queriam. Mas demorou, porque Fabrízia tentava entender as vontades. “Eu tinha feito uma promessa para o meu pai. Disse que iria arrumar um namorado assim que completasse 13 anos. Assim eu fiz”, narra. Dias depois de completar a idade, os olhos da menina procuraram os de Airles.

O namoro, no entanto, não seguiu como os dois - nem as famílias - imaginaram a princípio. No começo, até que os encontros tiveram as delícias das descobertas, mas a família de Fabrízia se preocupava muito em fazer a relação dar certo. A mãe, principalmente. As perguntas eram várias, as interferências maiores ainda. A filha, provando dos questionamentos da adolescência, amargou a relação.

“Teve um dia que a coisa saiu do controle. Eu e minha mãe discutimos. Eu disse que parecia que quem namorava era ela e não eu”. A mãe concordou. Fabrízia lembra que ela lhe disse em tom de ironia: “É, parece que quem namora sou eu mesma...”. Da conversa, a menina saiu com a certeza que terminaria o namoro.

Hoje, olhando para aquele tempo, sabe que o término foi um teste dos limites da mãe. A jovem queria demarcar território. Quando Airles chegou para encontrá-la, ela disparou sem meias palavras. Haveria de parar por ali, a mãe pressionava demais e os encontros não despertaram as alegrias que ela esperava. “Ah! Para encerrar, eu não gosto do seu perfume”, cutucou o namorado. Airles engoliu seco, deu meia volta e saiu para a vida.

Exatamente dois anos depois, em um dos encontros de família, Fabrízia se arrependeu do ato. Arrumou formas de rondar o rapaz, pedir reconciliação, mas era tarde. Airles foi viver outras histórias. “Eu fiquei chateado, claro. Achei uma atitude infantil. Depois, eu queria ir para frente”, relembra.

Em um intervalo de 22 anos, a vida dos dois tomaram rumos diferentes. Os dois casaram quase na mesma época com pessoas distintas, tiveram filhos e cumpriram o destino. Por diversas vezes, eles se encontraram com seus respectivos pares em festas. Cumprimentavam-se com elegância e sem remorso. Mas a história não haveria de acabar assim.

Era 2005. Fabrízia estava separada há três anos e Airles havia separado recentemente. Como surpresa do acaso, os dois se encontraram em um aniversário na cidade de Baturité. A esse tempo, Airles morava lá. Subvertendo os outros encontros, os dois se olharam de outra maneira. Foi tão diferente que eles não sentiram aquilo nem quando dividiam o título de namorados.

Se a gente tivesse ficado junto na primeira vez, não teria dado certo. No reencontro, nossas vidas estavam mais estruturadas. Foi uma relação mais madura"

Fabrízia

“A gente tinha passado muito tempo sem conversar. Aquilo entre nós foi uma redescoberta”, comenta Fabrízia. A noite foi longa. Os dois atualizaram as informações sobre os processos de cada um. Airles entendeu que a menina tinha amadurecido e ainda se conservava bonita. Fabrízia percebeu que, longe da pressão da família, o rapaz continuava interessante, de boa conversa. Juntos, olham-se até hoje.

Depois daquela noite, os dois passaram a se perder em ligações demoradas. Airles ampliou as visitas a Fortaleza. Vieram os encontros no início da tarde que se estendiam pela madrugada; o primeiro beijo após a volta; o toque das mãos e a vontade de não se separar. Em seis meses, estavam casados. Hoje, dividem a casa, os filhos e os sonhos.

“Foi bom, principalmente, porque foi totalmente diferente da primeira experiência”, refaz Airles, que ainda hoje - 10 anos depois - guarda uma convicção. Ao contrário do que se possa imaginar, a distância não os separou. Foi justamente ela que promoveu o encontro que ainda caminha rumo ao possível.

“Se a gente tivesse ficado junto na primeira vez, não teria dado certo. No reencontro, nossas vidas estavam mais estruturadas. Foi uma relação mais madura”, marca Fabrízia. Juntos, eles insistem em reescrever uma história iniciada no passado, mas que se estica para além do fim.

 

 

Duas vezes amor Idas e vindas

Para Tâmara, mais romântica, e Daniel, mais racional, o reencontro "reconstruiu a relação de saber lidar com as diferenças", ela extrai. Eles se separaram e voltaram a se casar um com o outro

Por Ana Mary C. Cavalcante (textos) Por Julio Caesar (fotos)

Tâmara e Daniel: Queriam amar como é possível amar. O reencontro foi de dentro para fora

Tâmara e Daniel se conheceram quando ele tinha 25 anos e ela, 21. Quando ela estava no último ano da faculdade de Enfermagem e ele havia passado em um concurso do Exército. Quando Daniel pensava em casar e Tâmara planejava o futuro profissional. No trançado que a vida elabora, os dois se encontraram por caminhos diferentes.

Tâmara Gomes de Oliveira Bastos, 31 anos, enfermeira, cruzou o olhar de Daniel Victor Pompeu Bastos, 35 anos, empresário, enquanto passeava no shopping. Tâmara se demorou no pensamento de Daniel, que a buscou no Orkut, no MSN, na academia, depois do culto. Era o início de 2007 e de uma história que tinha pressa.

No pedido de namoro, a primeira vez que conversaram pessoalmente, Daniel já emendou um compromisso para quantos fossem os dias seguintes e as incertezas. Houvesse alegria ou tristeza, saúde ou doença. “Se você quer namorar comigo, é tendo a certeza de que quer casar”, propôs.

Entre o susto e o noivado, passaram-se três meses. E, no restante do tempo, até o dia 8 de março de 2008, data do casamento, Tâmara foi se apaixonando, e preparando uma festa para 300 convidados, e terminando a faculdade, e organizando uma casa. E ordenando todos os planos.

Continuamos muito diferentes. Só que nos equilibramos: ele não é mais o durão e insensível e nem eu sou a sentimental que era antes. Nos aproximamos mais. Ele deu uns dez passos pra frente, eu também

Tâmara

No meio de tudo o que acontecia ao mesmo tempo, o amor surgia como “uma coisa bem imatura”, diz Tâmara, “por isso que não deu certo”. Aos 21 anos, tinha “uma visão romântica da vida”, herança de um pai “amoroso, chorão, sensível”. Já Daniel, ela retrata, se mostrava “durão, na razão, sério... Desde o começo, nos deparamos com este embate. A gente brigava até porque eu chorava muito. Caiu meu castelo: a vida não é como eu imaginava, não é ‘felizes para sempre’, como nos contos de fadas. A gente se deparou com a realidade do dia a dia do casamento, que não era fácil”.

Daniel tinha outra teoria sobre o amor: “O amor era independente de. Não era algo condicional: eu te amo porque tu me ama”. A mãe lhe demonstrava que era possível ver as virtudes do pai, apesar de qualquer discussão. “Nunca tive essa visão romântica: acordar de manhã, um buquê de rosas, declarações. Não. A vida ia continuar (depois da festa do casamento). Esse era meu entendimento”, expõe, aos poucos.

O ex-militar, foi descobrindo Tâmara, “não gostava de demonstrar fragilidade, de expressar os sentimentos. Marcava o dia de dizer ‘eu te amo’: no aniversário de casamento, no meu aniversário. Hoje, não tenho mais necessidade de ficar ouvindo isso toda hora, mas eu era uma menina, aos 21, que ficava ouvindo isso do meu pai toda hora! Então, eu tinha necessidade de ouvir dele, e ele marcava o dia especial de dizer, entendeu? Pra mim, foi um choque de realidade”.

O casal vivia em descompasso, eles reconhecem. Um queria transformar o outro e nenhum tentava o inverso: aceitar o outro da maneira como era possível amar. Procuraram “muitas ajudas” fora do universo particular do casamento - orações, terapias – até que, na manhã seguinte ao primeiro ano de casados, Tâmara pediu o divórcio. Ela precisava do tempo que não teve enquanto tudo acontecia: “Nem arrumei a mala e fui embora”.

A casa foi vendida, sobrou uma panela e outra; a mãe de Tâmara guardou o álbum do casamento. As flores que Daniel mandava ficavam na portaria do prédio dos sogros, para onde a ex-esposa se mudou. “Depois do divórcio, voltei para o nome de solteira”, refaz a enfermeira. Dois anos e meio se passaram entre os dois, como uma avalanche de mágoas e frustrações. Chegaram a se ver e a se falar, mas não se reconheciam mais.

Não foram tantos anos de separação, entretanto, foram dias muito profundos, de sofrer despudoradamente. Tentaram tocar a vida adiante. Tâmara decidiu ficar ainda mais longe das opiniões, em um intercâmbio fora do País. “Só eu e Deus. Foi nesse momento que consegui perdoá-lo. Foi um tempo de cura”, acredita.

E em 2011, depois do culto, os dois se buscaram uma vez mais. Conversaram na pracinha e acertaram os ponteiros do tempo com o que ainda faltava viver. Queriam amar como é possível amar. O reencontro foi de dentro para fora. Não foi necessário nenhum se anular, mas apenas se somar ao outro. “Continuamos muito diferentes. Só que nos equilibramos: ele não é mais o durão e insensível e nem eu sou a sentimental que era antes. Nos aproximamos mais. Ele deu uns dez passos pra frente, eu também”, refaz Tâmara.

Caminhando ao reencontro um do outro, Tâmara e Daniel se casaram uma segunda vez, no dia 7 de outubro de 2011. A moça do cartório se admirou, duas vezes amor é história para estar no jornal. Mas os pais das gêmeas Ana Júlia e Isabela (dois anos) desejam é uma história para cada dia: amar quantas vezes for preciso a mesma pessoa. Talvez este seja o para sempre. “Amor é uma escolha: você decide amar aquela pessoa todos os dias, apesar das circunstâncias. As dificuldades sempre vão aparecer, a vida nunca está isenta de problemas”, ela compreende. “Minha concepção de amor é ter uma vida de paz”, ele completa.

 

 

E se fez a juventude outra vez

Águeda e Sandoval acreditam que "quando o passado é bom" vale a pena um reencontro. Eles namoraram na adolescência e, 32 anos depois, vivem o amor

Por Ana Mary C. Cavalcante (textos) Por Tatiana Fortes (fotos)

Águeda e Sandoval: Não foi caminho em linha reta, mas uma travessia do coração ao pensamento

Histórias de amor têm este bônus na vida: os anos envelhecem, mas o tempo parece que não passa. Na história da professora Águeda Maria de Oliveira Leão e do funcionário público Manoel Sandoval Fernandes Bastos Júnior, 48 anos, houve um “beijo roubado” duas vezes; e duas vezes um frio na barriga, as pernas bambas, o coração batendo acelerado. Coisas de uma certa juventude, independente da idade.

A primeira vez foi aos 16 anos. Águeda e Sandoval integravam um grupo de jovens da igreja de São Vicente. Era 1984 e, entre missas e festinhas vigiadas pela religiosa responsável pelo grupo, o sorriso de Águeda chamou a atenção de Sandoval. Ele lhe roubou um beijo e demarcou o início de um namoro adolescente que teria fôlego por quatro meses. Naquela época, lembram-se, curtiam o momento. E o momento era também de fazer cursinho pré-vestibular, depois, faculdade. “E cada um foi viver sua vida”, emenda Águeda.

A separação foi natural. Na idade dos primeiros beijos, resume Águeda, eles sabiam “quase nada, ou muito pouco” sobre amor, esse infinito. “É bem verdade que ele foi meu primeiro namorado que teve graça!”, ela reencontra. “A gente gostava muito de ficar perto um do outro”, ele significa.

Mas os caminhos – da faculdade ou do coração – foram distanciando os dois. Ele passou em um curso na área de tecnologia, em uma instituição particular, e ela escolheu a área de humanas, em uma universidade pública. Então, cada um conheceu novos pares, casaram, tiveram filhos, ocuparam-se com suas profissões e seus particulares. A vida foi seguindo seu curso, como tinha que ser.

Não existe a ideia de duas metades. Mas, sim, duas pessoas inteiras que querem fazer o outro feliz. Somos felizes e, por conta disso, a gente quer compartilhar a felicidade com o outro"

Sandoval

Águeda e Sandoval se distanciaram por 32 anos. Vez ou outra, cruzaram-se na escola do filho dela; no calçadão da praia, quando ele passeava com o filho dele; no aniversário de uma amiga do antigo grupo de jovens. Eram encontros entre pressas, sem querer, eles concordam, de apenas um buarqueano “Olá! Como vai?” / “Eu vou indo. E você, tudo bem?” / “Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro… E você?” / “Tudo bem! Eu vou indo, em busca de um sono tranquilo… Quem sabe?” / “Quanto tempo!” / “Pois é, quanto tempo!”.

Os dois só voltaram a ter contato mesmo em 2014 e de forma virtual, com mais oitenta pessoas no WhatsApp. No smartphone, uma amiga da adolescência refizera o antigo grupo de jovens da igreja. Assim, foram se restabelecendo conversas e momentos.

Mas quando foram adicionados no grupo de WhatsApp, Águeda e Sandoval ainda estavam envolvidos em outros relacionamentos. Ela se equilibrava em um casamento de 20 anos e na criação de um filho adolescente. Ele, em um namoro, depois de dois casamentos, e na criação de um filho de 13 anos. Nem imaginavam que haveria um reencontro até hoje.

Cada um teve que atravessar separações muito difíceis para alcançar o outro novamente. Ter, primeiro, coragem para a solidão. Não foi um caminho em linha reta, mas uma travessia do coração ao pensamento. Até que o sorriso de Águeda, mais uma vez, chamou Sandoval para transpor a fronteira entre amizade e amor. “Comecei a ficar incomodado com a presença dela (nos encontros dos amigos de WhatsApp), mas um incômodo bom. E começou a voltar um bocado de coisa”, ele salta.

Amores serão sempre amáveis, atualiza a canção de Chico Buarque. Para Águeda e Sandoval, ainda havia o eco de antigas palavras, fragmentos do passado, vestígios do outro em si mesmos. Aconteceu, então, aos 48 anos do segundo tempo, um novo beijo roubado. “Só que esse beijo foi mais demorado do que o roubado da primeira vez!”, remoça Sandoval.

Os dois estão juntos desde maio deste ano. Alugaram um apartamento no último outubro, unem também os filhos de casamentos diferentes. Ela faz companhia a ele na cozinha e até já ensaia cortar algumas verduras; ele corresponde com flores, chocolates e afeto. Se amam com o amor que um dia, sem saber, deixaram um para o outro.



“É como se a gente pudesse dizer: sei quem eu sou, estou me entendendo, e sei quem ele é. Hoje, consigo compreender que estou com uma pessoa que tem qualidades e defeitos. E que a gente pode construir, juntos, o nosso crescimento”, retrata Águeda. “Nós vamos nos corrigir por muito e muito tempo... E, dessas várias experiências que eu tive, encontrei alguém que soubesse como chegar em mim”, demarca Sandoval. “Não existe a ideia de duas metades. Mas, sim, duas pessoas inteiras que querem fazer o outro feliz. Somos felizes e, por conta disso, a gente quer compartilhar a felicidade com o outro”, complementa.

De tudo o que passaram, os dois continuam preservando este instante. O que têm acertado para o futuro é uma viagem. Seguem curtindo a vida, as músicas, a dança, um brinde. Simples assim. A propósito, em um barzinho, noite dessas, ele entregou a ela um anel em meio a chocolates. E se fez a juventude outra vez. Postaram o noivado no grupo de amigos do WhatsApp, estão rindo até hoje. “É muito bom!”, vivem indefinidamente.

 

 

Natal - A Arte do Reencontro

Especial de Natal traz a história de reencontro e de amor