É pra valer a pena

Ainda que não seja do nosso cotidiano olhar recomeços, o mundo está cheio deles. E é bom que assim seja. Como bom seria perceber como são inspiradores. Neste Natal, O POVO, em suas várias plataformas, conta histórias de recomeços. São seis personagens que, em busca da felicidade, estão em pleno processo de refazenda de suas vidas

Por Fátima Sudário

A proposta era testemunhar recomeços. Acompanhar o primeiro dia de vidas em refazenda. Contar natais de cinco personagens. Por vezes, porém, o jornalismo traça o seu próprio caminho. E foi por ele que seguiram os repórteres Ana Mary C. Cavalcante e Emerson Maranhão. Ao invés de um ponto de partida, os dois se depararam com recortes bem mais amplos do que a nossa mentalidade disciplinadora traça na pauta.

 

Com ações em várias plataformas, os dois nos mostram as outras vidas de Cynthia, Gleidison, Diego, Marilene, Luana e Kaio. Gente que, por escolha ou por necessidade, recomeçaram. E pra valer a pena, na busca da felicidade. Recomeços difíceis, improváveis, mas corajosos e, até, espetaculares. É o caso da Marilene e do Diego. Ela precisava de fígado pra continuar vivendo e, ao fazer as orações, não sabia o que pedir a Deus, quando lhe acodia o pensamento de que alguém tinha que morrer pra ela sobreviver. Eis que os vastos caminhos cruzaram os destinos dela e de Diego. Ele portador de uma doença rara, com origem no fígado, que o consumia. Enquanto recebia um novo fígado, o órgão que lhe sugava a vida serviu para salvar a dela.

Tem a Cynthia garota de 13 anos e uma leveza de enxergar a alegria no acordar de cada dia e no ver o mar que lhe enche os olhos. Isso apesar das adversidades, que são assim, plurais. Se Einstein a conhecesse, não teria pudor de trocar a bicicleta pela prancha na pop fala que lhe é atribuída: a vida é como andar de bicicleta. Para manter o equilíbrio, é preciso se manter em movimento. A Luana que começa a trilhar uma carreira na profissão dos sonhos, fala da disposição de um outro recomeço. O Gleidison, que condenado a 108 anos de prisão, descobriu na música que ainda é gente e pode sonhar com o dia que será um pai livre. E o Kaio que vive um processo de transição de gênero e de encontro consigo mesmo.

É assim que desenhamos o Natal, que você lê agora e poderá ver hoje à noite, a partir das 18 horas, na TV O POVO (Canal 48, Multuplay 23, NET 24). E como nos diz Rubem Alves, “se, no meio da viagem, sentirem enjoo ou não gostarem dos cenários, puxem a alavanca de emergência e caiam fora. Se, depois de chegar lá, ouvirem falar de um destino mais alegre, ponham a mochila nas costas e procurem outro destino”. Porque recomeçar é pra valer a pena.

Lagartas que se borboleteiam

Por Émerson Maranhão


Há muitas divisões entre as gentes. Letrados e iletrados, pretos e brancos, homens e mulheres, canhotos e destros, ateus e crentes e uma infinidade além. Mas existe uma, aparentemente miúda, quase nunca notada, que tem importância inversamente proporcional a que lhe costuma ser dada. Para além da cor e raça, do nível de conhecimento, das ideologias políticas, do gênero, das crenças, as gentes se dividem entre aqueles que tomam para si as rédeas do seu destino e aqueles outros, a quem é suficiente seguir sua sina, entre alvoradas e anoiteceres.



Os primeiros não se bastam com os desígnios do estabelecido, qualquer que seja ele. Como personagens de tragédia grega, insurgem contra a vontade dos deuses e escrevem, a próprio punho, os capítulos de sua saga. Uns inconformados, estes. Não temem recomeços, e são capazes, sabe-se lá como, de alterar rotas estabelecidas, de reinventar-se, de trocar de pele. Arriscam-se em busca de uma felicidade insuspeitada. Lagartas que se borboleteiam.



Os segundos são seu oposto. Creem que se assim está é porque assim há de ser. E havemos todos de nos acostumar. Ou, melhor dizendo, nos conformar. São da sua natureza a aceitação e a permanência. Entendem que a felicidade possível é mais que suficiente e não é necessário empreender jornadas rumo ao desconhecido em busca de outra. “Qual outra se à minha mão já tenho esta?”



Tantos os inconformados quanto os conformistas, chamemos assim, sabem das dores e delícias de ser o que são. E, o mais importante, parecem muito satisfeitos em sê-los. Aqueles que nasceram sob o signo da inquietude nunca serão felizes admirando o estado das coisas. A eles urge protagonizar esta experiência a que nominamos de vida. Assim como àqueles cuja existência é guiada pela beneplacência nunca será confortável estar no comando de suas ações e arcar com as devidas consequências.



Aproximar-se de ambos revela que não há facilidades em nenhum dos casos, apenas naturezas essencialmente distintas. Aos inconformados, os conformistas parecem se contentar com pouco, viver pela metade, escorar-se em conveniências. Aos conformistas, os inconformados aparentam sofrer eternamente de incompletudes, de uma avidez extrema e infinda, de uma agonia permanente. Ambos se cansam um ao outro. Uns pelo excesso de esforço, outros pela falta.



Não é à toa que este comentário a respeito da divisão de gentes ocorre hoje, justo hoje. Diz o calendário que no dia de amanhã, há mais de 2 mil anos, nasceu um certo rapaz que tinha a característica única de pertencer aos dois grupos, simultaneamente. A um tempo em que cumpria na Terra uma missão específica e previamente determinada, deixou como seu maior legado o ensinamento que é possível se reescrever, se reinventar, reiniciar caminhos, mudar de rumos, nascer de novo sem ter morrido, fazer do casulo a antessala das asas.



Porque talvez seja esta a imagem que melhor sintetize os ensinamentos deste nazareno. A vida em transformação. O poder de abrir novos caminhos. A certeza das infinitas possibilidades que temos e somos.

Mar

A JUNÇÃO DO

MAR

Querer existir foi o primeiro entendimento...

...sobre começar desde sempre. Entre o nascer e o pôr do sol no Titanzinho, Cyntia, 13 anos, supera o medo das ondas e une recomeços

Por Ana Mary C. Cavalcante (TEXTOS) Por Rodrigo Carvalho (FOTOS)

A gravidez havia sido de risco. Na hora incerta do parto, a medicina só poderia garantir uma vida: que a avó escolhesse ou a filha, 15 anos, ou a neta, um esboço. “A minha avó escolheu a minha mãe, que ela já tinha criado. Eu entendo. Eu, ela nem sabia ainda que eu existia”, conta Cyntia dos Santos, 13 anos, o que lhe disseram sobre o seu nascimento. E assim a menina entendeu: que ela precisava começar, desde sempre.


Cyntia é uma das muitas infâncias que povoam as ruelas de areia, calçamento e quebra-molas da comunidade do Titanzinho - no bairro Cais do Porto (nome oficial) ou Serviluz (nome afetivo), por trás de um dos cartões-postais de Fortaleza. Na casa onde mora, já couberam bisavós, mãe, irmãos, “quatro tios e as mulheres deles”; tudo junto, rindo das piadas que a bisavó inventava com as baratas francesinhas para enganar o medo. Quando apura R$ 10, vendendo ovos de codorna nos domingos de praia, Cyntia aluga dois pares de patins e brinca com o irmão de oito anos no calçadão da Beira-Mar. É o auge dos dias. Mas, por esta época, a menina planeja economizar a brincadeira para comprar uma roupa de Natal e de Ano Novo.

 

Ela vai compondo sua história na beira da praia. Enquanto une recomeços, olha para o mar e avista a própria vida. Vez em quando, sorri para ambos, agradecida por tê-los. Entre o nascer e o por do sol no Titanzinho, Cyntia estuda para ser “promotora de Justiça quando crescer” (especialmente, quer libertar as mães) e aprende a se equilibrar em uma prancha duas vezes maior que o seu tamanho.Na tarde desta entrevista, fazia uma semana que superava o medo das ondas, na Escola Beneficente de Surf (EBS) do Titanzinho. “Sempre é preciso ‘furar’ a onda para ir atrás da melhor”, decifra mar e vida.“Precisa de muito equilíbrio”, tenta e se aventura a nadar e a viver.

Foto: RODRIGO CARVALHO
Cyntia dos Santos, 13 anos, estudante. Aprende surf na Escola Beneficente de Surf do Titanzinho

Tem onda “que é mais braba”, encara. Como no dia em que a bisavó morreu. “Ela era a minha mãe, meu tudo”, retrata Cyntia que, há três meses, enche de lençóis o lado vazio da cama para fazer de conta. “Eu só dormia do lado dela”, ressente. A bisavó a criou até os 11 anos, antes de adoecer. É difícil anoitecer sem os carinhos dela e, quando clareia, Cyntia procura ocupar os vãos. Considera um segundo recomeço, frente a frente com a força da morte.

 

Ela preenche as tardes na escolinha de surf. É uma das mais assíduas da turma de 28 meninos e duas meninas e já consegue ficar em pé sobre a enorme prancha (ou as enormes dores). “O segredo é a dedicação, eu acho. Cair, levantar, seguir”, conjuga mar e vida.E sorri ao lembrar que já levou “umas dez mil quedas”. Segue treinando, onda após onda, dia após dia, para vencer os desafios que o mar e a vida lhe impõem. “Não é toda onda que nós acerta”, diz, com o olhar no horizonte, disposta a começar mais dez mil vezes.

 

A imaginação vai na frente do conhecimento...

“A Cyntia é esforçada. E pessoas esforçadas, eu costumo ensinar pouco. Para bom entendedor... Os esforçados sempre conseguem. O pouco que a gente dá, ele faz muito”, atenta João Carlos Sobrinho (Fera), 46 anos, professor de surf há 20 anos e idealizador da EBS. A escola tem um princípio humano e eficaz: “Primeiro, a gente ensina o cérebro, depois, o corpo. O cérebro não sabe o que é imaginação e realidade. Tudo começa a partir da imaginação, a imaginação vai na frente do conhecimento. E a prática leva à perfeição dos movimentos”, indica Fera.

Assim, Cyntia traça uma risca nas ondas. Desafia-se e recomeça de si mesma, desde que nasceu.“Nasci roxa, precisou o doutor ver se eu tava viva... Deus quis que eu nascesse. Eu tenho uma vitória lá na frente”, caminha pelo chão de areia, calçamento e quebra-molas, vinda do mar, carregando uma prancha (como se levasse a própria vida) que é duas vezes o seu tamanho.

WebSérie - A conjugação do mar

Mar

O RECOMEÇO DO

TEMPO

Homem feito dentro das contradições da prisão

Gleison Almeida diz ter se libertado de suas próprias condenações ao aprender, ensinando violão na cadeia, outra possibilidade de si. Percebeu o quanto ainda é gente

Por Ana Mary C. Cavalcante (TEXTOS) Por Rodrigo Carvalho (FOTOS)

A liberdade durou até a adolescência. Aos 30 anos - alto, educado, de fala cautelosa, músico, homem feito dentro das contradições da prisão –,Gleidson de Oliveira Almeida olha a vida pelas brechas das grades. Considera que “era um jovem normal, brincava de skate, de cross, de bola”. Passou a salvo (ou quase) pela infância sem pai (com padrasto), na periferia de Caucaia (Região Metropolitana de Fortaleza), estudou. Depois do segundo grau, não ligou mais pra nada. “Desviei o caminho quando quis ter algo que as outras pessoas tinham, e eu não tinha. Eu tinha uns 14 anos”, demarca. Menor de idade, tornou-se interno na antiga Febem, durante um ano e quatro meses.

Foto: RODRIGO CARVALHO
Gleidson de Oliveira Almeida, 29, presidiário


Ao completar 18 anos, o tempo sofreu um revés. Gleidson conta, quase sem pausa, como se assim fosse possível chegar logo ao outro lado, que foi “julgado a 108 anos, por latrocínio e assalto à mão armada, e outras coisas que falaram que eu era e por ter sido pegue na hora errada, jogaram um monte de coisa pra cima de mim”. Na primeira década que atravessou nas penitenciárias do Estado, ele perdeu a noção da vida. “A hora de acordar é como se fosse um desafio pra gente”, luta, dia a dia.


De uns três anos pra cá, prestando atenção nas músicas que preenchiam o isolamento do presídio, ele diz, caiu em si. Percebeu o quanto sente dor e mesmo amor; e o quanto ainda é gente, mesmo dormindo com bichos.Agora, na Penitenciária Francisco Hélio Viana de Araújo, em Pacatuba (Região Metropolitana de Fortaleza), Gleidson tenta recomeçar o tempo: voltou a cantar, como costumava antes de ser preso, e pediu à irmã que, na visita, lhe trouxesse um violão e revistas que lhe ensinassem a tocar.


O diretor do presídio perguntou o que ele pretendia fazer com aquilo. “Eu ia mostrar que a gente consegue (aprender). Quando a gente nasce, não sabe andar, falar, e todos aprendem. E eu acreditava que ia conseguir”, argumentou. Aprender é uma maneira de se libertar.“Pela Justiça, eu já não tinha mais jeito. Resolvi mostrar outro lado, mudar alguma coisa, ser útil. Até então, eu não estava servindo pra nada, só pra escória da sociedade”, reflete.

 

Gleidsonse refez instrutor no projeto Acordes para a Vida. Ensina violão a outras13 “pessoas, de 18 a 45 anos, de crimes variados”. Com o apoio da direção do presídio, as aulas ganharam um estúdio musical, na própria cadeia, e o projeto já ensaia a Banda Ressocializados há quatro meses. Na prisão, surgiram tecladistas, bateristas, guitarristas. Ensinar é uma maneira de libertar os outros.

A verdade é outro caminho a ser trilhado

“A gente pode nos libertar de nós mesmos, daquele homem mal que tá dentro da gente. Todos os dias, a gente tem a opção de fazer o bem e de fazer o mal”, equilibra Gleidson que, na cadeia, foi pai. O filho, entre visitas uma vez por mês, já completou sete anos e também o recomeça a cada manhã. A criança gosta de jogar bola com ele e de ouvi-lo cantar, mas não compreende por que não deixam o pai ir embora dali. “Ele estuda, e os meninos da sala perguntam: cadê teu pai? Eu digo pra ele: fale a verdade, se as pessoas lhe rejeitarem, não tem problema. A gente tem que viver da verdade”, encara Gleidson.

A verdade é outro caminho a ser trilhado, quando, somadas as remissões e direitos penais possíveis, ele sair da penitenciária. Gleidson considera que vai ser difícil as pessoas se acostumarem com ele. Mas, depois da vida na prisão, ele acredita saber recomeçar o tempo: “Quero mostrar pra essas pessoas que desacreditaram, que falaram muito que não tinha jeito, e não só pra eles, mas mostrar pra mim mesmo que eu consigo vencer, através do esforço, das lutas. A vida é isso, é difícil, não é fácil”.

WebSérie - O recomeço do tempo

Mar

QUANDO ALGUÉM COMEÇA OUTRO

Alguém

O encontro de Diego e Marilene

é singular tanto para a história da Medicina quanto para os dias seguintes dos dois pacientes. Ele se tornou parte dela

Por Ana Mary C. Cavalcante (TEXTOS) Por Rodrigo Carvalho (FOTOS)

O recomeço pode ser algo mais simples do que se imagina. Pode significar, apenas, ter a vida usual de volta, estar ao lado de quem se ama,fazer os mesmos planos outra vez – com novas certezas.Em um dos corredores da ala de transplantados do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC/Universidade Federal do Ceará), onde têm consultas marcadas periodicamente, o taxista Diego Alair da Costa Lima, 30 anos, e a aposentada Marilene Ferreira de Azevedo, 64 anos, tecem amanhãs.Desejam passar o Natal em casa, trabalhar como de costume, continuar a vida.

 

Embora separados por uma distância geográfica – Diego é do interior do Rio Grande do Norte e Marilene é de uma cidadezinha do Amazonas -, um se tornou o recomeço do outro. Somando-se, demonstram que é possível haver um infinito no que é humano.Aconteceu quando descobriram que precisavam passar por um transplante de fígado.

 

Diego foi perdendo peso e força, até não conseguir mais andar e trabalhar. Inúmeras consultas depois, um teste genético identificou uma doença hereditária e rara: a PolineuropatiaAmiloidótica Familiar (PAF) que, ao longo dos anos, vai minando órgãos e tecidos a partir de uma proteína produzida pelo fígado. “Os médicos conversaram comigo. Eu tinha 70% de morte e 30% de vida... Eles me disseram que era uma escolha minha (fazer, ou não, o transplante)”, reconstitui. Ele arriscou todo o percentual de esperança. No próximo dia 26, vai fazer quatro meses que recebeu um fígado de um doador morto. “Graças a Deus, deu tudo certo”, recomeça.

Foto: RODRIGO CARVALHO
Marilene e Diego, o recomeço após transplante


Do outro lado do rio Amazonas, Marilene era diagnosticada com cirrose hepática e câncer de fígado. Ela culpa a aposentadoria pela doença: “Foram 31 anos de trabalho, aquilo estava me fazendo falta. Porque criei meus (cinco) filhos trabalhando”.As dores lhe obrigaram a parar também a venda de salgados, um extra que aumentava o ganho. Mas o pior foi aportar em terra estranha aos 60 anos, “só eu e minha filha, sem um conhecido mais”. A filha lhe doou coragem, enquanto Marilene esperava - “um ano e um mês” - pelo transplante. “Eu pedia: ‘Senhor, alguém vai morrer pra me dar um fígado? Como eu peço pro Senhor?’. Porque eu não queria que ninguém morresse”. Neste ponto da vida, ela conheceu Diego.

"Momento de gratidão, conseguir salvar outra vida"

O encontro de Diego e Marilene, na Unidade de Tratamento Intensivo do HUWC, uma hora e meia depois dele ter recebido um fígado novo, é singular tanto para a história da medicina quanto para os dias seguintes dos dois pacientes. Diego se tornou parte de Marilene. Por meio do “Transplante Dominó”, foi possível transferir o fígado dele para ela.

 

Por um lado, a medicina garante que, apesar da PAF, o órgão está com as “funções inteiramente preservadas” e só acomete o portador da doença hereditária. Por outro lado, Marilene tem fé: “Eu tô pronta pra voltar (ao Amazonas e ao trabalho) e vou continuar. Eu tô boa, minha filha, tô com um fígado novo!”.

 

Diego também recupera o corpo e as certezas. Acredita que, com o transplante, ganhou “mais 20, 30 anos pra frente”. A vida vai entrando no ritmo, ele sente outra vez. Para 2016, planeja “andar normal, viajar, voltar a trabalhar, fazer tudo o que gostava de fazer”.

 

De modo mais simples do que nos damos conta, a vida se faz e refaz por uma premissa: alguém sempre pode começar outro alguém. “O Diego é uma pessoa de coração muito bom, que deu de acordo com o meu coração... Ele foi um presente de Deus, nunca mais vou me afastar dessa família”, abraça Marilene. “Meu órgão não servia pra mim, mas servia pra outra pessoa. Como eu estava recebendo um, por que não doar? É um momento de gratidão, conseguir salvar outra vida”, ele une.

WebSérie - Quando alguém começa alguém

Mar

A INFINITA POSSIBILIDADE DE

SER

Fundamental é ter sonhos e perseverança

Idade e tempo são medidas relativas quando é preciso recomeçar. Luana, 25 anos, demonstra que o fundamental é ter sonhos e perseverança a qualquer hora da vida, para seguir em frente

Por Ana Mary C. Cavalcante (TEXTOS) Por Rodrigo Carvalho (FOTOS)

Trabalho e estudo se revezam nos recomeços de Luana Mayara Gomes Bastos, 25 anos. Desde os 18 anos, época marcada, principalmente, pela saída do pai de casa, Luana precisa equilibrar contas e sonhos. “É complicado e cansativo”, resume.“Quando tentei vestibular e não consegui passar, eu precisava trabalhar porque minha mãe (que é professora) não estava trabalhando e não tinha renda fixa”, ela traça o início de uma história de buscas, que se completa dia a dia.

 

Luana, então, pegou o ônibus e cruzou meia Cidade (ela mora no Canindezinho, regiãodo Grande Bom Jardim) em um percurso que muitos jovens desbravam entre as utopias: deixou currículo e esperanças no cadastro do Sistema Nacional de Emprego (Sine-CE).E o que já tem escrito em um currículo de uma pessoa que mal completou 18 anos e que possa interessar ao mercado? “Nada. É tipo uma súplica de emprego”, responde Luana. Nas entrelinhas, ela contava menos com o único certificado que oferecia, “de operador de microcomputador”, e mais com a disposição para “fazer qualquer coisa”.

 

Aceitou a vaga na loja de departamentos de um shopping e seguiu estudando, que a vida é maior. Luana queria mesmo era cursar Jornalismo, tem curiosidade de saber um tanto de tudo e vontade de encantamentos; trabalhar só pelo salário é precisão, mas também é muito pouco. Até chegar onde imaginava, multiplicava-se em dois expedientes: dos estudos para o emprego. “Às vezes, ia em casa correndo, porque eu prezava por um bom banho e uma pouquinho da comida da minha mãe. Comia engolindo e ia correndo pro shopping”, refaz-se.

Foto: RODRIGO CARVALHO
Luana Mayara Gomes Bastos, 25 anos, estagiária do O POVO Online


O vestibular estava logo ali, acontece que o cansaço fazia a distância. Luana tinha mudado de emprego e encarava dois turnos em uma empresa de call center quando se matriculou em um cursinho preparatório. “Eu estudava de manhã e trabalhava tarde e noite”, emenda. Era muito difícil assimilar o conteúdo do cursinho, a cabeça dava voltas, o corpo pedia pausas. Foi o momento crucial de resistir. “Eu tinha que me esforçar de alguma forma”, recomeçou mais uma vez.

 

E de onde vem tamanha força? Talvez do mesmo esconderijo, em nós, onde são fabricados os sonhos. “Valeu a pena porque era o curso que eu queria”, Luana sorri e chora ao mesmo tempo em que conclui o Curso de Comunicação Social na Universidade Federal do Ceará (UFC). Está no oitavo semestre e, no último novembro, iniciava um estágio no Portal O POVO Online com uma expectativa de muitos começos somados: “De querer fazer tudo certo”.

 

Flexibilidade para a vida

Luana venceu uma seleção que garimpou conhecimento, disposição e os olhares que se tem do mundo. Luana anexou ao currículo, desta vez, um saber que descobriu desde quando o pai saiu de casa: “Acho que tenho flexibilidade. E, para a plataforma (online), para o dia a dia (na Redação) e pra vida, isso é preciso. É preciso você se readaptar, se reinventar, driblar as coisas. Acho que tenho isso”.

 

O estágio no O POVO Online marca, agora, novo ponto de partida para a estudante. Aos 20 e poucos anos, Luana prefere viver o presente que definir o futuro. “Tento aproveitar o máximo todas as oportunidades que surgem e aproveitar o momento. Tento viver o agora, passo por passo... Sei que quero me esforçar e aprender”, segue seu caminho de buscas. E, em par com as histórias que deve garimpar nos outros, em encontros marcados pelo jornalismo, existe a possibilidade de completar-se. A partir do novo estágio, Luana quer escrever também “uma história de me descobrir, de saber do que sou capaz... Já sei que não vou desistir, que tenho muita perseverança”.

WebSérie - A infinita possibilidade de ser

Mar

A EXISTÊNCIA DE

KAIO

O maior recomeço: ser feliz

Kaio vive um processo de transição de gênero - e de tudo o que é invisível aos olhos - desde a infância foi criado como menina, sendo, essencialmente, homem. Hoje, e a cada dia, vive seu maior recomeço: ser feliz

Por Ana Mary C. Cavalcante (TEXTOS) Por Rodrigo Carvalho (FOTOS)

O recomeço mais difícil, talvez, seja o de nós próprios. Não o dos dias, que nascem independentes e não nos obriga a vivê-los. Mas o recomeço de quem somos nos exige estar, inteiramente, dispostos a nós mesmos – e a angústias, e a dores, e a amores, profundamente, particulares. “Eu sentia um peso por não ser eu. Mas eu não sabia o que era ser eu. Não sabia se isso era coisa de menino, ou de menina. E eu me sentia mal porque não podia ser eu”, expõe o universitário Kaio Lemos, 36, um dos coordenadores do Instituto Brasileiro de Transmasculinidade – Ceará.


Kaio vive um processo de transição de gênero - e de tudo o que é invisível aos olhos - desde a infância. É o caçula de cinco filhos do primeiro casamento dos pais e foi criado pela mãe “como uma menina. Ela entendia assim por conta do meu órgão sexual”. Então, Kaio desfilou de vestido na escola, em troca de um velocípede e com uma ressalva: “Eu disse pra ela que só ia desfilar se ela comprasse um vestido azul”.

Foto: RODRIGO CARVALHO
Kaio Lemos, 36 anos, estudante e homem transexual


A infância foi ainda resumida em amigos e brincadeiras. “Fui uma criança muito recatada”, retrata. “Brincava dentro de casa e, como eu rejeitava bonecas, não ganhava outra coisa”, completa. Sua diversão era recortar pessoas das revistas e inaugurar famílias do jeito que o pensamento sentia: “Eu era o pai”. Brincava escondido, “em voz baixa, para que ninguém ouvisse. Porque eu sabia que isso ia ser questionado”.

 

Entre nascer e existir há uma longa e tortuosa distância.“Transição não é só a parte externa, que você está vendo. É uma coisa que está dentro, é da essência, da alma”, explica. “Eu sabia que não era uma menina. Mas também não tinha a certeza se era um menino. Eu era algo em trânsito”, compreende. Na adolescência, Kaio usou drogas como se pudesse esquecer a identidade de gênero e a sexualidade. Ele foi se desfazendo: deixou de estudar, morou na rua, negou relacionamentos. “Pensava em me suicidar, mas tenho medo da dor”, salvou-se a tempo de amar(-se). “Já pensei, muitas vezes, em morrer. Hoje, tenho muito cuidado para que isso não aconteça. Porque agora que estou vivendo”, sorri.

Ele decidiu existir plenamente

Kaio foi conhecendo (muitas, tantas) pessoas semelhantes e silenciadas. “E a gente vai ajudando uns aos outros”, fala. Há cerca de um ano, ele se recomeça. Comprou as roupas que queria. Mudou o nome na universidade e nas redes sociais. Iniciou um tratamento hormonal com testosterona. Junta dinheiro para fazer a mastectomia e a histerectomia (retirada das mamas e do útero). Decidiu existir plenamente.“Todo esse processo, não é que seja exato para o homem trans. É um processo que torna a vida menos dolorosa socialmente”, soma.


A cada dose hormonal ou a cada embate social, Kaio vai alinhando corpo e mente. “Meu pensamento está mais concreto e forte. Antes, eu tinha dúvidas, medos. Esse é o momento mais certo da minha vida”, renasce.Não é tão simples. A mãe, por exemplo, ainda não o viu com barba. Há mais de 20 anos,ele não convive com os parentes. As abordagens policiais são constrangedoras. O nome, no RG, ainda é o de batismo.

 

No mundo que ele mesmo começa, Kaio formou uma família que sentia verdadeira. Está casado há nove anos com quem conhece todas as suas dores. “É uma das pessoas que luta ao meu lado. Ela é incrível... Vivo minha vida com ela de forma conjugal, em comunhão. Isso pode ser entendido como família”, declara.“Acredito que seja muito amor por mim mesmo e vontade de ser feliz. Isso é o que me dá forças para recomeçar quantas vezes for possível. Não existe uma felicidade plena, existem diversos momentos felizes. E vivo em busca dessas minhas diversas felicidades”, continua.

 

WebSérie - A existência de Kaio

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