Editorial

Por Daniela Nogueira

Discutir os vários temas que envolvem a mobilidade urbana em Fortaleza é um dos objetivos do projeto Movimento Urbano. O assunto é um grande desafio em todas as cidades contemporâneas do mundo todo e precisa ser entendido olhando-se para os diversos agentes que o compõem. O tema passa pelo trânsito, sim, mas não só. A agenda da mobilidade urbana é mais ampla - ela inclui planejamento urbano, espaços públicos amigáveis e uma cidade acessível, por exemplo.


Na série de oito cadernos que publicamos semanalmente a partir de hoje, tivemos o cuidado de focar no pedestre, que é ator principal de todo esse processo. Procuramos mostrar que (já) é possível deixar o carro em casa e caminhar por Fortaleza. Mas isso não é apenas uma questão de trânsito. As calçadas precisam ser adequadas e acessíveis; o lixo deve ser recolhido do meio do caminho; e a sensação de segurança tem de ser maior. São elementos para um caminhar seguro e agradável.


Além disso, destacamos como a bicicleta, o transporte público, a moto e o automóvel têm seu papel nesse emaranhado urbano. A integração dos vários modais de transporte, que tem sido estimulada, é válida e precisa ser conectada de forma aperfeiçoada, sem brechas.


A ideia deste projeto é contribuir para o debate da mobilidade urbana, apresentando proposições de especialistas no assunto e ouvindo quem mais usufrui de todo esse sistema - a população. Não basta tão somente apresentar os nós que dificultam os padrões de uma mobilidade sustentável. O que nos interessa é ajudar na discussão da democratização da mobilidade, um direito de locomoção que pertence a todos.

'A melhor coisa do mundo é andar na rua'

Caminhabilidade, conectividade e desmotorização são temas que pautam os projetos urbanísticos coordenados por Fausto Nilo para Fortaleza. O arquiteto defende valorização do pedestre, de mais gente na rua, do Centro habitável, além da proximidade das vizinhanças

Por Lucas Mota

No 16º andar da torre dois do Pátio Dom Luís, Fausto Nilo nos espera para uma conversa sobre mobilidade urbana com foco no pedestre. No local funciona o seu escritório de arquitetura com decoração em tons verdes e pinturas que valorizam a arte do urbanismo, como o quadro da catedral Santa Maria Del Fiore, de Florença, na Itália, e ampla janela de vidro com vista para o horizonte da Aldeota – região de "muralhas" como ele mesmo define.

Para os dias de trabalho na semana, o arquiteto, defensor da caminhabilidade e da desmotorização, prefere a locomoção a pé. A proximidade entre o escritório e a sua residência é tanta que, do alto da torre, é possível situar a casa. Coordenador da área de Mobilidade do Plano Fortaleza 2040, o arquiteto propõe a Capital cearense com vizinhanças próximas e conectadas com corredores amplos para o transporte público, com calçadas padronizadas, térreos comerciais, “gente na rua” e flexibilidade para ir e vir. “A segurança, quando se organiza ‘urbanicamente’ e reduz a exclusão de acesso, é feita pela rua cheia de gente”, afirma.

A palavra acesso faz parte do discurso de Fausto quando o assunto é mobilidade. E é utilizada no sentido de combater a "segregação da Cidade". Ele explica: "O muro é a morte de todo mundo, da acessibilidade, do idoso, da segurança também". Entusiasta da caminhabilidade, o arquiteto projeta um Centro habitável, com mais tráfego de pessoas e menos carros. "O comércio popular salvou o Centro, está segurando. Agora a localização de habitações em zona central, não é necessariamente no foco, na Praça Ferreira, é na periferia central. Se você fizer esse anel, pode colocar 100 mil pessoas, e elas vão chegar a pé no Centro. E vão querer morar aí, porque é perto do trabalho, isso se você trouxer alguns componentes de serviço público. A ideia é não proibir, mas desestimular (o uso do carro no Centro)".

Natural de Quixeramobim (CE), Fausto Nilo é graduado pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Ceará (UFC). Trabalhou como arquiteto sênior do Metrô de São Paulo e foi professor da UFC e da Universidade de Brasília (UnB), além de ter sido coautor de projetos como a reforma e adaptação da Ponte dos Ingleses, o Mercado São Sebastião, a nova Praça do Ferreira e o Centro Dragão do Mar de Arte Cultura. Conquistou ainda o concurso de projetos para reordenação urbanística da avenida Beira Mar, em Fortaleza, em parceria com os arquitetos Ricardo Muratori e Esdras Santos, em 2009; e o Prêmio Internacional no Concurso de Escolas de Arquitetura da Bienal de São Paulo, em 1969, tratando sobre mobilidade.

 

PINGUE-PONGUE

O POVO - Você valoriza o seu lado pedestre em Fortaleza?

Fausto Nilo - Eu sou pedestre. Na minha casa tem um carro; moram comigo uma filha, as netinhas e o marido. Não uso o carro. Escolhi morar perto do trabalho, ali na esquina (aponta na direção da janela de vidro). Até dois quilômetros, resolvo tudo a pé, vou só, planejo, dependendo da hora. Conheço muita gente que, para oferecer carona, não compreende. Mas eu gosto, a melhor coisa do mundo é andar na rua, você vê as coisas. De carro, você não vê. A rua é tudo. Apesar das ameaças que temos hoje por conta dessa segregação de incompatibilidade.


OP - O que você pode destacar hoje na Cidade que valorize o pedestre?

Fausto – Percebo nada não. Pelo contrário, uma Cidade que foi toda condenada a ter calçada de 1,8m ou 2m de largura, sem arborização. É difícil instalar arborização nessa largura. Essa Aldeota é toda de muralha, é coisa cega. Não tenho a comunidade na rua. Copacabana tem porque o térreo comercial é predominante, os acontecimentos (violentos, homicídios) são poucos. Nós destruímos a rua como lugar do ser humano. Ao compartilhar com veículos, esquecemos as pessoas e ficamos com medo da rua, construímos muralhas. Nós esquecemos a altura da moradia. Até o 6º andar, eu me sinto parte da rua. Se estiver havendo uma confusão, falo com porteiro, pergunto o que está acontecendo. Mas no 20º andar, jamais vou ter isso; entrei na minha garagem, tchau! Não sou contra torres altas, mas é preciso saber usar em lugares convenientes.


OP
- E o que poderia ser feito para melhorar a questão do pedestre?

Fausto - Essa pergunta é a mais complexa que pode existir sobre isso, mas nosso trabalho Fortaleza 2040 obteve a resposta. Tenho uma cidade hoje segregadora, tudo é segregação. Nós fizemos um metrô de superfície em grande parte. Um transporte pesado sobre trilho em superfície dentro da Cidade é obrigado a ser segregado, porque lá tem grade e separa a comunidade que era junta anteriormente. Em troca, você não criou, nesse ambiente, algo que dinamize a vida social. Não ocorre nada comigo de frente para grade. Torna-se um lugar vulnerável, uma zona deprimida geradora de oportunidade de crimes. A ocorrência repetida disso produz outro fator: o medo do crime. E tenho que harmonizar isso. A cidade sempre foi matriz de intercâmbio, o papel dela face a face tem que ser reforçado. Senão, vamos ter futuras gerações obsessivas de contato de tela. O papel da Cidade é importante. Agora tenho que descobrir quais são esses corredores que formam essa conectividade. Primeiro: o tipo de obra para instalar esse transporte e automóveis, essa calçada de quatro metros, arborização e esse comércio. Quando somo isso, eu preciso alargar as vias mais viáveis ou escolher as largas. No fim de tudo, dá um sistema de corredores e sistema de habitações com uso acrescido, possibilitando muita gente nas ruas. A zona entre os corredores tem que ficar 1,2km distante de uma estação. Será dada a liberdade para morar quem quer ter carro e quem não quer. Não posso proibir as pessoas de dirigir. Posso promover a partir do lema do urbanismo responsável a redução gradativa da dependência do transporte motorizado, ofertando transporte público seguro e confiável, ao mesmo tempo tendo uma mudança de cultura gradativa.

 

As cidades, até hoje, têm sido desenhadas para jovens. Se fosse desenhada para o conforto dos idosos, não atrapalharia em nada os jovens.

 

OP - Uma das coisas que podem mudar esse cenário são as vizinhanças próximas umas das outras previstas no Plano Fortaleza 2040?

Fausto - Sim, vizinhanças ancoradas em estações de transporte público, dando prioridade para morar ali pessoas que preferem não usar carros e idosos. Esses são os escolhidos e atraídos por essa nova vida.

 

OP - Assim as pessoas vão ter mais vontade de exercer o seu lado pedestre?

Fausto - Acho que sim. Mas isso não é uma tarefa que se resolve com um elemento só. É complexo. Tem que ter corredores, entre eles têm que formar uma rede de alta conectividade. Vou para qualquer lugar, mudo de estação e chego com alta flexibilidade a qualquer local do território. Se vou levar um trajeto para um lugar que não tem ninguém morando, tudo começa a ficar inviável. Tem que ver o prognóstico do futuro. Sou obrigado, no Plano, a prever as construções de habitações, e escolho fazer na conveniência do transporte. O plano é, ao mesmo tempo, integrado em construção e concepção ao transporte e adjacências que formam ruas. Essas adjacências construídas são calculadas para dar viabilidade para esses transportes e térreos comerciais, porque o espaço público tem que ser seguro. Com a segurança que temos hoje, somos obrigados no desespero a apelar para a Polícia e a repressão. A segurança, quando se organiza ‘urbanicamente’ e reduz a exclusão de acesso, é feita pela rua cheia de gente. Para isso, preciso ter térreo comercial, evitar parede cega e muralha, evitar sombra de viaduto com queda de valores imobiliários e espaços desertos e perigosos embaixo. Tudo tem que ser equilibrado.

 

OP - Pesquisa do IBGE apontou que cerca de 30% das viagens cotidianas são realizadas a pé no Brasil. Qual a importância das calçadas padronizadas nesse contexto?

Fausto - Só posso falar do Plano Fortaleza 2040, porque é uma coisa prática e calculada. Como faria essas calçadas? Se for alargar uma calçada aqui (Fortaleza), ou reduzo a via ou a propriedade. Acho que as duas escolhas são complexas, teríamos muita dificuldade. Mas posso ter solução alternativa. Nesse caso, posso prever um lugar que não tem torres e mapeá-lo, prevendo que elas chegarão, e colocar tudo isso na regulamentação, fazer com que esses prédios tenham térreo comercial e no recuo seja formado por nova calçada com 4m. Mas isso não é uma ideia tão generalizante para cidade toda. Concluímos que, até 2040, implantados todos os corredores, eu vou apoiar aquele prognóstico, vão caber aqueles que nascerem e os que migrarem, e precisa construir para isso. Vou parar de fazer o Minha Casa, Minha Vida em lugar sem infraestrutura, isolado, e vou fazer nos corredores para todas as classes sociais interessadas, porque um corredor pode passar numa situação que tenho tantos benefícios acessíveis. E posso ser uma pessoa que escolho, em primeiro lugar, a localização, e não a área do meu apartamento – isso é uma tendência mundial. A parte imobiliária vai começar a ofertar essas oportunidades com menos área, mas que você desce e tem tudo embaixo, sem precisar de automóvel. Se a rua é animada, aí é uma maravilha. Quando junto todos os corredores, terei calçadas novas com 4m, o transporte público será priorizado. No futuro, vou ter 160 km de corredores, de infraestrutura e de infiltração de água, aplicados nesse plano.

 

OP - Uma boa calçada pode mudar a rotina dos pedestres de uma cidade?

Fausto - Muito! O Plano faz previsão de sombra projetada na nossa região. Posso saber pelo Plano onde a calçada vai ficar na sombra por mais tempo, assim privilegiando regiões. Tipo a Praça do Ferreira, em frente ao Cine São Luiz. Do outro lado onde sol oeste bate, não tem ninguém. E isso já era previsto no projeto, por isso há bancos para apoiar. Tem que trabalhar com luz, chuva, água, tudo misturado o tempo todo.

 

OP - Você defende um Centro mais habitável?

Fausto - Isso é um padrão técnico, não é só uma opinião minha. Quando uma zona tem uma queda de pessoas no espaço público, você tem que investigar. Posso nem conhecer a cidade, mas se me disser características, já cito vários aspectos que pode estar influenciando. A falta de térreo comercial é uma delas, não é o caso do Centro, pelo contrário. Segundo é a falta de moradia. A moradia é a matriz em que gera vários acontecimentos.  O Centro da cidade, o chamado Centro histórico, tem o caráter de uso do solo dele em todo o mundo que é comercial, financeiro, cívico, de celebrações e poderes. Isso resume bem. Mas o nosso foi esbagaçado. Aqui (Centro) esculhambou quando foi embora o Poder, a Justiça... resta o quê? O comércio popular salvou o Centro, está segurando. Agora a localização de habitações em zona central, não é necessariamente no foco, na Praça Ferreira, é na periferia central. Se você fizer esse anel, pode colocar 100 mil pessoas, e elas vão chegar a pé no Centro. E vão querer morar aí porque é perto do trabalho. Isso se você trouxer alguns componentes de serviço público.

 

OP - A ideia também é não passar carro no Centro?

Fausto - A ideia é não proibir, mas desestimular, não haver razão. É fazer pontos de recepção nas periferias em todas as direções, onde possam colocar os automóveis, com conforto. Se quiser, a pessoa vai de bicicleta, vai a pé. Se quiser, deixa o carro em um lugar, pega um bonde elétrico para o Centro e depois volta para pegar o carro. É tirar os estacionamentos avulsos de dentro do Centro. Grande parte do tráfego é alguém saindo ou procurando vaga. Não precisa proibir. É uma desmotorização feita com estímulo à decisão do usuário.

 

OP - De acordo com o Relatório Anual de Acidentes de 2015 em Fortaleza, os pedestres são as vítimas que mais morrem, com 37,8% do total de ocorrências. Atualmente, já existem ações da Prefeitura visando ao cuidado do pedestre, Programa de Apoio à Circulação de Pedestre e a Área de Trânsito Calmo. Você acredita que há, de fato, uma preocupação com o pedestre na Cidade?

Fausto - O Plano de Ações Imediatas em Trânsito e Transporte de Fortaleza (Paitt) tem muita importância porque ele está criando padrões demonstrativos envolvendo as pessoas em experimentar padrões que podem ser sistematizados como um todo no futuro nas cidades. Agora são diferentes as ações do Paitt e as prescrições do Plano Fortaleza 2040, porque o Plano considera o sistema todo no futuro. Mas o Paitt é importante porque são emergências resolvidas, educativas e culturamente relevantes como práticas novas. É uma coisa que nos ajuda a preparar o futuro integralmente resolvido.

 

OP - Conforme o Relatório, entre 2010 e 2015, o crescimento populacional de Fortaleza foi de 5,7% enquanto o da frota de veículos foi de 41,6%. Como conseguir valorizar a caminhabilidade pela Cidade, desestimulando a motorização diante deste cenário?

Fausto - É o que chamei de redução gradativa da dependência do transporte motorizado. É isso que o urbanismo tem como missão no mundo todo. Só tenho um meio de chegar ao meu trabalho, à minha escola, que é com transporte. É preciso mudar essa realidade. Posso chegar com meus pés em várias coisas. Vejo várias discussões pretendendo ser de mobilidade, mas de grandioso equívoco. As pessoas discutem assim: ‘ah, estão descobrindo um carro elétrico’. Primeiro, ninguém garante que o vendedor de eletricidade vai ser mais bonzinho do que o de petróleo, é só uma mudança de energia. Segundo, você poderia, de fato, ter uma coisa positiva: a redução da poluição. Mas o que interessa, e isso já está começando a ocorrer, por exemplo, na cidade de Adelaide, Austrália, é que começaram a usar uma nova evolução de transporte público, chamada ônibus BRT, rápido que circula no corredor, como eu falei. É um ônibus com conforto interno igual ao de um bonde. Já fizeram o modelo híbrido com energia solar e elétrica. Então, imagine nós nesse colosso de luz (em Fortaleza) com todos os nossos transportes solares coletivos. O mundo todo deseja um planejamento que reduza a dependência do automóvel individual.

 

Fausto Nilo

OP - No Plano Fortaleza 2040 fala-se muito na palavra acesso. O principal beneficiado será o pedestre?

Fausto - Exatamente. Consideramos o acesso o físico, que gera acesso ao trabalho, à oportunidade de intercâmbio diversificado, oportunidade de conhecimento e informação. Tudo isso favorecido pelo acesso. É como se você buscasse as condições distribuídas que a Cidade teve, no período radicalmente de pedestre, na metrópole. Foram necessários aí cerca de 70 anos de amadurecimento e uns 40 anos de publicação e acesso da gente a essas mudanças gradativas de conceber a Cidade. Nós ganhamos um concurso quando éramos estudantes, na Bienal de São Paulo, a medalha de ouro. Isso tinha muito prestígio, eram 40 países, japoneses, todo mundo com alta tecnologia. A gente pensava que não tinha condição nem de concorrer, mas nós ganhamos porque antecipamos, em 1969, o desenho de um campus universitário com sistema local de mobilidade urbana, como estamos conversando aqui, com aquilo que era possível na época.

 

OP - E é importante já pensar em um plano de valorização do pedestre, já pensando nos idosos?

Fausto - Nós aqui teremos acréscimo violentíssimo. Vai começar agora o envelhecimento cearense, e o ritmo é brabo. A Beira Mar, de cujo projeto participei, fui coautor, não está implantada, tem um trechinho incompleto. Ela será um percurso de 3km e toda transitável por um idoso sem nenhuma soleira de 2cm, inclusive passagem de travessia da rua, e um bonde elétrico, que um velhinho sobe com facilidade. Mas muita coisa influi para o idoso pedestre, inclusive o piso, que tem que ser plano e ter pouca junta, pois pode desestimular o idoso. Ele não raciocina, sente que pode cair, é da natureza.

 

OP - E quais as principais medidas de acessibilidade nas calçadas?

Fausto - As rampinhas para os cadeirantes são risíveis hoje. Temos que preparar pavimentos de áreas públicas onde há equipamentos de grandes convergências, desde a chegada do automóvel, transporte público, até o acesso interno, com todos os componentes favoráveis à circulação de idosos. As cidades, até hoje, têm sido desenhadas para jovens. Se fosse desenhada para o conforto dos idosos, não atrapalharia em nada os jovens. Mas o contrário é terrível.

OP - Quais as características de uma boa calçada?

Fausto - Dimensão transversal, arborização, mobiliário urbano eboa sinalização – e sinalização não é fácil. A largura tem importância, porque deveríamos, gradativamente, embutir nossas estruturas aéreas. Calçada depende de adjacências com vida, muro é a morte de todo mundo, de acessibilidade e segurança. O passeio tem essa função, abrigar caminhada e permitir o acesso.

 

OP - Pelo Plano Fortaleza 2040, quais as principais medidas que vão beneficiar o pedestre?

Fausto - As principais medidas são o sistema de corredores, que ele tem por base disciplina do tráfego e sua viabilidade, o transporte público acessível, calçadas padronizadas, e isso tudo é o paraíso do pedestre e da conectividade. Ao mesmo tempo, usar esses componentes como fator de desenvolvimento e como amparo a atividades de trabalho para criar economia local distribuída onde não tem.

Fortaleza quer andar a pé

Fortaleza tentará ser mais pedestre e ter mais segurança para ir e vir. Afinal, todos nós compartilhamos ruas e calçadas

Por Sara Oliveira

Basta colocar o pé para fora de casa para que você seja um pedestre. De carro, moto, bicicleta, ônibus ou trem. Não importa, você também é pedestre. Motorista ou passageiro? Pedestre. E é exatamente por isso que existe o preceito de que o espaço público é primordialmente dos que andam a pé. A fragilidade do caminhar, entretanto, pode nos fazer esquecer essa condição humana e social. O pedestre é um ser elástico: pula, se esgueira, muda de rumo, se acidenta, morre.

Em Fortaleza, no primeiro semestre de 2016, 126 pessoas morreram em acidentes de trânsito. A Cidade que vive o moderno e o avançado ainda lamenta que colisões, em sua maioria evitáveis, tenham efeitos negativos na saúde pública, no orçamento e na vida de tantas famílias. Ao mesmo passo em que amarga a dor de perder pessoas para o trânsito, a Capital se descobriu nos últimos anos. O pedestre virou ciclista, que virou usuário do transporte público, que virou ciclista no fim de semana, que passou a ver a mobilidade urbana de outro jeito.
"A gente espera que um dia todo mundo se entenda e que se locomover seja uma das ações de complemento entre quem caminha, dirige ou pilota”, avalia a aposentada Carmen do Céu Negreiros, de 65 anos. Nas seis décadas de vida, ela viu de um tudo nas ruas e no trânsito de Fortaleza. “Não existia nem a história de usar cinto. Faixa de pedestre também não. E todo mundo sonhava mesmo era em ter um carro", lembra. Não é mais assim. Está melhor, mas precisa melhorar muito mais ainda.

"Fortaleza tem um problema sério. E quando você vê que a maior causa da morte, na faixa etária jovem, é acidente de trânsito, você começa a ver o drama. Isso não deixou nenhuma dúvida na gente", avalia o coordenador do Programa de Ações Imediatas em Trânsito e Transporte de Fortaleza (Paitt), Luis Alberto Sabóia. Depois da implantação de faixas exclusivas para ônibus, bicicletas e carros compartilhados, além de ciclofaixas, ele fala de um novo rumo para as políticas de mobilidade na Capital: a segurança viária.

 

MUDANÇAS COMEÇAM NESTE MÊS

Este maio é o mês de início das mudanças. Mais zonas de trânsito calmo, com redução dos limites de velocidade, mais travessias elevadas, ilhas de pedestres, ações educativas e novas sinalizações. O objetivo é continuar o que mostrou a comparação entre os acidentes envolvendo pedestres em 2015 e 2016. Se no primeiro ano eles eram maioria, ano passado os números mostraram que os motoqueiros passaram a ocupar o primeiro lugar na lista de mortes.

"Esse padrão tem se repetido em todas as cidades, inclusive as europeias, onde a moto não tem a expressão que tem aqui. Existe um conjunto de fatores de risco que explicam uma menor ou uma maior ocorrência de mortes. Esses fatores estão evoluindo positivamente em Fortaleza", detalha Sabóia. Ele pontua alguns índices para reforçar a análise: entre 2011 e 2015, houve redução de 56% dos acidentes envolvendo ciclistas e de 36% no índice de mortes por cada 100 mil veículos (elaborado pela Organização Mundial de Saúde – OMS).

Para o coordenador das ações da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária Global, que dá apoio às ações de mobilidade na Capital, Dante Rosado, a Cidade que era pensada para veículos hoje tem o foco voltado às pessoas. "Isso não só de forma prática, na rua, mas na consciência coletiva das pessoas. Quando se coloca uma ciclofaixa, por exemplo, você acaba fazendo com que os condutores olhem para o ciclista e o coloca como meio de transporte", pondera.


A política de segurança viária em Fortaleza se baseia em fatores de riscos e metodologias para execução de ações:

Fatores de risco:

 

Metodologia:

FONTE: Prefeitura de Fortaleza


O que surge em Fortaleza quando a segurança viária é priorizada

FONTE: Prefeitura de Fortaleza


Você sabia?

FONTE: Prefeitura de Fortaleza


O QUE DIZ O CÓDIGO DE TRÂNSITO

Artigo 29, XII, $ 2º – Respeitadas as normas de circulação e conduta estabelecidas neste artigo, em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres.


EXPERIÊNCIAS PELO MUNDO

A Assembleia Municipal de Lisboa aprovou, em 2014, o Plano de Acessibilidade Pedonal. O documento tinha a missão de facilitar a mobilidade na cidade, eliminando barreiras arquitetônicas. A ideia era que as ações fossem executadas até 2017.

Ruas refletem a injustiça social

O sistema de locomoção que temos hoje reflete a desigualdade social que se acentua ano após ano. É preciso fazer o espaço público mais agregador

Por Sara Oliveira

Sim, somos todos pedestres. Por isso, a professora Clarissa Freitas, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará (UFC), defende que o processo decisório sobre a utilização do espaço público precisa ser transparente e participativo. “A sociedade é desigual, o planejamento de seu espaço deve reconhecer as diferenças e buscar incluir”, afirma.


A distribuição de uso do solo, por exemplo, é um fator que merece atenção. Conforme Clarissa, em áreas concentradoras de emprego, onde há grande movimentação de pedestre e transporte público, o carro individual deve ser secundário. “Uma universidade de grande porte, um hospital, comércio e serviços privados impõem determinadas demandas sobre o espaço público lindeiro cujo atendimento deve ser partilhado entre o setor público e o setor privado que se beneficia diretamente”, considera ela, que possui pós-doutorado em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade de Illinois Urbana-Champaign (EUA).


O questionamento de muitas pessoas, sobre a redução do espaço viário em prol do pedestre é um processo que, sendo realidade, precisa estar acompanhado de um serviço de transporte público de qualidade e preço acessível. “Temos que nos dar conta que a quantidade de espaço público é finita em todo o lugar no mundo e o processo decisório sobre a utilização do mesmo tem de ser dado de forma transparente, participativo e inclusivo”, analisa Clarissa.


Hierarquia do trânsito

No trânsito, a sociedade desigual reflete na forma como nos locomovemos. Estratificações sociais definem as relações entre quem anda a pé, de carona ou no volante. “Os proprietários de carros particulares se sentem superiores com relação aos passageiros de ônibus, que são a maioria dos que circulam a pé pela Cidade”, analisa a professora do Departamento de Ciências Sociais da UFC, Geisa Mattos.


Ela pondera que, em cidades como Nova York, onde a grande maioria da pessoas, sem distinção de classe social, utiliza o mesmo meio de transporte - o metrô -, a consciência de que todas as pessoas têm os mesmos direitos é maior. E isso é reflexo da conquista de direitos sociais básicos. “(Também) Um modo de produzir continuamente a consciência de que o outro vale tanto quanto eu. Estamos juntos ali, seguindo para o trabalho, para a diversão, muitas vezes colados mesmo uns aos outros”, detalhou Geísa.


A prevalência dada ao transporte individual ainda existe e pode ser um dos maiores problemas e desafios a serem enfrentados. “São também as pessoas que utilizam o transporte coletivo, especialmente nos bairros de periferia, as que mais sofrem com os assaltos, as que mais perdem tempo para se locomover para o trabalho. A cidade é injusta e o transporte urbano é um reflexo dessa realidade de injustiça social, ao mesmo tempo em que reforça permanentemente as injustiças e as revoltas”, conclui.

Vias com menos velocidade

Passarão a ter redução de velocidade máxima: trecho da Padre Antônio Tomás, próximo ao Parque do Cocó (40km/h); áreas dos bairros Cidade 2000 e Vila União (30 km/h); e Meireles e Parquelândia (40 km/h).


Já têm redução (40 km-h), mas ganharão sinalização: ruas Ana Bilhar e Canuto de Aguiar (Meireles), e Gustavo Sampaio e Azevedo Bolão, na Parquelândia.


No trecho da Padre Antônio Tomás onde haverá redução de velocidade, foi identificada dificuldade de acesso ao calçadão do Cocó, com risco iminente de atropelamento.


Pedestres vítimas acidentes de trânsito na Emergência do IJF:

De acordo com informações do IJF, os traumas mais frequentes são de extremidades (braço, perna e cabeça). A faixa etária que é maioria nos acolhimentos é entre 20 e 59 anos.

Galeria de Fotos

Movimento Urbano #01

Acesse e confira a versão impressa do primeiro caderno do especial Movimento Urbano.