O horizonte turvo da política

Por Henrique Araújo

Mal recuperados da bomba que foi o vazamento do acordo de delação premiada do senador Delcídio do Amaral, preso em dezembro do ano passado e solto há menos de duas semanas, o PT e a presidente Dilma Rousseff estão às voltas hoje com um cenário de filme de horror. Às denúncias atribuídas ao ex-líder do governo e às notícias sobre a prisão do marqueteiro João Santana, somam-se agora as drásticas e ainda imprevisíveis consequências da 24ª etapa da Operação Lava Jato.

Denominada de "Aletheia", termo que significa o processo por meio do qual se descortina uma verdade, a nova fase da investigação da Polícia Federal tem três alvos claros: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acusado de ser favorecido por empreiteiras; o instituto que leva seu nome, que teria celebrado contratos suspeitos com empresas do filho de Lula; e a empresa LILS, que recebeu repasses de empresas para custear palestras do petista. Sob qualquer ângulo que se encare, o potencial destrutivo da apuração policial é imenso, política e economicamente, seja para Dilma, seja para o seu partido, o PT.

Ocioso afirmar que a condução coercitiva do ex-presidente joga ainda mais lenha na fogueira do impeachment, com reflexos diretos sobre o Congresso e mais ainda sobre o Planalto, mas também sobre o PT. É possível  que o depoimento de Lula, tomado no aeroporto de Congonhas (SP) por cerca de três horas e meia, acrescente pouco ao conjunto de suspeitas coletadas pela Lava Jato no curso de quase dois anos de operação.

Como fato político, entretanto, a imagem do maior líder do petismo sendo levado pela PF e interrogado sobre suspeitas de favorecimento por esquema de desvio de dinheiro da Petrobras cai como uma bomba ainda mais poderosa do que a representada por Delcídio. Certamente, terá efeitos sobre as manifestações agendadas para o próximo dia 13, nas quais será o futuro de Dilma, e não apenas o de Lula, estará em jogo.

Ao cabo do depoimento, já na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo, onde foi recebido pela militância, Lula agradeceu a cortesia dos agentes da PF, que "foram bastante educados" quando bateram à sua porta às 6 horas da manhã desta sexta-feira. Mas alertou que, se a intenção da operação conduzida pelo juiz federal Sérgio Moro tinha sido "matar a jararaca", eles haviam acertado o rabo e não a cabeça. A cobra, segundo Lula, está mais vida do que nunca. A crer no que o ex-presidente fala, é possível que, a partir de agora, o Brasil viva momentos de muita tensão política, com ainda menos espaço para qualquer entendimento em torno de soluções que possam tirar o País da crise. O horizonte, hoje mais que ontem, é turvo. 

Por que Lula foi convocado

Lula teria sido beneficiado por diversos desvios de verbas da Petrobrás, por meio de favores e doações, afirma o MP

 

O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) é o principal alvo da 24º fase da operação Lava Jato, da Polícia Federal (PF), denominada Aletheia. Nesta sexta-feira, 4, estão sendo cumpridos mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao petista, como o Instituto Lula, em São Paulo. O ex-presidente foi conduzido, coercitivamente, para prestar esclarecimentos sobre suspeitas de crimes de corrupção e lavagem de dinheiro oriundos de desvios da Petrobras.

Lula e pessoas a ele ligadas teriam recebido pagamentos do pecuarista José Carlos Bumlai e das construtoras OAS e Odebrecht, ''por meio da reforma de um apartamento triplex e de um sítio em Atibaia, da entrega de móveis de luxo nos dois imóveis e da armazenagem de bens por transportadora'', informa nota do MP. O depoimento também teria tido como intuito apurar pagamentos ao ex-presidente, feitos por empresas investigadas na Lava Jato, a título de supostas doações e palestras.

O dinheiro que teria sido recebido por Lula provém, segundo MP, de um esquema envolvendo funcionários, políticos e empresários que desviava dinheiro da Petrobras. ''Esse grande esquema era coordenado a partir das cúpulas e lideranças dos partidos políticos que compunham a base do governo federal, especialmente o Partido dos Trabalhadores, o Partido Progressista (PP) e o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). O ex-presidente Lula, além de líder partidário, era o responsável final pela decisão de quem seriam os diretores da Petrobras e foi um dos principais beneficiários dos delitos'', afirma o MP. A investigação afirma que há indícios de que os crimes ocorriam, inclusive, quando Lula era presidente da República.

Vídeo

Jornalista Fábio Campos comenta ação da PF

Investigações envolvendo o ex-presidente

Apesar de ser apontado em diversos casos de irregularidades e corrupção, Lula ainda não é réu em nenhum processo


Conheça os principais casos envolvendo o nome de Lula:

Tráfico de influência

Lula é investigado por suposta participação em esquema de compra de medidas provisórias e por tráfico de influência em favor da Odebrecht. O ex-presidente teria favorecido a Odebrecht (empresas investigadas pela Operação Lava Jato) ao influenciar o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) a financiar obras da empresa fora do País. A empresa Odebrecht nega qualquer irregularidade

Lava Jato e o sítio de Atibaia

Lula está sendo investigado pelas obras realizadas no sítio Santa Bárbara, em Atibaia (SP), que teria sido reformado às custas das construtoras Odebrecht e OAS, à época em que Lula ainda era presidente. O sítio, que está em nome de dois sócios do filho mais velho do Lula, era frequentado por  Lula  e sua família.
O petista nega ser o dono do sítio, porém testemunhas afirmam o contrário e confirmam que a construtora OAS gastou pelo menos R$ 180 mil em móveis para o sítio. A Polícia Federal investigava as relações entre as construtoras e a reforma do sítio desde 2014.

Lava Jato e o triplex do Guarujá

Ministério Público de São Paulo está investigando Lula e sua esposa, Marisa Letícia, por crime de lavagem de dinheiro, pois não declararam de quem é o apartamento triplex no Edifício Solaris, no Guarujá, cidade no litoral de São Paulo. Tal apartamento está sobre investigação da Operação Lava Jato e está relacionado à transações com a empresa OAS.
Segundo o juiz Sérgio Moro, há suspeitas de que a OAS teria utilizado o condomínio para o "repasse disfarçado de propinas a agentes envolvidos no esquema criminoso da Petrobras".

Lula nega ser proprietário do imóvel. O Instituto Lula admitiu que o petista e sua mulher visitaram o imóvel junto com o ex-presidente da OAS, Léo Pinheiro, que foi preso pela operação Lava Jato e condenado a 16 anos de cadeia por corrupção ativa, lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa, porém afirma que Lula e sua família teriam desistido de ficar com o imóvel.

Operação Zelotes

Lula é alvo de investigação na Operação Zelotes  por uma suposta participação em um esquema de venda de medidas provisórias de um esquema de fraude no Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), que revertia  ou anulava multas tributárias aplicadas pelo governo. O petista ainda não foi indiciado ou denunciado.

 

Alvo de delação

Segunda a edição da revista Isto É desta quinta-feira, 3, o senador Delcídio do Amaral (PT-MS)  acusa Lula de ter mandado comprar o silêncio de Nestor Cerveró, ex-diretor da área internacional da Petrobras, que está preso por envolvimento no esquema de corrupção na Petrobras. Segundo a revista, a denúncia consta no acordo de uma suposta delação premiada referente às investigações da força-tarefa da Lava Jato.

Lula nega ter praticado qualquer irregularidade e, até o momento, não foi acusado formalmente de nenhuma das acusações.

 

Podcast

3:20

Programa especial sobre operação de polícia federal - Bloco 1 Plínio Bortolotti Rádio O POVO/ CBN

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