Reencontro com a lenda

Um romance, uma lenda, a gênese de um povo. Passados 150 anos, Iracema, de José de Alencar, segue como marco na literatura brasileira e como símbolo de nossa cearensidade. É a “predestinação de uma raça” em forma de prosa e poesia. De brasilidade, paisagem. De afeto e desencanto. É um passeio por nossa personalidade através de signos concretos e comportamentais. Aqui vamos revisitar essa história refazendo os CAMINHOS que levaram Iracema do sertão ao litoral e como esse cenário foi alterado pela ação do homem real ao longo dos séculos. Lançaremos também OLHARES sobre o mito em suas nuances contemporâneas. E, por fim, vamos redescobrir por que os ESCRITOS de Iracema foram tão significativos para o País, não apenas na inovação da linguagem, mas na representação de um Brasil ideal. A junção de todos esses elementos nos permite perceber que, apesar do tempo cronológico, Iracema é atual e instigante. É o resultado dessa descoberta que compartilhamos com os leitores agora. Explore-a!

A geografia do Ceará mapeada em forma de romance

Do mar ao sertão, passando pelas serras que inquietam o relevo do Ceará, José de Alencar fez de Iracema uma ode à natureza. Nos caminhos percorridos pela índia, ainda há um rastro de encanto

Por Jáder Santana

Iracema, mais rápida que a ema selvagem, corria sertões e matas cearenses. Do Ipu, terra tabajara aos pés da Chapada de Ibiapaba, saiu apaixonada para cruzar as regiões serranas da Meruoca e Uruburetama. Seguiu o curso do Mundaú e passou por Maranguape antes de chegar ao que mais tarde seria Fortaleza. Banhou-se nas lagoas da Parangaba e Sapiranga e, solitária, escolheu as águas da Messejana para lamentar a partida de seu amado e a saudade da terra natal. Mecejana, segundo José de Alencar, significa a abandonada.

Se criador e criatura compartilhavam do mesmo amor pelo Ceará, o mesmo não pode ser dito de sua capacidade de aventurar-se pelo Estado. José de Alencar, morto aos 48 anos em decorrência de uma tuberculose, tinha uma saúde frágil e dificilmente poderia viajar tranquilo pelos cenários agrestes de suas narrativas. Seus espaços são construídos a partir de estudos prévios e referências recebidas enquanto político e leitor feroz. Era um literato, não um geógrafo.

Sua liberdade criativa foi capaz, inclusive, de alterar noções de pertencimento e geografia populacional. O advogado e jornalista ipuense Maurício Xerez, estudioso da história do Nordeste há mais de duas décadas, esclarece que os Tabajaras - protagonistas do romance de Alencar - ocupavam as faixas litorâneas da região, enquanto o sertão central era dominado pelos Tapuias, conhecidos por suas características agressivas e antropofágicas. Xerez justifica com razões estéticas a opção de Alencar pelo Tabajaras: “eles eram mais afilados, mais bonitos e dóceis. Já imaginou uma Iracema canibal?”.

Romantizar a figura do índio também vai ao encontro do mito do bom selvagem criado pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau, segundo o qual “o homem nasce livre, mas por toda a parte encontra-se a ferros”. Com sua alegoria, Rousseau defendia que os homens possuiriam uma natureza boa - em seu estado natural, não contaminado por constrangimentos sociais - que seria corrompida pelo processo civilizador.

Discrepâncias à parte, a lenda de Iracema fincou raízes na cultura cearense - com todos os elementos, fantásticos ou não, desenhados por Alencar - e é difícil convencer um ipuense de que a região era habitada por Tapuias raivosos e pouco atraentes. “Quando criança, vi um Tabajara subindo a serra”, garante um dos moradores, indiferente ao fato de que a população indígena da área foi dizimada há pelo menos dois século, como garante Maurício Xerez.

Do romance indianista permanece mais que nada o cenário, pouco a pouco alterado pela ação do homem e por estações seguidas de estiagem. Da bica onde se banhava Iracema, um paredão rochoso de 130 metros que parece arder sob o sol do Ipu, sobraram pedras angulosas que vez por outra se desprendem e desabam em direção à cidade, e os calangos, rastejantes sorrateiros entre folhas, assustando visitantes desacostumados aos ruídos da mata.

Para molhar seus cabelos, a índia tabajara teria que subir algumas dezenas de quilômetros da Serra de Ibiapaba - tarefa fácil para quem corria até a Messejana - em direção aos distritos de Várzea do Giló e São José. Teria que se embrenhar no mato fechado, apurar os ouvidos e seguir o barulho da água. Teria que cruzar represamentos ilegais e escapar de caminhões-pipa sem ordem de funcionamento.

Mas se falta água na bica de Iracema, abundam as lendas. Cobras que despencam das alturas e assustam os banhistas, suicidas atormentados, cavernas escondidas e gente hipnotizada por uma estranha força que emana das rochas. Quem conta são os moradores, que aprendem cedo a respeitar aquela paisagem onipresente - pode ser vista de qualquer ponto da cidade - e as histórias fantásticas que a cercam.

Aprenderam também que é na bica que nascem os grandes romances, abençoados pelo rompante de paixão da índia pelo português. É pra lá que vão os casais apaixonados quando se põe o sol, munidos de lanternas, alguma pinga e, vez por outra, um violão que embale o luar e as carícias. 

Inspiração e vestígios

A bica do Ipu inspira pintores, escritores e desocupados. J. Cardoso, artista plástico filho da terra, tem as paredes de casa tomadas por telas da índia, sua musa e ideal feminino desde os 15 anos - “pensava nela como uma deusa, idealizava como minha namorada”. A professora Francisca Ferreira escreveu seu Iracema Curuminha para “mudar a história daquela índia danada” e, na praça da cidade, há um bêbado que cochila sob a sombra das árvores e grita um “viva, Iracema” quando percebe que estamos falando dela.

A praça dos bêbados, do churrasquinho e dos encontros ao cair da noite é também lugar de uma sucessão de Iracemas construídas, destruídas e restauradas. Abrigou um coreto, com postes de ferro e globos leitosos, e um lago artificial cercado por bancos com nomes de família. Foi cenário de retretas e debates culturais, de serestas, serenatas e poetas incompreendidos. No final dos anos 1980, vítima da má administração pública e tomada pelo mato, virou reduto de marginais. Hoje, revitalizada, encanta visitantes e rende homenagem a sua musa.

Cruzando os limites do município, espalhando-se por sertões, serras e litorais de um Ceará já corrido por Iracema, não é difícil encontrar referências e homenagens. Se não houve rigor na geografia de Alencar, se o autor manipulou etnias em prol de critérios estéticos e românticos, melhor acreditar que tudo fez parte do processo criativo que resultou em um dos maiores romances da literatura nacional. Iracema está em todo lugar. (Jáder Santana)

O trajeto que fundou uma nação

1

Ipu

"Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas."(cap. II)

2

Ibiapina

"O sol deitou-se e de novo se levantou no céu. Os guerreiros chegaram aonde a serra quebrava para o sertão: já tinham passado aquela parte da montanha, que por ser despida de arvoredo e tosquiada como a capivara, a gente de Tupã chamava Ibiapina." (cap. XIX)

3

Meruoca

"Passou além da fértil montanha, onde a abundância dos frutos criava grande quantidade de mosca, de que lhe veio o nome de Meruoca." (cap. XX)

4

Uruburetama

"Os viajantes dormem aí, em Uruburetama. Com o segundo sol chegaram às margens do rio, que nasce na quebrada da serra e desce a planície enroscando-se como uma cobra. Suas voltas contínuas enganam a cada passo o peregrino, que vai seguindo o tortuoso curso; por isso foi chamado Mundaú." (cap. XX)

5

Maranguape

"A cabana do velho guerreiro estava junto das formosas cascatas, onde salta o peixo no meio dos borbotões de espuma. As águas ali são frescas e macias, como a brisa do mar, que passa entre as palmas dos coqueiros, nas horas da calma. [...] A Serra onde estava outrora a cabana tomou o nome de Maranguape; assim chamada porque aí repousa o sabedor da guerra." (cap. XXII)

6

Parangaba

"Perto havia uma formosa lagoa no meio de verde campina. Para lá volvia a selvagem o ligeiro passo. Era a hora do banho da manhã; atirava-se à água, e nadava com as garças brancas e as vermelhas jaçanãs. Os guerreiros pitiguaras, que apareciam por aquelas paragens, chamavam essa lagoa Porangaba, ou lagoa da beleza, porque nela se banhava Iracema, a mais bela filha da raça de Tupã." (cap. XXIII)

7

Sapiranga

"Outras vezes não era a Jereraú que a levava sua vontade, mas do oposto lado, a Sapiranga, cujas águas inflamavam os olhos, como diziam os pajés. Cerca daí havia um bosque frondoso de muritis, que formavam no meio do tabuleiro uma grande ilha de formosas palmeiras." (cap. XXIII)

8

Messejana

"Tão rápida partia de manhã, como lenta voltava à tarde. Os mesmo guerreiros que a tinham visto alegre nas águas da Porangaba, agora encontrando-a triste e só, como a garça viúva, na margem do rio, chamavam aquele sitio de Mecejana, que significa a abandonada." (cap. XXVI)

A geografia em Iracema

por Maria do Céu de Lima

A obra indianista de José de Alencar pode ser lida e entendida de várias formas, como é próprio das obras literárias. Desde a sua primeira publicação tem sido comentada por leitores com múltiplas visões do mundo e da realidade. Num escrito que ficou conhecido como uma Introdução do livro Iracema, Machado de Assis definiu-o como sendo um poema em prosa, que “não é destinado a cantar lutas heroicas, nem cabos-de-guerra; se há aí algum episódio, nesse sentido, (…) nem por isso o livro deixa de ser exclusivamente voltado à história tocante de uma virgem indiana [dos lábios de mel], de seus amores e dos seus infortúnios”.

A imaginação poética, o estudo e a meditação levaram o romancista a considerar aspectos ambientais, sociais e históricos encontrados em crônicas diversas, além de informações adquiridas em estudos sobre as espécies, os povos, a língua (o tupi-guarani) e relatos orais sobre o modo de viver dos “selvagens”, para a construção do cenário de Iracema. Compõem o enredo o mito da fundação do Ceará, o amor da filha do velho pajé Tabajara (guardiã do segredo da jurema, dádiva do Deus Tupã) por Martim (conquistador português do além-mar, aliado dos pitiguaras) e o ódio de nações adversárias territorializadas na floresta, região que ficou conhecida como Serra da Ibiapaba. A jurema, a jandaia, a água, o sol, o vento, a terra e a índia como elementos da natureza, em sua plenitude, são aspectos que não podem ser descurados do contexto em foco.

Alencar traçou com minúcias os caminhos da bela Iracema e seus acompanhantes na longa jornada da sua aldeia até chegar a Fortaleza, Terra do Sol. Considerou o próprio viver longe da terra natal – retrabalhando imagens da infância, das andanças e experiências vividas ou imaginadas – e compôs para cada momento da lenda as cenas para a ação dos diversos personagens, situados nos espaços-tempos da natureza e da cultura indígena. Construiu imagens poéticas dos corpos, dos deslocamentos, dos lugares, dos costumes e rituais, dos sons e tons; enfim, da exuberância da natureza nos mundos da floresta, do sertão e do mar, evocados pela sensibilidade do autor.

Da viagem da Iracema do poeta José de Alencar pode surgir um caminho a se trilhar. Só não esqueça o leitor: o romancista não fez arte para recontar e/ou descrever uma experiência vivida. Na sua condição de artesão de palavras, imaginou-a. E por assim ter feito, legou uma obra-prima ao povo brasileiro.

*Maria do Céu de Lima é professora do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC)

 

Galeria Caminhos

Do imaginário popular às estátuas: a permanência da índia de Alencar

Após 150 anos do lançamento da obra literária, a personagem segue presente em monumentos e em marcas subjetivas da identidade de um povo

Por Paulo Renato Abreu

A Lagoa de Messejana é cenário do percurso diário da operadora de caixa Jocélia Oliveira. Tal qual a virgem dos lábios de mel, ela parte apressada todo dia pela manhã para trabalhar e volta à tarde, mais lenta, pelo calçadão aos pés da estátua. A cearense, porém, não conhece bem a história por trás da índia habitante daquelas águas. “Eu sei que ela é bem importante, né?”, arrisca a jovem, sobre a personagem que completa 150 anos. Mesmo não tendo lido o livro de José de Alencar, ela gosta de contemplar a obra Iracema, Musa do Ceará, monumento feito pelo artista plástico Alexandre Rodrigues e inaugurado em 2004. De cabelos mais negros que a asa da graúna, Jocélia se enxerga, de alguma maneira, naquela mulher.

“Iracema é uma referência para o povo do Ceará”, reflete o turismólogo Gerson Linhares. Ele realiza, há 20 anos, o roteiro cultural Caminhos de Iracema, um trajeto pelas homenagens à índia na Capital. “Essa personagem é tão presente por aqui que tem cearense que acha que ela existiu”, conta. O percurso turístico passa pelas cinco estátuas da criação de Alencar em Fortaleza. Além do monumento em Messejana, o roteiro transita pela Estátua de Iracema (Mucuripe), pela Guardiã (Praia de Iracema), pela Índia Iracema (no Rotary Club Fortaleza, Centro) e ainda pelo Palácio Iracema (no Centro Administrativo Bárbara de Alencar, Edson Queiroz).

Assim como Linhares, a professora de literatura Cícera Holanda também explora as marcas de Iracema em Fortaleza. Em trabalho com os alunos do ensino médio da escola pública Matias Beck, no Mucuripe, Cícera segue as trilhas daquela que corria mais rápida que a ema selvagem. “Os alunos logo percebem que aquela história tem muito do povo cearense”, aponta. Segundo a professora, a hospitalidade, por exemplo, marca tão divulgada do Estado Brasil afora, perpassa fortemente a obra. “O pai da Iracema trata muito bem os visitantes. Tudo de melhor do colonizado é dado para o colonizador”, analisa.

Para Cícera, apesar de o livro não ser conhecido profundamente por muitos cearenses, a trama, que tem o subtítulo de Lenda do Ceará, habita o imaginário da população. “Iracema está em tudo. Deveria ser uma obra obrigatória para o ensino médio. Dá para trabalhar uma intertextualidade com história, geografia, religião. Além de fazer o paralelo entre o índio do passado e o índio de hoje”, destaca. Apesar disso, ela conta haver uma rejeição entre os alunos no começo da obra – “livro chato”, eles dizem –, mas logo esse pé atrás é deixado para lá quando os jovens veem as implicações físicas e comportamentais dessa história na atualidade.

A aposentada Betânia Moura lança seu olhar à índia de José de Alencar munida de linha, agulha e telas. Ela integra o projeto Iluminuras, que une literatura e bordado. “Iracema é um mito que representa nossa nacionalidade. Ela gera o primeiro filho do Brasil”, conta Betânia. As bordadeiras que participam do projeto do Departamento de Literatura da Universidade Federal do Ceará (UFC) leram a obra lançada há 150 anos e agora estão preparando telas sobre momentos da narrativa.

Betânia afirma encontrar paralelo entre a força da mulher cearense e a personagem. “Ela é muito independente, larga a tribo dela em busca de amor e gera um filho corajosamente. A Iracema é também muito ligada à espiritualidade, tem essa coisa ritualística”, compara, destacando as semelhanças do mito com as “Iracemas de hoje”.

Para o professor Régis Lopes, do Departamento de História da UFC, muitas são as interseções entre a saga da índia e a identidade brasileira. “Existem muitas marcas urbanas da Iracema no Estado, mas a história dela tem outras marcas na dimensão da identidade do povo cearense e brasileiro”, aponta. Entre as questões levantadas por Régis está o caráter migrante. “Moacir, filho de Iracema, passa pouco tempo aqui e vai embora levado por Martim. Ele é migrante. Seria o destino do cearense ser migrante, então?”, indaga.

“Iracema é a obra que nos dá esse registro da nossa formação de povo e raça”, sintetiza Marcelo Peloggio, professor do curso de Letras da UFC e pesquisador da obra de José de Alencar. Para ele, porém, a marca de Iracema (anagrama da palavra América) transcende as fronteiras do Ceará. “A universalidade de Iracema está justamente no seu caráter mestiço, crioulo, brasileiro”.

Adaptações

Do livro lançado em 1865, a personagem se espalhou entre outras linguagens artísticas. No cinema, a índia ganhou o filme Iracema (1919), de Vittorio Capellaro. Depois disso, a personagem protagonizou também Iracema (1949), Iracema, a Virgem dos Lábios de Mel (1979). Nos quadrinhos, apareceu em Edição Maravilhosa, nº 31 em 1954, de André LeBlanc, sendo homenageada posteriormente com o título Iracema em Quadrinhos (2009), de Oscar D’Ambrosio (adaptação) e Jão (ilustração). Até no jogos eletrônicos a virgem dos lábios de mel ganhou homenagens. É a heroína em Iracema – O Game (2005), de Anderson Guedes, e Iracema Aventura (2006), de Odair Gaspar.

O que Iracema esconde

A construção da índia de Alencar como “lenda do Ceará” e a permanência do nome Iracema, especialmente em Fortaleza, também despertam olhares de crítica. “Iracema é muito mais uma imposição a Fortaleza do que algo que a Cidade construiu”, formula o pesquisador Tiago Coutinho, que cursa doutorado em Memória Social, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, com estudos sobre a obra de José de Alencar. Para Coutinho,  é preciso atentar para peculiaridades como o fato de o escritor ter ido embora do Ceará ainda criança para morar no Rio de Janeiro e ter voltado ao Estado poucas vezes. “Alencar utiliza o argumento que é cearense e que tem autoridade para falar do Ceará”.

Coutinho pontua ainda que o autor do romance se dedicou também à política – tendo chegado ao cargo de ministro da Justiça – e que a intenção do escritor era destacar sua terra natal na literatura, mas também politicamente. “Fortaleza comprou essa ideia. Há essa queixa de que a cidade é sem memória e Iracema é estrategicamente usada como esse símbolo”, aponta. Dentro da lógica do turismo, pondera o pesquisador, Iracema é vendida como uma história feliz.  “As estátuas tem muito da sedução e reforço de que Iracema é uma história de amor, mas é uma história de guerra. O amor é um pedaço dessa guerra”, diz, e questiona: “A gente está sempre cultuando Iracema, mas será que isso não está eliminando a possibilidade outros personagens aparecerem na história?”.

Poucas leituras

Para o professor Régis Lopes, do Departamento de História da UFC, o nome Iracema é muito mais conhecido que a personagem entre muitos fortalezenses. “O nome é muito famoso, a história em si não muito. As pessoas não se interessam muito em ler a obra, há uma certa dificuldade pelo vocabulário”, aponta.

“Os estímulos provocados pela presença de Iracema em Fortaleza, em tantas obras artísticas que a evocam, deveriam provocar ou aguçar o desejo em conhecer melhor a obra-prima de Alencar pela leitura do romance”, aponta a escritora Angela Gutierrez, membro da Academia Cearense de Letras. “No entanto, devemos lembrar que, no que se refere aos habitantes da cidade, não temos ainda um grande público leitor, e que muitas pessoas se alimentam do romance apenas através da apreciação das obras”, completa. Angela, porém, lança olhar otimista: “Tenho observado, no entanto, que há um crescente no estímulo aos jovens para a leitura do romance”, destaca, apontando que celebrar os 150 anos da obra é  também despertar novamente o interesse para ela. (Paulo Renato Abreu)

A musa visitada por outros artistas

“Iracema há muito deixou de ser uma simples personagem de livro de ficção. Ela alçou à condição de mito”, aponta Ricardo Guilherme, ator, dramaturgo e diretor teatral. O artista é autor, junto com Karlo Kardozo, de Iracema (Edições Demócrito Rocha), adaptação do romance de José de Alencar em linguagem mais acessível ao público infanto-juvenil. Ricardo escreveu também o espetáculo teatral A Divina Comédia de Dante e Moacir, texto que conta a história do filho da índia. Para o ator, a personagem é metaforicamente a “mãe” de muitas outras histórias. “Ela nos acolhe e nutre, mas também nos coloca em dimensão trágica”.

Enquanto Ricardo Guilherme recorre a outras palavras para revisitar a Lenda do Ceará, o artista plástico J. Cardoso, de Ipu, usa as cores para se aproximar da personagem. “É uma deusa, uma musa”, conta o artista, que compara a índia às musas de outros artistas como Leonardo Da Vinci, Michelangelo e Salvador Dali. Desde adolescente, ele produz diferentes versões da virgem dos lábios de mel, seja em gesso, barro, tela ou através do grafite.

Já o coletivo teatral curitibano Selvática Ações Artísticas prefere atualizar o mito por meio das mulheres de hoje. Inspirado no clássico de Alencar, o grupo criou o espetáculo Iracema 236ml - O Retorno da Grande Nação Tabajara, que lança olhar crítico e irônico à formação da cultura brasileira e destaca as “novas Iracemas”. “Na Copa do Mundo 2014, por exemplo, os estrangeiros vinham para o Brasil e se encantavam com as mulheres daqui. Era como uma história contemporânea da Iracema”, compara a diretora Leonarda Glück. 

Já a cantora e compositora cearense Mona Gadelha encontrou na música um diálogo com a personagem. Ela realizou o show Iracema – Do épico ao pop, uma interpretação sonora da índia. “Ela se tornou um ícone feminino com toda a sua carga simbólica”, aponta. Na leitura de Mona, a mulher que abandona a tribo por amor e é deixada pelo homem amado acaba oferecendo o referencial de uma mulher forte. “Ela não é uma sofredora, mas uma mulher que luta, que ocupa o seu espaço e enfrenta as dificuldades”, diz.

Para o pesquisador Marcelo Peloggio, professor e Coordenador do Grupo de Estudos José de Alencar, o livro lançado há 150 anos tem status de obra-prima e, por isso, segue rendendo diferentes interpretações e releituras. “O Alencar conseguiu esse lugar dele e tem todo um aparato estético e filosófico por trás. O livro expressa nossa humanidade pelo drama da índia tabajara”, aponta. Segundo ele, antes de buscar enxergar contextos e implicações a partir da obra, se faz necessário conhecer bem o romance. “É importante entender a obra na lógica interna. A partir disso, se descortina o livro com mais riqueza, com colorido próprio, especial”. (Paulo Renato Abreu)

O roteiro da índia da Capital

1

Índia Iracema

Localizada na Avenida Castelo Branco (Leste-Oeste), ao lado do Marina Park, a estátua foi inaugurada em 2002, pelo Rotary Club Fortaleza. A obra é uma criação de Descartes Gadelha. Foi a terceira inaugurada na Capital.

2

Iracema Guardiã

Localizada na Praia de Iracema, a obra de Zenon Barreto foi a segunda inaugurada em homenagem à personagem, inaugurada em 1996.

3

Estátua de Iracema

Localizada no Mucuripe, foi a primeira estátua de Iracema inaugurada. Esculpida pelo pernambucano Corbiniano Lins, a obra foi inaugurada em 24 de junho de 1965, em homenagem ao centenário do romance.

4

Palácio Iracema

Centro Administrativo Bárbara de Alencar, no bairro Edson Queiroz. No Palacete Iracema, encontra-se a quinta estátua da Índia, que foi inaugurada em 2005, esculpida pelo cearense Francisco Zanazanan.

5

Iracema, Musa do Ceará

A estátua localizada na lagoa de Messejana, que foi inaugurada em 1° de maio de 2004, após concurso para buscar cearense que tivesse características semelhantes a da personagem. A obra é de Alexandre Rodrigues.

Porque sou Iracema

por Maria Luiza Artese

Quando nasci, minha mãe decidiu que eu seria Iracema. Ela apenas, como se eu fosse fruto só de seu sangue. Perdido em terras mal descobertas, meu pai vagueava sem saber explorar a própria pátria, exilado de um amor que me foi negado por tabela. Cavara sua própria extradição e mergulhara nela, ao mesmo tempo em que eu, estrangeira, emergia no mundo. Mais tarde voltou para me observar crescendo, à distância porque assim eu parecia sempre menor. Minha mãe decidiu que eu seria Iracema, mas bem que poderia ser ela. Nem a primeira e nem a última, apenas mais uma flor cearense que mal cresce e já se desgarra no vento—caindo, seca, soterrando-se de areia.

Quis ler a história que me nomeara assim que fui capaz. Desnudei-me nas matas antigas, onde tudo era virgem inclusive a esperança. Iracema morreu simplesmente, sem cerimônia ou discurso; nem mesmo a arara que a seguia lembrou-se para sempre, continuou voando até que tudo passasse. Iracema passou, assim como o amor do homem que só a encontrara porque se perdera. Mais do que ela mesma, ele foi capaz de amá-la no fim; como lembrança, fantasma, lenda que é eterna porque nunca existiu. Guardei o livro como se sentisse que ele fora escrito pelo meu próprio sangue. Não pelo tipo mais comum de pertencimento—eu era estrangeira porque era fruto de um amor exilado. Mas havia algo de mim naquelas palavras. E mais ainda de minha mãe.

Descobri que eu era também um fantasma. Fora batizada porque plasmava algo anterior a mim mesma. Eu era Iracema porque a minha mãe conhecera aquela primeira herança da terra. Porque ela passara também, apenas eu restara, escombros humanos. Eu era a sobra de um amor que caiu no esquecimento, foi enterrado sem alardes mas com muita dor. A filha de uma mãe sem vida, uma mãe que perdera tudo que era dela para se fazer mulher. Virando uma, definhou, sem saber que esse era o destino das flores.

Sempre tive medo de amar. O que seria de mim se fosse vítima de uma amor estrangeiro que nunca bastava? E eu mesma, tão apartada de qualquer raíz, deslocada num mundo banido de si mesmo, que tipo de amor eu daria? Eu queria pertencer para sempre ou jamais.

Mas apenas o que eu tinha, disse mamãe, era a eternidade do fim. 

*Maria Luiza Artese é estudante de Psicologia.

Praia de Iracema

por Rafael Caneca

Três quadras de onde Iracema se encontrava à espera do fim do turno para poder retornar para casa, o esgotado mar às suas costas revoluteava-se, indo e voltando em fortes ondas, lembrando-a que sua vida seria eternamente assim: como uma ressaca.

– Maldita vida! – resmungou para a escuridão.

Não foi sempre desse jeito. Num passado distante, com outro nome que fez questão de esquecer, costumava fitar o horizonte, ignorando o quanto aquele mar já estava poluído e distinguindo apenas o seu verde bravio: guardava a esperança de ser resgatada por um salvador de outra pátria, para não ser mais pária em sua própria terra. Ainda jovem, no entanto, percebeu que a realidade ia além de romances idealizados, pois, com treze anos, foi oferecida para o tio Moacir como moeda de troca para saldar uma dívida da mãe.

Foi a última vez que chorou, menos pelo ato em si e mais pelo crescimento forçado, acompanhado da certeza de que o mar perdera seu verde e era, de fato, imundo. Assumiu-se à noite como Iracema.

Desde então, perdeu as contas de quantas pessoas gozaram seu corpo desvirginado e seus lábios – não de mel, mas de fel. Por cinquentinha, topava qualquer negócio: entregava-se de corpo, mas não de alma, que havia muito naufragara naquelas ondas sujas que insistiam no seu ir e vir.

“Antes eu tivesse morrido também”, lamentava-se.

Seus pensamentos só eram interrompidos quando, na escuridão, um carro ousava aproximar-se. Nele, um cliente em busca dos seus serviços. Entrava, satisfazia-o, recebia e saía. Esse era o ritual. Um ritual de dor e sofrimento, em que Iracema transformava seu grito abafado de desespero em falsos gemidos de prazer. 

“Essa tormenta há de acabar”.

E acabou. No dia seguinte, o corpo de Iracema foi encontrado num carro abandonado à beira-mar. Um discreto esboço de sorriso percebia-se no seu rosto, enquanto, num mar sereno ao fundo quase não havia ondas.

*Rafael Caneca é estudante de Letras.

Galeria Olhares

Da pena de um autor ufanista à construção de uma lenda

Como uma índia transgressora e rebelde reinventou o protagonismo feminino em Alencar e deu origem ao mito fundacional de uma nação

Por Jáder Santana

Publicado em 1865, Iracema veio suprir a fraqueza de nossas incipientes instituições e contornar a ausência de um glorioso passado medieval. Faltava às letras nacionais um personagem com força para virar mito, uma figura capaz de embalar lendas e histórias que cantassem a beleza de um povo, sua coragem e poder. 

Naquela segunda metade do século XIX, anos de reinado de D. Pedro II, José de Alencar já ocupava posição de destaque entre os grandes da literatura nacional. O cearense já havia publicado alguns de seus romances urbanos - A Viuvinha, Lucíola e Diva - e a primeira de suas três obras indianistas, O Guarani.

Apostar na criação de uma índia guerreira, concebida de modo idealizado e à semelhança de um herói medieval, foi o grande trunfo de Alencar. “Historicamente, não vivenciamos a Idade Média, mas nem de longe isso quer dizer que caracteres medievais não chegaram até nós. E, como não tivemos um Dom Quixote, atribuímos aos indígenas os traços mais marcantes desse herói”, explica a professora Eugênia Tavares Martins.

Eugenia analisou a figura da índia em sua dissertação Iracema: A Alegoria da Mãe Genti(o)l, que reflete o papel de mãe atribuído à personagem como parte de um mito fundacional. “É, metaforicamente, a grande mãe dessa nação. Virginal, dotada de grande beleza física e heroica”, argumenta a professora.

Segundo ela, os três romances indianistas de Alencar compõem um cenário que coloca indígenas e colonizadores lado a lado, como agentes fundadores de uma nação. Enquanto Ubirajara se passa no período pré-cabralino, com os índios livres, O Guarani trata da época de povoamento e convivência. A miscigenação - e daí advém o mito fundacional - aparece em Iracema.

Encarado como um romance fundacional, nacionalista por excelência, Iracema foi pensado de modo a - por meio da representação social e humana que propõe, naturalmente hiperbólica - traduzir a construção da nação brasileira. “Ele criou índios perfeitos, esculturais, conhecedores de saberes não acessíveis aos comuns humanos, idealizando uma natureza linda, exuberante, um novo Éden onde o índio se embrenhava e trazia respostas para tudo e curas para todos os males”, acrescenta Vera Lúcia Albuquerque, professora de Teoria Literária da Universidade Federal do Ceará (UFC).

O próprio Alencar, ainda no primeiro capítulo do livro, trata de imprimir à história o valor do mito, sugerindo que a narrativa teria sido difundida por meio da tradição oral: “Uma história, que me contaram nas lindas várzeas onde nasci, à calada da noite, quando a lua passeava no céu argenteando os campos, e a brisa rugitava nos palmares”.

O escritor gaúcho Paulo Scott, que em seu Habitante Irreal também trabalhou com uma protagonista indígena, acredita que a perenidade da obra de Alencar tem motivações que vão além da construção da lenda. Atribui a importância do clássico à coragem do autor em desnudar, em meio ao romantismo que permeia a narrativa, a brutalidade do colonizador. “O livro é importante por revelar a violência inevitável do invasor. O leitor enfrenta o livro e percebe isso. Ele sabe que ali está algo que, no fundo, é irreparável”, justifica.

Prosa poética e rejeição

Indo além da criação espontânea de um mito fundacional, é impossível passar indiferente aos aspectos literários e estilísticos da prosa de Alencar. “A novidade que Iracema trouxe não residia apenas na fusão de prosa e poesia, mas na variedade de gêneros e subgêneros que o escritor mobilizou na confecção do romance. É realmente espantosa a capacidade de Alencar em orquestrar com maestria tantas referências à tradição literária num livro tão enxuto”, explica Vagner Camilo, professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo (USP).

Para entender e desfrutar da obra de Alencar, reconhecendo sua importância em âmbitos diversos, é fundamental contextualizá-la dentro da escola romântica e como parte de uma literatura ufanista. O escritor Sânzio de Azevedo conta que antes de introduzir o romance aos seus alunos de curso superior faz questão de apresentar o conceito do Zeitgeist, termo alemão que se refere ao conjunto de características de um determinado período de tempo. 

“Alencar foi um escritor polêmico que ‘ousou mexer’ na língua portuguesa, acrescentando-lhe neologismos, conferindo-lhe um sabor local”, explica Vera Lucia. A professora da UFC concorda com Sânzio e defende que a obra precisa ser lida levando-se em conta as características do período em que está inserida. “Há um contexto histórico-social que enriquece muito sua leitura. É importante que os leitores saibam que o livro foi escrito no Romantismo e que tem características próprias. Leitores que não são bem conduzidos pela prosa poética de Alencar podem acabar criando uma rejeição ao seu texto”, argumenta.

A professora de ensino médio Cícera Holanda encontrou um modo de contornar essa rejeição junto aos seus alunos. Ela realiza um trabalho prévio para que seus estudantes não precisem procurar textos adaptados da obra de Alencar. “A priori, eles não gostam da obra, porque acham que as sequências são muito demoradas, e é aí que eu entro”, explica. 

Para começar, Cícera contextualiza o movimento romântico e mostra quais características inserem Iracema nessa escola. Semanalmente, realiza rodas de leitura seguidas de debate. Capítulo a capítulo, leem toda a obra em um intenso mergulho que dura dois meses. “Eu tenho esse trabalho há mais de doze anos e percebi que, com qualquer obra, se você não apresentar o contexto histórico, os alunos não vão gostar”, explica.

Além disso, Cicera promove aulas especiais que refletem sobre a intertextualidade da obra com outras disciplinas, como história, geografia, filosofia e sociologia, contando inclusive com a participação dos professores dessas matérias. Em uma das ocasiões, estenderam o contexto do romance para a atualidade e discutiram a especulação imobiliária na Beira Mar, adentrando na realidade dos alunos, muitos deles filhos de pescadores da região do Mucuripe. Também já discutiram assuntos relacionados à prostituição e à figura do estrangeiro viajante que leva a cearense para seu mundo.  “Não aceito releituras e filmes, eu gosto é do texto”, conclui. 

O professor Vagner Camilo compartilha da ideia de que contextualização é fundamental. “Cabe sempre, no fim, ao professor, converter essa rejeição em interesse. E, para tanto, não creio que tenha de se valer de recursos paternalistas, de estratégias facilitadores que busquem trazer o livro para mais perto, perdendo de visa o horizonte a que ele reporta”, explica. 

Vagner afirma ainda que para um completo entendimento da proposta de Alencar é preciso ir além do que está na superfície - o romance entre os protagonistas - e entender que seus artifícios e procedimentos desempenham uma função essencial dentro do projeto maior da obra. “É preciso atentar para o fato de o romance trazer mais do que uma história de amor entre um branco e uma índia. A apreensão dessas outras dimensões de sentido depende, sem dúvida, de um leitor mais preparado”, afirma.  

E assim, pela capacidade de criar um mito, por suscitar debates que continuam atuais e por refletir a genialidade de um autor com pleno domínio sobre as palavras, Iracema - a lenda, a obra, a índia - chega aos 150 anos com a força histórica e literária que só os clássicos podem conhecer.

Mulheres de Alencar

Se em seus romances urbanos Alencar obedecia às convenções e normais socias da época, preferindo pincelar suas heroínas com toques realistas aos modos de um Balzac tupiniquim, sua fase indianista é dedicada à criação de entidades míticas. “Iracema, índia livre como a natureza, corria pela floresta: a sociedade tribal não obedecia às regras urbanas, mas tinhas as suas próprias”, explica Vera Lucia.

Segundo a professora de Teoria Literária da UFC, a fase urbana de Alencar reunia mulheres, filhos, mucamas e agregados em uma sociedade patriarcal. Nesse contexto, as heroínas da cidade tinha um mundo próprios de etiquetas e requintes, valsas e saraus que limitavam sua força protagonista. “Os índios não tinham conhecimento de nada disso. Eram autênticos, guerreiros e viviam da pesca”, argumenta Vera Lúcia. 

Iracema foi uma das grandes transgressoras entre as heroínas de nosso romantismo. Se Madame Bovary desafiou a etiqueta burguesa ao desinteressar-se pelas suas convenções e entregar-se a um amor proibido, a índia demonstrou rebeldia ao abandonar seu povo e sua cultura. “Seu processo de sedução e de aproximação com o homem branco foi, de certo modo, responsabilidade dela mesma”, explica a professora Eugênia Tavares Martins, autora de Iracema: A Alegoria da Mãe Genti(o)l.

José de Alencar construiu uma grande transgressora e a colocou ao lado de um personagem masculino que jamais perde sua nobreza europeia. É daí que nasce seu projeto nacionalista. “Ela conduz sua própria história e, quando se permite retroceder, o faz pelo mais nobre motivo, o amor. Não é um fruto do meio, e muito menos do darwinismo. É uma heroína”, acrescenta Eugenia. (Jáder Santana)

"Uma índia danada"

Quando leu Iracema por primeira vez aos 12 anos, Francisca Ferreira ficou indignada: “Era uma paixão sem futuro. O Martim trouxe a discórdia, e ele já tinha uma noiva em Portugal”. Filha de Ipu, nascida e criada ouvindo as lendas de uma índia heroína, decidiu que queria contar a história da virgem antes de seu rompante de paixão.

Sua ideia a acompanhou por quase duas décadas: “queria mostrar a vida da criança, Iracema tomando banho de riacho, cuidando da fauna”. Francisca formou-se em letras, tornou-se professora no município e assumiu a cadeira 29 na Academia Ipuense de Letras. Como docente, percebeu a rejeição que havia por parte dos estudantes e decidiu começar a escrever sua adaptação da obra.

Lançado em 2014, Iracema Curuminha apresenta “uma criança livre e despreocupada, com apreço pela família e que gosta de brincar com os bichos”, como define sua criadora. Se seguisse os projetos de Francisca, Iracema não teria abandonado sua tribo para se entregar a um amor que já parecia fadado ao fracasso. “Se fosse por mim, ela ia pensar duas vezes antes de ir embora. Mas foi ela que seduziu ele, era uma índia danada, e tudo por conta de uma cisma, de uma paixão”, conta. (Jáder Santana)

O ocaso do indianismo

José de Alencar definiu a primeira fase do romantismo no Brasil com sua tríade O Guarani, Iracema e Ubirajara. Gonçalves Dias, em sua Canção do Exílio, exaltou bosques, aves e palmeiras da terra natal. Castro Alves cantou os índios e a natureza brasileira em sua poesia anti-escravocrata.

Quando o olhar ufanista e romântico deu lugar à patologia obscura do realismo-naturalismo, o índio perdeu sua posição. Chegou Machado de Assis, com seu defunto-autor e suas traições sugeridas, chegou Aluísio Azevedo, com seu cortiço povoado de personagens marginais, e Raul Pompeia, que mergulhou nos fantasmas de um adolescente ordinário. 

Foi o modernismo do início do século XX que resgatou do limbo literário a figura indígena. O bom selvagem de Alencar ressuscitava como o herói sem escrúpulos de Mário de Andrade, um Macunaíma preguiçoso e zombeteiro que é quase paródia dos guerreiros românticos.

Na literatura contemporânea, o índio está quase sempre inserido em um contexto de clara simbologia política, como um elemento de informação antropológica. Exemplo disso é Maíra, primeiro romance do antropólogo Darcy Ribeiro. Nele, o autor acompanha um protagonista que é levado de sua tribo por um missionário, compondo um quadro que permite discutir o desnorteamento da civilização indígena. 

“A recepções aos romances indianistas tem sofrido alterações ao longo dos anos, especialmente pela crítica especializada, e a estética da recepção tem procurado captar essas diferenças em seus variados contextos e épocas”, explica Vera Lucia, professora de Teoria Literária da UFC. 

Um dos autores que trabalharam a figura indígena na contemporaneidade foi o gaúcho Paulo Scott. É dele o elogiado Habitante Irreal, com uma trama que tem início na Porto Alegre de 1989. Na história, um jovem estudante de direito insatisfeito com os rumos de seu partido político de esquerda tem sua vida cruzada por Maína, uma indiazinha de 14 anos que é encontrada por ele na estrada, sob uma forte chuva. A garota vivia com sua família em um assentamento à beira da rodovia, quase em estado de mendicância, o que já rompe com a figura imaculada do índio romântico proposto por Alencar.

Paulo Scott, que se inspirou na história de adolescentes indígenas que ameaçavam com suicidar-se no início dos anos 2000, em decorrência das invasões e expulsão de suas aldeias, não acredita que a temática indianista esteja fora de moda. “Não acho que os romances indianistas sejam datados. O leitor estrageiro está muito atento a eles, e o leitor brasileiro, por ser preguiçoso - pouco curioso e incapaz de investigar temáticas mais complexas e diversas, talvez tenha alguma dificuldade de lidar com a atemporalidade de certos registros”, comenta.

“O que está superado é o indianismo nos moldes em que o Romantismo o forjou, como mito fundador, e para o fim a que se propunha, como afirmação identitária. O próprio século XIX tratou já de dar início à sua desconstrução, embora as obras que derivaram do indianismo romântico, e notadamente Iracema, permaneceram vivas, mesmo quando referidas de forma irônica ou crítica”, conclui o professor Vagner Camilo, da USP. (Jáder Santana)

 

Iracema: o trabalho do artista

por Sânzio de Azevedo

As observações presentes neste trabalho são um resumo do estudo que figura na edição dos 140 anos de Iracema, de José de Alencar (2005), organizada pela Profª Angela Gutiérrez e por mim, considerando que nem todos têm acesso a essa obra.

Em 2003 o poeta Virgílio Maia publicou, com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e com o apoio de Cláudio Giordano, a reprodução fac-similar da 1ª edição de Iracema, de José de Alencar, saída em 1865. O exemplar dessa edição, de Vianna & Filhos, era da biblioteca de José Mindlin. Relendo outras edições do romance, vemos que o texto lido por Machado de Assis e por ele considerado obra-prima sofreu diversas modificações.

Cotejando a edição príncipe, de 1865, com a 8ª, revista por Mário de Alencar (filho do autor) e editada em 1910, pela Livraria Garnier, podemos ver inúmeras modificações feitas pelo escritor, em busca de um texto definitivo. Seria cansativo enumerar todas as alterações, por isso destaco algumas de maior monta.

Logo no capítulo II, quando é feita a descrição da personagem que dá título ao livro, temos, na edição de 1910, este texto que todos conhecemos: “Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão”, etc.

Na edição original, Iracema era “Mais rápida que a corça selvagem”.

No capítulo III, ao receber Martim, diz Araquém, pai de Iracema: “Bem vindo sejas.” (1910). A saudação primitiva era “Bem vieste.” (1865)

Às vezes há apenas uma inversão, como esta, no capítulo IV: “surgiu o vulto de Iracema” que antes era “o vulto de Iracema surgiu”.

No capítulo VI, falando do idílio da índia, lê-se nas edições mais novas: “A fronte reclinara, e a flor do sorriso expandia-se como o nenúfar ao beijo do sol”, o que é bem superior ao texto original: “E a fronte reclinava, e a flor do sorriso desabrochava já para deixar-se colher”.

Por fim, o penúltimo capítulo do romance dizia, em 1865: “As jandaias cantavam ainda no olho do coqueiro; mas não repetiam já o mavioso nome de Iracema.”Nas outras edições, ficou apenas uma jandaia, como, aliás, estava no capítulo II do livro.

Todas as emendas foram oportunas.

*Sânzio de Azevedo é professor, poeta e crítico literário.

A recepção de Iracema em torno de 1990: a manifestação da crítica

por Vera Lucia Albuquerque de Moraes

Iracema tem sido, de todos os livros de José de Alencar, o mais atingido pela crítica, talvez porque constituísse, paradoxalmente, uma singularidade literária e, ao mesmo tempo, um repositório de influências ou supostas influências, como as que foram assinaladas com proveniência no romance indianista Atala (1801), do escritor francês Chateaubriand. A crítica contemporânea empenhar-se-ia na restauração de um renome cuja sobrevivência estaria garantida nessa obra que se caracterizava, antes de tudo, pela autenticidade de seus temas nacionais e pela especificidade de seus meios de expressão.

Segundo Alfredo Bosi (Dialética da Colonização), Alencar modelou a figura do índio em um regime de combinação com a franca apologia do colonizador. Bosi afirma que Iracema apaixona-se por Martim de tal modo que rompe com a sua nação Tabajara, depois de violar o segredo da jurema. Nos romances indianistas de Alencar, a entrega do índio ao branco é incondicional, faz-se de corpo e alma, implicando sacrifício e abandono da sua pertença à tribo de origem, gerando uma partida sem retorno. Daí, porque o crítico fala em complexo sacrificial na mitologia romântica desse escritor, em obras cujas tramas narrativas ou dramáticas se resolvem pela imolação voluntária dos protagonistas: o índio, a índia, a mulher prostituída, a mãe negra- induzindo a ideia de que a nobreza dos fracos só se conquista pelo sacrifício de suas vidas.

Flávio Kothe (O cânone imperial) considera que Martim fala a língua indígena, mas todo diálogo entre ele e Iracema transcorre em português, como se fosse apenas uma convenção conveniente para tornar o livro acessível ao leitor. “Por mais que o autor e o leitor queiram colocar-se do lado do índio, eles estão, pela língua, do lado do conquistador, que já não aparece mais, então, como invasor” (p. 227). Kothe também questiona a índia maravilhosa idealizada por Alencar, pois, sendo cearense, deveria “ser baixinha, barriguda, banguela e de cabeça chata”. Entretanto, Alencar tende a fazer dela uma figura mítica, que se funde com a floresta. Seria, antes, uma enluarada Artemis ou Diana caçadora – uma espécie de sacerdotisa greco-romana, adjetivada de tal forma que leva o leitor a pensá-la americana – reprodução de uma escultura ou de um quadro europeu.

Antonio Candido considera, em A educação pela noite e outros ensaios, que a contribuição típica do Romantismo para a caracterização do escritor é o conceito de literatura empenhada ou de missão. O poeta romântico não apenas retoma, em grande estilo, as explicações transcendentes do mecanismo de criação, como lhes acrescenta a ideia de que sua atividade corresponde a uma missão de beleza, ou de justiça, graças à qual participa de certa categoria de divindade. A ideia de que a América constituía um lugar privilegiado se exprimiu em projeções utópicas: esse estado de euforia transformou-se em sentimento de afirmação nacional e em justificativa ideológica. A linguagem, favorecida pelo Romantismo, se faz linguagem de celebração: o céu do Brasil era mais azul, suas flores mais viçosas, sua paisagem mais inspiradora. A ideia de pátria se vinculava estreitamente à de natureza porque ambas conduziam a uma literatura que compensava o atraso material e a debilidade das instituições por meio da supervalorização dos aspectos regionais, fazendo do exotismo razão de otimismo social.

Roberto Schwarz, no ensaio “A importação do romance e suas contradições em Alencar”, inserido no livro Ao vencedor, as batatas, considera que a obra desse escritor é uma das minas da Literatura Brasileira e tem continuidade no Modernismo. De Iracema alguma coisa veio até Macunaíma: as andanças que entrelaçam as aventuras, o corpo geográfico do país, a matéria mitológica, a toponímia índia e a História branca. Schwarz conclui, afirmando que, de modo geral, a desenvoltura inventiva e brasileirizante da prosa alencariana ainda hoje é capaz de inspirar grandes obras.

Esse tema tem sido objeto de polêmica da intelectualidade contemporânea, como Schwarz (1998), Rouanet(1994), Bosi(1992), Candido (2002), Coutinho (2009), Kothe (2000), Lira Neto (2006), Moraes 2005, 2009), Gutiérrez (2009), Schwamborn (1990 e 1998) – para citar apenas alguns leitores críticos que consideram essa problemática comum a todas as culturas que passaram pela experiência de colonização e que construíram seu lugar de fala a partir de uma posição considerada, de antemão, como subalterna.

*Vera Lucia Albuquerque de Moraesé professora de Teoria Literária da Universidade Federal do Ceará (UFC) e autora do livro Entre Narciso e Eros:o discurso amoroso em Alencar, que foi agraciado com o prêmio Osmundo Pontes da Academia Cearense de Letras.

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