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Editorial

Pedindo licença a quem acreditava que daria para enganar a semana, chega a terça-feira. É o dia que avisa ser impossível desviar do correr do tempo. O que era preguiça ficou no ontem (ou deveria). Terça é dia de se conformar e ir. Mais: de aproveitar a ida. E o que fazer deste tempo? Como desfrutar do percurso? Quais momentos podemos viver nestas 24 horas à disposição? Foi com algumas dessas inquietações que os repórteres Camila de Almeida, Aurélio Alves e Henrique Araújo visitaram diversas Fortalezas presentes no dia para observar o tempo da terça-feira.

Do Centro às praias da Cidade, congelaram instantes feitos de praças, areia, mar, preguiça. Encontraram ocupados alguns vazios — como o da Praia do Futuro em “dia de semana”. Ali tem gente que consegue ter lazer quando o natural seria o expediente, que nos lembra: a terça também pode ser oportunidade — inclusive de dançar. Como o tempo é construção, encontraram ainda estudo e descanso após o almoço. Cabe muita Cidade na terça.

A semana está no começo. A terça é uma chance. O que você fará com ela?

 

Como falar com estátuas

Por Henrique Araújo Por Camila de Almeida (imagens)

Adivinha a minha idade. Pode dizer, não fico amuado. Duvido que acerte. Ninguém consegue. Tente. Sessenta? Tenho 91. É, é isso mesmo. A pele morena engana. Na minha casa todo mundo é centenário. Minha irmã tem 104. Meu irmão, 106. Meus tios morreram com mais de 100. O sangue da gente é antigo, parece que vem de longe, corre de muito antes. É um sangue grosso, velho.

Às vezes até esqueço que estou perto de ir. Pra onde? Pra lá, pra depois do fim, dobrar a esquina e não voltar mais. Ir encontrar quem já se foi, as estátuas que viraram gente. Não tenho pressa, mas também não quero ficar pra sempre.

Quando chegar a hora, eu vou, sem problema. Nem precisa me pedir.

Saio de casa toda terça-feira. Religiosamente. Só não saio se ficar doente. Não gosto de ficar amofinado. Venho até a Praça dos Leões, fico sentado, namoro o tempo, reparo no pessoal que passa. E converso com ela. É como se fosse minha irmã. Uma pessoa de carne e osso. Não é como uma estátua, não. É gente feito eu. E a Rachel tem quase a minha idade. Na placa diz: 1910. Se fosse viva, tinha 107. Podia ser minha irmã. É minha irmã, a Rachel. É uma pessoa da família.

Ler mesmo, nunca li nada dela, mas eu falo e ela me escuta, tenho certeza. Não precisa responder, mas me escuta. Escutar é tão importante. É como se fosse coisa de gente que estivesse delirando, entende? É. Que sonhasse acordado. Gente falando sozinha não é saudável, bem-vista, o pessoal fica falando, sai de perto, evita. Falar sozinho é pior que roubar. É uma doença.

Tem gente que senta do meu lado e, depois de alguns minutos, levanta. Fica enfezado, chama de doido ou sai de cara amarrada. Aqui, pelo menos tem o pretexto de ficar assim, largado. A gente se entende e ninguém se enfada com a companhia do outro. É uma amizade mesmo. Chego e pergunto se o dia está bom. Não tem isso de dizer “fulano, você está variando”, não. Toda conversa é normal. Eu gosto de conversa normal com a Rachel.

Levaram os óculos. É bem a sétima vez. Não sei se agora volta. Mas não tem problema. Ela não precisa enxergar mais, sabe? Não precisa. Os sentidos são para os vivos usarem. A gente, você, eu, todo mundo. Mas o sentido dela é estar além do final. Enxerga sem enxergar. É uma escritora que continua a escrever, mas no silêncio.

Gosto de falar sobre o tempo. Rachel tem mais idade, mais vivência. Passou por tudo isso. Então, pode explicar como se vive e morre, como é estar sem essa agonia. Eu estou preparado. Falo que não, mas estou. Sei que, a qualquer momento, posso ir. Quando a gente chega aos 90, tem que estar de qualquer jeito. Menos se espera, ela vem buscar. Passa na porta, entra sem bater, puxa o punho da rede, arranha a janela, vai caminhando pelos cômodos da casa. É a morte. Não há que correr.

Mas, por enquanto, estou com vida. E vida é como flor. Essa no colo dela não fui eu que botei. Achei bonito, sim. Tem gente que fala com estátua também, mas tem vergonha de admitir. É como falar com planta. Chega, oferece uma rosa, pergunta se a tarde está agradável. Por que fazem isso? Eu acho que todo mundo tem uma carência de conversa, de falar e alguém ouvir. Ela escuta, só. Não pede nada em troca.

É como uma confissão. A diferença é que é no meio da rua. Quem é louco de se confessar no meio da rua? Ninguém. O pessoal fala do pecado sozinho com o padre. Aí contam os podres. Às vezes, nem assim. É difícil trazer o de dentro pra fora. Não é todo mundo que chega e diz: Rachel, estou triste por isso, por isso e por isso. Rachel, errei por isso, por isso e por isso. Rachel, ela terminou por isso, por isso e por isso. Não. Tem que ter coragem.

Eu já trabalhei muito na vida. Hoje gosto de estar assim. Meu nome é Airton Alves. Tenho 91 anos. Moro em Fortaleza. Minha família é antiga, vem de longe. O sangue demora a secar. Nem parece, mas tenho 91. A pele engana. Prefiro as terças-feiras porque é o dia que saio, ando, entro nessa igreja aí (Rosário), falo com essa pessoa que é a Rachel. Fico sentado, esqueço de mim, engano as horas. Eu me sinto tranquilo. Às vezes vou até a Praça do Ferreira, passo na loja de um amigo, encosto no balcão. Jogo a conversa fiada de sempre. O meu tempo é curto. Está quase acabando. Mas ainda é meu. Eu uso assim. Sou feliz. Você é?

A transgressão do tempo livre

Melânia Gaspar, 28 anos, é servidora da Prefeitura de Fortaleza. Francisco Alencar Martins Filho, 35, é servidor do Judiciário. Trabalham cinco dias por semana, oito horas por dia, 30 dias por mês, numa conta que sempre fecha a custo de muitas dores de cabeça. Cumprem uma rigorosa matemática de horas de lazer e horas produtivas. Tudo contado e medido. Para eles, o tempo é majoritariamente útil — o tempo do prazer é uma escassa diversão conquistada aos fins de semana. Há exceções, porém.

Naquela terça-feira de março, por exemplo, estavam fora do seu habitat: uma repartição. De férias, com a filha Isabela na creche e as obrigações esquecidas em alguma gaveta do trabalho, correram à Praia do Futuro. Eram o único casal na barraca que havia horas não atendia ninguém — exceto por um grupo de policiais militares que usam as instalações do restaurante como ponto de encontro.

Atendidos por um garçom que se estirava preguiçosamente numa cadeira de plástico depois de repor cerveja no copo e servir bolinha de peixe, Melânia e Alencar fruíam o dia antes de voltar ao batente, dali a algumas semanas.
“Isso aqui é quase uma transgressão”, resumiu Alencar. Era mesmo. Para ele e para ela. Para ele, porque estar tão perto do mar tinha uma significação especial.

Para ela, porque o marido estava perto. Para ele, porque o dia a dia não permitia essa brecha. Para ela, porque podiam conversar à vontade, sem a pressão das responsabilidades.

Melânia e Alencar se conheceram alguns anos atrás. Casaram-se há quatro. No quiosque 141, ouviam reggae numa caixinha de som em cima da mesa. Ele de braço sobre os ombros dela. Ela com o braço sobre as pernas dele. Ele bebia cerveja. Ela, água de coco. Ele é religioso. Ela, “mais ou menos”.

Ele gosta de estar próximo da praia para “se sentir em contato com Deus”. Ela, porque o vento sopra melhor naquele ponto e as ondas quebram bonito, espalhando-se depois numa franja encrespada. Ele gosta de surfar. Ela, de brincar com a filha de três anos. Ele responde de pronto a qualquer pergunta. Ela, depois de ponderar, para só então dizer: a praia é um lugar feliz. Era isso: ele e ela estavam felizes, apenas. Eles se bastavam. Não é que sejam infelizes no restante da semana ou quando não estão de férias. Não. É que, ali, a métrica laboral estava abolida — o excesso era regra.

Para ele, a praia é uma experiência mística, que o aproxima de um estado de reflexão — o exato oposto da função que desempenha no cotidiano. “A praia provoca essa interação com Deus”, disse. Melânia concordava.

Eles brindam. Fazem estalar o copo no coco. Estão noutra lógica. O tempo é elástico, fluido. Não é como a rigidez. É o contrário do tempo no trabalho, afirma Alencar, onde há hora para entrar e hora para sair. E dia é dividido em porções que, ao final, se somam, como num quebra-cabeças. Quando chega em casa e a esposa pergunta como foi, ele talvez responda: foi bom, ainda que não saiba por quê.

O garçom serve outra cerveja. Para ele, é uma terça-feira como outra qualquer: dia útil por excelência no qual nenhum adiamento será perdoado e todos os compromissos batem à porta. Alencar agradece. Melânia sorri. A terça-feira do casal continua.

O futuro passando na praia

Marilene dormiu pouco na noite anterior. Apenas duas horas. Antes disso, cumpriu uma maratona: acordou às 6 horas, chegou em casa às 15 horas, tirou um cochilo sobressaltado, despertou e se meteu nas roupas para o segundo trabalho, no qual entraria às 19 horas. Nesse intervalo, organizou a “bagunça da casa”, que às vezes (só às vezes) divide com os dois filhos já adultos: aprumou os móveis no lugar e varreu o chão depois do expediente na barraca de praia do Pipoca, na Praia do Futuro.

Lá, a mulher de 55 anos cuida da piscina infantil e acode os garçons quando precisam de reforço no atendimento. Também faz as vezes de gerente se acontece de alguém faltar. “Só vai se for assim. Nada fácil é bom. Se você quiser vencer, tem que expandir seus negócios”, assegura a mulher, a pele curtida de quem sempre viveu em par com o mar.

Mas não era o caso da terça-feira. Às 9h, sozinha sob a palhoça da barraca, Marilene de Freitas, moradora do Vicente Pinzon e ex-agente sanitarista, ocupava uma das mesas que, aos fins de semana e feriados, se enchem de famílias cearenses e turistas que procuram a Pipoca por causa da tranquilidade: sem música ao vivo ou mecânica, o lugar é um oásis de silêncio. Com os cotovelos apoiados no tampo de madeira sobre o qual se acostumou a servir bacias de caranguejos, ela se concentrava nas tarefas de casa, que não tinham qualquer relação com a lide doméstica.

Naquele dia de praia vazia, Marilene colocava em prática a terceira etapa da gincana que é o seu dia: estudar. Além dos empregos na barraca e no Hospital Geral de Fortaleza (HGF), onde dá plantões das 19 às 7 horas como técnica em enfermagem, num esquema de duas folgas por dia trabalhado, ela é estudante de Recursos Humanos. Na faculdade, está matriculada em quatro disciplinas, com aulas presenciais às quintas-feiras e online todos os dias. Paga R$ 181 mensais.

“É puxado”, brinca, e o rosto se encova num sorriso acanhado.
Mas logo vem a ressalva. Estudar “era um dos sonhos que eu tinha vontade de fazer. Não tive tempo antes e agora estou aproveitando”, conta. Pergunto se é feliz. “Esse é o meu tempo”, diz, segura. “É assim que eu gosto de viver”.

Mapa Afetivo de Fortaleza

Entre a Praia do Futuro e o Centro, com a Aldeota no percurso, o dia é de aproveitar o tempo na Cidade

Clique nos números no mapa para obter mais informações.

Mapa

Praia do Futuro

Cartão-postal por excelência da aniversariante, a PF, como é chamada, é pouso certo de dez entre dez cearenses da Capital. Mesmo durante a semana, quem pode acaba se arranchando por lá, numa barraca ou na areia mesmo. Para quem curte um sossego, sugiro uma das barracas que gosto de frequentar, a do Pipoca. É uma das últimas da PF (sentido Sabiaguaba). Consiste em duas áreas cobertas, uma com telhas e outra com palha, uns guarda-sóis espalhados e uma dúzia de garçons simpáticos. Peixe bom e barato, cerveja e tranquilidade. Piscina para criança e chuveiro. Banheiros limpos. Sem música ao vivo. Clima noventista (o e-mail da barraca ainda é Yahoo). Se você se sentar lá, vai ter a impressão de que é 1991 e a Praia do Futuro ainda não virou modinha.

Barraca do Pipoca

Praia do Futuro

Avenida Zezé Diogo, 5765

Telefone: 9 8874.2259

Igreja do Rosário

Outro ponto de repouso e suspensão do tempo, a igreja fica entre dois cartões de visita de Fortaleza: as praças do Ferreira e dos Leões. Do lado de fora, sentada num banco de madeira, está Rachel de Queiroz. Um pouco à frente, o edifício que hoje funciona como agência bancária, mas cuja fachada é uma beleza. A templo religioso, porém, é o grande atrativo da região. Fincada num dos extremos da Praça dos Leões, foi construída por negros da Irmandade da Nossa Senhora dos Pretos, no século XIX. Sua presença é signo do regime escravocrata e da divisão de classes, assim como o Passeio Público, cuja arquitetura era dividida em níveis, que seriam ocupados por pobres e ricos. O tempo cuidou em refazer a lógica de ocupação desses espaços.

Igreja do Rosário

Rua do Rosário, 229, Centro

Bar do Mincharia

Um dos lugares mais bonitos da Praia de Iracema. É um observatório dos costumes e das belezas daquele pedaço da cidade. Tem história. Fui fundado nos anos de 1980, mas remonta à década de 1960, quando Antonio Aurílio Gurgel, o Mincharia, recebia amigos em sua casa. Fica ao lado do Estoril, outro ponto cardeal da cidade. Entre o aterro e o aterrinho, que também se incluem na cartografia afetiva da Capital. Cadeiras dispostas no calçadão, o bar tem visão, à esquerda, para a Ponte dos Ingleses. Adiante, para o mar. Atrás, para a rua dos Pacajus e sua fileira de casinhas charmosas. Debaixo de oiticicas e castanholeiras, convida ao passar das horas escutando Fagner e Belchior. É lugar para se deixar ficar.

Bar do Mincharia

Rua dos Pacajus, 5, Praia de Iracema

Telefone: 3219.1174

Praça Luiza Távora

Bicho, criança, homem, mulher, pipoqueiro, picolezeiro, vendedor de milho, de churrasco, skatista, ciclista, tenista. Tem de tudo na Praça Luíza Távora, na avenida Santos Dumont. Um espaço plural, que conjuga atividades que vão da recreação ao piquenique, passando por música e outras apresentações culturais. Também conhecida como pracinha da Ceart (Centro de Artesanato do Ceará), é um centro de programação infantil variada, mas possibilita de tudo, do namoro à sombra ao ensaio fotográfico de noivado. O local é coalhado de carrinhos de lanche e trailers.

Praça Luíza Távora

Avenida Santos Dumont, 1589, esquina com Rua Carlos Vasconcelos, Aldeota

Passeio Público

Dica: aproveite para chegar mais cedo ao Passeio Público no sábado de manhã, por volta das 10 horas, ou na terça-feira, no fim de tarde, e ficar sentado num dos seus bancos. Apenas sentado, à sombra ou lagarteando ao sol. Experimente olhar a copa das árvores, entre elas o centenário baobá. Farta cobertura vegetal, temperatura amena e, à frente, o mar, pontuado por outro cartão-postal de Fortaleza, o Mara Hope, navio encalhado que conta um pouco da história da cidade. O Passeio Público convida a um tipo de fruição que abafa os ruídos das lojas e comércio funcionando ao lado. É um arquipélago de tranquilidade no meio do frenesi do Centro.

Quiosque Café Passeio

Funciona de terça-feira a domingo, com almoços a partir de sexta-feira e feijoada aos sábados e chorinho aos domingos.

Rua Dr. João Moreira, S/N. Praça do Passeio Público, Centro

A vida depois do almoço

CENA 1

Moreno atarracado, calça jeans, camisa. Estirado no banco, sorri pra foto enquanto ajeita a aba do boné, de modo a projetar um pouco de sombra sobre os olhos. É meio-dia, e todas as nove pessoas num raio de 200 metros na praça Luíza Távora estão abrigadas da quentura sob marquises ou árvores. A praça tem ambas às fartas. Ele usa um desses bonés de aba reta, como um rapper. Circula na casa dos 25 anos. Encosta a mochila no banco e joga o capacete displicentemente, a moto estacionada ali perto. Aos poucos, deixa o corpo arrear sob o peso imaginário das horas depois do almoço. Movimenta as pernas de tempos em tempos, mais ou menos como se saboreasse a textura da roupa de cama pouco depois de acordar em casa de uma boa noite de sono. Sorri novamente pra foto. Aproxima o telefone do rosto, enviesa a aba do boné. Sorri. Afasta o celular mais uma vez. Sorri. Como um pintor renascentista insatisfeito com a obra, procura outro ângulo. E o encontra com o braço sob a cabeça, mais ou menos como se cochilasse na praia. Gosta do resultado. Começa a chover. Ele se ergue, olha para os lados e vai embora. A avenida Santos Dumont está coalhada de veículos, aos quais a moto se mistura. Na rua Carlos Vasconcelos, um homem esbraveja no celular enquanto espera o sinal ficar verde. É terça-feira.

CENA 2

Estão brigando. Estão dançando. Não, estão brigando mesmo. Ele a toma nos braços, faz seu corpo chegar-se ao dela. Um momento. Ela dá um passo atrás, como numa valsa, retomando em seguida a distância anterior, que era mais ou menos de um palmo de nariz a nariz. Agora se encaram. Há fúria. Há paixão. A dúvida persiste. Um casal que briga ou dança na praia numa terça-feira às 12h37min não é como qualquer casal. Eles se recolheram. Eles se isolaram. Precisavam da companhia unicamente das águas, da caixa d’água do Leonilson, dos ambulantes. É uma briga, certamente. Ou uma dança. Novo movimento, agora ele sacode os braços na frente do rosto dela, num gesto enfático de reprovação. Ou de satisfação com sua presença, não é possível saber. Ela responde com um giro, não se sabe bem se para desviar-se das mãos ou pelo prazer de rodopiar na areia de pés descalços. É certo que estão brigando. Pelos modos, as palavras apenas intuídas, o corpo retesado. É certo que estão dançando, pelos joelhos que se flexionam e os troncos alinhados numa música que só escuto quando o mar serena e por perto não se ouve nada senão os barulhinhos dos seus pés nos grãos da praia. É uma dança. Não há dúvida de que é uma dança. Ou uma briga. Em seguida, porém, interrompem tudo, suspendendo qualquer hesitação. Caminham em direção ao mar. Vão de mãos atadas. Como numa briga. Ou numa dança.

CENA 3

O grupo se forma aos poucos. Uns chegaram mais cedo, quando o mar estava rendado pelas rajadas de vento e o sol ainda não abria sulcos na pele. De repente, como atraídos por magnetismo que funciona como um GPS hormonal, todos foram se encontrando na faixa de areia. Ele trouxe o violão, mas esqueceu a bebida. Sempre esquece de trazer a bebida. Ela chegou perto do fim da manhã, quando ele talvez não acreditasse mais que viria. E de fato não acreditava. Na última vez em que se encontraram, estavam ali mesmo, na Praia dos Crush — como se tornou conhecido aquele pedaço da orla que um prefeito mandou aterrar quando eles nem tinham nascido ainda. Eles se entreolharam. Ele pediu o Zap dela. Ela deu um número errado. Ele sabia que estava errado porque já tinha o certo. Ela sabia que ele sabia que ela sabia que ele já tinha o número verdadeiro, por isso entregou um falso. E nisso ficaram sem se falar até aquele momento, quando ele achou que ela não fosse mesmo aparecer. Ela resolveu ir porque estava entediada em casa e também porque tanto tempo já tinha se passado. Ele pediu um gole de vinho. Ela perguntou se ele sabia tocar o violão ou era apenas pra se exibir. Ele não queria cair na armadilha, mas caiu. Ela não queria entrar naquele labirinto, mas entrou. Era uma terça-feira quando começaram a namorar. Choveu e depois fez sol.

A árvore, os fuzis e o passeio

Aguia de turismo Jussara Borges, 32, faz uma pausa dramática antes de anunciar, sem eufemismos: “Vocês estão num lugar onde pessoas foram fuziladas”. Bem ali: e aponta um dos locais do Passeio Público onde os confederados foram executados, no esfumaçado ano de 1825.

A turma de alunos faz um coro de “oooohhhh”, que se prolonga na manhã ensolarada do Centro. Uma menina pergunta: o que é fuzilar? Jussara gagueja um pouco, antevendo a encalacrada na qual se meteu. Enquanto cascavia sinônimos em seu repertório, um garoto vai em seu socorro. Sentado num dos bancos, sem se conter nas canelas, ele responde: é quando uma pessoa morre com um tiro de fuzil.

Segue-se outra onda de estupefação, que só se interrompe quando a guia contratada pela escola afirma que, um pouco mais adiante, há uma árvore gigantesca “que vai impressionar vocês mais do que isso”.

Todos os estudantes presentes à visita ao Passeio Público naquela manhã de terça-feira haviam nascido no final dos anos dez deste século. Ou seja, estavam separados daqueles eventos sangrentos por quase 200 anos. A maior parte dos nomes mencionados (Pessoa Anta, Padre Mororó, Azevedo Bolão etc.) significava muito menos do que Peppa Pig, Hot Wheels e Power Ranger — eles sequer eram nomes de ruas ainda.

Essa distância no tempo não impediu, porém, que as crianças ficassem boquiabertas ao descobrirem que homens tinham morrido uns metros adiante. Foi uma revelação tão impactante quanto a que experimentam ao descobrirem que Luke Skywalker é filho de Darth Vader.

A meninada sai então em fila indiana até o baobá, plantado ali por Senador Pompeu, em 1910. A maioria dos meninos nunca viu um baobá. Nunca abraçou um. Não tem ideia do que é ter mais de 15 anos, quanto mais de 100. Eles estão acostumados com vasinhos de plantas dependurados na varanda do apartamento.

Assim, quando veem o exemplar mastodôntico e sua troncuda circunferência, a primeira reação é envolvê-lo num abraço coletivo. Alguém pergunta: com quantas crianças se faz um baobá? Essa era a dúvida da maioria, que logo se desfez quando o enlace se completou: eram 13 de mãos dadas cingindo a pele rugosa da criatura, que, vista assim de perto, podia lembrar as escamas de um dragão.

Um dos meninos comenta: é como a árvore do Pequeno Príncipe. Jane Gomes, coordenadora pedagógica do colégio, assente: sim, é como a do livro. Um segundo retruca: não é, não. O príncipe tinha uma flor. Cabe a uma garota encerrar a discussão: ele tinha uma flor e um baobá. E um planeta só pra ele. Pronto.

Do outro lado da praça, sem se importar com a algaravia das crianças, Leo Fernandes, 32, matutava na vida. Não é que estivesse desinteressado das plantas e histórias do Passeio, a praça mais antiga de Fortaleza e epicentro da vida social de uma cidade que se perdeu no tempo. É que, para o agente de pesquisa nascido em Belém, cuja rotina de trabalho o obriga a bater o ponto religiosamente às 8 horas da manhã e sair às 17h, essa hora de descanso era sagrada.

Sentado sozinho, pernas cruzadas quase em posição de lótus, o jovem explicou: “Às vezes venho aqui pra relaxar. Às vezes, apenas pra refletir. Às vezes, pra nada”. E voltou a mirar o horizonte. Um céu salpicado de nuvens e, num canto, o navio encalhado, pedaço de ferrugem que os dias foram engolindo. “Eu gosto de experimentar a Cidade”, disse após alguns segundos calado. “Benfica, Praia de Iracema, Varjota. É bom viver na rua.” Forasteiro, Leo tinha descoberto uma Fortaleza que o embevecia. Para ele, o espanto não eram as mortes no Passeio nem as dimensões do baobá, mas que o mar fosse tão verde e o céu, tão azul.

Quando terça é dia nenhum

Se for terça-feira de abril de um ano bom, o dia começará amolecido de chuva. A água terá escorrido mansamente pelas ruas desde a madrugada, umedecendo a disposição para as tarefas urgentes. As manhãs de terça serão, então, lentas de preguiça, uma preguiça com hora certa, o despertador que não falha. O dia começará às seis, mas ainda se ficará um tempo entre os lençóis, sentindo o calorzinho macio que resta da noite da segunda.

Já se foram as últimas recordações do fim de semana, o tempo para uma nova pausa ainda custa, então terça deve ser um dia resignado. É preciso vestir-se para o trabalho, arrumar as crianças ainda adormecidas, que chegarão à escola com o gosto de café com leite na boca. Às nove da manhã o céu terá amarelado, e por toda a Cidade um bafo de sol depois de chuva requentará o asfalto. Um caminhante atrasado carregará embaixo do braço sua pasta de documentos, seu amontoado de boletos, porque é dia de ir ao banco, dia da consulta médica, dia de fazer a feira, um dia inteiro para os ponteiros perderem a pressa. O relógio quebrado da praça marcará uma hora congelada e, por isso, inexistente — digamos que sejam 14:23 — e anunciará os 41º, ainda que o céu estampe a manhã e um ventinho fresco de inverno arrepie os pelos do braço.

Nosso caminhante sofrerá um golpe de lucidez enquanto espera o sinal de pedestre e se dará conta, como que por milagre, de que terça é dia nenhum. Tomará o primeiro ônibus com destino para o mar. Descerá no calçadão do aterro já perto do meio-dia, e se assustará com a visão azul-acinzentada do oceano remexido pela água do céu. Majestoso e lento. Braços emergirão da água num movimento cadenciado, um nadador que passa, e um casal de namorados beijocará amolecido em um banco, as costas para a imensidão de azul, os corpos ocupados às ondas que arrebentam dentro do peito. Nosso caminhante descobrirá, um pouco deslumbrado, que na areia da praia se despedaça a contagem domesticada do tempo.

Escolherá um livro deixado ao acaso na casinha de passarinho presa a um poste e lerá dois poemas. Com a alma tomada por beleza, beberá água de coco. Lembranças de uma infância sem terças o convencerão a um gesto de ousadia, e nosso caminhante sem-hora-ou-dia-nenhum pedirá emprestada à Prefeitura uma bicicleta, verdinha e com cesta, já meio frouxa de passear. As pernas vão bambear no começo, a ameaça do chão, a iminência do tombo, mas não se desaprende a ciência da bicicleta e, assim, o caminhante descerá pela linha de asfalto que escorre ao lado da faixa de mar. Um relógio perto da Iracema, muito direto e rígido, marcará as 14:24, medirá os 25º e observará com severidade nosso ciclista descompromissado. Ele vai parar, de um susto. Olhará ao redor, desconfiado, e se dará conta da pasta de documentos, ainda na cestinha da bicicleta. Um par de polícia permanecerá impassível por detrás dos óculos escuros. Um gari varre a praça. É terça e é praia, moço, siga sem pressa, pode ir, pode vagar.

Juliana Diniz é escritora e professora 

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Fortaleza 291 Anos - Terça

As possibilidades de uso do tempo que hoje temos à disposição