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Editorial

Às sextas-feiras, o sentimento bom que Fortaleza sabe nos dar se expande. Hoje, estamos como um copo enchendo d’água. É vontade demais. E hoje é o dia de transbordar. A Cidade nos chama: ela quer o excesso, deseja que sejamos tudo isso que, algumas vezes, guardamos. É, a Cidade nos chama com fôlego. Assim, quando o relógio indicar o fim do expediente (às 17 ou 23 horas, tanto faz), o corpo encontrará a disposição para este encontro sem hora pra acabar. Mas pode ser antes. É possível acordar cedo e ir ao lugar onde nada mais importa. O mar está ali, perto. E, nele, somos apenas o corpo e a água. Puro afeto. Foi ali que as repórteres Silvia Bessa e Camila de Almeida deram início ao percurso pela sexta-feira. Encontraram o mar como possibilidade — de amizades, de saúde, de sorrisos. Depois, no Centro, observaram, dali do balcão do Vitória Bar, as transformações da Cidade por pelo menos seis décadas. E encontraram beleza e vontade para o fim do expediente, quando a sexta já tem cheiro de sábado e domingo. Hoje é o começo de um fim que é só desfrute e trampolim para o recomeço. É só se jogar.

 

Um oceano inteiro pra nadar

Por Sílvia Bessa Por Camila de Almeida (imagens)

O sol mal despertou o dia. Na avenida Abolição, o movimento de carros ainda é pequeno. Trabalhadores dos hotéis ou dos condomínios da Beira Mar descem dos ônibus. Grupos de corrida passam em bando pelo calçadão. Em trajes menores, a turma do banho de mar vai chegando. Nadadores ou amadores orbitam pelo espigão da avenida Desembargador Moreira.

A barraca Papagaio, em frente ao Náutico, serve de apoio. É lá que os integrantes do grupo Meninos e Meninas do Mar guardam os pertences ao chegar e onde se banham de água doce ao sair. R$ 30 por mês pela regalia.

“Quando entra no mar, a gente deixa tudo pra trás, não leva quase nada”, explica Rita Mônica Giffoni Barros, 62. Dores nas costas, joelho, tristezas, também vão ficando na areia. “O doutor Oceano cura tudo. Uns chegam aqui que mal se mexem. Em pouco tempo, o mar trata”, diz. Ela mesma segue a receita à risca — são doses diárias há mais de 20 anos. Só leva falta quando viaja ou quando chove forte, a água desce pela avenida arrastando lixo e agitando o mar.

“Sabe uma coisa que acho interessante? Tem gente aqui que se conhece há muito tempo e não sabe nem o sobrenome”, conta. Ela garante que dentro das águas mornas do Atlântico que banham a Fortaleza aniversariante tudo é mais leve e os títulos não importam tanto.

O grupo que treina para competições chega ainda na madrugada, por volta das 5 horas. Às 6h30min tem aula de alongamento na areia. De resto, não há horário estabelecido. Cada um se organiza ao sabor do vento. O recomendável é que cada nadador esteja, pelo menos, na companhia de um outro que possa ajudar numa emergência. Mas há quem se aventure sozinho, alcance até o Mara Hope, o navio naufragado na Praia de Iracema em 1985.

Morador da rua Monsenhor Bruno na adolescência, Henrique Bezerra de Menezes, 66, foi surfista até os 18 anos. “Peguei muita sereia, agora só pego jacaré”, brinca. Sem o apoio de flutuador, apenas os óculos de natação por acessório, ele passa de uma hora no mar. “Venho quase todo dia, às vezes, pra curar ressaca”, confessa. Ao longo da manhã, capaz de contar umas 100 pessoas entrando e saindo do banho. Às sextas, Henrique diz que a frequência é menor. “É o caranguejo da quinta que atrapalha”, presume.

Depois do espigão, onde o mar se alarga sem obstáculos, José Lopes de Paula, 81, conversa com outras banhistas. “Lopes, mas pode chamar também de Perigo. Ele é namorador, viu?”, adverte o amigo de chegada. Lopes — que também tem fama de bom nadador — ri discretamente da gaiatice e emenda a conversa. “Ontem, eu estava mais lá dentro e vi uma tartaruga. Ela saiu muito da água, deu pra ver direito. Grande, o corpo amarelo, nunca tinha visto assim tão de perto”, narra. “Deu pra calcular o peso?”, a gaiatice interrompe.

Golfinhos também aparecem na costa, garante Francisco de Assis Ximenes do Prado, 63. Chegam mais perto, atraídos, no período em que as sardinhas passam, por este pedaço do oceano.

Seu Lopes calcula que até o fim deste mês, o sol estará se pondo por detrás da ponte. “Atualmente, ele cai atrás dos prédios. Mas quando ele vem aqui pra frente é bonito de ver dentro do mar. Aí vale à pena vir nadar no fim da tarde”, sugere.

Assis se diverte lembrando as presepadas que apronta, os apelidos que pegam. A Carminha — a loura alta e bonita que de longe se avista caminhando — é a Verão. “Lembra do comercial da Itaipava? Então, ela é a nossa musa”. A baiana, que há 34 anos se banha no sol de Fortaleza, acha graça do galanteio.

Às 8 horas, ela acaba de pôr o café da manhã numa mesa da barraca. A refeição é mais uma desculpa pra esticar o tempo na praia. Cada um vai trazendo algo e a mesa é compartilhada. “O melhor daqui é a alegria”, assegura a Verão. E assim, na marola, os meninos e meninas do mar esquecem o tempo e ele faz que não os vê.

Memória embriagada

Antônio Neto, 41, atendeu o último freguês. No relógio de pulso dourado, era hora do almoço. Fechou a barbearia atrás da Catedral de Fortaleza e foi. Rosivaldo José da Silva, 49, já estava a caminho. Não fosse um pequeno desvio, o pernambucano, sargento da reserva, realizava o mesmo percurso feito durante os dez anos que serviu na 10ª Região Militar.

A essa hora, Sidney Alves da Silva, 49, já estava em pé, de frente ao balcão que ocupa quase religiosamente desde 1989, quando foi contratado como contador do laboratório da Santa Casa. Uma gelada pra rebater o calor. O calendário — cortesia de uma loja da vizinhança, pendurado na parede ao lado de uma cartela de isqueiros, garrafas de cachaça e pastéis de vento — marcava mais uma sexta-feira no Vitória Bar.

O estabelecimento, cravado na rua General Bezerril, próximo ao Raimundo dos Queijos, conta quase 60 anos. “O bar mais antigo de Fortaleza, pode anotar. Abri em maio de 1957. Já recebi homenagem lá no Flórida”, diz Mansueto Nogueira, 87, satisfeito com a deferência feita pelo concorrente.

O Vitória é de um tempo em que os peixeiros faziam comércio na calçada, conta o proprietário. Cavala ou camurupim — o rei de prata. O cheiro, os fregueses, o burburinho tomavam a rua. E havia as meninas, de 9, 10 anos, que vendiam papel de saca de cimento para embrulhar e verdura para temperar. Ao lado, os armazéns de cereais, cebola, pimenta do reino... “Da esquina até a (rua) Castro e Silva, era o que a gente via”.

A redondeza abrigava três bares. Um funcionava, inclusive, no mesmo 135 do Vitória. “Era um bar muito devagar quando eu comprei aqui. Tudo eu tive que mandar fazer, piso e parede. E investi na variedade de bebida”, explica seu Nogueira. Os fregueses foram chegando. Funcionários do Banco do Brasil, dos Correios e também a arraia-miúda que pegava ônibus na Praça da Sé — diante da catedral gótica que levou quase 40 anos em construção.

“Quem ia pro Cais do Porto, Joaquim Távora... dava uma passadinha por aqui. Quando eu ia fechar o bar era a maior dificuldade. Era preciso ser muito feroz”, se diverte o velho. Mas pulso nunca lhe faltou, garante. “Aqui toda vida houve respeito. Não quero bagunça ou mando embora”.

O dono do bar mais antigo da Cidade assegura que nunca provou da cachaça que serve. Aliás, bebida alcoólica, só outro dia, quando entornou duas doses de uísque. Se gostou? “Gosto mais de vender. É meu negócio”. Mas o rapaz esforçado nutre uma paixão, confessa: “Música da velha guarda, do tempo que tinha cantor. Carlos Galhardo, Alcides Gerardi, Vicente Celestino, Noite Ilustrada, Altemar Dutra, Ataulfo Alves... Tenho uns 400 CDs aqui”, diz, satisfeito. E gosta de escolher pessoalmente o repertório.

Só num cochilo do proprietário é que se ouve algo diferente. É que Gildo Nogueira, o filho de 49 anos que assumiu a gerência do local, tem outras preferências. The Fevers e José Augusto, por exemplo. De resto, o tempo que por ali passa em outro ritmo.

Barba, cabelo e bigode

Antônio Neto se empolga. “Freguês antigo, viu?”, gaba-se. Ele conta que, jovem, trabalhou num salão em Messejana. Por indicação de um amigo, foi para uma barbearia no Centro. Passou por lá uns 8, 9 anos. Foi por essa época que conheceu o Vitória Bar. “Quando cheguei o corte era R$ 4. Eu ganhava metade. Todo ano que passava aumenta R$ 2”. Era pouco. Mas sobrava pro seu Nogueira.

Até que o ponto na rua Rufino de Alencar, 115, desocupou. Ficava ao lado da panificadora Estrela — “a mais antiga da Cidade”, enfatiza. Há seis anos, montou ali sua barbearia. E viu a vida mudar quando a José Avelino se espalhou pela Conde d’Eu, atravessou a Leste-Oeste. “A rua era morta em comércio, não era o que é hoje, cheia de lojinha de roupa, galpão popular, um centro de moda. O Centro ia só até a Praça do Ferreira e, de repente, cresceu”, calcula.

A clientela da barbearia é a prova dos nove do movimento. “Vem gente do Macapá, Maranhão, Recife, Natal... Tem gente que eu não sei de que lugar do mundo vem. Sei nem falar o nome. Não entendo o que fala, mas a gente se entende e eu corto o cabelo. No fim, dá certo. Quando imaginei que ia acontecer isso comigo? Meu público é esse”, contempla Neto, hoje com 40 anos.

É uma barbearia, mas ele prefere chamar o próprio comércio de “bugiganga”. “É que eu aproveito a feira. Exploro. Vendo fardo, por exemplo. Sabe o que é? Bolsa pra levar roupa”.

No Vitória, Neto conta que passa todo dia em frente. “E entra quantas vezes?”, fico curiosa. “Quase todas”, responde rápido e ri alto.

Cardápio enxuto

O endereço, vizinho da Travessa Crato, tem um feitiço. Rosivaldo José da Silva confirma. Ele lembra que sentou praça na 10ª Região Militar em 2007. Dali, onde os holandeses ergueram o forte de terra batida e madeira que daria origem a uma cidade, até o Vitória Bar, o caminho foi curto.

“A sexta-feira, então, sempre foi um dia atípico. Porque na minha profissão o expediente acabava meio-dia e eu já vinha direto”, lembra. “O peixe daqui é maravilhoso”, sugere.

O cardápio da casa é “enxuto”, explica Gildo. Carne de sol, tilápia, linguiça. “Não temos muito espaço”, justifica. Os pratos são servidos pela Sabiá, apelido que a garçonete ganhou do seu Nogueira, porque chegou lá tão magrinha que mais parecia o passarinho.

Rosivaldo, que além do menu e da cerveja “mofada”, aprecia a galhofa da boemia, promoveu outro dia um racha entre militares e “papudinhos” do Vitória. Aproveitou a reserva e o posto de diretor social do Clube Recreativo dos Subtenentes e Sargentos do Exército da Guarnição de Fortaleza para organizar o evento.

“Aqui todo mundo se mistura. A vanguarda do Centro se encontra aqui”, resume o colega de balcão Sidney Alves.

Definitivamente, Antônio já não abriria mais a barbearia naquela sexta. Sidney fazia planos: “Quando seu Nogueira nos expulsar, podemos ir pra um churrasquinho aqui perto que também vende bebida. Depois, a gente vê”.

SERVIÇO

Vitória Bar
Funcionamento: De segunda a sábado,
das 8 às 18h30min
Endereço: rua General Bezerril, 135, Centro
Telefone: (85) 3231 8989 (falar com seu Nogueira ou Gildo)

Porque hoje é sexta-feira

Intervalo de almoço para as operárias da fábrica de lingerie na Maraponga. Num canto do galpão repleto de máquinas de costura, por ora, silenciosas, elas improvisam um salão. A sexta é dia de olhar-se no espelho.

Naiane Bezerra Belarmino Garcia, 25, faz penteados, corta cabelos, capricha nas maquiagens. “Eu arrumo as colegas qualquer dia, quando uma tem um compromisso, uma festa. Mas, na sexta, aumenta a procura”, explica. Trabalhando na pilotagem da fábrica, aproveita assim para exercitar as outras habilidades aprimoradas em cursos.

Ela mesma, impecável em sombra, delineador e batom. “Sempre gostei de me produzir. Saio maquiada todos os dias. De tanto fazer, nem demoro, me preparo em cinco minutos”, conta Naiane. A vaidade é tanta que já chegou ao trabalho sem os sapatos para trocar pelas chinelas, mas nunca sem a bolsinha com pente, tesoura, pinça, cosméticos.

Na empresa há dois anos, a moça passou pela costura e faz agora a pilotagem. É responsável, assim, pela elaboração das primeiras calcinhas e sutiãs — que servirão de modelo para as demais — nos vários tamanhos, do P ao GG. A meta é de 30 peças por dia, mas Naiane afirma que faz de 40 a 60.

A rotina é quebrada no último dia da semana. Vez ou outra, o marido aparece para buscá-la ou mesmo as amigas esticam para um happy hour depois do expediente. É dia de dormir mais tarde, de namorar, de assistir filme juntos na TV.

Rayna Amâncio Ximenes, 23, também associa o último dia útil ao namoro com tempo livre. Pra ela, uma pausa na rotina de inspeção que lhe ocupa das 7h30min às 17h20min. “Uma porcentagem de tudo o que é produzido precisa passar pelo controle de qualidade”, explica. Na sexta, deixa pra trás costuras, rendas, aviamentos, transparências, bojos, aspas. E espera o sábado, porque o namorado, bombeiro e estudante de Educação Física, faz estágio à noite numa academia.

No salão

Aderline Maria Fernandes Ramos, 43, já não espera. Depois de dez anos dedicados aos três filhos, ela decidiu que queria estudar. Formou-se em Recursos Humanos, fez duas especializações, teve que começar a trabalhar para pagar os custos. “Consegui manter o ritmo durante dez meses. Acordava de madrugada pra deixar almoço e janta prontos. Saía de casa, pegava duas conduções.

Chegava no trabalho às 8 horas, saía às 16h50min, pegava condução e estudava até as 22 horas pra ainda ter que ir pro Jardim Guanabara”, cansa só de lembrar.
Esperava o ônibus, reconhecimento, compreensão, ajuda. Mas olhou pra si mesma e achou que o esforço não valia. “Me amo e amo minha família. Estudar foi importante, mas quero mesmo é cuidar de mim”, afirma.

A rotina, filhos já rapazes, é outra. No salão onde já trabalhou como assistente, ela agora faz depilação, hidratação, sobrancelha, redução de volume dos cabelos. Em outro, faz a manutenção do megahair, aplica as unhas de gel. “Quase todo dia invento algo pra fazer”, fala e ri. “Na sexta, então, não posso faltar. É que eu me amo!”.

O dia e o corpo dedicados a uma fantasia

Quando concluiu o ensino médio na pequena São Bento, no interior da Paraíba, ele não teve dúvidas: arrumou as malas e, três dias depois, pegou um ônibus em direção à casa da avó cearense. “Em São Bento (a capital mundial das redes) não tinha espaço pra mim. Todo mundo gostava de festa de forró, eu gostava de pop. Quando passei a usar lente de aumento no olho, pintei o cabelo de azul, todo mundo estranhou. Depois pintei de verde, laranja. Raspei. Eu conhecia outras pessoas pela internet e só pensava em ir embora”, lembra Charlotte Killz.
A drag queen vem ganhando espaço nas casas noturnas de Fortaleza. De sexta a domingo, discoteca, performa, produz. “Eu sou a dona”, diz, rindo, loira e alta. Exuberante.

“A primeira vez que me montei, saia preta, peruca preta... Eu fui contratado para fazer porta numa boate. Eu recebia as pessoas que entravam. Olhava a fila. Minhas pernas bambas. Mas nunca me senti tão livre. Era eu. Estava me achando”, conta. Nos dias seguintes, novos convites surgiram. E se acostumou com a fantasia.

Raspou a sobrancelha, aprendeu a se maquiar sozinha, investiu em acessórios, fez amigos. Inventou-se. Mas feito a semana, que num movimento cíclico volta aos dias úteis, ela também torna a vestir calça, camisa, tênis, cabelos curtos. É Neto Fabrinni. Cuida da agenda de Charlotte, movimenta os perfis dela no mundo virtual. À noite, gosta de sair pelo Benfica ou arredores do Dragão do Mar. E declarar na rua seu amor por Fortaleza.

Sexta é dia de errar

Dia de fugir da norma e sair por aí sem destino

Clique nos ícones no mapa para obter mais informações.

Mapa

The Lights

O ponto mais dançante da estreita rua Instituto do Ceará, reduto da boemia universitária de Fortaleza, fica na loja 4. O bar abre às segundas, terças, quintas e sextas, sempre a partir das 20 horas.

Onde: Instituto Ceará

Telefone: (85) 99773.2573

Teresa & Jorge

O sobrado tem samba de mesa com Malena Monteiro e Companhia todas as sextas, sempre a partir das 21 horas.

Onde: Rua João Cordeiro, 540

Telefone: (85) 9926.7207

Órbita

A casa, fundada em 1999, promoveu durante mais de dez anos o Super Drive, projeto de música autoral. Atualmente, os shows de bandas locais se intercalam com apresentação de artistas nacionais ou festas de produtores.

Onde: R. Dragão do Mar, 207, Praia de Iracema

Telefone: 3453.1421

Reggae Club

A casa dedicada à música jamaicana completou dez anos em março último. Sexta é dia do projeto Roots And Culture, que organiza festas temáticas, traz DJs convidados e colecionadores de vinil. Além de, uma vez por mês, promover show de bandas.

Onde: Rua José Avelino, 508, Praia de Iracema

Telefone: (85) 98959.9671

Floresta

Shows em tributo às bandas de rock todas as sextas-feiras.

Onde: Av. Santos Dumont, 1788/1, Aldeota.

Telefone: (85) 3224.3351

Bomtequim

Atravesse o portão e entre direto no quintal. O Bomtequim tem boa música e bom cardápio. Fica longe do tradicional roteiro boêmio da Cidade e isso é um ponto a mais.

Onde: Rua Monsenhor Furtado, 2074, Bela Vista.

Telefone: (85) 99136 8738

Zena

Sexta é dia de uma das melhores feijoadas da Cidade. De preferência, acompanhada pelo bolinho de carne e pela cerveja geladíssima. Difícil é voltar pro trabalho depois desse banquete. Abre até as 15 horas.

Onde: Rua Meton de Alencar, 549, Centro

Telefone: (85) 3226.3690

Café Couture

A varanda mais charmosa da Rua dos Tabajaras reúne também a melhor música. Às sextas, o espaço apresenta o projeto Novas Bossas, com o cantor e compositor Danilo Guilherme, acompanhado de Beto Gibbs e Egidio de Oliveira.

Onde: Rua dos Tabajaras, 554, Praia de Iracema

Telefone: 99913.3819

Serpentina

A casa na esquina da Heráclito Graça com Gonçalves Ledo não segue roteiro prévio às sextas. O dia é de encontros musicais %u2013 rodas de choro, serestas, trios de jazz ou DJs. O Serpentina abre às 17 horas e vai até meia-noite.

Onde: Avenida Heráclito Graça, 760, Centro

Cantinho do Frango

Às sextas, a partir das 17h30min, a palhoça do Cantinho do Frango faz as vezes de sala de estar do DJ Alan Morais. Ali, ele divide seu incrível acervo sonoro em vinil. Fosse pouco, a casa ainda tem simultaneamente no happy hour os feras Tarcísio Sardinha e Márcio Resende num duo piano e sax, a partir das 18 horas, na área climatizada.

Onde: Rua Torres Câmara, 71, Aldeota

Telefone: (85) 3224.6112

Passeio Público

O barulho do Centro fica lá fora. A praça mais antiga da Cidade é lugar de passarinhos e sombra. O Café Passeio, restaurante que funciona no local, abre todos os dias das 9 às 17 horas. O almoço é servido de meio-dia às 15 horas.

Onde: Rua Dr João Moreira S/N, Centro

Telefone: (85) 3063.8782

Aluguel de caiaque na Beira Mar

Para chegar mais perto do horizonte e ver a Cidade de outro ângulo, vale um passeio de caiaque. Na Beira Mar, você encontra equipamentos pra alugar, das 8 às 18 horas, atrás da Praça dos Estressados, pertinho do Jardim Japonês.

Quanto custa: Uma hora custa R$ 15

Telefone: (85) 98833.4005 ou (85) 98503.6470

Praia do Titanzinho

O Titanzinho fica ali na esquina de Fortaleza no Atlântico. Point de boas ondas e resistência. Para ver a Cidade corar no fim da tarde, a dica é o Bar do Surf. O espaço abre aos sábados e domingos. Às sextas, funciona para eventos e grupos previamente agendados.

Onde: Avenida Leite Barbosa, 1146

Telefone: (85) 98880.6771

As permissões da noite

No quinto dia útil da semana, a maré começa a inverter. Recolhe café, compromisso, grito, despertador. Condução, pressa, meia, botão. Tensão, louça suja, engarrafamento. O movimento vira a favor.

Lucas Almeida, 22, esquece o sono e o cansaço. Sexta-feira é dia de se espalhar, de beber cerveja gelada e barata pelo Benfica, ocupar a praça, dançar pelos arredores do Centro Dragão do Mar ou ainda de espantar os males por R$ 3,99 no Kant Bar. “Minha rotina é agitada. Tenho um estágio em assessoria de imprensa. Para começar às 8 horas, saio de casa às 6h30min”, cronometra. No escritório, fica até as 15 horas. Mas, morando no Conjunto Ceará, não compensa voltar.

A noite é dedicada aos estudos. Até o semestre passado, eram as aulas no bairro Água Fria. Agora, a pesquisa de campo para o trabalho de conclusão de curso. “Entrevisto prostitutas em casas noturnas, cabarés. Pego o ônibus de volta umas 22 horas. No terminal, pego uma bicicleta. Chego em casa por volta de meia-noite”, explica. É assim de segunda à quinta. “A sexta já começa diferente.

O humor muda. As pessoas estão mais bem-humoradas, brincam mais”.
“Todo mundo espera algo interessante. As pessoas estão com toda a pilha pra se divertir”, diz Ronney Luna, 23. Assistente administrativo, a rotina de trabalho e academia é interrompida na sexta. É nesse dia que ele pode ser visto, cantando a plenos pulmões, no karaokê do Boop’s Pub. Ou nos shows do Floresta Bar.

“Geralmente, a gente já sai direto do trabalho. Combina por WhatsApp. Começa cedo e também não volta tão tarde”, conta. No caminho de casa, no Antônio Bezerra, se ainda sobrar disposição, uma parada no Ordones.

Mangas dobradas, a roupa do trabalho também vai à pista de dança. O advogado Nathan Teixeira, 26, saiu do escritório para um barzinho e de lá para o Órbita. “Se passar em casa, ficaria com preguiça de sair. Interessante é sair direto, tomar cervejinha e esquentar”, descreve.

A sexta também ferve longe dali. Vide o Bomtequim, na Bela Vista, numa sexta de céu nublado e alguma chuva. O terreno na garagem de uma avó já fez as vezes de lan house. Por sorte ou azar, o negócio não deu certo. E Luís Eugênio Praxedes achou de sair do virtual pra calçada. Servia churrasquinho e cerveja gelada. A freguesia aprovou.

Hoje, o endereço é disputado. Funciona do jazz às quartas até o samba aos sábados, passando pela choro às quintas e pelos shows da sexta. “Venho na certeza de que vou encontrar música de qualidade. É o diferencial da casa. E ainda tem o que eu chamo de ‘segundo turno’. Depois que a portão da casa fecha, fica a turma tirando um som”, secreta Ewerter Rocha, 47, professor de música da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Para ele, a sexta em Fortaleza está melhor, com opções que não estão mais restritas ao circuito Aldeota-Praia de Iracema.

O Skina do Camarão, na Maraponga, atrai uma multidão. 180 mesas. Quase todas ocupadas. A comerciante Maria da Conceição dos Anjos Marinho, 45, brinda com a mãe, Umbelina dos Anjos, 65. O encontro pode dar num forró ou num jantar, como naquela sexta. Certas mesmo são a conversa esticada, a alegria dividida. “A gente se fala quase todo dia por telefone. Mas saímos juntas no último dia da semana quase sempre”, explica a filha.

Para o proprietário do pedaço mais disputado naquela noite pela avenida Godofredo Maciel, a sexta é mais um dia de trabalho. Edson Moreno, 39, começou ali há oito anos, alugando um pequeno ponto comercial. Passou a criar o próprio camarão em cativeiro, ampliou o negócio, ampliou mais uma vez e abriu outro restaurante, a poucos quarteirões de distância. “Pra mim, o dia não tem muita diferença. A não ser pelo movimento”.

Trabalhando há cinco anos como garçom no bar Mincharia, José Antônio Lima Silva, 51, ainda sente as nuances dos dias — da aurora ao crepúsculo da semana. “Já trabalho há tanto tempo na noite que me sinto um boêmio. E a sexta é diferente. As pessoas querem outra coisa, querem coisas novas”, investiga. Ele, morador da Praia de Iracema e ex-funcionário do antigo bar Celso 90º na Rua dos Tabajaras, divide hoje as noites entre a brisa da praia e o Hospital da Mulher, onde é do apoio logístico. “As pessoas perguntam se não é triste. Mas é a vida. É a luta”, responde.

O empresário Jânio Soares, 76 “em boa forma”, também é assíduo — na Praia de Iracema, nas sextas. É que o dia, no sereno do largo, é de encontro da Confraria do Mincharia, um grupo de amigos que rende gargalhadas e doses à memória de Antônio Aurílio Gurgel. Solteirão e boêmio, ele ganhou fama na década de 1960 pelas festas que promovia em seu apartamento, no encontro das avenidas Abolição e Rui Barbosa. “O Mincharia tinha várias corriolas. A da sexta, a do sábado, a do domingo. Eu ia quase todo dia. E quando ele faleceu, em 1985, a turma resolveu continuar se encontrando todas as sextas”, diz Jânio.

A mesa é grande. Começa a se formar por volta das 18 horas. Os que têm mais sede chegam às 17 horas. A farra segue até umas 22, 23 horas. “A gente fala mal da vida alheia, bebe cachaça, cerveja, uísque, acha graça, come tira-gosto. E ultimamente também atualiza quem morreu”, descreve às gargalhadas. “Mas a velha guarda resiste”.

Depois das 18h, na cidade queimada do sol

Venho acreditando no cansaço de Fortaleza diante da excessiva claridade vespertina causada pela radiação solar. Recai sobre nós essa iluminação-maravilha, impressionante aos estrangeiros que nos visitam. Coisa de Terra da Luz, a Land of Light do cidadão que não se instiga com essa baboseira desastrosa de cidade-hub, mais branqueamento, mais alto contraste, tudo lá na tua frente, aqui gira o sol numa nota de cem sob a luz de sempre meio-dia, astigmatismo só piora e até vira benção pensar em um abajur pra nova casa, voltando pra Fortaleza depois de um tempo fora, ciente de tanta luz, de tanta claridade, que ninguém fala coisas que realmente importam das 8h às 18h, no horário comercial do jogo ensolarado que todo mundo é obrigado a jogar — eu me fiz claro o suficiente?

Apaga a luz quando for sair, passa o protetor, bota óculos escuros, espera descer o sol pra ir brincar, no play, de queimada na ruína do espigão denegrido da desembargador, de sete-pecados nas praças e nas ruas onde a gente levanta a bola e grita o nome das carnes vermelhas que sempre dizem sim, estou aqui, presente, tipo transe do couro quente de tambor numa roda de batuque pela madrugada escura, tudo fora da fortaleza de muros altos, sim, onde a noite é feita de betume, sim, ninguém leva desaforo, uma centelha, vapt-vupt, queima, preto é chave que abre cadeado e portão de alma e coração, sim, presente, depois do blackout perceber a luz é só questão de esperar os olhos se acostumarem. À meia-noite ninguém é vilão.

Cansam as pupilas dilatadas no escuro? Cansa não, cara, não cansa. Venha. Encosta o carro, desce o vidro, destrava a porta, deixa tudo aberto às três e vai a pé pra longe do bafulê boêmio, pela calçada esburacada, sem ser vivo algum na rua, vira alma, fantasma vagando numa cidade de rastros, os gatos sobre os telhados são alguns de nossos emissários, os jardins das casas de muros baixos se tornam altares sob a luz dos postes, como as lanças de são jorge no três-nove-nove da rua Redenção, Benfica, todos dormem, passa ciclista, vish, é visagem, vigilância motorizada nunca foi necessidade, Roberto Carlos no rádio do porteiro comove como o alarme de carro lá longe, depois de quando a luz da avenida deixa de ser branca e vira amarela, vai bater em Parangaba, talvez na tua rua, alhures, o diante são as entranhas do Brasil, mas a Maraponga sempre vem antes do alhures. Lá, onde cresci a maior parte da minha vida. Lá, das madrugadas habitadas por areia, árvore, vento e cavalos soltos no mato, com os quais eu cruzava o caminho após o último ônibus da noite, há quase meia década. Lá, quando reluto em ver que mudou muita coisa, como falam. Lá, onde a casa do meu passado já não mais existe, foi ao chão, botaram duplex. Lá, quando e onde cavalos ainda existem nos meus sonhos, onde corremos a galope e brincamos de índios, onde somos selvagens, nada comportados, onde não existem heróis ou beatos, onde a noite é celebração constante e não se há um pingo de medo do desconhecido, onde entoamos canções que o resto da cidade lembrará assim que abrir os olhos remelentos, lesadinha, como após um sonho estranho, assim, depois da grande luz desfazer todo tipo de delírio, todo tipo de utopia. Lá eu te espero depois das 18h.

Yuri Leonardo é designer

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Fortaleza 291 Anos - Sexta

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