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Editorial

O que tem de Fortaleza em cada um dos seus dias? Onde você e a Cidade se encontram cotidianamente? Na repetição sem fim, e paradoxalmente, cheia de diferenças que é a rotina, inventamos percursos que fazem com que cada dia seja único. Construímos as nossas próprias cidades dentro da Cidade-mãe com os compromissos firmados com os outros e com a gente.

É assim que as segundas-feiras acordam de um jeito específico. Com preguiça ou pique para serem solução, têm cheiro, sabores e belezas que não são vistos às terças, quando a Cidade é distante do que será vivido às quartas, intermédio que abre alas para as quintas que, enfim, são quase sextas — o dia de desacelerar do expediente e acelerar para o descanso.

A partir de sentimentos e horas que fazem a segunda, os repórteres Jáder Santana e Camila de Almeida percorreram pessoas e territórios que refletem dias como hoje. Desde a chegada das primeiras jangadas e do metrô até o entardecer tranquilo à beira-mar. Viram segundas feitas em vários fragmentos de Fortaleza e nos instigam a pensar: quais pedaços compõem a nossa Cidade hoje? 

 

 

 

 

Carta para alguém bem perto

Por Jáder Santana Por Camila de Almeida (imagens)

Pensei em romper contigo de forma cínica. “O problema não é você, sou eu”. Escapar pelas beiradas, cafajestavelmente deslizar de nossa história como o cara das razões baratinadas. Dizer que não fiz por mal e sair cantarolando o “deixe-me ir, preciso andar” de Cartola no primeiro avião com destino incerto. Você não merecia minha sinceridade. Não depois de estourar meus pneus nos buracos da Aguanambi. Não depois de registrar 0,30% de alta em seu IPCA. Você sabia que o quilo da picanha subiu de R$ 18 para R$ 22? Aposto que não. Você nunca repara no que digo.

Decidi não sair no fim de semana. Sábado, domingo, e lá estava eu ensaiando o melhor modo de te dizer que cansei, que estou caindo fora. Aposto que nem percebeu minha ausência. Não dormi na última noite. Rolei na cama, abri a janela para ventilar — você ao menos se deu conta de que suas últimas madrugadas têm sido infernalmente abafadas? — e, cansado de fazer nada, decidi sair para uma caminhada às três e meia da madrugada. Você leu certo: três e meia.

Cruzei algumas esquinas e cheguei ao aterro da Praia de Iracema, próximo ao espigão da Rui Barbosa. Pensei em avançar por sua estrutura de madeira, mas o ruído das ondas me intimidou. Elas pareciam mais fortes àquela hora. Olhei ao redor — e aqui tenho que admitir, contra minha vontade, que você sabe ser bonita — e me senti impelido a continuar caminhando rumo ao leste. Perto das quatro horas, um senhor de camisa folgada e pochete na cintura me cruzou em passo acelerado. “Bom dia”. Respondi alarmado, percebendo que outros também estão insones — talvez por culpa tua.

Você já percebeu como a madrugada avança rápido por tuas ruas? Depois das quatro, teus homens e mulheres batem os portões dos edifícios e saem apressados em direção ao calçadão da Beira Mar, com toalhinhas penduradas no elástico dos shorts, calçados esportivos e bonés para proteger de um sol que ainda não deu as caras. Nenhum deles parece ter menos que 50 anos. Se a noite é uma criança, a madrugada esfrega as mãos para esquentar reumatismos.

À altura da feirinha da Beira Mar, as barracas desmontadas e cobertas por lonas escuras formam um labirinto que, se bem observado, revela um ou outro dorminhoco entre suas grades. É fácil dormir com o barulho das ondas. Às quatro e dez o movimento já é outro, com senhores e senhoras que se cumprimentam agitando os braços no ar, especulando as notícias do dia que se espreguiça e decidindo ordens e diretrizes que colocariam o Brasil nos eixos. Você deveria dar ouvido ao que dizem.

É levado por esse movimento que chego às proximidades do Mercado de Peixes, onde um grupo de 30 ou 40 pessoas se aglomera em círculos menores ao redor de redes de pesca, jangadas estacionadas, garrafas de café ou doses de cachaça. É uma senhora de expressão firme que atrai as órbitas. Sentada em uma cadeira fincada na areia, Zuleide Lima ocupa suas mãos ágeis com cédulas recebidas e moedas devolvidas, com chá fumegante e meiotas de aguardente que reviram meu estômago. Há 15 anos é ela que esquenta a madrugada dos que esperam pelos carregamentos de peixe.

Nesta segunda, buscavam na distância barcos e jangadas que haviam partido na quarta-feira anterior. Cinco dias em alto-mar, você pode imaginar? Esperavam uma boa carga. Os meses de março e abril são os de abundância. Foi o que me disse Francisco Marques, rebatizado entre os pescadores como Cordeiro, mamífero entre peixes. De olhar fixo nas ondas, parecia ansioso. Voltava àquele lugar todas as madrugadas, há mais de duas décadas, e não podia esconder as expectativas pelo que estava por chegar.

Quem interrompeu a observação criteriosa de Cordeiro foi Dudu, que chegou tropeçando nas próprias pernas e me cumprimentou pela sétima ou oitava vez, com os olhos baixos e um copo descartável molhado de cachaça. “Hoje é dia de bêbo chato”, ouvi de um dos carregadores, que também levava um copo meio cheio entre os dedos. Dudu avisou que também era pescador e me estendeu a palma da mão. Outra vez o cumprimentei, a oitava ou nona. Balançou a cabeça e me estendeu a mão outra vez, pedindo que a tocasse com a ponta dos dedos “aqui e aqui”. Vi as marcas esbranquiçadas e as cicatrizes que confirmavam sua profissão. Passei meu indicador por elas.

Cordeiro se aproximou outra vez e apontou um barco a motor que havia acabado de acender uma de suas luzes. “Pronto, quando eles acendem a luz é porque já podemos buscar os peixes”, explicou. Enquanto se preparava para partir, também partia uma jangada, impulsionada pelas ondas. Três pescadores e um vira-lata se equilibravam em sua largura. Para o cachorro, tudo parecia mais fácil.

Não venha dizer que preciso te conhecer mais...

Antes das 5h30min já tem movimento na estação do metrô em Pacatuba

Ok, tudo bem. Talvez — talvez! — eu realmente precise. Confesso que me surpreendeu o ecossistema que povoa tuas madrugadas. Admito que me fez bem começar o dia com uma xícara de café de garrafa, areia nos sapatos e cheiro de pescado e cachaça impregnado na camisa. Surpresas me animam, e há tempos você havia deixado de me surpreender. Ainda agora me pergunto: como deixamos nossa relação virar rotina?

Quando me despedi dos pescadores, acenei para um táxi estacionado e pedi que me levasse até Pacatuba, aquela tua vizinha que insiste em se dizer ecológica. Havia lido em algum lugar que o metrô tinha agora um novo horário de funcionamento, que a primeira composição saía da Vila das Flores às cinco e meia e via o sol nascer enquanto avançava em direção a Fortaleza com uma velocidade constante de 70 km/hora.

Às cinco e vinte, pelo menos três dezenas de pessoas já se espalhavam pelas escadarias da estação, esperando a hora de saída do trem. Pensei em puxar assunto com alguém, o café dos pescadores e as novidades daquele dia haviam me dado vontade de conversar. “Não, espere”, alertou minha consciência, “é madrugada de segunda-feira. Quem diabos se permite estar de bom humor em uma situação assim?”. Agradeci o aviso e tomei meu lugar na fila, vestindo a carapuça dos ranzinzas matinais.

As caras de segunda feira são parte do primeiro metrô que chega a Fortaleza.

Percebendo minha impaciência — ou talvez reparando que eu nunca havia pisado naquele lugar onde todos pareciam velhos conhecidos —, se aproximou de mim um rapaz de passos rápidos e sorriso no rosto. “Bom dia, sou o agente da estação, você precisa de alguma coisa?”. Não, nadica. Tudo bem por aqui. O trem vai sair na hora? “Vai, sim, o operador só está tomando um café e já vai descer”.

Artêmio Viana tem 33 anos e é funcionário do metrô há 15. Foi seu primeiro emprego. Encontrá-lo sorridente e tagarela àquela hora me fez pensar que há mais coisas entre Fortaleza e Pacatuba do que pode supor nossa vã filosofia. Antes de embarcar no trem, olhei ao redor da estação e vi que o azul do céu avançava por tons mais claros. Às cinco e vinte e oito o operador assumiu seu posto. As últimas pessoas cruzaram as portas automáticas às cinco e vinte e nove e a composição começou a se mover às cinco e trinta, me levando de volta para quem eu havia acabado de abandonar.

Agarrado a uma das barras de segurança pintadas de verde, olhei ao redor procurando outro sorriso como o de Artêmio. Queria conversar enquanto durassem os 30 e poucos minutos do trajeto, falar sobre minha madrugada, desabafar sobre os altos e baixos de nossa relação. Fugi dos que ainda esfregavam os olhos, dos que bocejavam com cara de segunda-feira e pedi permissão para me sentar ao lado de três senhoras que gargalhavam e atraíam olhares desconfiados.

Rose de Araújo, Vangia Lima, Mirtes Sales. A primeira, doméstica, a outra, diarista, a terceira, cozinheira. “Pelo visto, vocês gostam da segunda”, comentei. “Claro que não. Ninguém gosta. A segunda não é bem-vinda”, respondeu Rose, dando outra gargalhada que ia contra o que dizia e que chamou atenção de um grupo de passageiros mal-humorados ao pé da porta. “Olha lá, eles estão olhando pra gente e balançando a cabeça. Tá vendo como ninguém quer saber da segunda?”. Perguntei o motivo das risadas — “ah, porque mulher sempre tem motivo pra conversar” — e se a coisa havia melhorado depois da ampliação do horário do metrô — “muito! Antes era só um trem enfeitado ou um ônibus que demorava uma hora; você dormia e acordava e não chegava a lugar nenhum”.
Dezoito estações te atravessam ao meio, da Vila das Flores, em Pacatuba, ao posto Chico da Silva, no início da rua Padre Mororó. Por dia, 18.850 passageiros são carregados pelos 24,1 quilômetros de tua veia sul. Haja sangue para bombear tanto oxigênio. Agora entendo o que você quer dizer quando me fala que minhas demandas te sufocam, que você precisa de ar, de ar, de ar. Ainda não aprendi a me situar nessa relação poliamorosa. Paciência.

A cada parada, mais gente chega aos vagões. É como se o sol expulsasse os moradores de suas casas. Uma senhorinha reza o terço enquanto olha pela janela. Tudo bem com a senhora? “Não, eu tô meio nervosa”. Quer conversar? Balança a cabeça em negativa. Me levanto e me afasto, que respeitem o seu drama. Escorado a uma barra, um homem tenta se equilibrar enquanto sustenta com as mãos um livro grosso de capa azul. Entorto o pescoço para ler o título: Contabilidade Básica, José Carlos Marion.

Você é contador? “Não, sou estudante. Comecei agora, tô no primeiro semestre”, me responde Raimundo Nonato, devolvendo os olhos ao livro. Tem prova hoje? “Tenho, mas agora vou trabalhar. Desço na próxima estação e pego um ônibus para Caucaia. Trabalho no departamento pessoal de uma empresa. À noite volto pra Fortaleza, pra faculdade, e depois vou pra casa”. Nossa, haja pique para tanta coisa. “Eu vejo como um investimento. Preciso fazer isso, tenho mulher e filho”. Agradeço sua atenção e lhe desejo sorte.

Quando chegamos à última estação, o vagão já está quase vazio. A senhorinha segue debulhando seu terço até a parada total do veículo. Quando me preparo para saltar pela porta, uma mulher apressada esbarra em meu ombro e me pede desculpas. Bem-vindo à Cidade.

ANDANÇAS PELAS SEGUNDAS

Do Mucuripe ao Passaré, passando pelo Centro, às segundas Fortaleza se revela disposta, com energia para o começo dos dias ditos úteis.

Clique nos números no mapa para obter mais informações.

Mapa

Mucuripe

Às 5 horas, tem movimento com a chegada das jangadas no Mucuripe.

Metrô

A linha Sul sai da Vila das Fores, em Pacatuba, e vai até o Centro de Fortaleza, em estação ao lado do cemitério São João Batista. Saímos às 5H30min.

ALGUMAS INFORMAÇÕES DA LINHA SUL

Passageiros/dia: 18.850

Estações em Operação: 18

Três Cidades atendidas: Fortaleza, Maracanaú e Pacatuba

Valocidade: 70km/h

Intervalo entre trens: 20 minutos

Número de trens em operação: 8 TUEs (Trens de Unidade Elétrica) ou 4 composições formadas por TUES cada.

Extensão da via: 24,1 km

Cafézinho

No Centro, bem na esquina da rua Padre Mororó com Aprendizes Marinheiros, paramos para a merenda no Café da Tatá. Ali tem tapioca, pão com ovo, queijo e presunto, e um cafezinho.

A merenda completinha sai por R$3

Curiosidade: Tatá saiu de Amontada direto para Fortaleza.

Cemitério São João Batista

O cemitério símbolo da Capital fica na rua Padre Mororó esquina com a rua Castro e Silva. Ali descobrimos que segunda é dia de reza.

Curiosidade: em média são 8 enterros por dia.

Encontramos o pedreiro José Miranda no cemitério que disse:

"Todos nós estamos na fila, por isso eu tô aqui todo dia"

Praça do Ferreira

Na praça que é coração de Fortaleza encontramos Natália Sousa. A cabeleireira , micropigmentadora e depiladora de 29 anos usa as folgas das segundas e o Centro para as compras da semana. E ensina: "Se eu não me valorizar, ninguém me valoriza, né?"

Passaré

Natália mora no Passaré. Fomos com ela até lá.

Beira Mar

No entardecer da segunda, voltamos para perto do mar. Encontramos Sônia Carvalho e as amigas na academia ao ar livre no Parque Otacílio Teixeira Lima (Bisão). O local fica na esquina da Beira Mar com a rua Tereza Hinko. Sônia lembra:

"Segunda é dia começar o exercício pra compensar a cerveja do fim de semana"

Encerramos o passeio com jogo de dama ao lado do Mercado dos Peixes no Mucuripe - onde nosso dia começou. Para acompanhar o jogo, teve um pão com cafezinho.

Corri atrás dela e dei de cara com um cemitério...

Gatos são moradores do São João Batista.

Imagine você. Lápides altas que se erguiam para além de um muro branco. Você tem dessas pegadinhas. Sempre teve. Primeiro, a topada com a apressadinha do metrô; depois, dar de cara com a casa dos mortos. Já pensou? Sair de baixo da terra e, desavisado, escorregar até a terra onde tudo está por baixo. Cruz-credo. Não é assim que se cativa um amante.

Decidido a me distrair da sensação de mau agouro, continuei correndo atrás da outra. Ei! Oi! Você! Por que a pressa? “É meu primeiro dia de trabalho, tenho que pegar o metrô pra Caucaia”, respondeu sem diminuir o passo Tânia Regina, a mais nova promotora de vendas da Região Metropolitana de Fortaleza. Acelerei minha corrida e me posicionei ao seu lado. Ufff. E qual é a sensação? Ufff. Você tá ansiosa? Ufff. “Eu tô é morta de felicidade”.

Mantendo o pique da corrida, ouvi Tânia contar que passou dois meses morando em Caucaia enquanto procurava emprego por aqueles lados. “Ficava na casa da ex-sogra”. Jura? “Juro, e meu ex-marido mora na parte de trás da casa”. E isso dava certo? “Dava, deixei minha filha morando com a madrinha em Fortaleza e fui pra lá buscar trabalho. Saí entregando currículo num dia de chuva e eles me chamaram”. Esbaforido, desejei boa sorte e me larguei em um dos bancos de plástico de um carrinho de tapiocas. Com uma aceno da mão e sem olhar para trás, Tânia continuou sua São Silvestre.

Custei a recuperar o fôlego. O anjinho no topo de uma das lápides me olhava com olhar de convite. Você sabe ser macabra quando quer, querida. Por sorte, o cheiro de café e tapioca me reanimou. Arrastando os passos, conferi as ofertas: além do que eu já tinha visto, pão na chapa, pão com ovo, pão com queijo e presunto. Quem preparava os lanches e enchia os copos era Atanabe Kennedy, Tatá para a meia dúzia de clientes que se aglomeravam ao redor do carrinho. Todo dia é assim de cheio, Tatá? “Todo dia. Acordo às três da madrugada pra preparar as coisas. Chego aqui umas cinco e fico até perto de nove”. Nascido e criado em Amontada, foi seduzido por tuas promessas há nove meses, quando decidiu largar tudo e vir morar com a irmã e a cunhada em uma casa apertada no coração da tua geografia. “Lá era complicado, mas aqui tá dando tudo certo. Também trabalho à tarde e, nos fins de semana, levo o carrinho pra frente da Igreja Universal”.

Um bom rapaz, o Tatá. Me contou que numa manhã porreta vende de 15 a 20 pãezinhos e umas dez tapiocas, cada uma custando um real. Agradeci sua atenção e me despedi, ainda desconfiado do olhar faceiro do anjinho nas alturas. Revigorado, fui caminhando em direção ao cemitério São João Batista, tentando lembrar da última vez que havia visitado aquele lugar e apertando os olhos para enxergar através do sol que começava a parecer rude.

José Miranda vai ao São João Batista para bater papo.

No corredor que dava acesso à capela do cemitério, uma dúzia de homens e mulheres conversava enquanto esperava ordens para as atividades do dia. O desembaraço deles me tranquilizou, minha desconfiança já era serenidade. Esperei uma oportunidade para entrar na conversa e perguntei sobre o trabalho que realizavam. Quem me respondeu foi Francisco Gonçalves, serviços gerais no local há cinco anos. “Eu pego na enxada e no ciscador, mas também sou coveiro, condutor e da limpeza. Todo dia uma coisa diferente”. E como são as segundas por aqui? “Animadas, é quando vem mais gente pra rezar. A gente faz uns oito enterros por dia”. Em algum nível inconsciente, percebi uma inflexão estranha em seu sotaque. E de onde você é mesmo? “De Patos, na Paraíba”. Encontrei um conterrâneo.

Falamos sobre nossa terra — veja que você não é única em minha vida — e sobre as lápides mais antigas do cemitério. Pedi licença para passear entre elas. Encontrei Jereissatis e Silvas, Gomes e Nogueiras, Sales e Teófilos. Santanas também, talvez algum parente que se perdeu de minha árvore. Quando tentava decifrar as inscrições de um túmulo, um senhor acenou para mim. Me sentei ao seu lado. José Miranda, pedreiro, solteiro, pai de três filhos. Caucaiense de nascimento, Fortalezense por opção.

“Venho de Caucaia toda manhã pra fazer algumas reformas nos túmulos”. E hoje o senhor tem muito trabalho pra fazer? “Nada, hoje eu vim só pra bater papo mesmo”. E batemos nosso papo naquele cenário de descanso eterno, com gatos que se esfregavam em nossas pernas e passarinhos que cantavam em desalinho. Então o senhor gosta daqui? “Gosto, é tranquilo. Mas se morrer um vizinho meu, eu não tenho coragem nem de chegar perto”.

Quis saber dessa bravura com reservas de seu Miranda, dessa valentia pela metade do homem que disse já ter dormido uma noite inteira em cima de um dos túmulos. “Ah, tem gente boa e ruim nesse mundo. Com os mortos é a mesma coisa”. O senhor quer ser enterrado aqui quando chegar sua hora? “Se pudesse ser aqui seria muito bom. Alguns amigos meus estão aqui. Às vezes cruzo com eles por acaso. Todos nós estamos na fila, né?”

Né. É isso mesmo, seu Miranda. Estamos todos na mesma fila. Sorrio em concordância. Ele também me mostra os dentes. Opa, espera aí! Pode sorrir outra vez? Mas esses aí são dentes de ouro?! Todos dentes de ouro?! “É, pra você ver. Tudo conservado e limpinho. O pessoal aqui até brinca que eu arranco os dentes dos mortos e coloco na minha boca.” Posso ver de novo? “Pode”. A boca de seu Miranda é só luz e brilho.

Comecei a te ver com outros olhos...

Quem diria que seria possível? Nesses 13 anos de relação, a montanha-russa de nossas emoções nunca havia sido tão intensa. Acordei decidido a dissolver nosso caso e, maior das ironias, um cemitério me fez mudar de ideia. Quando me despedi dos companheiros de conversa, o São João Batista já começava a borbulhar de visitantes. Com as portas abertas, a capela abrigava três ou quatro pessoas envolvidas em orações matinais.

Na calçada, olhei ao redor para decidir que rumo tomar. Meu celular disparou no bolso, me alertando para o compromisso das nove e meia da manhã. Ignorei. Uma chuva fina começava a cair. Depois da displicência dos últimos dias, você parecia disposta a me agradar. Sabe o quanto me afaga essa chuva que não molha. Seguindo o fluxo dos carros e ônibus que já cortavam as ruas, assumi a direção da Praça do Ferreira.

Sempre gostei dos aromas químicos que escapam pelas portas das lojas de produtos de beleza. Quando cruzava uma delas, dei de cara com alguém cheio de sacolas. “Comprei shampoo, condicionador, cremes e agulhas de sobrancelhas”, me contou a cabeleireira, maquiadora, depiladora, designer de sobrancelhas e micropigmentadora Natália Souza. “Gastei quase 250!”.

Me contou que trabalhava de terça a domingo e às segundas ia até o Centro comprar os produtos da semana. Tem 29 anos e se dedica à beleza dos outros há quase uma década. Cinco anos atrás, começou a endireitar sobrancelhas. Há alguns meses, fez um curso de micropigmentação, investindo parte do que havia economizado para abrir o próprio espaço. “Estou construindo um salão de beleza no Edson Queiroz, mas já queria ir pra lá com esse conhecimento. No mundo da micropigmentação, se você dormir, já era”.

Passeamos pelo Centro e, quando a fome apertou, me convidou para sua casa. Subimos em em um ônibus que fazia a linha até o Passaré, onde Natália vive com a família. Além do salão de beleza, suas economias serão aplicadas quando finalmente se mudar com o noivo de mais de dez anos. “Só vou pra lá casada!”. O que a move é uma equação engenhosa: “conhecimento mais investimento mais bons produtos dão como resultado um bom serviço”.

Se você me permite, quero aproveitar estas linhas para recomendar seus préstimos — apesar de não ter me animado a testá-los. A micropigmentação de sobrancelhas sai por R$ 410. Precinho de à vista, R$ 350. “Não tiro um real. Se não me valorizar, ninguém me valoriza, viu?”. Descobrimos uma amiga em comum, uma colega fotógrafa que depois me elogiou os serviços de Natália. Dupla recomendação. E ela atende em domicílio, não esqueça. Sai por aí em sua moto, destemida, e chega a tua casa antes que você soletre “segunda-feira”.
Falando nisso, é nas segundas que descansa. “Descansa”. Assim, entre aspas. Depois de fazer as compras e pagar contas no Centro, volta para casa e gasta a tarde estirada no sofá, respondendo mensagens atrasadas de WhatsApp.

Também coloca roupa para lavar. Limpa os armários. Cuida de sua página no Facebook. Faz um ou dois cursos no Sebrae. “Me canso mais na folga, você acredita?”. Acredito, Natália.

Pensei em te chamar para um encontro à beira-mar...

Não estranhe meu convite. Sei que soa incongruente depois de tantas linhas censurando seu comportamento dos últimos dias. Quando ler essa carta, minha fúria já terá se dissipado. Pode confiar. Mas atenção, isso não é um pedido de desculpas! É mais um “vamos dar outra chance ao nosso amor”. E aí? Aceita?

Enquanto você decide, termino de narrar meu dia. Me despedi de Natália e, antes de voltar para casa, decidi passar outra vez pelo lugar onde havia começado minha madrugada. Talvez ainda encontrasse algum dos pescadores. Talvez Dudu ainda estivesse de pé, prova cabal de que o homem é mais forte que a cachaça. Puxaria uma cadeira, meteria os pés na areia e tomaria sem reclamar outra xícara de café de dona Zuleide.

Tomei um táxi até o Mercado dos Peixes e saltei para o calçadão, atento para desviar dos esportistas de fim de tarde, que em nada pareciam com os das três e meia da manhã. Fui até a academia ao ar livre do Parque Bisão e cumprimentei três amigas que se exercitavam nos equipamentos. “A gente vem caminhando do Serviluz toda tarde. Uma hora e meia pra vir e a mesma coisa pra voltar. E passamos meia horinha aqui na academia”, me explicou a dona de casa Sônia Carvalho.

Estava com as vizinhas, Rejane Rodrigues e Edvânia de Lima, que me contou que perdeu oito quilos e resolveu problemas de reumatismo desde que começou a caminhar diariamente, há três anos. No fim de semana também?, pergunto a Sônia. “Não, fim de semana é pra tomar cerveja. No domingo vou pra missa de manhã e já deixo a cerveja em casa gelando”. E no dia seguinte o pique pro exercício já voltou? “As pessoas é que são preguiçosas, mas eu quero ficar uma velha com saúde”.

É perto das cinco quando se despedem e tomam o rumo de casa. A caminhada está só na metade. Volto ao calçadão da Beira Mar e vejo uma movimentação adiante. Me aproximo, abrindo espaço entre uma dezena de curiosos aglomerados ao redor de alguma coisa. Sentados em banquinhos improvisados, dois senhores disputam uma partida de damas enquanto conversam sobre as façanhas esportivas do Fortaleza e Ceará. O público comenta os lances, um deles diz que faria melhor.

Como eu faço pra participar? “É só esperar, aqui não tem lista de inscrição”, me responde, “mas cuidado, aqui é como a liga dos campeões, só tem craque”. Não me reconhecendo como tal, abandono minha vontade e reforço a atenção às peças brancas e verdes que vão de um lado ao outro. Um dos jogadores não para de olhar para o relógio enquanto o oponente calcula as próximas ações. “Eu joguei bem certinho pra não perder pra ele. Vou ganhar em cima do erro”, me diz em um sussurro.

Cumprimento os jogadores e decido voltar para casa. Penso em comprar camarões para o jantar. Quem sabe te convidar para uma noite de reconciliação? Começo a formular mentalmente as linhas desta carta, penso em como dizer que te desculpei sem soar condescendente. Nossa relação não é fácil. Olho para trás e, mais uma vez, observo os jogadores. Percebo que o tabuleiro está suspenso sobre seus joelhos, balançando sem equilíbrio. Meio troncho, igual ao nosso amor.

 

Sobre o prazer de ser também

Por mais que eu puxe pela memória, não consigo voltar ao meu 6 de fevereiro de 1981. Queria tanto reencontrar a primeira troca de olhares com minha mãe. Queria também ver a cara de espanto do meu irmão, filho único, até ali, por sete anos. Dizem que chovia forte naquela manhã em Várzea Alegre. Tudo isso me pertence, mas eu não lembro. Felizmente, nasci uma segunda vez. Dessa, eu tenho lembrança viva. Nem preciso fechar os olhos para viver novamente aquele 20 de janeiro de 1994.

Eu sou um fortalezense enxertado. Minha raiz, bem verdade, é de outro lugar, distante, mas vim crescer aqui. Como já havia acontecido com meu pai, que chegou na capital aos dez anos, a mudança tinha um roteiro previamente calculado, mas a vida não é muito afeita a planos. Ela gosta mais de poesia que de matemática. A ideia era vir para Fortaleza para estudar. Vá lá que até fizemos isso boa parte do tempo, mas acabamos na maior parte dele por nos reinventar.

Cada novo morador que a Cidade abraça é transformado por ela e também a transforma. Meu pai, por exemplo, seria outro sem o Bairro de Fátima que viu se formar, sem o Leão no PV, sem o colégio Marista. Tudo isso, certamente, sem ele, também seria outro. Fortaleza permitiu a meu pai, a mim e a tantos outros começar de novo. Eu não sei quão difícil foi aprender a andar, mas sei bem como é difícil não saber andar. A sensação de estar perdido, imóvel, na cidade grande é única. Não ter ideia, por exemplo, da diferença entre a Guilherme Rocha e a General Sampaio é algo extraordinário. Mais fantástico ainda é descobrir depois que elas se cruzam.

Fosse a vida o correr de uma semana, Fortaleza, para mim, teria o frescor de uma segunda. Justiça seja feita, é aí, e, não, no domingo, o dia da primeira feira, como diz a tradição, que tudo efetivamente começa. A segunda não reserva descanso a ninguém. É quando a vida pede coragem para seguir como se deve. É quando somos tomados de uma urgência para fazer, a tempo e a hora, o que tem de ser feito. Nessa segunda-feira, nessa segunda casa, eu me vi pela primeira vez diante da oportunidade de escolher e decidir.

Eu escolhi e decidi, entre tantas coisas, me relacionar com essa nova cidade que o destino me conduziu com a exata frequência que eu me relacionava e me relaciono com a cidade de onde ele, o destino, me trouxe.Eu sempre rejeitei a tese de que Fortaleza é uma terra de ninguém, que é um amontoado de gente sem apego e sem identificação, que nada aqui consegue perdurar porque a população é toda forasteira. Eu sou o avesso disso. Eu tenho prazer maior do mundo em ser também de Fortaleza.

Eu sou de dois lugares. Eu tenho dois sotaques. Olha que felicidade! E o melhor é que esse privilégio não é só meu. Dos tantos amores que vivi aqui, não me faltam exemplos de pessoas que se fizeram de Fortaleza e, com isso, acabaram por ajudar a Fortaleza ser o que é. É um Gilmar de Carvalho que nasce em Sobral, um Marcelo Costa que nasce em Redenção, um Ronaldinho Salgado que nasce no Crato. A lista é longa, variada, e serve como prova de que, certas vezes, uma segunda oportunidade, uma segunda experiência, pode ser intensa e inaugural.

Magela Lima
Jornalista e professor do Centro Universitário 7 de Setembro

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Fortaleza 291 Anos - Segunda

Histórias da Cidade no dia que é o despertar para a semana