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Editorial

Na Cidade que gosta de festa e felicidade em qualquer dia, há uma data que se sobressai e convida à celebração.

O calendário diz: hoje é o aniversário de Fortaleza, é o dia oficializado como de nascimento desta que é uma cidade abraçada por água (doce e salgada) e mangue. Deste abraço nascemos nós, feitos de rio, sal, calor e história, prontos para sermos o que a Cidade pedir.

Em uma relação que transita entre um bem-querer insano e uma repulsa cruel, amamos Fortaleza. É nas entranhas dela que, em quintas-feiras como hoje, mergulhamos as mãos para de lá tirar o que é alimento e símbolo. E no encontro com os caranguejos na lama sentimos mais ainda: somos Fortaleza. Este é um dos encontros que os repórteres Camila de Almeida, Demitri Túlio e Aurélio Alves apresentam hoje. No espaço que é origem, o rio Ceará, encontraram histórias de resistência, paixão pela terra, vida de coragem. Navegando e andando no mangue, chegaram a uma Fortaleza para a qual tantas vezes Fortaleza vira a cara, mas que sabe se mostrar força. A Barra do Ceará é uma cidade todinha para ser navegada

Uma quinta na lama e no belo

Uma Cidade a ser redescoberta. Para além da Aldeota e do Benfica... Para além dos 400 e tantos anos ou 291 aniversários de uma polêmica meio besta e a carência de uma Ilíada eurocêntrica à beira do Atlântico... Numa quinta-feira, fomos para um dos princípios de Fortaleza: a Barra do Ceará e o rio que insiste com o mar e a Capital. Subindo e descendo na maré dos caranguejos uçás (quase na extinção) e de gente que se enfiou na lama porque, talvez, precisasse de um “defeso” pra não se exterminar tão jovem ou criança na miséria do mangue exuberante.

Mas a Barra é um espanto de susto do que há de mais belo por essas histórias do litoral brasileiro. Igualmente invadida como foi lá no Mucuripe pelos bárbaros do Velho Mundo. Bárbaros eram eles, não os índios até hoje...

Quinta-feira, 7 da manhã, há algumas semanas. Dia de chuva e sol. Moacir Laurentino, 60, e Maurício Cardoso, 56, tripulantes do barco Alberto, avisam que podemos subir a bordo para conhecer outra Cidade. A partida é do atracadouro, entre a ponte José Martins Rodrigues e o persistente restaurante Albertu’s. Um estabelecimento de vender peixada na água grande, cavala frita no tomate e na cebola e aguardente, desde 1964. Um bar contemporâneo do pioneiro restaurante do Totó — proprietário das canoas de atravessar para o outro lado da Barra entre os anos 1970, 1980 e 1990. Seu Totó já se foi.

Francisco Alberto, 57 anos, é o dono da chalana que leva até 30 pessoas no passeio pelo mangue. Filho do finado Alberto de Souza, outro desbravador que descobriu a Barra e nunca mais voltou pra serra de Pacoti, no Maciço de Baturité.
Alberto, o filho primeiro e herdeiro do restaurante e do barco, veio menino com Alberto de Souza, a mãe Maria Lopes e os irmãos. Virou cidadão importante da beira da praia e se engraçou por Marisa Maia, de uma família de pai e mãe com pelo menos 90 anos de história na Barra.

Então se casaram, tiveram filhos e viram o bairro atravessar a vida em uma Fortaleza que nunca para de se reconstruir. O pai dela também, Raimundo Maia da Silva, fez parte de um capítulo dos enredos dali.

Era conhecido por Raimundo da Panair, porque foi funcionário do Hidroporto Panair e Condor. Motivo de status e ilusão de progresso para a Barra. Naquelas águas desciam e subiam hidroaviões Junkers com as novidades dos 1929 a 1943. Mal chegadas aqui e matutamente cortejadas.

Foi assim com ministro do trabalho de Getúlio Vargas, Valdemar Falcão. Uma mobilização na beira da água salgada que, para um desavisado, poderia prenunciar Jesus andando sobre o mar da Barra ou uma nova invasão portuguesa. Adoramos recepções bajulantes para “autoridades”. O POVO registrou em 26/2/1928.

Quando “o possante hidroavião Marimba pousou nas águas do rio Ceará”, o desembarque do ministro do Trabalho e “sua ilustre comitiva foi debaixo de efusivas palmas e ao som do hino do Ceará”. Dali, foi em automóvel escoltado por um piquete da cavalaria e um corso de mais de cem carros até o Palácio da Interventoria, no Centro. Lugar dos nobres da aldeia. Eram os acontecimentos do “aeroporto” que Fortaleza tinha. De alemães também — uma coincidência entre notícias cruzadas sobre a privatização, no passado e agora.

Alberto, meio Pero Vaz da maré cheia, avista e aponta o lugar onde foi o hidroporto. “Era ali. Ainda há um galpão, pela rua Radialista José Lima Verde, que virou estaleiro”.

Raimundo da Panair foi trazido, ainda moço, à praia pra ser ajudante do mecânico e piloto Enoch Arrais Sobrinho. E depois, lá pelos 1943, quando o Governo do Ceará decidiu acabar com o empreendimento mais futurista do Estado, na Barra, ele foi trabalhar nas salinas de seu Miro — outro “bandeirante” do bairro.

O “sal” é outro capítulo desse lugar invadido por portugueses e outros europeus com vocação para grilagem histórica do território índio desta América. Também ali, na Barra do Ceará, o “tempero” foi moeda forte. Sinal de prosperidade para algumas famílias da burguesia provinciana e para a balança comercial do Estado, que engatinhava.

O Ceará e o Rio Grande do Norte disputavam a exportação do sal, pelo menos, desde 1928. Com vantagem potiguar, por causa da estrutura de seus pequenos portos. O POVO é prova dessa narrativa. Num editorial, cobrava modernidade para o transporte do “producto” da Barra do Ceará e das ribeiras do Cocó. “...A Barra do Ceará, abandonada pelo governo, nunca foi dragada para permitir o acesso de navios ao seu belíssimo ancoradouro. A producção de sal das várzeas do Cocó é transportada de jumento...”, reclamava o jornal em 7/11/1928.

Governadores e prefeitos, comenta Alberto enquanto o mangue e o rio pegam pareia com o barco, meio que se fizeram de moucos para os ventos daquela bela beira-mar.

Enquanto serviu de lugar de veraneio para prefeitos, governadores e empresários, até se ensaiou uma requalificação do espaço público que também beneficiaria a Cidade “desimportante”... pescadores, barqueiros, comerciantes, empreendedores sem influência política e turistas. Mas não...

...Evandro Aires de Moura, Lúcio Alcântara, Virgílio Távora, Beni Veras, Gonzaga Mota, Maria José, José Rêgo Filho, Coronel Carvalho e tantos “importantes” moraram ou tiveram casa de praia na Barra do Ceará. Alguns até grandes extensões de terras...

“Mas sabe quem dragou o rio? Isso depois das salinas terem sido derrotadas?”, me pergunta Alberto. Foi a Associação dos Barqueiros e Barraqueiros da Barra do Ceará. O POVO de uma quinta-feira (28/10/1999) é testemunha do efêmero proativismo cidadão. Em vez de esperar pelas promessas, encomendaram o desassoreamento de 50 metros na margem direita do rio, paralelo à avenida que leva o nome do pai dos radialistas Narcélio e Paulo Lima Verde. Um paliativo diante de anos da insustentabilidade urbana e quando vêm as inundações por causa da combinação entre maré, lua e a quadra chuvosa.

Mas a Barra do Ceará, esse espanto de Cidade natural exuberante — mexida pelas incontáveis travessias e ocupações volantes durante as invasões e até aqui — tem mais autoestima do que o carimbo, no contemporâneo, de lugar violento e rastro dos lupanares à beira-mar.

Posso dizer que numa quinta-feira de 2017 ainda catei conchas belas de um lado e do outro das margens do rio Ceará, hoje, pouco atravessado pelas canoas que ainda restam. É outro lugar, com uma ponte enorme estirada de rio a rio, mas do mesmo susto de se reencontrar com o fascinante de ser bem aqui. Tão perto. Na mesma Cidade, além da Aldeota e do Guararapes. O espanto com ruínas cheias de histórias pouco ouvidas; com a conversa sobre os desbravadores dos cotidianos dali; com a potência e a possibilidade de um Cuca; com uma beira-mar tão deslumbrante quanto a “dos ricos”. E com a própria lama do mangue que ainda peleja com a vida...

Sendo aniversário de Fortaleza ou não, numa quinta ou qualquer dia, a Barra do Ceará é um dos caminhos possíveis pra encontrar a Cidade.

Seguimos no barco até o Recanto do Mangue e a lida de Lúcia Marques...

Uma outra consciência

O desenho avermelhado de um pitu gigante na parede do bar de Lúcia Marques, 54, apresenta as especialidades da beira do mangue no rio Ceará: “Temos tainha, piaba, saúna, cará, batatinha, bolinha de peixe...”. A construção comprida, hoje de alvenaria, também esquadrinha um espaço onde dorme, no manguezal, a família de Lúcia.

O Recanto do Mangue, na Comunidade do Guaê, é uma das paradas do barco que nos leva pela extensão da barra do rio Ceará até o território indígena dos Tapebas, em Caucaia. “Sou tremembé”, me diz no início da conversa a filha do município de Acaraú.

Lúcia Marques, que não tem no nome social a etnia, conta que a ida para o mangue se deu há 17 anos e não foi fácil. Quando resolveu morar na beira do rio Ceará, com seis filhas e dois meninos, se valeu da madeira do mangue para construir a primeira moradia na lama. “Lutei com a maré”.

E foi. Rio e mar, num movimento natural no manguezal, subiram e derrubaram a primeira barraca de taipa da corajosa Lúcia. “No começo foi um tiro no pé. Vendi minha casa lá em cima (Iparana) porque queria construir um porto de apoio para pescadores e quem aparecesse de Fortaleza pelo rio”, conta.

O pequeno porto está lá e é tocado por Lúcia e seu companheiro, Leonardo Carmo, 37. Na quinta-feira que fomos, mais de uma dezena de canoas balançavam amarradas em estacas na maré vazante. “Eu não quero tirar mais nem um pé de pau do mangue. A impressão é que o mar está crescendo pra Cidade”, observa ela.

Na mesma parede onde está desenhado o pitu gigante e algumas delícias do mangue, também está escrito em letras grandes: “Área de proteção ambiental e sustentabilidade”. Lúcia mandou pintar, pelo menos como alerta. Ali moram mais menos 200 famílias e há garrafas pet e sapatos entre as raízes do manguezal.

Na próxima parada, uma descida na lama dos caranguejos para mostrar por que no “defeso” é desalinho atrapalhar o fenômeno da “andada” de fêmeas e machos entre as luas novas e cheias. É tempo em que o mangue se reproduz...

O dia do caranguejo: "Defeso" e "Andada"

Guaê é um porto de canoas — uma fotografia de um filme cabeça — na “divisa” entre a Barra do Ceará, em Fortaleza, e Caucaia. É na extensão do rio onde se misturam os caranguejos uçás, os aratus das patas vermelhas e os anões das garras desproporcionais – os mão nos ói ou chama maré. São os mesmos identificados pelos marisqueiros por siris-patola. Aqueles que num ritual coletivo, talvez de paquera, abrem e fecham a guarda para mostrar quem é mais proeminente no tamanho da pinça. Não me canso de ser voyeur no mangue do outro lado, na extrema de Fortaleza. Um universo paralelo fora de qualquer rotina.

No outro lado da barra do rio Ceará é tempo do “defeso” do caranguejo uçá (Ucides cordatus). Por ordem do Ministério da Agricultura, Pesca e Abastecimento (Mapa) não se cata o animal na lama nem se comercializa o que não for de estoque previamente declarado. Até o último dia 2, nos nove estados do Nordeste e no Pará estava proibido atrapalhar a reprodução da espécie que já foi abundante nos mangues daqui. “Tinha mais, muito mais”. Conta-me Francisco Teixeira, 60, ou Chico Pedro. Um senhor negro, de marra e uma peixeira no cós quando se abaixa para meter o braço no lamaçal. Desde os 12 anos, que se recorda, vem buscar o que comer no mangue entre Fortaleza e Caucaia.

“Tá vendo? As fêmeas são menores que os machos e ficam ovadas, ninguém pode pegar elas (nem os machos com carapaça menor de 6 cm)”. Mostra, diz e solta o bicho, que vai se atolando novamente. “Antes ia tudo, do jeito que a gente pegasse. Ficou ruim e não se recuperou mais”, lamenta.

Seu Chico Pedro é meio o retrato de quem nasceu por ali ou que ocuparam o mangue dos caranguejos. Porque não tinham pra onde ir e foram se juntando na pobreza da Comunidade do Guaê, em casas na taipa e em pé na madeira cortada da Área de Proteção Ambiental (APA) do rio Ceará.

Há um plano de manejo da APA, de 2006, que carece de atualização e aplicação de saídas sustentáveis. O secretário Artur Bruno, do Meio Ambiente no Ceará (Sema), reconhece a defasagem das políticas públicas e a consequente degradação ambiental para gente e caranguejos.

Conforme informações do site da Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), a ação antrópica, por causa da incontrolável ocupação urbana “com sérios problemas de infraestrutura e a falta de saneamento básico”, sufoca as margens do rio Ceará e das dunas. “Barracas para vendas de bebidas e alimentos, estaleiros e construções diversas, além de desmatamento, de queimadas no mangue e pesca predatória”.

Ainda dá tempo favorecer o mangue e as pessoas. Reverter o estrago onde há abundância. A começar pela inclusão da APA do rio Ceará no Grupo de Trabalho de Florestamento e Reflorestamento. E de se colocar em prática atalhos para convivência sustentável das comunidades vulneráveis da barra do estuário. De um lado e outro. Não é fácil. Pior é não ter perspectiva... Pelo bem do período da “andada” das fêmeas e machos caranguejos. Bonito esse nome, “andada”, pra dizer que irão nascer mais. Quando os bichos deixam as galerias no lamaçal, no intervalo entre as luas cheias e nova, para continuar o mundo.

O barco está indo e vamos entrar na lama...

A devoração dos mangues do uçá

Em Fortaleza, dos mangues do rio Ceará, Cocó, Pacoti e Sabiagauba, já não saem mais caranguejos uçás (Ucides cordatus) em grande escala comercial, para os rituais de comilanças da quinta-feira. Nem a Praia do Futuro nem os bares e restaurantes têm o animal como prato do dia e dia na Cidade.

Os caranguejos daqui são mais para subsistência de quem vive do mangue e o comércio de pequenas barracas à beira dos manguezais. Animais geralmente menores do que os trazidos de outros estados.

A devoração de anos do habitat do caranguejo uçá colocou a espécie em ameaça de extinção em Fortaleza. Um estado de conservação que levou à necessidade urgente do “defeso”. Para reequilibrar a relação entre o consumo e a chance de reprodução da espécie nos lamaçais do mangue. Este ano, foi proibido catar caranguejo entre 28/1 e 2/2; 11/2 e 16/1; 27/2 e 4/3; 13/3 e 18/3 e entre 28/3 e 2/4.

Miller Holanda Câmara, coordenador de fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama) no Ceará, não tem números. Mas afirma que a maior parte do uçá consumido aqui vem do Piauí, Maranhão e Pará. Por conta de irregularidades no transporte e no defeso, foram apreendidos 5 mil caranguejos este ano e aplicada uma multa de R$ 14,7 mil. Vinham do Piauí para a Praia do Futuro. Miller não revelou quem os trazia. A maior parte estava viva e foi solta no mangue do rio Pacoti.

QUINTA-FEIRA EM FORTALEZA PELO RIO CEARÁ

Percorrer o rio Ceará é conhecer paisagens e pessoas que são resistência e fazem parte da origem da Cidade.

Clique nos números no mapa para obter mais informações.

Mapa

Restaurante Albertu's

O ponto de partida é o restaurante Albertus, na avenida Radialista José Lima Verde, 746. Um dos mais antigos da beira do local, nasceu de uma barraca de praia, em 1964, criado por Alberto de Souza. Ele migrou da serra do Pacoti para as dunas da Barra. Após falecer, virou nome da praça que fica vizinha ao restaurante - hoje tocado pelo filho, Francisco Alberto

Porto de Canoas ou Pier da Barra

É de onde saem os oito barcos de passeio da Associação dos Proprietários de Barcos da Barra do Ceará. Foi construído em 1997, quando também ergueram a ponte que liga Fortaleza a Caucaia. Ali, nas décadas de 1970 e 1980, pelo menos 60 canoeiros faziam a travessia de um lado para o outro da praia. Com a ponte, a atividade perdeu força e quase foi extinta

Ponte da Barra do Ceará

Construída pelos prefeitos Antônio Cambraia e Juraci Magalhães, a ponte José Martins Rodrigues foi inaugurada em 11/10/1997. Encurtou distâncias entre Fortaleza e Caucaia e virou cartão postal. O equipamento, que mede 633,75 m, foi erguido com a promessa de reurbanização do entorno. Mas a Barra pouco se beneficiou. Nem a cobrança do pedágio, extinto em 2013 por Roberto Cláudio, trouxe melhorias

A casa das Irmãs Filhas de Santana

Instalada há 34 anos no outro lado da "Barra" do rio Ceará (Caucaia), virou ponto de trabalho social contra a miséria. Parte do mangue foi ocupada e virou a favela do Parque Leblon II

Embarcações

Embarcações em construção e carcaças de barcos formam uma bela imagem na maré seca ou cheia. São dos estaleiros do Vicente, Corenav e Brasil Mar, que são vizinhos na margem pelo rio que fica do lado de Fortaleza

As ruínas do hidroporto da Panair & Condor

Companhia de aviação alemã. As ruínas estão na margem do rio Ceará que fica para Fortaleza - logo após a ponte. De 1930 a 1940, os hidroaviões pousavam e decolavam no rio Ceará, quando não existia aeroporto em Fortaleza

Ruínas da Salina Casimiro Filho

Fortaleza já comeu sal produzido somente aqui. As ruínas da Salina do Casimiro Filho Indústria e Comércio são rastos dessa história. Estão na margem do rio Ceará que fica para a avenida Radialista José Lima Verde

Ruínas da Salina da Margarida

As ruínas da Salina da Margarida ou do Adriano Martins, que ficam para o lado de Caucaia, também são apontadas como marco econômico da antiga Barra do Ceará

Croa dos Búzios

Lugar onde os barqueiros param para os visitantes tomarem um banho nas águas do mangue do rio Ceará

Porto de Canoas dos Nativos do Guaê

Comunidade pequena onde alguns se reconhecem indígenas, como dona Lúcia Tremembé. A comunidade, pobre, vive da pesca e do mangue

Ler o mangue e outros mundos

A ex-casa de repouso das freiras do Colégio Rosa Gattorno fica do outro lado da Barra do Ceará. Na descida da ponte, à esquerda, no número 505 da rua Felipe Fernandes Neto, no Parque Leblon I. Se for pelo mar e rio é uma diagonal traçada do ancoradouro do restaurante Albertu’s e que vai bater no alpendre e jardim (de jasmins) da habitação simples da Congregação Filhas de Santana. A maré estava seca, numa outra quinta-feira de visita, e a travessia foi pela ponte.

Ali, há 34 anos, um povoado de pescadores, marisqueiras e apanhadores de sal desenhava o lugar de fim de semana e férias para as irmãs de caridade Paulina Cavalcante, 75, e Franssinetti Fernandes, 70. São duas precursoras na lida com o povo da praia e, hoje, com uma favela que se enfiou no mangue do rio Ceará e se batizou, nas águas salobras e na lama dos caranguejos, de Parque Leblon II.

Uma tentativa de exorcizar o estigma de lugar do tráfico de drogas e de violência. Nos começos, pelos anos 1980, quando as freiras vinham à Barra para aquietar o juízo, descobriram que havia outra missão além da coordenação e administração do colégio Rosa Gattorno em Fortaleza. Foi quando, se balançado em redes no alpendre, perceberam o entra e sai de crianças e, nas conversas, a constatação de que não sabiam ler ou escrever. Nem os pais. Abundantes do mar e do estuário do rio, mas sem escola e serviços básicos. A violência urbana ainda esquadrinhava o território.

Como a antiga colônia de peixeiros se formou no limite entre Fortaleza e Caucaia, a história social da comunidade foi marcada (ainda é) pela invisibilidade ou quase indiferença do poder público. Mesmo com a construção da ponte, em 1997, e a promessa vã de urbanização sustentável de uma margem a outra.

Com os moradores, em regime de mutirão e doações, a congregação fundou a creche Padre Tornatore (1983). Inicialmente para 120 crianças. E, como o governo não enxergava o povo daquele mar, até os livros para alfabetização foram feitos por professoras voluntárias que vinham das salas de aula do Rosa Gattorno.

O método Paulo Freire virou poesia na realidade do outro lado da Barra. As palavras geradoras de perspectivas encheram o Barquinho Amigo, primeiro livro de alfabetização. Peixe, mar, búzio, canoa, rede, sal, pirão, vela, pescar, caranguejo, mangue... E nomes de personagens (reais) da beira da praia.

Peço para ver o livro. Terezinha Silveira, uma das professoras que fez muita criança e adulto enxergar além do outro lado da Barra, diz que se perdeu com o tempo. Mas muita gente, não.

Com a creche veio a necessidade de um colégio. Demanda das mães das crianças daquela ribeira do Atlântico. Queriam ler outros mundos. Então fundaram, em 1985, a escola São José, até a 4ª série. Um esforço comunitário. “Tinha um dia na semana que o dinheiro arrecadado na cantina do Rosa Gattorno, em Fortaleza, era destinado pra cá”, lembra irmã Paulina.

A irmã Ana Niliane, 30, é uma prova desse esforço do coletivo da praia. Ela, que hoje trabalha ao lado das freiras Paulina e Franssinetti, foi uma das crianças beneficiadas pela creche e escola. “Mas aqui nunca foi só pra católicos, é ecumênico”, pontua a religiosa Niliane.

No outro lado da Barra, de acesso só por canoa, não tinha energia elétrica, não havia água tratada e um botijão de gás era uma dificuldade. Tudo tinha de vir de Fortaleza. A casa de veraneio das freiras foi se transformando em lugar de acolhimento. Uma necessidade puxava uma possibilidade e a mobilização oferecia caminhos. “Quando chegamos, as casas eram palha, taipa e na areia. Os mutirões refizeram a vila”, recorda imã Franssinetti.

E assim foi sendo transformada a vida dali e das freiras da Rosa Gattorno. Depois de um dia de trabalho no colégio em Fortaleza, as duas apanhavam um ônibus no Centro e desciam no calçamento da Barra. E, numa canoa, completavam a travessia.

A construção da ponte sobre o rio Ceará, em 1997, não firmou perspectivas para Barra nem pra Caucaia. Segundo irmã Franssinetti, de um dia para o outro o mangue foi invadido e outra comunidade, o Parque Leblon II, se formou na lama do alagadiço costeiro. Mais miserável e submetida à condição precária de moradia, falta de saneamento e atravessada pelo tráfico de drogas.

Um recomeço para as freiras Paulina e Franssinetti e um aprendizado para Niliane. Hoje, a escola e a creche estão com o poder público. Na casa das religiosas, que não é mais de veraneio, as pastorais; os grupos de crianças, jovens e idosos; a dança, a percussão, o artesanato; as ações para segurança alimentar e um rosário de atividades pulsam.

Pergunto para as irmãs Paulina e Franssinetti (que naquela quinta-feira se recuperava de uma virose), aos 75 e 70 anos, se não cansa lutar contra a maré, de ir e vir no mangue invadido, de ter de enfrentar a maresia... Nem titubeiam em dizer que nunca foi sacrifício. “Nem quando éramos novinhas”, brincam. E de que precisam? De voluntários, de mais gente pra trabalhar naquele na ecossistema de caranguejo e gente.

SERVIÇO

Quem quiser se voluntariar pode ligar para: (85) 98948 8761 e (85) 99998 0950.
Onde: Rua Felipe Fernandes, 505, Parque Leblon I. Do outro lado da Barra do Ceará.

PONTO DE VISTA

Na manhã, a caminho da Barra, ansiedade, câmera preparada e equipamentos checados. À espera da vista, a vontade de uma foto. Na chegada, uma chuva forte e o tempo cinza. Uma tristeza para quem esperava sol. “O tempo não foi bom com a gente”, observou seu Alberto, personagem do bairro e dono do restaurante Albertu’s, com vista pro encontro de rio e mar.

Em meio a conversas sobre história do Ceará, meio ambiente e tempo, me afasto e encontro meia dúzia de pescadores abaixo da ponte. Alguns bebendo, outros descansando e três ancorados esperando o barco ser consertado. Estavam há sete dias no mar e tiveram de voltar para reparar o motor da embarcação. E tome mais conversas sobre a Barra e histórias de linha e pesca. Algumas mirabolantes.

De repente, um sol. Desses de queimar a pele. ‘’É paciência. O mar e o sol só fazem o que querem’’, disse um deles, Pedro. O pescador que contou sobre uma menina, também fotógrafa, que se aventurou no mar com eles. Pediu para ir e passou cinco dias fotografando a pesca. E ainda cozinhava para a homarada.

História de pescador ou não, ficou na cabeça. Tempo aberto, rio adentro, fomos nós. Difícil era tirar o olho da câmera. Tudo lindo. Verde, pássaros, peixes danados. Vez em quando, pulavam e, no susto, seu Alberto alertava: “Olha o peixe!”. Depois do êxtase, baixei a câmera, sentei no barquinho e me pus ali. Só admirar, respirar e nada de fotos por alguns minutos. Foi meu tempo com a Barra.

Camila de Almeida Fotógrafa do O POVO

O efeito cuca

O mito do invasor mais “civilizado” do que o índio daqui e a ilusão da metrópole quase acabaram com as dunas e os manguezais da Barra do Ceará. Não há mais pés de muricis nem salsas da praia. E o caranguejo uçá teima em resistir no alagadiço costeiro engolido pela Cidade que transbordou no estuário invadido pela matéria e a miséria humana...

Estamos voltando do passeio pelo mangue e o barco Alberto, tripulado por Moacir e Maurício, tateia por onde não há banco de areia por causa do assoreamento exagerado na barra do rio Ceará. Se não encalha.

Francisco Alberto protesta na embarcação. Em não sei quantos anos de reivindicação por dias melhores na Barra do Ceará, o que nos mandaram? Ele mesmo responde: mandaram a polícia invadir o histórico morro de Santiago — que virou um favelão — e fincaram uma bandeira do Brasil contra tráfico e o medo. Ele se refere à estratégia de guerra da Secretaria da Segurança Pública do Ceará usada, mês passado, para tentar reocupar a duna que tem um dos mais belos pores do sol de Fortaleza.

Passaram uns dias, distribuíram discursos da “salvação”, retiraram as tropas e foram embora. Só quem fica é que sabe o perrengue de não ser livre no espaço público ou no batente de casa.

Mas digo a Alberto que pelo menos duas iniciativas, vindas do Paço Municipal, propuseram o resgate de alguma dignidade da Barra do Ceará. Uma foi a construção da Vila do Mar, projeto de reurbanização da praia marcada pela vulnerabilidade. A proposta quicou nos governos de Lúcio Alcântara e Cid Gomes, quando ainda se chamava Costa Oeste. Saiu do papel e foi tocado, com méritos, por Luizianne Lins. Roberto Cláudio herdou uma metade por fazer e promete entregar até 2018.

Ter saído da promessa foi um avanço no prejuízo de décadas. E a janela mais digna para ver tangido (ou intimidado) o crime. A outra ocupação, a poucos metros do rio Ceará, é a iniciativa Cuca Barra. Talvez a melhor potência de vida contra estagnação urbana da metrópole que invadiu o mangue.

Veio como política pública de Luizianne Lins, em 2009, e não foi desfeita por Roberto Cláudio. Uma rede lançada, também, no Mondubim e Jangurussu. Na Barra do Ceará, o Cuca é uma grande praça de encontro e convivência. Diz-me Angelique Silva de Abreu, gerente administrativa do equipamento. O lugar não é neutro e pulsa com as diferenças das comunidades que estão reaprendendo, no tempo da insegurança e do tráfico, a se frequentarem a partir do território Cuca. Acesso irrestrito e portões sempre abertos de terça-feira a domingo. Jovens, crianças e adultos...

Cursos, teatro, cinema, dança, direitos humanos, skate, patins, namoro, rock, grafite, bikes, música, paquera, esporte, cidadania, gentileza, galeras, diálogos, festas, pátio, cultura de paz, diversidade de gênero, história, artes marciais, conversas contra preconceitos, ócio, parcerias, reggae, lazer...

O Cuca é o lugar de reaprender a ser acolhido pela Cidade. Também de acolhê-la e retocá-la. No morro, no asfalto, na barra do rio, na favela, no mangue, na maré, na lama dos caranguejos...

Angelique Silva de Abreu é a gerente administrativa do Cuca Barra

Caranguejos no reino de Júpiter

Quinta-feira? É dia de comer caranguejo, claro! Você responderá a qualquer pessoa que perguntar o que lhe vem à cabeça sobre o quinto dia da semana em Fortaleza. Nem sempre foi assim. A tradição começou lá pelo fim dos anos 1990, quando as barracas da Praia do Futuro passaram a oferecer o crustáceo — do reino Animália, da classe malacostraca — para ser estripado, principalmente, pelos turistas, em meio a goladas de cerveja e espiadas no marzão à frente.

Virou febre. E os bichos vendidos numa corda, às pencas, bem vivos até serem mergulhados em água fervente ou numa mistura temperada com leite de coco, praticamente deram o tom da quinta. Quinta-feira caminha, desde esse tempo, de lado. E não só na praia, onde fortalezenses e visitantes aprendem a chupar patas, a desossar garras quebrando-as com uma machadinha improvisada, e a descarnar a parte inferior da cabeça do crustáceo em busca de merrecas da carninha mole, deliciosa, que se esconde naquela pequena anatomia.

A técnica é tão exigente que não ficaria mal olhar alguns tutoriais no YouTube sobre como “apreciar” a coisa — e não fazer feio. Porque o quadro não é bonito. Fico curiosa de saber como Georges Duby e Norbert Elias anotariam essa prática na vida do homem contemporâneo, caso se debruçassem sobre ela.

O fato é que a carne de carangueiro invadiu o cardápio de meio mundo de restaurantes da cidade: caldo de caranguejo, torta de caranguejo, arroz de caranguejo, caranguejo ensopado, pastel de caranguejo. E a fina flor da tradicional casquinha de caranguejo que pode ser servida de forma muito requintada. Amanheceu quinta, é dia de trabalhar para o extermínio do mais famoso habitante do reino da Animália. Na luta de classes entre os humanos e os da malacostraca, os últimos estão em ampla desvantagem.

Mas não é apenas de caranguejo que se vive as quintas. No reino da bruxaria, quinta-feira é dia de Júpiter. Sim, o planeta gigante do nosso sistema solar, com espaço suficiente para acomodar cerca de 1 mil planetinhas do tamanho da Terra. Mas disso a população de Júpiter nem desconfia. Imagine se eles descobrem o interesse dos terráqueos pela sua grandeza, a ponto de lhes oferecer um dia da semana. Nesse dia, as cores ideais para se vestir são o azul e o roxo, embora Júpiter ostente um cinturão vermelho em torno de si.

Esse namoro entre a quinta-feira e Júpiter começou há séculos, quando os romanos decidiram dar nomes às manhãs e alinharam cada dia da semana a um planeta, de acordo com o sistema astrológico da época, com exceção do domingo, batizado de Dominica (Dia do Senhor). No século V, os ingleses recorreram aos deuses para nomear a semana. Coube à quinta, o deus Thor, aquele que a Marvel transformou num pateta ignorante e musculoso na pele de Chris Hemsworth. Nós seguimos a tradição dos latinos cristãos na nomenclatura dos dias da semana, quando a vida já circulava em torno da feira. Tirando o dia em que Deus descansou e o sábado judaico, todo dia era dia de feira.

Mas engraçado mesmo é como alguns dicionários fornecem o significado de quinta-feira. Na maior cara de pau, o filólogo afirma: “o dia entre a quarta e a sexta-feira”. Este é o fato. Mas há ainda a opção de ser quinta do caranguejo ou quinta de Júpiter.

Regina Ribeiro é jornalista e editora da Fundação Demócrito Rocha (FDR)

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Fortaleza 291 Anos - Quinta

O rio Ceará abraça a Cidade neste dia de aniversário