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Editorial

No intermédio do que se diz período útil está ela. A quarta-feira é e não é. Está entre a folga mais saudosa e a mais desejada. É ainda respiro fundo de realidade: não há mais como fugir da semana posta. Caso o ritmo de vida real não tenha chegado, ainda dá para “pegar no tranco” e cumprir o que a rotina cobra. Se chegou, estamos no meio desta corrida chamada semana. Hoje, pode ser dia de feira na rua, abrindo caminhos para cheiros, texturas e sabores que a Cidade gosta de descobrir e provar. Sem trânsito de carros, com burburinho de gente. Pode ser ainda para percorrer os corredores do mercado São Sebastião e encontrar, ainda na madrugada, negociação-e-venda-e-comida-e-toma-lá-dá-cá. Ou ocupar o escuro antes do amanhecer no entorno da Catedral. Ali, gente de toda a idade compra-vende-vive o organismo mutante e crescente que é a Feira da José Avelino (da Sé, da Madrugada). E, quando o Sol se põe alto, é hora de futebol. Pé no chão (ou na areia), bola, encontro. Histórias destas e de outras quartas-feiras são contadas nas próximas páginas pelas repórteres Camila de Almeida e Eduarda Talicy. É a Fortaleza de quarta-feira.

 

 

Um dia que tem sabor

Por Eduarda Talicy Por Camila de Almeida (imagens)

Quarta acorda cedo, antes do sol. O dia do meio da semana resguarda certa alegria para alguns, certo cansaço para outros. Eis a confusão. Na quarta-feira a gente já “pegou no tranco” e tudo parece mais ou menos estabelecido. Chegamos até aqui, é possível vislumbrar o resultado positivo do projeto da semana — o esporte, a dieta, o novo trabalho, o novo crush — e entender o que fica para outro ciclo. A quarta é essa hibridez, é o meio entre a falta de expectativa e o fervor de desejos vindouros.

Em Fortaleza, logo nas primeiras horas, quando ainda nem se sabe direito do começo do dia, as estradas começam a receber os caminhões de frutas e verduras que chegam ao mercado São Sebastião, no Centro. Às três horas, a negociação entre comerciantes e compradores se inicia. “A caixa de mangas é 35 reais, meu filho, mas pra você eu faço por 30”. Na parte externa da estrutura, no pátio, estabelece-se uma organização caótica que mistura o cheiro bom do melão ao odor do peixe tratado. Caminhões se enfileiram para delimitar o local de exposição e venda das cebolas, tomates, abacaxis, abacates e outros vegetais de encher os olhos dos compradores — a maioria donos de mercantis ou proprietários dos boxes da parte interna do mercado.

“A quarta é o dia da semana mais movimentado aqui porque é quando tem menos coisas na Ceasa (Central de Abastecimento do Ceará S.A, em Maracanaú)”, explica o produtor e comerciante Evandro Sousa, 54. Ele coleciona 35 anos de trabalho no mercado e planta cerca de 15 tipos de frutas e verduras na Ibiapaba.

Por volta das sete da manhã, quando a cidade burocrática acorda, a maioria das vendas já foi realizada. Os movimentos bruscos de empilhamento de caixas de legumes e a altivez da negociação vão dando lugar ao marasmo. É fim de feira do lado de fora, e a sensação se divide entre a vontade de ir embora e as esperanças pelas últimas vendas.

Só que parece final, mas é começo. Do lado de dentro do mercado, os personagens mudam, mas há venda. Com boxes abastecidos, quem vende negocia com o consumidor comum. Para Paulista, vendedor de 66 anos, o segredo para atrair a clientela é manter o produto sempre fresco. “Não tem precisão de viver ruim. Olha esta beleza de tomate”. E, assim, tudo se justifica.

Bairro de Fátima

O comércio da quarta se difere porque ocorre num processo de sedução — no Centro ou a pouco mais de três quilômetros dali, no cruzamento das ruas Carlos Ribeiro e Dom Sebastião Leme, no Bairro de Fátima. Nas ruas, as estruturas de madeira abrigam mercadejo de frutas e verduras e, todas as quartas, seu José Góis, 88, enche a bolsa para abastecer a semana. “Venho aqui há 11 anos e deixo minha esposa lá deitadinha”, diz.

Para o fiscal ambiental Eugênio Oliveira, 32, consumir nas feiras livres é um modo de estimular a agricultura familiar. “É um produto de qualidade e faz com que o homem do campo fique no campo”, pensa.

“É a qualidade que faz a diferença”, garantem os frequentadores das feiras. De certo modo, o comércio da quarta traz as possibilidades peculiares desse dia. É na quarta que se decide seguir o rumo do meio da semana ou atentar-se para as melhores formas de driblar o curso. É preciso escolher com cuidado. Na feira, escolhe-se após a paquera, processo que se dá primeiro pelos olhos. A todo momento, o cliente é convidado a se debruçar sobre os produtos nas tendas. E pode perceber os muitos jeitos de avaliar o que se leva para casa. E olha, pega, cheira, aperta, come... E leva.

Maria do feijão

“Esta mulher é a mais bonita do mercado”, interrompe um dos passantes enquanto Maria Auxiliadora da Silva, 55, a Maria do Feijão, nos conta do cotidiano de ser uma das únicas figuras femininas a trabalhar na venda de mercadorias no pátio do mercado São Sebastião Dividida entre a entrevista, o atendimento aos clientes e a prosa com os amigos, ela sente que o comércio foi uma das melhores coisas que lhe ocorreram. “Isso aqui é minha vida. Posso pegar caixas e caixas de frutas e verduras pesadas com todo gosto”, e aponta: “É daqui onde tiro meu pão, onde me visto, onde me calço”.

E veste bem. No meio de frutas, verduras e legumes, o que salta aos olhos são os longos cabelos brancos bem cuidados, o salto alto preto e o macacão de estampa animal print. Em Maria tudo orna, mesmo a bolsa tiracolo que carrega para todos os lados dificultando os movimentos; importa muito menos que seja prático: o requisito é ser bonito.

“Quarta-feira é dia de eu me arrumar, estar de unhas feitas, escolher minhas frutas, meu feijão e vir bem bonita para o mercado”. O dia começa meia-noite e meia, quando pega a caminhonete verde-limão de um amigo emprestada e sai da casa onde mora, no bairro Canindezinho, em direção ao trabalho. Às duas, de sorriso a postos e mercadoria preparada e selecionada, ela já está de prontidão aguardando as revendas.

São mais de 30 anos de mercado. No começo, o trabalho era a venda de café e lanche. “Até que um dia veio a ideia”: comprou os primeiros sacos de feijão, ainda para debulhar, e vendeu. “Aí eu gostei, não parei mais, fui comprando mais coisa e foi dando certo”, resume.

Os cinco filhos foram criados pelos corredores da estrutura metálica avermelhada. À época, Maria se dividia entre atentar-se para as vendas e localizar os meninos que se espalhavam pelos pavimentos do local. Na saída da escola, também no Centro, o rumo certo era a espera pelo fim do expediente da mãe. “Criei todos sozinha”, orgulha-se, ostentando o crescimento da prole que lhe trouxe 11 netos para a família.

“Aqui você tem que ter o seu moral. Eu brinco, eu proso, mas, na hora de engrossar mais a voz, eu grito maior que eles”, descreve o convívio com os demais vendedores. Ainda assim, ela conta que o tempo de vida no mercado lhe trouxe confiança e a construção de uma rede de afetos. Enquanto se distrai conversando conosco, os amigos de um lado ajudam a remontar os caixotes de produtos, outro repassa o cliente deixando a recomendação. “Feijão melhor aqui é com a Maria. Veja com ela”.

Para a venda, é preciso olhos atentos e carinhosos. Os vocativos são os instrumentos de conquista — e é o ‘meu amor’ pra lá, a ‘minha linda’ pra cá. “Essa gente daqui é a coisa mais legal”, sente. Das histórias que costurou na linha do tempo de labuta no lugar, a melhor delas é o amor. “Namorei um cara daqui muito tempo, foi a melhor história daqui, mas a gente precisou terminar”. Não lamenta. Guardou consigo o cuidado que ainda tem um pelo outro mesmo diante do rompimento. Diz que é preciso saber ser feliz. Fala como quem ensina.

Os questionamentos das pessoas sobre as vestes sempre escolhidas a dedo para compor as quartas-feiras são respondidos com certa obviedade: “Sempre fui assim. Uso minhas melhores roupas porque trabalho com o povo, e o povo gosta de limpeza. Aqui, um chega e me cheira, outro vem falar comigo... Eu estando fedorenta ninguém vai me dar um cheiro”.

A fluidez com que Auxiliadora vai falando dos dias e dos anos passados esbarram nas marcas que traz no corpo do peso que carrega nos caixotes, da tentativa de melhorar as vendas, das cirurgias pelas quais já foi acometida. De certo modo, todas as coisas compõem a boniteza que remonta em si.

Maria do Feijão é forte porque é leve, porque sorri, porque se permite. Questionada sobre o que gosta de fazer nos dias livres, ela procura a resposta com os olhos num horizonte próximo e encontra. “O que eu gosto mesmo, mesmo é de dormir. É muita luta, a gente precisa descansar”. Respira.

Possibilidade e Afetos do meio da Semana

Os encontros da quarta-feira às vezes são burocráticos, mas também são de conversar, jogar, cantar, errar e acertar.

Clique nos ícones no mapa para obter mais informações.

Mapa

Kant Bar

Para interpretar as canções preferidas, paga-se 5 reais por pessoa. Com ambiente simples, o local também conta com cardápios de músicas nacionais e internacionais. A lotação maior se dá em fim de noite, quando o ânimo quer mais da madrugada

Onde: Avenida Bezerra de Menezes, 268

Funcionamento: De quarta a domingo, a partir das 19 horas

Bolacha Mágica

Com o slogan Sem taxa, sem couvert e sem frescura, o bar e restaurante Bolacha Mágica também elegeu as quartas-feiras para o convite a cantar

Onde: rua Barão do Rio Branco, 2926, Benfica

Karaokê toda quarta-feira, a partir das 20h30min

SEM TAXAS

Telefone: (85) 9 8888.1028

At Home

Nem sempre tem graça acertar. Os desafinados ganham glória todas as quartas-feiras no Bizarrokê do At Home, com direito a cervejas como prêmio.

Onde: rua Canuto de Aguiar, 1424, Varjota

Karaokê toda quarta-feira, a partir das 22 horas

SEM TAXAS

Telefone: (85) 3393.7443

O Gatim

Aqui a cantoria custa 7 reais por mesa. Ao lado do menu servido na churrascaria, o garçom oferece também o cardápio de opções musicais. Quem alcança 100 pontos ganha uma pizza.

Funcionamento: Karaokê de quarta a segunda-feira, a partir das 19 horas.

Onde: Av. Godofredo Maciel, 3778, Maraponga

Telefone: (85) 3298.7665

Área de lazer

Praia do Serviluz

Área de lazer

Praia do Mucuripe

Área de lazer

Praia da Leste-Oeste

Pici

Rua Alagoas com Tenente Lauro

Demócrito Rocha

No cruzamento das ruas Minas Gerais, Sergipe e Rio Grande do Norte

Canindezinho

Av. Jardim Fluminense, entre Av. Osório de Paiva e rua Cônego de Castro

Parque Dois Irmãos

Av. Coletora Norte Sul, s/n

Conjunto Alvorada

Rua José Severiano, S/N %u2013 Edson Queiroz

Parque Rio Branco

Rua Banvar Bezerra com Gal. Gois Monteiro

Mucuripe

Av. dos Jangadeiros, perto do colégio Matias Beck

Bairro de Fátima

Ruas Carlos Ribeiro com Dom Sebastião Leme

Jardim América

Ruas Aquiraz com Costa Mendes

Paupina

Rua Monte Verde, S/N

Dia de futebol

De um lado, o limite são barracas já gastas pela maresia; do outro, a praia. Eis o campo estabelecido. Às 16h30min, quando o sol começa a se pôr, quatro gravetos — dois para cada trave — e os meninos a postos completam a escalação dos times de dois. Sem árbitro, sorteio de campo ou posse de bola, começa a partida.

A quarta-feira, o dia em que o futebol ganha protagonismo em estádios pelo País e televisores de churrascarias, também mobiliza muitos jeitos de se fazer jogo de bola na Cidade. Na praia da Leste-Oeste, por exemplo, a quarta é só um acaso da aula suspensa. No lugar, os meninos a fizeram de sábado no meio da semana. Sem camisas padronizadas e com bermudas de tactel, Márcio Windson, 16, Matheus Sousa, 17, Gabriel Freitas, 18, e Guilherme Oliveira, 14, saem enfileirados em bicicletas do bairro Ellery, cortando as ruas do Carlito Pamplona até o campo escolhido: o mar.

Pouco mais tarde, por volta das 19h30min, outro polo da Cidade, a quadra do Centro de Humanidades da Universidade Estadual do Ceará (Uece), no Bairro de Fátima, recebe os primeiros alongamentos para ter início a partida. É o Racha das Meninas, mobilizado pela professora universitária Jéssica Fernandes, 26. Para ela, a quarta não é acaso, é dia marcado.

“Fico falando com as meninas em um grupo no WhatsApp esperando formar time”, conta. Nesses dias, a mochila que carrega as outras obrigações ganha companhia de chuteiras, meias e short. “É o dia em que eu chego mais tarde em casa, mais cansada, durmo mais tarde, mas é aquele cansaço gratificante. Se eu chegar em casa com outro cansaço que não seja do futebol, não é a mesma coisa, não me faz tão bem”, conta.

Enquanto os times do Estado acirravam disputa no Campeonato Cearense, as meninas no Bairro de Fátima seguiam na partida de uma hora e meia, sem jogadoras reserva e sem ver o tempo passar. Já na Leste, os meninos descalços tentam dialogar com o movimento das águas para darem seguimento aos lances.

Num malabarismo de posições, nos dois locais de partida, a cada minuto um só é defesa, centro e ataque. Fossem transmitidos pelo rádio, os gols viriam como aqueles que surpreendem até o radialista de voz apressada.

Os jogos sem espectadores prosseguem sem o rigor técnico dos gramados e com a paixão levinha de uma partida de brincar. Dá tempo de se exibir, dá jeito se errar. A comemoração de vitórias é rápida, assim como o lamento pelos lances perdidos. O importante é seguir

Questionada sobre o time que torce, Jéssica diz que não há favorito. “Gosto do movimento que o futebol tem e das amizades que faço além das quadras, mas não torço por um clube, gosto mesmo é de jogar. Eu adequo minha rotina e não deixo nada atrapalhar o nosso racha”, diz.

Não é bem assim com os meninos, eles não só têm times do coração, como se projetam nos craques. “Do futebol, eu queria ser...”. A cabeça pensa junto com os pés e nessa hora, a da vontade, vale o que quiser. Os escolhidos foram Messi, do Barcelona — preferido por dois —, Everson, goleiro do Ceará, e Casemiro, volante do Real Madrid.

Ao som das ondas, o jogo na praia sorri o tempo inteiro e os meninos correm boquiabertos de cansaço em direção à bola que salta no ar.
Na quadra, a linguagem dos corpos vai dizendo quando o jogo acaba. Os abraços e agradecimentos são o apito final, longe de holofotes e grandes vestuários. Na praia, o jogo finaliza de forma semelhante e o banho de descanso é no mar.

A leveza da brincadeira é grande diante da disputa de clubes nacionais. E mesmo frente à paisagem generosa da Leste-Oeste, de onde o mar mira os prédios da Aldeota, para os meninos finos e exaustos são exatamente os grandes times a motivação.

O pensamento é tão híbrido quanto a quarta-feira. O que parece fechado e regado a burocracias — os reconhecidos jogos de futebol profissional e campeonatos de todos os anos — é o que é o novo, o sonho. É curioso, mas é vendo o mergulho entre as ondas, enquanto a bola repousa sendo levada pelo vento, que dá pra entender: é que a Cidade, bonita daquele jeito, já é deles. As grandes disputas, quem sabe?

É uma véspera

O dia começa quando termina na rua José Avelino. Na contramão dos portões de correr que se fecham no Centro e das paradas de ônibus vazias que deixam os coletivos abarrotados de desejos de chegar em casa, o espaço vai ganhando a organização caótica de uma feira livre de roupas. Desde o começo da tarde de quarta o furdunço de gentes, vestes e manequins se inicia. Quando o dia se descamba em outro a venda justifica os rostos que denunciam o sono perdido.

Iniciada na década de 1990, a feira na via e no entorno é considerada o maior comércio ao ar livre do Ceará. À noite, a passagem de veículos dá lugar a milhares de tendas com os mais diversos produtos do ramo da confecção.

Cercada de contradições e alvo de críticas, a movimentação se confunde entre a atração dos consumidores e os transtornos que o comércio traz para as vias e a Cidade. O local estabelece uma lógica bastante particular de estruturação que cresce e configura essa parte da noite na Cidade. É impossível negar.

Para adentrar a rua lotada de tendas o corpo precisa se misturar a manequins, sutiãs, bonés e roupinhas infantis. Cada vendedor se esguia por trás das barracas e alguns quase não chegam a ser vistos entre as montanhas de mercadorias. “São nove calcinhas por dez reais”, anuncia um dos vendedores. Eis a primeira mostra de um dos principais atrativos para o comércio que recebe sacoleiras de municípios do interior do Estado e outras cidades do Nordeste: o preço.

A iluminação precária advinda de fios mal instalados clareia as estampas de confecções que prometem ser a última tendência nas lojinhas. “Eu espero pela quarta-feira. Vendo cada blusinha dessas a dez reais no atacado para as minhas clientes venderem a 50 no varejo”, informa Lucineide Júlio, 57, que, entre uma garfada e outra do arroz com frango, diz o preço de cada peça. Longe de se sentir descompensada, a disparidade a agrada. “Quero é que elas tenham lucro lá para eu ter aqui também”, explica. “Comigo você compra a blusa, aqui atrás o sutiã, mais lá na frente a calça jeans… Aqui a pessoa sai toda vestida”, convida.

A feira

Seja de frutas, seja de roupas, uma feira nunca é só o comércio. Na José Avelino e no entorno, chama atenção outro movimento: as vendas que surgem para manter os vendedores acordados.

Com carrinhos estreitos e munidos de copos de plástico, há quem comercialize o cafezinho. É preciso ser forte para ajudar a se manter alerta na noite alta que insiste em pesar as pálpebras. A variedade para o jantar também é grande. Salgados com suco, quentinhas com opções diferentes para a mistura e até pizza entregue diretamente na banca de quem pedir. “Essas são de calabresa”, diz um dos comerciantes. De acordo com ele, a quantidade de pizzas vendidas depende do faturamento de cada mês. “Até o fim de abril é só umas duas, mas em dezembro é bem umas dez”, gargalha.

O descanso no local sempre resguarda certa solidariedade. Peças viram travesseiros ou colchões inteiros. Um vigia a banca do outro, que descansa esperando ter em troca, finalmente, o momento de repouso. Todos levam banquinhos, sacos plásticos, cobertores... Tudo vale para simular certo conforto na feira que começa quarta, atravessa a noite e tem ponto alto já nas primeiras horas da quinta, quando chegam os ônibus lotados de sacoleiras para desbravar materiais.

Na noite de quarta, o descanso é espera pelo movimento do outro dia. A quarta-feira inicia e encerra um ciclo. Amanhã, a Fortaleza faz aniversário. E, assim como em todas as quartas na José Avelino, hoje, a Cidade aguarda de véspera a euforia que está para chegar. E sempre chega.

Desenho, encontro, emaranhado

Conheci Luciano em 2015. Eu o via com certa frequência a lançar seus malabares no cruzamento entre a Avenida da Universidade e a Meton de Alencar. Chamavam-me atenção as mechas descoloridas que caíam sobre seus olhos e a expressão sempre sisuda. Magro, moreno, sério. Através da janela do ônibus, eu acompanhava o movimento fragmentado de carros e pedestres até avistar sua figura acesa, próxima ao canteiro central, e então grudava os olhos nela enquanto a distância permitia destacá-la da paisagem já transformada num todo informe.

No dia em que nos encontramos, conversamos muito. Não soube bem com que gesto deveria dirigir-me a ele, que parecia tenso. Apertei sua mão. Quer desenhar comigo? Sentamos um de frente para o outro. Riacho Fundo II, vizinho à Ceilândia, 26 anos, de setembro, libra.

Conheceu Fortaleza de início pela Barra do Ceará. Lá morou algum tempo antes de os amigos anarcopunks serem despejados do local.

Por alguns instantes, percebia sua postura se desarmando, mas bastava uma nova pergunta minha e seus ombros pendiam para a frente, seu rosto se tornava grave uma vez mais. Ele baixava os olhos para o papel craft e desenhava. Contou-me que perdeu-se inúmeras vezes, quando ainda não conhecia bem a Cidade. Com exceção do restrito grupo de amigos que fizera logo na chegada a Fortaleza, foram poucos os gestos acolhedores que havia encontrado desde então.

Depois da casa na Barra, instalou-se no bairro Benfica, numa outra espécie de casa comunitária, onde viviam jovens famílias que trabalhavam com culinária vegana e serigrafia. De repente, fui me dando conta: ele gostava de falar, eu gostava de ouvir. Comentou que havia terminado de desenhar seu mapa de percursos na cidade. Era então minha vez de desenhar seu rosto.

Tinha bigode e barba enormes, mal dava para ver a boca que aos poucos se abria em alguns breves sorrisos. Reparei na forma pela qual segurava a caneta e às vezes a encostava na bochecha, apoiando o cotovelo na mesa. Sobrancelhas largas, cílios longos, olhos escuros. Eu esquecia que havia um papel logo ali, sob minhas mãos, no qual a caneta intervinha sem parar, demarcando um tipo de retrato que se faz sem muita consciência do ato. Olhamos um para o outro e fixamos esse olhar suspenso não sei por quanto tempo até eu desviar meus olhos para algum outro ponto qualquer com o único motivo de deixar o tempo correr novamente.

Foi estranho decidir quando terminar o desenho, o que também significava terminar aquele espaço-tempo que inventamos com nossos olhos. Ao observar, ainda atordoada, o retrato no papel, não reconheci meus próprios traços. A semelhança física da imagem com o rosto de Luciano não era tanta, mas o emaranhado de linhas e manchas dizia muito do encontro. O emaranhado não se cansava de mexer, era puro movimento. Feito o corpo depois de um susto, o emaranhado agitava-se imitando nossos fluxos sanguíneos.

Raisa Christina
É artista visual e escritora. Cursa o Mestrado em Artes (PPGArtes) do Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará (UFC). É autora do livro de autoficção mensagens enviadas enquanto você estava desconectado (Editora Substânsia, 2014). Integra a Antologia de Contos Literatura Br (Editora Moinhos, 2016). Mantém a página corposonoro.tumblr.com

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Fortaleza 291 Anos - Quarta

Os percursos de um dia que transita entre futebol, frutas e feiras.