A Cidade que é verbo

Quais verbos você conjuga na sua vida com Fortaleza? Quais ações você usaria para descrever a sua Cidade? Passear (no Centro), apressar-se (para vencer o trânsito e chegar a tempo), correr (para apanhar o ônibus), trabalhar (sempre), comprar (o que o salário permitir), estar (...). Conjugando esses escritos, sobre quais Fortalezas você decidiu falar no cotidiano? O convite do O POVO neste dia em que a Cidade chega aos 290 anos é: vamos conjugar novos olhares?

Neste projeto especial pelo aniversário de Fortaleza, que começa hoje e segue até terça-feira, 19, cinco verbos são base para presentes em forma de escritos. Festejar, mover, conviver, abraçar e sonhar serão conjugados em crônicas, entrevistas, artigos, ensaios, reportagens — no impresso, na TV, no rádio e na Internet. O projeto integra todos os veículos do Grupo de Comunicação O POVO na missão de reportar e discutir delicadezas e particularidades da aniversariante.

Nesta edição, Fortaleza é festa. Logo na capa deste caderno, lança-se iluminada e colorida para a comemoração. Porque aqui, se deixar, tem farra todo dia. Na calçada, no restaurante ou no bufê, gostamos da combinação gente+comida+bebida+música. Fazemos festa do que poderia ser banal.

A partir de agora, pare e leia por algum tempo a metrópole. E deixe novos verbos aparecerem no discurso e nas vivências. Troque o correr por caminhar, por exemplo, e conheça novas Fortalezas.

 

 

Fortaleza 290 Anos - DOC Matéria da TV O POVO

 

 

 

Futebol

A carne é fraca (mas nem tanto)

Por Jáder Santana

A culpa foi do goleiro, que não estava em seus melhores dias. Empataram, perderam nos pênaltis. O outro time nem era tão bom assim. Não contra eles do Oboé, lá das quadras da Aldeota — um dos maiores vencedores em torneios de subúrbio desde 2001. Mas não foi só o gol — coitado do rapaz: “Na verdade, viramos a noite em uma festa de aniversário, festona. Tava todo mundo meio baqueado”.

Foto: FOTOS CAMILA DE ALMEIDA
O campo no Jardim Castelão é palco e cenário da festa que o futebol oferece. FOTOS CAMILA DE ALMEIDA

No grupo do WhatsApp criado para agendar nosso encontro, batizado pelo Preto Zezé de Missão Sabadão, uma mensagem de áudio às 23 horas da noite anterior ao torneio. “Errr, amigo Jáder, tem como abortar a missão? Eu tô aqui com o pessoal do time, cara, e aí tão comemorando o aniversário de um cara aqui…”. Não, cara. Tem que ser amanhã. Vamos lá e seja o que Deus quiser.

 

A culpa foi do relógio. Oito da manhã é lá hora pra botar um monte de marmanjo que passou a noite bebendo pra correr atrás de uma bola? E a culpa também foi do goleiro, mas nem tanto. Mas foi. “Só não deixe ele saber”. Espalhados pelas beiras do campo do Jardim Castelão, os jogadores do Oboé lamentavam a derrota. Lamentavam, mas nem tanto. Estavam mais preocupados em relembrar a farra da noite anterior e em encher o bucho com a comida de dona Léa.

 

Dona Léa ou Dona Léo. O primeiro para os clientes, o segundo para os amigos. Léo, sem o substantivo, pra quem acabou de conhecer. Como você prefere que eu te chame? “É Léo mesmo”. E o que tem pra vender aí, Léo? “Carne e bisteca de porco, panelada, frango ao molho, coração de boi, arroz, macarrão, baião de dois”. Tem cachaça? “Tem, um real a dose”. Nas quadras da Aldeota, a marmitaria de Dona Léa é point. A melhor cozinheira da comunidade. Ela acompanha o time nas partidas.

Foto: CAMILA DE ALMEIDA
Dona Léa na barraca de comidas e bebidas e a animação do público. FOTOS CAMILA DE ALMEIDA
 

Do lado de fora da barraca, os guerreiros esmorecidos do Oboé ajuntam os ânimos a cada colherada, a cada gole de cerveja. Dona Léa, atarefada indo e vindo com seu vestido florido, ajudada por dois auxiliares, quase não arruma tempo pra conversar. Vem gente de todo time provar sua cozinha. Rivalidades são esquecidas entre uma garfada e outra. “É como uma mãe pra gente, sempre acompanha a equipe, vai pra todo jogo e todo mundo da comunidade respeita e gosta dela”.

 

Em campo, duas equipes se preparam para o jogo das 10 horas. Alongamentos, pulos, preces. Misturam-se os jogadores e… opa! Os uniformes têm a mesma cor. “É que todo mundo tem bom gosto aqui”. Riem, fazem piada e decidem que um dos times vai jogar com a camisa vestida pelo avesso. Problema resolvido. Não há dramas no futebol do subúrbio. Pelo menos não até que soem os primeiros acordes: pega a metralhadora, tra, tra, tra, tra, tra.

 

No espetinho ao lado, o que mais sai é o prato com farofa e carne. Sem mesas, qualquer superfície serve como apoio: o capô do carro, a garupa da moto, a mochila no chão. Saciados, alguns se esticam sob a copa das árvores, arriscam um cochilo, reúnem energia para partidas que devem se estender até a noite.

Foto: CAMILA DE ALMEIDA
Ao redor do campo, comida, bebida, música e boas conversas fazem da partida de futebol uma festa em que até quem não joga se diverte. FOTOS CAMILA DE ALMEIDA
 


O campo
Em uma das esquinas do campo, recuados em relação à muvuca das barracas e da música, jogadores das partidas seguintes trocam de roupa e se aquecem, protegidos pela vegetação alta que margeia o rio Cocó. Um par de bancos de cimento, algumas mesas de carretel e um sofá velho servem como escoro. Uma cadela entra em trabalho de parto. Um, dois filhotes. Rasga a placenta com os dentes. Para a equipe, é um bom sinal.

Em cima das mesas, alguém corta tiras de carne crua para um gato. Com uma meiota de cachaça nas mãos, lutando pra se aprumar, um senhor se aproxima. “Tu não é daqui não, né?”. Respondo que não, imaginando que se referia ao bairro. “Logo vi. Já tá vermelho do sol. Estrangeiro é gente boa, mas ninguém faz festa como a gente”.

 

Webdoc Festejar

 

 

15 anos

Uma festa de princesa

Por Paula Lima

No imaginário de toda menina romântica, há duas festas que devem ser as mais importantes da vida: os 15 anos e o casamento. Historicamente, toda nobre família da Europa realizava um baile para apresentar a moça de 15 anos à sociedade, atrair pretendentes e marcar a passagem da menina para a fase mulher. Vem daí a tradição de uma festa grande, como um baile de princesa.

É claro que hoje em dia a motivação das festas de 15 anos não é a mesma. O que se quer é reunir os amigos e fazer todo mundo se divertir — descer até o chão, de preferência. Isso que a Amanda Rodrigues queria para a festa dela. Além, é claro, de se sentir uma princesa. Mas, depois da meia-noite, o termo correto mesmo seria diva.

Durante um ano, Amanda pensou com a mãe, Zélia, e a cerimonialista Alódia Guimarães uma grande festa. “Tudo isso aqui”, resumiu. O pai Assis deu o aval. “Fizemos do jeito que ela quis”. O Barbra’s Cambeba foi palco para 400 convidados. Amigos de escola, familiares e amigos da família que há três anos não se encontravam estiveram na festa.

Foto: CARLÃO ROCHA/ESPECIAL PARA O POVO
Amanda Rodrigues posa para o álbum ao lado dos pais e do irmão mais velho. A festa é uma conquista da família. FOTOS CARLÃO ROCHA/ESPECIAL PARA O POVO


Zélia, Assis e o filho mais velho, João Luis, recepcionavam os convidados, dando início a um ritual que bem lembrou os bailes de debutantes de outrora. Piano e voz conduziam a atenção aos detalhes da decoração; muitas flores, um bolo de cinco andares, delicados vasos de porcelana no centro das mesas, uma fonte no salão. De salto alto ou terno e gravata, como o evento exige, era como se os convidados entrassem num cenário de conto de fadas contemporâneo.

Antes das badaladas, uma orquestra de 12 músicos, luzes baixas e o momento mais esperado pela aniversariante. Do alto de uma escadaria, Amanda aparece em um longo vestido verde–água, bordado com brilhos, saia rodada e tiara de princesa. Ao som de Let it Go, do filme Frozen, ela desfila e rodopia entre grandes e exóticos bailarinos cobertos de luz Led. Os pais a esperam na pista de dança. Impossível não se emocionar com a expressão da mãe que derrama lágrimas ao seguir a filha com o olhar. O ritual pede a valsa, os parabéns. A música pausa, ao microfone, Zélia agradece a Deus a vida da filha, pede perdão pelas ausências — mesmo quando as mães não precisam fazê-lo —, de voz embargada, testemunha que a filha é seu grande amor.

A música volta mais agitada, a orquestra ganha uma voz feminina que faz os quadris se mexerem pelo salão em direção à pista. Garçons voltam a circular com garrafas do melhor uísque e espumantes, uma ilha de barman serve coquetéis de frutas. Os adolescentes se esbaldam nas opções sem álcool. Uma enorme mesa do outro lado do salão oferece jantar. Perto da geração millennium, um quiosque com hambúrguer gourmet faz mais sucesso. “Festa boa tem que ter música, comida e bebida que é pra todo mundo se divertir”, resumiu o pai da aniversariante.

Pelo salão, Amanda posa para fotos, cumprimenta quem primeiro se aproxima, faz selfies, abraça apertado as amigas. Gentil e delicada, bem que tenta, mas mal se concentra na entrevista. O coração a mil de quem vive um sonho. A pista começa a ferver. Da metralhadora ao funk das novinhas. A debutante troca de vestido: agora de pernas de fora, ombros à mostra. Sobe no palco, faz a dancinha do trá. Não tem quem fique parado. Todos se misturam numa grande euforia, repetem os movimentos de braços e quadril num compartilhamento de alegria que ali, para Amanda e a família dela, era uma forma de agradecer e celebrar a vida. Numa festa que vai ficar pra sempre na memória da menina.


Álbum de família
Zélia, mãe da aniversariante, conta que quando fez 15 anos nem imaginava que existia uma festa linda e grande como a que agora fez para a filha. “Meu pai teve oito filhas. Nasci no Interior e nem na televisão via algo assim”, rememora.

A família Rodrigues gosta de comemorar, mas não tem tradição em fazer festas. No próprio casamento, Zélia e Assis brindaram apenas entre eles no cartório. “Nasci em uma família humilde. Aos 8 anos vendia seriguela no sinal, aos 18 anos entrei na Polícia Militar, mas sempre tive tino para os negócios. É uma alegria poder fazer uma festa dessas para a minha filha”, Assis revela, com olhos marejados. Depois das fotos para o álbum oficial, a família Rodrigues festejou o dia de princesa da Amanda até o dia amanhecer.

 

 

Balada

Alegria efusiva da geração Y

Por Ítalo Coriolano

 

O salão do pequeno hostel&pub na Varjota, bairro nobre de Fortaleza, aos poucos vai ganhando contornos de boate. Fila a se formar do lado de fora, cheiro forte do perfume misturado ao sabonete do banho recém-tomado, música ainda leve para atrair quem se aproxima e não atrapalhar as conversas iniciais, pouca iluminação no intuito de criar uma atmosfera mais intimista. É como se fosse a sua casa sendo preparada para receber amigos. Porque no aconchego também está o segredo de uma boa festa. Não é à toa que o lugar foi batizado de “At Home”. Um sofá confortável, decoração harmônica, sinuquinha logo ao lado, cerveja gelada e alguns drinks para aliviar tensões ou sufocar a timidez.

Porque festa é leveza, com corpo e alma despreocupados de avaliações/julgamentos. É oportunidade para desabafos, confecção de planos, abraço acolhedor em quem você não via há muito tempo, beijos frenéticos no ser por horas desejado, expulsão do cansaço acumulado em cinco dias seguidos de trabalho e estudo, coreografias imitadas ou originais a se desenvolverem no compasso do som e da alegria. E se “aquela música” tocar, me deixa que hoje a noite é minha. Porque festa também é performance, aglutinada com o desejo de fazer daquele momento algo de único.

Foto: RODRIGO CARVALHO
A juventude se mistura em festa na Varjota para celebrar a vida. FOTOS RODRIGO CARVALHO

O sorriso no rosto do DJ denuncia a satisfação de ter acertado em cheio a expectativa da plateia. Toca "Somebody told me" (The Killers) e uma profusão de pulos – cabeças quase a bater no teto – contagia até a moça que chacoalha o terceiro coquetel da cliente apressada em voltar para a pista já lotada. E daí se o grito na hora do refrão vem acompanhado de uma lágrima? Deixa escorrer. Festa é fuga, mas também pode ser cura. Pega o smartphone e vamos fazer logo uma selfie nessa parede estilosa. Prova pra ele e pro mundo que você está muito bem, obrigada. Mas ali no canto tem escrito: “Pela estrada que partiste, eu fiquei de sentinela.  Minha esperança insiste em te ver voltar por ela”.

O fraco poema que machuca. Maldito registro. Me vê logo aí outra Heineken. Força! Você consegue afogar essa mágoa. Se não neste dia, pode ser amanhã. Arranca essa tristeza nem que seja a fórceps. Levanta que a playlist vem com Justin Bieber e a batida impregnante de “Sorry”. O cabeludo meio chateado percorre o espaço em direção à saída. Mas volta logo em seguida quando Foo Fighters entra em cena para nos ensinar a voar. Solta a voz, pouco se importando com seu inglês ruim.

Os vários círculos de outrora agora formam uma só mistura. Turistas e nativos se encontram. É pele com pele, suor com tesão, sede com fome, calor com euforia, atitude com chamego. Quero dançar, paquerar, me embriagar, atualizar minhas redes sociais e debater o futuro do País. Tudo ao mesmo tempo. É a geração Y na iminência de pular para a Z sem antes tentar experimentar o restante do alfabeto. Porque festa é vida, seja no passado, no presente ou no futuro.

Sentada na calçada do outro lado da rua, uma senhora observa a tudo quase sem piscar, como que muito interessada nessa forma jovem de passar o tempo. Já viu a mesma cena tantas vezes. Mas não se cansa de tentar entendê-la. Em frente a ela, envolta pela fumaça de alguns cigarros, a moça de rosto borrado e cabelo desgrenhado olha para o relógio. #Partiu para a próxima balada. Ainda são duas da madrugada. A festa apenas começou.

Festa infantil

No reino do uni-duni-tê

Por Maísa Vasconcelos

 

Alheia às conversas graves deixadas para trás, a menina leva a amiguinha para passear. Mãozinhas hábeis se demoram na arrumação da trança da boneca e a conduzem por um bosque de doces cor-de-rosa, bombons no palito amarrados em laços de fitas e surpresas tecidas em transparências e brilhos. Então, a menina empresta à boneca a voz suave: “Aqui é um bom lugar. Mas eu tô tão cansada... Acho que vou voltar pra casa”. Juntas, saltitam de uma a outra mesa da decoração. O longo vestido lilás-amarrotado da menina abre um rastro no chão recoberto por folhas verdes e vivas, ao tempo em que alguém avisa que é preciso deixar tudo em ordem para “os parabéns”.


Foto: CAMILA DE ALMEIDA
A Rapunzel Isadora (de coroa) brincou muito na comemoração dos cinco anos. FOTOS CAMILA DE ALMEIDA

Tendo cruzado a linha da meia-idade e mais alguns passos, ainda guardando o tempo em que festejar aniversário de criança era sinônimo de ficar esbaforida de tanto encher balão e fazer brigadeiro de véspera, abracei a tarefa de me convidar para estar ali. Ao chegar, que maravilha! Me pegar cantarolando “uni, duni, duni, tê, oh! oh! oh! oh! oh!, salamê minguê”, sem perder única sílaba é bom sinal. Festa de criança é sempre festa de criança, penso, enquanto me acomodo de modo a não perder nada e poder levar você “pr’um mundo de magia”.


Não sei precisar a hora, mas o ponteiro ainda distava das sete da noite quando a vi atravessar em sorrisos o espaço reservado aos convidados. Daí a pouco, vestida de princesa, aplique no alto dos cabelos, uma linda Rapunzel posava ao lado dos pais e da irmãzinha mais nova. Uma equipe de fotógrafos se revezava em chamativos apelos para os cliques que vão garantir o prolongamento da festa: “Beija a mamãe!” – “Agora é a vez do papai”. Isadora faz cinco anos.


Os intervalos em que as câmeras permitem aproveito para descobrir que essa é a primeira oportunidade de confraternização entre família e amigos depois da mudança em definitivo para Fortaleza, no fim do ano passado. Rosallyne e João Ricardo, pais de Isadora, estão de volta à cidade onde nasceram e que nunca deixou de ser a casa desejada. A profissão os manteve distantes por mais de década, mas não de todo. Soprar velinhas junto das filhas, só por aqui. Celebrar, aliás, é costume enraizado desde cedo. Comovida, e atenta para não fazer contas, Rosallyne diz que nunca teve ano que passasse em branco.


– Agora eu quero ir brincar, mamãe!


Isadora desvencilha-se do protocolo, ganha o rumo dos grandes brinquedos infláveis. Larga os sapatinhos, escorrega daqui, salta dali, emaranha-se nas saias, cai, levanta, salta de novo. Reparo na tiara que nem se mexe. Pisco olhos e lá está ela no que imagino ser uma roda-gigante. Se digo que imagino é por, talvez, ainda estar parada na última cadeira lá do alto a espiar casas e gentes ficarem pequenininhas, em dia de quermesse no bairro. A roda-gigante que vejo aqui é dessas que cabem na fantasia e nos salões de festas da cidade agigantada. A menina a girar. Descemos, ela e eu.

Foto: FOTOS CAMILA DE ALMEIDA
Isadora e a irmã Helena com os pais Rosallyne e João Ricardo. FOTOS CAMILA DE ALMEIDA

O relógio já deu bem mais de duas voltas. Selfies e cliques incontáveis, uma enorme caixa de presentes fechados e o ápice, que ainda tem o jantar. “Vamos cantar os parabéns!” – “Não fura a cobertura do bolo!” – “Discurso, discurso!” – “Que Jesus abençoe!”. Isadora sorri um sorriso de quem quer que a noite permaneça viva na lembrança.


Crianças nas mesas, no chão, desembalam surpresas tecidas em transparências e brilhos. Saio sem que a festa dê sinal de que vai acabar. Uma menina pula alto no hight jump. Por detrás, como num sonho encantado, avisto o Palacete imaginário, onde um dia Pierina, uma princesa vinda da Itália, fez morada.

 

Aniversário

Forrozeiro todo

Por Rômulo Costa


Copo na mão, a moça convida o rapaz para uma dança. Não trocam palavras. Os passos coordenados sobre o chão de cimento cru acontecem pela sutileza do olhar. Ela descansa o copo sobre a mesa de plástico. Ele entende o recado. Dança é feito paquera mesmo. Começa devagar, nos quase-passos. Cada um dos envolvidos tentando investigar o movimento do corpo do outro até encontrar possibilidades.

Na fase posterior, os dois se abraçam. É isso que chamam de dança, quero crer. Reparo que as mãos dela sobem à cabeça em um gracejo cordial; as dele se postam sobre as costas, acompanhando-a (com os olhos também). A bateria sufoca a sanfona, o cantor distribui “alôs” lidos na tela do celular, os marmanjos e as moças se amontoam em volta de um balde de gelo e bebidas de todos os teores alcoólicos. Tudo normal no bairro João XXIII. É dia de dançar forró e beber o que se canta.


Foto: CAMILA DE ALMEIDA
Clássicos e novidades do forró embalaram os convidados da festa. FOTOS CAMILA DE ALMEIDA

 

Digo beber porque essa era a orientação primordial para quem dividiu o Sítio do Magela naquela tarde-noite de domingo. As músicas, em grande parte, narram o ato reverenciado ali pelos amigos de outras farras. Mas não todas. Debaixo da mangueira, há espaço para tanta vida...

Eu mesmo lembrei de um tempo em que acompanhava, de longe, minhas tias se pintando para viver a Fortaleza delas. Batom nos lábios, perfume doce, rumavam para um outro sítio chamado Siqueira. Foi quando entendi, ainda pivete, que lagosta também se bronzeia.

Mas isso não é conversa pra agora. Quero falar da festa do Raeel Lima, um rapaz de pouca idade que se considera forrozeiro todo. Naquele furdúncio, ele celebrou o aniversário de vinte e poucos anos. O ingresso, a custo de R$ 10, atraiu os amigos e também gente do bairro que nunca se viu.

Encabulado, fiquei a dois passos da última mesa. Na minha frente, a festa se setorizava. Os safadões e as coleguinhas se embalavam pelo tinido dos metais colados ao palco — foi-se o tempo que forró se fazia só de sanfona, triângulo e zabumba. Logo depois, os afoitos a ensaiar o requebrado com esquemas e possíveis romances (dos mais ligeiros, de preferência). Pelo resto do ambiente, se espalhavam os tímidos — braços cruzados a noite inteira — e os que nem de forró gostam mas que chegaram ali em busca de diversão barata com os chapas da vizinhança.

Quando nem me apercebo, a cantora surpreende: “Não sei por que você me disse adeus”. Continuo, de imediato: “Tudo é tão lindo entre você e eu”. Qualquer menino que, como eu, já entrou no Terminal da Parangaba numa tarde quente acompanharia o verso com gosto de tempo antigo. Forró tem disso. Resgata a memória que o fortalezense nem sabia que tinha.

Fiquei a pensar se eu não seria também um forrozeiro todo. Voltei ao tempo em que aprendi os primeiros passos da dança sob a supervisão da Silvana. Ela dizia que eu não mexia as pernas direito. Contrariado, ensaiei sozinho no quarto. Repeti os passos. Um dia desses, numa festa qualquer, me arrisquei no Noda de Caju. As amigas gostaram, lançaram louros. Então, me fiz acreditar: se forrozeiro for arriscar no remelexo e perceber que Fortaleza é pra se viver do jeito que a gente quer, não há mais dúvidas. Sou forrozeiro. E tenho para mim que você, caro leitor, também o é.

FESTEJAR

Especial Festejar

1º caderno em comemoração ao aniversário de 290 anos de Fortaleza