Viver a Cidade

Fortaleza é teimosa e resistente. Brotam aqui fragmentos de resistência e convivência que versam contra os muros e os descuidos que poderiam atrapalhar convivências e afetos. Aos 290 anos, por causa de fortalezenses resilientes, esses fragmentos crescem, multiplicam-se. Assim, acham-se brechas para os encontros, os afetos, os abraços. São permissões para seguir próximo à Cidade — que, tal qual qualquer metrópole, cresceu descontroladamente e sem ampla oferta de espaços de abraços e cidadania.


Estamos próximos na calçada, na ciclofaixa, no asfalto, na praça, na praia, convivemos. (Con)Vivemos (com) a água, por exemplo. Nos mergulhos, abraçamos o mar, as lagoas, os rios, a chuva. E somos acolhidos. Sorrimos nesses encontros em que as cidades que formam Fortaleza se apresentam por outro ângulo, iluminadas pelo reflexo d’água. Ainda compartilhamos vivências em locais que são símbolo da Cidade e em outros que inventamos de transformar em área de permanência. Criamos Fortalezas para garantir a proximidade com outras gentes. Afinal, cidade é isso.


Nas próximas páginas, o repórter Henrique Araújo dialoga sobre as nossas convivências urbanas. Por onde andam os fortalezenses? Com quem trocam experiências de cidade? Quais sentimentos desenvolvem nas passagens e nos encontros? Com quantas Fortalezas costumamos conviver?


Fortaleza 290 Anos - DOC Matéria da TV O POVO

Entrevista

A escolha de estar nas ruas

Por Henrique Araújo


Há cerca de dois anos, a arquiteta Liana Feingold criou, junto com a sócia e também arquiteta Laura Rios, a empresa Estar Urbano. Especializada em soluções que mobilizam criatividade e identificam demandas coletivas na cidade, a marca é responsável pelos parklets da avenida Beira-Mar e pela experiência da rua compartilhada, uma via cujo sentido está no trânsito de pessoas.

É no encontro do indivíduo com o coletivo que Liana enxerga as resposta para a metrópole que chega aos 290 anos. Em entrevista no escritório da empresa, ela fala sobre os desafios para transformar em realidade o potencial de transformação de cada pessoa. Para tanto, lembra as ciclofaixas, que viraram realidade depois da luta de grupos como o Massa Crítica. Hoje, conta a arquiteta, as vias para bicicletas transformam a paisagem de uma cidade que, até pouco tempo atrás, ainda se perguntava se essa história de bicicleta compartilhada iria mesmo pegar.

Foto: FOTOS TATIANA FORTES
Liana: "É preciso criar atrativos para que as pessoas frequentem as rua" . FOTOS TATIANA FORTES

 

O POVO - Que Fortaleza você imagina na próxima década?
Liana Feingold – Sem dúvida, nossa demanda é muito intensa. Ficamos muitos anos sem pensar que qualidade de vida é essa que nós podemos estender das nossas casas às ruas. Nós pagamos nossos impostos e imaginamos que é isso, pronto e acabou. E, na verdade, quem constrói essa demanda somos nós. Estar bem nas ruas cabe a nós, é um interesse nosso. Quando a gente fala da cidade, fala da transformação dessas pessoas. O que é que a gente pode trazer de melhora e qualidade de vida lá de trás e pode projetar lá pra frente?

OP - O que a cidade precisa resgatar hoje?
Liana - Eu já tenho uns bons anos aqui. Já me sinto totalmente daqui. Minha avó mora antes de subir pro farol, perto do morro de Santa Terezinha. Eu sempre achei interessante a forma em que, regularmente, as pessoas lá estão na rua, conversando. A gente foi se tornando prisioneiro. É uma realidade. Mas a gente não pode ser refém e viver trancado dentro de casa. Se eu não posso estar convivendo e ouvindo de outras pessoas que não sou apenas eu que tenho com problemas, como é que eu vou saber disso? A convivência é parte da elaboração desse projeto. Não temos pensar no amanhã sem pensar no agora. Quanta gente de fora veio pra Fortaleza. Vem em busca de outro ritmo de vida, de praia, de conforto.

OP - Fortaleza acolhe bem?
Liana - Acolhe. Próximas ou não, as pessoas que eu recebo têm algo bom a falar da cidade. Esse resgate é na verdade uma tomada de consciência: o que temos e vamos manter valorizado e o que não nos serve. O que nós podemos fazer melhor?

OP – As pessoas são acolhedoras, mas como transformar a cidade, fisicamente falando, num espaço que acolhe?
Liana – Quando a gente começa a colocar as pessoas em contato com algo bom, elas não querem retornar. Houve uma resistência na implantação das ciclofaixas? Sem dúvida. Era algo novo. Ou todo mundo achava que, de uma hora pra outra, as pessoas iriam abrir mão das suas vagas de carro em detrimento de um outro modal. A gente precisa é de uma visão otimista e acreditar no potencial que temos em mãos. Se temos bons exemplos lá fora e podemos adaptar algo pra cá, por que não podemos ensaiar? Por que vamos estar sempre resistindo à mudança? A ideia é de sensibilizar as pessoas do que cabe a cada um, o que está no nosso alcance e o que é um poder de mudança, e como a gente pode se valer de outras parcerias para tornar essa cidade real. A cidade é de todo mundo. Se eu torno a convivência boa, é bom pro comércio do também. Eu passo a querer ir para aquele bairro e aquela região porque eu gosto daquele entorno. É bom pra todo mundo. Quando eu fui procurar apartamento, eu queria em frente a uma praça porque a praça é uma referência, é um termômetro do meu bairro. Uma praça lotada é excelente. É sinal de que o meu bairro está na rua. É através desse diálogo que a gente vai conseguir fomentar micro ações que um dia vão se traduzir em macro ações. É um parâmetro urbanístico de tempo. Existem micro ações que podem ser feitas agora.

OP - Como você vê o desafio de estabelecer uma convivência harmônica com o outro nos espaços públicos da cidade? E como a arquitetura pode induzir a isso?
Liana – O primeiro item é estar aberto. Estar aberto para falar e para ajudar, para se tornar um veículo de mudança, que tem condições de elaborar projetos de mudança. A arquitetura vai se valer disso para enxergar o que algumas delas ainda não enxergaram. E transformar isso em algo físico, real, seja uma maquete física, eletrônica. É uma ferramenta de experimentação.

OP - Foi assim que nasceram os parklets?
Liana - Sim, foi assim. Não temos como abrir vazios e inserir grandes praças. De que forma a gente consegue conceber: qual é o menor espaço onde a gente pode conviver? Um parklet tem 30 m², aproximadamente. Você tira dois carros e coloca entre 50 a 60 pessoas num espaço desses assistindo a uma apresentação artística, com local para estacionar bicicletas, com paisagismo, banquinho. Se eu preciso conversar com essas pessoas, eu preciso encontrá-las em algum lugar. É preciso criar atrativos para que elas frequentem as ruas e esses atrativos se traduzem em forma de conforto e arte. A gente precisava convidar as pessoas a retomarem as ruas.

A cidade é de todo mundo. É através desse diálogo que a gente vai conseguir fomentar microações que um dia vão se traduzir em macroações


OP - Um dos desafios para essa retomada das ruas é o medo. Como superar isso?
Liana – Experimentar é muito bacana. Algumas pessoas vão pra fora do país e não têm medo, caminham na rua até mais tarde. Quando a gente vai visitar Rio e São Paulo, que também são brasileiras, também são violentas, há pessoas que também têm medo, mas estão nas ruas. No Rio você sabe que pode ser assaltado? Sabe. Mas você não está só. São várias e várias pessoas nas ruas. E por que lá as pessoas estão nas ruas e aqui a gente não está? E as pessoas dizem: é o clima, aqui é muito quente. Já foi passar o verão no Rio? É um inferno. E em São Paulo? É um calor também, e tem gente na avenida Paulista engravatado num calor de rachar. Tem gente pedalando na neve, no calor, tem gente pedalando de todo jeito. A gente fica procurando subterfúgio pro nosso comodismo, o que é até normal. Mas, quando você vê outras pessoas fazendo e que isso é possível, vai lá e faz também. O componente de estarmos nas ruas é imprescindível para acabar com esse medo.

OP - Para superar, apenas coletivamente.
Liana – Isso. Às vezes, você pode estar dentro de um resguardo privado, mas se está sozinho, essa sensação de segurança não é integral. Cada um vai lidar com isso de uma forma diferente, mas o que estamos dispostos a perder? Pra mim, o que importa é a minha vida. Se é o celular, a bolsa, o carro, a bicicleta, seja lá o que for, bem-vindo à nossa desigualdade social. Isso aí não vai ser resolvido de uma vez. Quanto mais consumimos, mais distantes estamos de algo igual para todos. Porque todos não podem consumir da mesma forma. A gente precisa do espaço privado, mas também do público. Posso estar numa barraca da Praia do Futuro, mas não posso bloquear a passagem das pessoas.

OP – O Centro sintetiza boa parte dos desafios de Fortaleza. Tem uma pujança durante o dia, mas depois é árido. Como recuperar o Centro?
Liana – A gente procura direcionar o uso misto de uma região. É comercial, residencial, institucional. O interessante é que tenha vida durante horas diferentes, mas ao longo do dia todo. Se, ao fim do dia, o Centro esvazia, ninguém está em casa ali. As pessoas saíram do trabalho e foram embora e o comércio está fechado. Eu vou fazer o quê? A não ser que vá ao teatro, pra algum evento específico. Esse “estou indo pra casa” quer dizer: desci no ponto de ônibus, passei em frente a uma praça, que tem um monte de gente brincando etc.

OP - Está sugerindo um programa de moradia para o Centro?
Liana - Isso. Existem programas de sucesso voltados pra isso. Há vários imóveis fechados no Centro. As pessoas estão precisando morar e há imóveis fechados no Centro. E se você converter todos eles em comercial? A gente tem esse potencial comercial todo, pra aumentar ainda mais a rotatividade? Está claro que inserir moradia ali é imprescindível, até pra que você passe a atrair pra lá comércio fora do horário do comércio lojista, que possa ter um restaurante que fique aberto até mais tarde, um mercadinho que fique aberto até mais tarde. Automaticamente, outros circuitos vão se estabelecer. É possível criar um circuito cultural noturno. Agora, é lógico que se estou sozinha rua, escura, as pessoas não vão. Esse olhar pra cidade tem que ser constante. É quase como se ali a gente tivesse um pedaço da cidade que morre. Ele se apaga. Não é pra gente pensar assim. A gente tem que abraçar Fortaleza em todos os sentidos. Você pode não ter interesse em morar lá, mas, para o coletivo, é importante.

Webdoc Conviver

 

 

Água

Risca do mar

Por Henrique Araújo


Risca do mar. Foi assim que o pescador começou a explicar por que havia deixado a jangada de lado para se concentrar na pesca de anzol, em terra firme, sem os perigos e enjoos do balanço. Faz tempo. Meninote, foi descobrindo que não tinha estômago para o sacolejo aflitivo das ondas quando embarcava ao lado do pai. Trinta anos depois, agora com o filho João Aquiles a tiracolo, o funcionário da Companhia Siderúrgica do Pecém protege os olhos da claridade enquanto vê o longe das águas na Ponte Velha, na Praia de Iracema. “Ali”, aponta. “Os pescadores chamam de risca do mar.”

A faixa dista uns 22 quilômetros da costa. Depois dela, explica, as ondas estão maiores e o pescado, diverso. Espécie de zona limítrofe, delimita o conhecido do desconhecido, o hábito do imprevisto. Era o problema de Cláudio, que não conseguia ir além desse firmamento. Melhor estar na terra, apenas de passagem aos domingos, num lazer mais prazeroso porque ao ar livre e com a família, fisgando pouco, mas sem a barriga revolvida.

Naquela manhã de fins de março, por exemplo, a pescaria na ponte havia rendido quase nada. Até as 11 horas, só uns xaréus e uns batatas, tudo coisa miúda, desimportantes para o almoço ou jantar, mas graúdos para a diversão. “A oferta de peixe tem diminuído”, diz Cláudio antes de pedir isca para Aquiles, 5 anos. O menino se apressa. Vestindo camisa do Super-Homem e calção do Batman e calçando Havaiana do Homem de Ferro, ele se divide entre recolher o peixe e as brincadeiras com os primos Joelson, 16, e Valentino, 17, que irão em breve do alto da estrutura carcomida pela ferrugem. Agachado, Aquiles pinça da Tupperware um camarão dos pequenos, que entrega ao pai.

Foto: FOTOS CAMILA DE ALMEIDA
"Por quanto tempo esta ponte ainda resiste ao tempo?", indaga Cláudio. FOTOS: CAMILA DE ALMEIDA

O mais é rotina: lançar a linha e esperar a puxada. Passam-se horas assim, numa espera infinita de que algo aconteça. “Tá vendo aquela mancha escura?”, aponta novamente. A mancha sobe e desce a intervalos regulares. “É uma tartaruga. A mesma de sempre. Como é o nome dela?”, pergunta aos sobrinhos. Ninguém lembra. Joelson, 16, até se esforça. Um nome com J, tenta apanhar de cabeça, mas interrompe a rememória do bicho pra dar um salto. Pega distância e pula. O primo o segue na travessia. A entrada na água produz esse som entre o prazer e o susto. Em segundos, ambos nadando, pernas e braços em movimento coordenado.

Aos 36 anos, pele queimada e olhos tão claros quanto o mar que bate na carcaça do Mara Hope, Cláudio assiste aos sobrinhos. Gosta da ponte. Tem apenas ressalvas. “Precisava de uma reforma. Queria que viessem mais famílias. É um lugar muito bonito.” E uma pergunta: “Por quanto tempo esta ponte ainda resiste ao tempo?”

Para Antonio Leandro Rodrigues, a ponte é tudo. Empoleirado na plataforma que se ergue sobre a estrutura que um dia serviu para desembarcar os contêineres que chegavam de navio ao antigo porto, o jovem de 22 anos já havia saltado pelo menos sete vezes na última meia hora. Depois do último pulo, cansado, mas ainda não rendido, parou pra respirar. Antes de voltar à escadinha que leva ao patamar superior e de lá desenhar no céu um arco e cair de cabeça na água, Leandro, que descarrega produtos dos caminhões que abastecem restaurantes na avenida Beira Mar, tentou explicar por que a ponte velha é o melhor lugar de Fortaleza: “Só aqui dá pra sentir isso. É uma sensação de voar por dois segundos”.

Zeus na água

 

Foto: FOTOS CAMILA DE ALMEIDA
José Maria e Zeus na Lagoa da Parangaba. FOTOS CAMILA DE ALMEIDA

 

A Parangaba é uma lagoa de contrastes. Nela, uma mesma visada abarca desde o jet ski deixando um rastro de espuma branca na manhã chuvosa de feriado de Semana Santa até o casebre erguido num dos cantos dentro do qual o casal prepara comida para cinco pessoas: dois adultos e três crianças. É vizinha da Feira dos Pássaros, um arranjo comercial antigo que foi mudando de praça até chegar ali, entre o Terminal da Lagoa e as águas da Parangaba.

Em seu entorno, funcionam restaurantes, oficinas e um ginásio poliesportivo, além do pequeno comércio de rua e de uma casa de shows. No fim da tarde, se você estiver voltando de ônibus ou de carro e erguer a vista na hora e no lugar certos, vai conseguir assistir a um dos pores do sol mais fantásticos da Cidade. E, no começo da manhã, de tão bonito que é o espelho d’água, vai esquecer que parte da rede de esgoto das casas é despejada na lagoa.

Numa dessas manhãs, José Maria Ferreira Lima, 60 anos, pode ser visto caminhando antes de assumir a rotina de conserto de carros e motos ali pertinho, na avenida José Bastos, um corredor especializado em mecânica automotiva. “Gosto dessa brisa”, diz, como se procurasse razão para estar onde está, à margem da lagoa. “É saudável.”

Às vezes, José Maria calha de sair na companhia de Zeus quando Zeus não está nos seus melhores dias. Explica: ora manso, ora temperamental, o cachorro também precisa do mesmo que as gentes: descanso, lazer e água farta para banhar-se.

De cabelos brancos e porte ainda jovial, vestindo bermuda e camisa, José Maria afrouxa a corda que atou ao pescoço do cachorro. Desse modo, se Zeus quiser nadar, terá folga. Do contrário, ficará ali, ao lado do dono, ambos parados: o homem, com água batendo na cintura. O bicho, com o focinho para fora. “Isso aqui melhora o dia da gente.”

A brisa da lagoa

Sebastião Duarte de Paula, 52 anos, é auxiliar de farmácia. Trabalha oito horas por dia, às vezes mais, quase nunca menos. É casado. Tem filhos. Baixo, pele amorenada e cabelo crespo, bermudão jeans e camisa de botão. Quando pode, sai de casa mais cedo. Hoje, podia. Chegou à Lagoa da Maraponga pouco depois das 14 horas. Antes, passou numa oficina e deixou a moto para um reparo qualquer. De lá foi andando, uma caminhada ligeira.

Vai quase sempre sozinho. Gosta de estar só. Sem relógio, cordões ou aliança. Naquela tarde de sábado, estava sentado num tronco no chão à sombra de uma árvore. Na água, um grupo de crianças brincava vigiado de longe por adultos. De tempos em tempos, Sebastião suspendia a vista da água e a fixava no relógio, a água e o relógio. Só parava para espichar os olhos em direção ao fundo do parque da Maraponga, uma área arborizada de 31 hectares que se estende às margens da avenida Godofredo Maciel, no bairro de mesmo nome.

Era um homem em compasso de espera. Dali a pouco, conta, teria de buscar a moto na oficina e voltar pra casa. “Não fico muito tempo aqui porque é perigoso. Venho mesmo porque gosto de desafios”, diz. Por que sempre volta? “Por causa da brisa, do ar fresco. É um descanso pro corpo”, respondeu antes de voltar a checar novamente as horas.

Ainda o mar

Foto: FOTOS CAMILA DE ALMEIDA
A praia do Mucuripe. FOTOS CAMILA DE ALMEIDA

 

Alexandra Maria, 29, e Leo Felipe, 21, chegam abraçados e continuam abraços mesmo depois de sentados. Acendem um cigarro, que fumam juntos. Alexandra compara a Ponte Velha a um brinquedo. “É a mesma coisa do Beach Park”. Leo dá risada. Para ele, quem não conhece a ponte “perde o mar. Perde de ser feliz”.

Paulo César, 45, é empresário e trabalha no interior do Ceará. De passagem por Fortaleza com a esposa, Ana Célia, 23, e o filho, tinha resolvido esticar a visita e ir até a ponte. “Vim para uma festa de formatura na Cidade e aproveitei para estar aqui”. Sobre o que mais havia chamado a sua atenção, respondeu: “Gosto de ver o Mara Hope”, o navio encalhado que, junto com o esqueleto do Acquario e a própria ponte, forma uma santíssima trindade feita de ruínas naquele pedaço da comunidade do Poço da Draga.

Há dois anos trabalhando na ponte, a merendeira Conceição Lima, 49, ainda se admira quando deita a vista no mar. “Tudo é bonito, mas está destruído”, elogia e reclama, refém desse credo de quem aprendeu a amar Fortaleza sem, todavia, perdoar-lhe os pecados. Da banca de comidas, onde vende pastéis e sucos a R$ 2,50, Conceição gosta mesmo é de acompanhar as manobras do filho, surfista desde que se entende por gente.

Para Cauê Vinícius, 25, entregador de pizza e mecânico, se passasse por uma reforma, “a ponte seria o melhor ponto turístico de Fortaleza”. Morador do bairro Jardim Iracema, o jovem lamenta que, em vez de ajeitarem a velha construção, tenham erguido ali perto “um monstrengo”.

Espaços públicos

No meio da rua

Por Henrique Araújo

Inês de Sousa, 50 anos, tem três dezenas de balões em cada mão. Até o fim do dia, não terá nenhum. A cada hora que passa na praça do Lago Jacarey, Inês vai se desfazendo de um Minions, uma Minnie, um Pateta e uma Frozen. Cada um vendido a R$ 10, cada um saindo de suas mãos para a de uma criança que, ao ver de longe um Ben 10, agitando-se no ar, puxa o pai ou mãe pela manga da roupa e implora, por favor, que compre um balão. Nessas horas, Inês torce secretamente para que essa disputa termine sempre com a vitória da criança. Os negócios, afinal, dependem disso.

O casal mineiro Igor e Thaís Oliveira Ramalho começa a tarde com algumas dezenas de bolo de pote empilhados na banca, uma das 20 cadastradas para oferecer serviços na praça. Há quatro meses, cometeram uma heresia e deixaram de lado o sacrossanto feijão tropeiro, item obrigatório na rica gastronomia do estado onde nasceram. Numa aposta ousada, resolveram se concentrar no bolo de pote. “Os clientes até pedem (feijão tropeiro), mas, por enquanto, estamos apenas com o bolo”, explica Thaís, uma das barraqueiras instaladas no logradouro mais movimentado da Cidade dos Funcionários, bairro popularmente chamado de Aldeota Sul.

“Ai, meu Deus. Acho que é gente besta”, diz, sorrindo, Thelma Gomes de Menezes. Aos 58 anos, a comerciante, que se gaba de vender os melhores sanduíches da área, faz troça do desejo matuto de quem sugeriu mudar o nome do bairro para Aldeota Sul, uns anos atrás. Intenção que não foi além disto: intenção. Todavia, passado esse tempo, há quem insista na proposta esdrúxula. “Aqui é bem melhor que a Aldeota”, sapeca a vendedora. E ai de quem disser o contrário.

Guiando uma chapa quente numa das barracas mais próximas do lago — um espelho d’água de 1,51 hectare e 18.131 m³ que reflete a luz do sol à tardinha e convida para um passeio — Thelma trabalha de sexta a domingo. De auxiliar, apenas um rapazote, que descarrega cadeiras e mesas e monta e desmonta toda a estrutura. Na praça, ela é uma espécie de recepcionista de quem chega por uma das ruas laterais. E não se importa de dividir o espaço com quatro pôneis que fazem passeios de charrete a R$ 5 e um escorregador inflado em cujo topo meninos e meninas berram alto antes de descer.

Revitalizado há pouco tempo, o Lago Jacarey é uma síntese dos espaços públicos de Fortaleza. Com jeitão de praça de igreja matriz de interior, o lugar tem ampla área verde, parquinho para crianças, artista de rua que inscreve o nome do cliente no arroz, show popular, barraca de miçangas, barraca de comida (destaque para o MacLago, pioneira no serviço de quitutes diversos), música ao vivo, um oratório, uma banca de revista e, para fazer jus ao espírito galhofeiro do cearense, um trenzinho da alegria. É como se misturassem a avenida Beira Mar com o Cocó e depois acrescentassem um pouco da praça Luíza Távora e do polo de lazer do Conjunto Ceará. Está pronta a receita do sucesso do Jacarey.

 

Foto: FOTOS CAMILA DE ALMEIDA
Os pais de Bianca costumam levá-la ao Lago Jacarey para passear. FOTOS CAMILA DE ALMEIDA

“Gostamos da segurança daqui do lago. É muita família. Viemos uma vez apenas com os amigos e gostamos. É melhor do que estar em shopping. Agora, trazemos nossa filha”, conta Juliano Máximo, 32, consultor de dentistas. Com apenas um ano e dois meses, a pequena Bianca pode ser vista no fim da tarde correndo pra lá e pra cá sempre que a Inês passa com as mãos ainda cheias de balões de princesas e príncipes sorridentes flutuando presos por barbantes. LEIA

No mato e no mar

 

Foto: FOTOS CAMILA DE ALMEIDA
Caio, Talita e Murilo aproveitaram o "lugar agradável" que é o Parque do Cocó para fotografar o book à espera de André. FOTOS CAMILA DE ALMEIDA

 

O que há em comum entre o Estoril e o Parque do Cocó? Um fica no meio do mato. O outro, à beira-mar. Um, frequentado para aulas de ioga. Outro, ponto certo para dançar, beber e jogar sinuca. Um, reserva preciosa de fauna e flora. Outro, ícone da boemia alencarina. Além das diferenças, porém, há uma ponte invisível que liga o Cocó ao Estoril, a floresta ao mar: numa Cidade com mais de dois milhões e meio de habitantes e clima quente durante boa parte do ano, ambos são um alívio para a moleira do cearense. O Cocó é protegido pela copa das árvores. O Estoril é banhado pela brisa do mar.

 

O parque ecológico reúne atletas, amantes do verde e casais prestes a ter o segundo filho, como Caio Maia, 31, e Talita Maia, 30, pais de Murilo, dois anos, e à espera de André, que pode nascer a qualquer momento — “inclusive no dia do aniversário de Fortaleza”, aventou Caio. Há duas semanas, os dois podiam ser vistos numa das trilhas do parque. Fotografavam um book. “Resolvemos fazer aqui porque é verde, espaçoso, um lugar agradável, em contato com a natureza”, explicou Caio.

 

Foto: FOTOS CAMILA DE ALMEIDA
Danielle e Cristiano frequentam o Estoril. FOTOS CAMILA DE ALMEIDA
 

 

Longe dali, na rua dos Tabajaras, Danielle Lustosa Jucá, 27, terminava de encaçapar uma bola na sinuca quando Cristiano Câmara, graduando em artes visuais, propunha um brinde. À amizade. Estudante de Gastronomia, Danielle explica por que, numa noite de sábado, não há lugar melhor em Fortaleza que o Estoril. “É de frente para o mar e tem a brisa. E todos os amigos estão aqui.” Para Cristiano, o Estoril é como o Cocó, mas de um jeito diferente. “É uma zona comum de curtição.”

Refúgio na Cidade

Era começo de tarde de sábado, e havia ameaça de chuva no céu. Mariana Martins, 21 anos, bamboleava no selim da bicicleta. Mais alguns metros, porém, e o guidão se aprumava um pouco, com a bike finalmente andando em linha reta. A vitória foi comemorada discretamente com um sorrisinho.

 

Foto: FOTOS CAMILA DE ALMEIDA
A praça Luíza Távora é um oásis em meio à Aldeota. Ali, brinquedos, skates, bicicletas, pombos e pipoca convidam à convivência. FOTOS CAMILA DE ALMEIDA
 

 

O local escolhido pela estudante de Letras para recuperar o equilíbrio sobre duas rodas tinha de ser aquele: a praça Luíza Távora. Não é que não soubesse andar de bicicleta, falou. É que tinha esquecido. E, para refrescar a memória de quando sabia a pedalar, o melhor lugar era aquele. As razões, explica a jovem, concentram-se numa só: “É um lugar privilegiado. É segura não porque tem segurança, mas porque tem gente ocupando”.

Ao lado, o amigo e “personal bike angel” Caio Barreira, 21, concordava com cada palavra. “As pessoas tornam o lugar seguro, não a Polícia”, discursou o estudante de História. E continuou a evitar que a amiga levasse um tombo e a comemorar cada progresso da pupila.

Caio e Mariana não estavam sozinhos. A opinião de ambos era a mesma de boa parte dos usuários da praça, para os quais a Luíza Távora é um oásis no meio da aridez urbana. Arborizada, com equipamentos para crianças, limpa e segura, o logradouro destoa do que o fortalezense costuma associar a espaços do tipo na Cidade. Melhor: é de graça. Não tem o ar-condicionado nem os guardas ostensivamente vigilantes do shopping, mas tem o que, segundo a professora universitária Ana Valeska, é algo mais precioso: saúde coletiva. “A praça dá oportunidade que outros espaços não dão”, disse. E voltou a jogar pipoca para os pombos.  "Não estamos em Veneza, mas temos a Luíza Távora. Vamos aproveitar”, convidou.

Era o que Mateus Batista estava fazendo: aproveitando. Aos 12 anos, dois deles dedicados a manobras de skate, tinha acabado de cortar o cabelo no salão de beleza ali pertinho. Mas, como precisasse estar pontualmente às 17 horas na praça para encontrar os amigos, não tinha passado em casa pra tomar banho. Resultado: cabelos pinicando nos braços e pescoço. Com um topete esculpido a tesoura e gel, o garoto parou um minuto para respirar antes de responder por que gostava mais daquela praça que das outras. “A Luíza Távora é massa”, resumiu. E se encarapitou novamente na prancha com rodinhas.

Com palavras mais difíceis e frases mais longas, o médico Décio Sampaio, 35, disse algo parecido: “A Cidade tem carência desse tipo de espaço. No shopping, por exemplo, a gente não consegue colocar as crianças para praticarem as mesmas atividades”.

Aos sete anos, Lis, filha da Ana Valeska, haveria de concordar com o médico. Ora jogando pipoca aos pombos, ora correndo, ora as duas coisas, a menina, que tinha aprendido a andar de bicicleta com a irmã mais velha naquela mesma praça, pensaria duas vezes se precisasse trocar aquele pedaço de Fortaleza por um cercadinho refrigerado onde ninguém sabia se era dia ou noite, sábado ou segunda-feira.

Artigo

Cultura "urbanicida" em Fortaleza

Por Ademir Costa


O aniversário de Fortaleza deveria ser motivo de alegria para o seu povo, porém noto que transcorre sob certa indiferença. Morando aqui há 42 anos, nunca vi comemoração com grandes manifestações nas praias, nas ruas, praças e teatros, tampouco nos parques e áreas verdes. Em minha cidade, Caxias do Maranhão, o aniversário é feriado municipal e motivo de exaltação de nossas tradições e de personalidades como Gonçalves Dias, Vespasiano Ramos, Coelho Neto e Teixeira Mendes — um dos idealizadores da Bandeira Nacional e autor do dístico “Ordem e Progresso”. Nos anos 1970, passamos a fazer a Festa do Arroz como parte das comemorações. Estranhei não encontrar algo similar por aqui.

 

Foto: FOTOS CAMILA DE ALMEIDA
Ademir Costa é jornalista e diretor do Movimento ProParque. FOTOS CAMILA DE ALMEIDA


As autoridades me parecem descuidadas com a memória de Fortaleza, em prejuízo de seus habitantes. Cultivam uma atitude “urbanicida”. Há descaso para com o centro histórico — área que hoje evoca mais um cenário de guerra, com prédios abandonados, pessoas em situação de rua e praças pouco acolhedoras, dada a sujeira e a escassez de plantas de porte arbóreo. Poderia citar mais, porém dou um só exemplo: a praça José de Alencar, descaracterizada desde que transformada em central de ônibus e, posteriormente, com reformas que não lhe devolveram as árvores, o concreto predominando.

O povo reclama, mas é pouco ouvido. Nos bairros, quadro semelhante. A Aldeota sufocou o riacho Pajeú, pontes impediram a navegabilidade e causaram o represamento do rio Cocó, com danos até hoje não avaliados. Moradias irregulares, obras já implantadas e outras planejadas para suas margens, como ponte estaiada e conjuntos habitacionais, indicam desprezo à preservação de nosso principal rio. Aqui se planejam avenidas e outras vias nas margens de rios, apesar de exemplos ruins como o de São Paulo.

Adensam-se moradias de má qualidade, crescem o aterramento e a poluição de riachos, rios e lagoas. Suas margens teriam sido transformadas em áreas verdes públicas, para a população conviver em atividades culturais e de contemplação da natureza, se respeitados o Código das Águas, de 1934, e o Código Florestal, de 1965. Consequências: alguns cursos d’água exalam mau cheiro e quase todos estão com cobertura de aguapés, a indicar a sua má qualidade e, no extremo, a eutrofização. Desapareceram o lago do Jacarecanga, as Lagoas Secas do Pirambu e da Maraponga, entre outras. Já as do Porangabussu, Tabapuá e do Jacarey estão com margens muito reduzidas para uso do público.

Dá pena e revolta aos que nutrem “outro sonho feliz de cidade” conversar sobre Fortaleza de 50 ou 80 anos atrás. Fotos daquela Fortaleza demonstram praias, ruas, praças, prédios e suas molduras vegetais, hoje devorados pela “força da grana que ergue e destrói coisas belas” (Caetano, Sampa). Acrescente-se a insegurança e pronto: as pessoas estão prisioneiras em suas próprias casas, privadas do contato com a natureza. Condenadas em uma cidade-claustro.

CONVIVER

Especial Conviver

3º caderno em comemoração ao aniversário de 290 anos de Fortaleza