Um bem incalculável

Em comemoração ao Dia Mundial do Livro, 23 de abril, O POVO discute a relação com os vários suportes de leitura. A data é marcada pelos aniversários de morte de William Shakespeare e Miguel de Cervantes, pais do homem moderno

Por Isabel Costa

No papel, no pergaminho, na tábua de madeira ou no tablet. O livro sempre sobrevive. Mais do que um suporte, ele é um bem inalienável da humanidade. Em alusão ao Dia Mundial do Livro, comemorado em 23 de abril, o Vida&Arte inicia uma série especial sobre os caminhos percorridos pelo instrumento capaz de despertar sensações indescritíveis. É através do livro, de papel ou virtual, que nos desafiamos a conhecer novas pessoas e novas passagens.

Os livros já passaram por vários suportes. Da argila ao papel e ao computador. Investir na discussão “tablets substituem livros físicos”, portanto, não se justifica mais. Conforme explica Daniela Manole, diretora da Câmara Brasileira do Livro (CBL), os leitores querem acessar os conteúdos com o formato mais adequado para cada momento. Em casa, o livro físico. No ônibus, o celular. Na faculdade, o tablet. No trabalho, o computador.

Bruna Vasconcelos (Foto: Fábio Lima/ O POVO)

“Os vários formatos convivem em paralelo. Isso já foi desmistificado. Não se fala mais que o livro vai morrer em um formato impresso”, esclarece. Para atrair os leitores à compra de material físico, entretanto, as editoras têm investido cada vez mais em edições caprichadas – que oferecem, além da leitura, experiências diferenciadas com o toque e os sentidos.

Para Stephanie Maia, 20 anos, a principal vantagem dos suportes digitais é não precisar carregar o peso. “Tablets, celulares, Kindle e Kobo são muito práticos de levar para todo lugar. É libertador não ter que se preocupar em armazenar o livro direitinho pra não amassar”, explica. Depois de estragar muitas edições, ela aprendeu a transportar somente os dispositivos móveis.

Entre os leitores ouvidos por O POVO, o apego as edições impressas como um bem colecionável é recorrente. “Apesar desses novos suportes de leitura oferecerem algumas vantagens, os livros físicos são especiais para mim. Nada substitui o cheirinho de livro novo ou o toque nas páginas que tanto me inspiram... Se eu gostar muito de uma história que li no formato digital, com certeza vou comprar no formato físico”, pontua Larissa Colares, 23 anos – formada em Jornalismo e estudante de Administração, ela lê cerca de cinco livros por mês – utilizando Ipad, Kindle e edições impressas.

A tendência é seguida por Bruna Vasconcelos, 23 anos, estudante de Letras – que lê textos em francês diariamente. Como os aplicativos de leitura online oferecem dicionários instantâneos, ela elegeu o celular como suporte para trabalhos acadêmicos. “Eu tenho uma edição impressa do livro Madame Bovary (Gustave Flaubert), mas também fiz leituras pelo telefone pois podia consultar o dicionário facilmente”, explica.

Para os momentos de fruição, entretanto, Bruna aposta no livro impresso como opção. “Por mais que o suporte eletrônico ofereça praticidade, o livro físico tem um charme especial. Não sei explicar, mas sinto essa diferença. E ainda hoje, quando eu posso, opto livro físico”, conta a estudante – que no momento se dedica a leituras do francês Jean-Baptiste Poquelin, Molière.

Especial
O POVO publica, a partir desse domingo, 24, uma série especial em alusão ao Dia Mundial do Livro – data comemorativa que marca as mortes dos escritores Shakespeare e Cervantes. Segunda, 25, e na terça-feira, 26, haverá material especial no caderno Vida & Arte. Na quarta-feira, 27, um debate será realizado no Espaço O POVO de Cultura &Arte com especialistas e leitores.

Serviço
Debate sobre Shakespeare, Cervantes e o Dia Mundial do Livro
Quando: quarta-feira, 27 de abril, às 19h

Onde: Espaço O POVO de Cultura &Arte (avenidaAguanambi, 282)
Outras info: 3255 6115

''Não acredito no fim do livro impresso, pelo menos não em um horizonte próximo''

Ivana Jinkings, fundadora e diretora da Boitempo Editorial, reflete sobre os caminhos e a presença dos livros ''impressos ou digitais '' no Brasil

Divulgação
 

O POVO - O Dia Mundial do Livro, 23 de abril, nos faz lembrar da relevância desse objeto para a construção das sociedades. Qual o papel do livro - enquanto mecanismo difusor da cultura - no Brasil?

Ivana Jinkings - O livro é uma ferramenta capaz de explicar a história, de transformar o panorama intelectual de um tempo. No Brasil (e também no resto do mundo), são em geral pequenos e médios editores – principais defensores do livro como um bem cultural e não como simples mercadoria – os que se dedicam a difundir ideias novas, descobrir autores e formar leitores. Mas num contexto de forte concentração, veem-se obrigados a diminuir as tiragens e elevar o preço médio de suas publicações. Resultado, em parte, da política engendrada pelos conglomerados livreiros, que vendem espaços às megaeditoras e ocupam majoritariamente suas prateleiras com best-sellers, impondo o achatamento da oferta de obras de conteúdo, cada vez mais dirigidas a uma reduzida elite pensante.Na Boitempo, editora que dirijo ao longo de seus 20 anos de atividade, para fazer frente a isso estabelecemos uma linha editorial coesa, conquistando um público fiel e participativo, que muito nos alimenta. Adotamos uma linha editorial clara, capaz de defender os valores cidadãos e a luta por uma sociedade mais justa e igualitária, e essa tem sido nossa colaboração para manter o livro como importante difusor de cultura.

OP - O público brasileiro ainda lê pouco? Ou essa é uma falácia que nos acostumamos a repetir?

Os amantes dos livros, os leitores contumazes via de regra preferem o livro impresso, gostam do cheiro do papel, da textura etc

Ivana JinkingsFundadora e diretora da Boitempo Editorial

Ivana - Há uma pesquisa, “Retratos da leitura no Brasil”, que reúne análises de especialistas que compararam índices brasileiros com os de outros países e também a relação desses dados com as políticas públicas e ações de incentivo à leitura. Esse estudo diz que a grande maioria dos jovens (cerca de 80%, ou 24,3 milhões) entre 11 e 17 anos leem apenas os livros obrigatórios para escolas. Destes, 13 milhões acham os livros entediantes e 6,5 milhões não leram nenhum livro durante os últimos três meses. Mas a pesquisa também indica que 4,8 milhões de jovens leem por prazer. São números modestos, e por isso preocupantes, e de fato mostram que no Brasil se lê pouco. Ainda carecemos de políticas públicas e há outras questões a serem levadas em conta, como a identificada pela escritora Ana Maria Machado, que aponta perda do ambiente doméstico como principal influência na formação de leitores.

OP - Em recentes pesquisas tem-se falado que os livros em formato digital vêm perdendo força nos mercados - nacionais e internacionais. Quais as vantagens e as desvantagens desse formato no ponto de vista do leitor e no ponto de vista editorial?

Ivana - Houve retração especialmente no seguimento de ensaios, livros acadêmicos de modo geral, e algum crescimento na venda de livros de ficção no formato digital. Isso talvez se explique, em parte, porque há uma questão não resolvida ainda neste formato, que é a citação de páginas em referências e notas de rodapé. As teses e dissertações exigem informações completas, que os ePUBs (formato de arquivo digital) não oferecem. Além do mais, os suportes ainda não são muito acessíveis no Brasil. Apesar disso, naBoitempo apostamos bastante no formato digital, começamos a disponibilizar os chamados e-books em 2011, o que permite uma diminuição significativa no preço de capa. Reduzimos nossa margem sobre o exemplar digital e praticamos preços que estão abaixo que os do mercado internacional; com essa nova política de preços nossos títulos digitais passaram a custar até 65% mais em conta do que a versão impressa, uma redução acima da média brasileira em termos relativos e absolutos.

OP - Há uma discussão que eleva os formatos mais modernos e rechaça a uso de livros em papel. Os chamados e-books, afinal, serão capazes de substituir os livros de papel? Ou eles funcionam mais como um complemento para determinadas situações?

Ivana - Não acredito no fim do livro impresso, pelo menos não em um horizonte próximo. Penso que os dois formatos sejam complementares, há momentos em que é melhor ter o impresso, em outros o digital. E há quem prefira um suporte ao outro, como em qualquer outra situação que envolve mais de uma opção. Os amantes dos livros, os leitores contumazes via de regra preferem o livro impresso, gostam do cheiro do papel, da textura etc. Eu me coloco entre esses, nunca li um livro inteiro, apenas textos dispersos, no formato digital.

Vídeo

O POVO.Dom - Assista ao Vídeo

Do papiro ao tablet

Antiguidade
A escrita surge
Primeiro são usadas tábuas de argila ou pedra
O papiro é introduzido, principalmente com escrito em latim
Depois, há a introdução dos pergaminhos

Idade Média
O livro sofre com perseguições motivadas por fervor religioso
Nos templos religiosos, textos eram copiados à mão
O papel substitui progressivamente o pergaminho
No Oriente começam movimentações para impressão em massa

Idade Moderna
Gutenberg desenvolve os tipos móveis e a impressão fica mais ágil
A produção em série fica mais acessível
Os livros ficam mais fáceis de carregar e os romances se popularizam

Idade Contemporânea
O acabamento dos livros sofre avanços
Há diálogos com outras plataformas, como revistas e jornais
Surgem as edições de luxo, ilustradas ou especiais
Surgem os livros eletrônicos, lidos primeiro nos computadores
A popularização dos tablets dá inicio a uma nova fase
Outros dispositivos, como o Kobo e o Kindle, surgem para facilitar a leitura
Editoras investem cada vez mais em versões online
Leitores têm nova experiência com livros em vários suportes

Os pais do homem moderno

Moinhos de vento, fantasmas e conspirações: no mês em que se celebra o aniversário de 400 anos da morte de Shakespeare e Cervantes, o Vida& Arte discute como o universo criado por eles ajudou a definir o homem moderno

Por Jáder Santana

Foto: Divulgação
 

Na cena IV do primeiro ato de Hamlet ficamos sabendo que “há algo de podre no reino da Dinamarca”. Em outro momento, aparece o questionamento que cruzou séculos: “ser ou não ser, eis a questão”. Hamlet é a tragédia da dúvida, do desespero e da violência do mundo. O que é mais trágico, afinal, que o espírito do homem moderno?

Foi o príncipe Hamlet, em sua trajetória de vingança e loucura, que ajudou a definir a representação do homem moderno na literatura. Agora, é a condição humana que está sendo investigada. “O príncipe tem seu eu fragmentado, estilhaçado em um mundo oco, vazio, estéril, e isso permite ao leitor perceber uma nova constituição do sujeito”, reflete o professor doutor Paulo Roberto Nogueira, do Departamento de Letras Estrangeiras da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Distante algumas centenas de quilômetros da podridão do reino da Dinamarca e dos palcos do GlobeTheatre, onde Shakespeare apresentou muitas de suas peças, um perspicaz Cervantes revolucionava as letras de sua Espanha natal. Seu arquétipo de homem moderno vagueia por La Mancha a cavalo, desvairado depois da leitura sem fim de romances de cavalaria. Confunde moinhos de vento com gigantes, prostitutas com donzelas. Como um Hamlet tragicômico, entrega-se à loucura.

“Ao leitor é confiada a tarefa de fixar a pluralidade de significados opostos que se espalham a partir dessa realidade ficcional. A ambiguidade, elemento que permeia toda a narrativa, é substituta da alegoria medieval, de forma que Dom Quixote é o cavaleiro menos medieval que a ficção poderia criar”, defende a professora da UFC Maria Inês Cardoso, doutora em literatura espanhola pela Universidade de São Paulo (USP).

Separados pela geografia mas unidos pela aguçada percepção com que registravam o comportamento de seus contemporâneos, William Shakespeare e Miguel de Cervantes morreram no mesmo ano, com um dia de diferença. Em 22 de abril de 1616 morreu o espanhol, possivelmente de cirrose hepática e diabetes. No dia seguinte, o bardo inglês nos deixava, vítima de uma febre mal cuidada.

Honram a alcunha de clássicos quando, 400 anos depois, continuam rendendo homenagens, pesquisas e discussões. Seus modelos do homem moderno - ambíguo e complexo - permanecem atuais. Seus conflitos e dúvidas, seu humor e ironia, iluminaram a produção literária dos séculos seguintes, inspirando de Lima Barreto a James Joyce, de Machado de Assis a Charles Dickens.

Do confronto entre consciência e ação que criadores propunham e criações experimentavam, ficou uma nova forma de enxergar o mundo. Mais trágica, sem dúvidas, mas é de pequenas tragédias que somos todos construídos.

Para entender Shakespeare

Reprodução
 

Shakespeare - Vidas Ilustradas
Autor: Holden, Anthony
Preço médio: R$ 15
Editora: Ediouro - RJ

Shakespeare - Coleção L&pmPocket - Série Biografias
Autor: Mourthé, Claude
Preço médio: R$ 20
Editora: L&PM

Shakespeare Para Apaixonados - 72 Doses de Romantismo Para Aproveitar Melhor o Amor A Cada Dia
Autor: Allan Percy
Preço médio: R$ 25
Editora: Sextante

Shakespeare - o Que As Peças Contam
Autora: Barbara Heliodora
Preço médio: R$ 59,90
Editora: Edições de Janeiro

Por que Ler Shakespeare
Editora: Globo Livros
Preço médio: R$ 12,60
Autor: Bárbara Heliodora

Como Shakespeare se tornou Shakespeare
Autor: Stephen Greenblatt
Preçomédio: R$ 64,90
Editora: Companhia das Letras

Shakespeare e a Economia
Autor: Henry W. Farnam
Preço médio: R$ 9,90
Editora: zahar

Para entender Cervantes

Reprodução
 

Cardenio Entre Cervantes e Shakespeare - História de Uma Peça Perdida
Autor: Roger Chartier
Editora: Civilização Brasileira
Preço: R$ 49,90

O Comedido Fidalgo - a Vida Aventureira de Cervantes Em Sevilha
Autor: Juan Eslava Galán
Editora: Benvirá
Preço: R$ 30

As Vidas de Miguel de Cervantes
Autor: Andrés Trapiello,
Editora: José Olympio
Preço: R$ 50

Cervantes
Autor: Jean Canavaggio
Editora: Editora 34
Preço: R$ 70

A narrativa engenhosa de Miguel de Cervantes
Autor: Maria Augusta da Costa Vieira
Editora: Edusp
Preço: R$ 37

Shakespeare e Cervantes em cinco atos

William Shakespeare em cinco atos

Televisão
Som e Fúria (2009)
Série lançada pela Rede Globo com direção de Fernando Meirelles. A linguagem da trama é coloquial e mostra os dilemas dos integrantes de uma companhia teatral especializada em peças de Shakespeare.

Cinema
Romeu + Julieta (1996)
Com bilheteria de US$ 46 milhões, o filme tem uma versão atualizada de uma das peças mais conhecidas de Shakespeare. Nos papeis principais estão Leonardo DiCaprio e Claire Danes. Os diálogos originais foram mantidos

Cinema
Shakespeare Apaixonado (1999)
O jovem astro do teatro William Shakespeare (Joseph Fiennes) sofre de bloqueio criativo e não consegue escrever. Ele conhece Viola De Lesseps (Gwyneth Paltrow), uma jovem que quer atuar, algo proibitivo no século XVI.

Mangás
Romeu e Julieta (2011) e Hamlet (2011)
Com estilo gráfico moderno dos mangás, a Galera Record publicou duas adaptações da obra de Shakespeare: Hamlet e Romeu e Julieta. Cada volume é ilustrado por um quadrinista diferente, e traduzidos pelo poeta Alexei Bueno.

HQs
Shakespeare em Quadrinhos (2011)
A Editora Nemo publicou uma coleção com seis adaptações de obras shakespereanas para os quadrinhos: Romeu e Julieta, Otelo, Rei Lear, Macbeth, A Tempestade e Sonho de Uma Noite de Verão.

Miguel de Cervantes em cinco atos

Musical
El hombre de la Mancha (1997)
Encenado na Espanha, o musical teve grande sucesso de público - com José Sacristán interpretando Cervantes/Quijote e a cantora Paloma San Basilio como a personagem Aldonza.

Carnaval
Dom Quixote de La Mancha, o Cavaleiro dos Sonhos Impossíveis (2010)
A União da Ilha do Governador, escola de samba do Rio de Janeiro, fez uma homenagem a Quixote durante o Carnaval. Com samba enredo intitulado Dom Quixote de La Mancha, o Cavaleiro Dos Sonhos Impossíveis – grupo passeou por vários momentos da vida e da obra de Cervantes.

Infantil
A Saga de Dom Caixote (2015)
A Fabulosa Trupe de Variedades conta - utilizando a arte do palhaço, bonecos e teatro de sombra - a história de um sujeito que de tanto ler histórias de cavalaria resolve virar um cavaleiro andante e sair em busca de suas aventuras.

Teatro
À Sombra de Dom Quixote (2015)
O Coletivo Miassombra (PA) utiliza bonecos tridimensionais produzidos a partir de sucata eletrônica e plástica, entre outros resíduos, aliados a criação cênica com recursos de luz e a sombra. A peça está circulando nacionalmente.

Música
Dom Quixote (2003)
O grupo brasileiro Engenheiros do Hawaii,na sua canção Dom Quixote, az referência à luta pelas causas perdidas: “Tudo bem, até pode ser / Que os dragões sejam moinhos de vento / Tudo bem, seja o que for / Seja por amor às causas perdidas”.

As leitoras

Larissa Colares (Arquivo Pessoal)
 

Larissa Colares, 23 anos, jornalista e estudante de Administração

Larissa lê, em média, cinco livros por mês – utilizando iPad, Kindle e edições impressas. “O Kindle, em especial, acho muito prático. Quando vou sair e sei que vou ter tempo de ler - quando vou a uma consulta médica, por exemplo -, levo o Kindle. Ele é leve, tem um bom tamanho e facilita a leitura. Quando estou em casa, uso muito o iPad. Os aplicativos para leitura - que oferecem ao leitor a possibilidade de aumentar ou diminuir o tamanho das letras, alterar a luminosidade, fazer marcações, entre outras ferramentas - são atrativos. A possibilidade de pausar a leitura, quando a mesma está densa e requer uma pausa, e verificar o email ou as redes sociais é outra vantagem”, explica.

Stephanie Maia (Julio Caesar - Especial para O POVO)

Stephanie Maia, 20 anos, estudante de Design Gráfico
A estudante optou por ler toda a trilogia Millenium, do aclamado StiegLarson, no tablet. “Tentei ler o físico e não consegui. Eles são pesados e acaba doendo o braço depois de ler por muito tempo”, justifica. Stephanie é uma leitora assídua e utiliza várias plataformas: livro impresso, celular, notebook e tablet. A próxima aquisição, ela comenta, deve ser um Kindle - leitor de livros digitais desenvolvido pela subsidiária da Amazon, a Lab126. Apesar das múltiplas plataformas, ela não dispensa edições impressas – com cheiro, textura e cor. “Não acho eles (suportes digitais) substituem. Eles complementam. Cada um tem o seu espaço e funcionalidade”, aposta.

Bruna Vasconcelos (Foto: Fábio Lima)

Bruna Vasconcelos, 23 anos, estudante de Letras
Para driblar os altos preços das edições impressas, Bruna fica atenta as promoções. “Tem uma página no Facebook chamada Amo Livro com Desconto. Todo dia, eles postam descontos de vários sites e são promoções muito boas. Livros que eu compraria em lojas por R$ 50, compro virtualmente por R$ 20”, explica. Apesar do amor aos livros físicos, Bruna costuma ler em suportes digitais. As leituras em outros idiomas, por exemplo, são feitas no celular ou no computador. “Eu tenho uma edição impressa do livro Madame Bovary (Gustave Flaubert), mas também fiz leituras pelo telefone pois podia consultar o dicionário facilmente”, afirma.

Por que Cervantes ainda hoje?

por Cleudene Aragão, professora de literatura espanhola no curso de Letras da Universidade Estadual do Ceará

 

Por que Cervantes ainda hoje? Por que por tanto tempo? No dia 23 de abril de 1616, morria Cervantes, pouco tempo depois de concluir a segunda parte do El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha, em 1615. Hoje o 23 de abril é o dia mundial do livro e do direito autoral, celebrado com livros e rosas na Catalunya. Considerado por si mesmo “mais versado em desditas do que em versos”, Cervantes nos deixou uma obra reconhecida como um dos maiores monumentos literários universais.

Não teve mesmo muita sorte na vida, esse Cervantes. Lutou muito pela sobrevivência. Foi sequestrado por engano por piratas que pensavam que era nobre e passou cinco anos preso em Argel. Perdeu o movimento de uma mão na batalha de Lepanto. Parecia ele mesmo um personagem de livros de aventuras. Não foi poeta reconhecido, mas agradou. Foi dramaturgo amado pelo público, com suas peças e seus entremeses. Introduziu na Espanha o termo italiano “novella” para batizar seus longos contos que chamou de “Exemplares”, pois cada um deles trazia um ensinamento para a vida, retomando uma tradição dos “enxiemplos” medievais. Foi no romance que encontrou sua voz, seu tom e se tornou eterno.

Quem nunca desejou ser um super-herói e salvar a humanidade? Quem nunca desejou satirizar obras do seu tempo que repetiam mais do mesmo? Quem nunca fantasiou sair pelo mundo resolvendo as injustiças? Cervantes criou como seu protagonista Alonso Quijano, um fidalgo de poucas posses, de quase 60 anos (que, para a época, era um idoso no fim da vida), que “enlouquece” do “pouco dormir e do muito ler” livros com histórias mirabolantes de cavaleiros andantes. Alonso Quijano “criou” para si mesmo um personagem, com o qual sairia pelo mundo, tentando realizar seu sonho de resolver os problemas da Espanha: Don Quijote de La Mancha, um cavaleiro andante, com sua armadura enferrujada dos bisavós, seu cavalo magro Rocinante, seu escudeiro Sancho Panza e sua amada “de oitiva”, Dulcinea del Toboso.

Dom Quixote foi o primeiro grande romance moderno. Nele Cervantes inovou em tudo: no tratamento absolutamente realista da vida espanhola, no panorama irônico de costumes retratados, na linguagem que oscilava entre o mais erudito e arcaico espanhol dos cavaleiros andantes do S.XV e o mais colorido e autêntico espanhol dos camponeses do S.XVII. Nele se misturam centenas de personagens e suas estórias. Nele convivem todas as classes, num passeio frenético entre fantasia e realidade. Em um caleidoscópio narrativo, dividem-se vários narradores, desde aquele que começa em um lugar da Mancha do qual não consegue se lembrar, até chegar a encontrar os manuscritos do autor “real”, o árabe Cide Hamete Benengeli. Nele cabe até a história impressa em livro de Quixote e Sancho, que já aparece lá pelo meio da obra, provavelmente por artes de um mago.

Por que Cervantes ainda hoje? Por que por tanto tempo? Por toda a sua obra, que preparou o terreno para que ele escrevesse o romance mais incrível da nossa História. Por Dom Quixote, o único que pode nos defender.

Entrevista: Paulo Roberto Nogueira de Andrade

Professora do departamento de Letras Estrangeiras da Universidade Federal do Ceará (UFC)

O POVO - Em que medida Hamlet ajuda a representar as novas configurações do homem dito moderno? O que há em Hamlet que o difere do homem da antiguidade e do medievo?

Paulo de Andrade - A peça Hamlet apresenta o príncipe da Dinamarca com seu eu fragmentado, estilhaçado em um mundo oco, vazio, estéril. Isto permite ao leitor perceber uma nova constituição de sujeito até então não representada com a intensidade e evidência percebida em Shakespeare. A obra propõe uma investigação sobre a condição humana, como explica Bárbara Heliodora, uma tradutora e uma das maiores estudiosas de Shakespeare no Brasil. O antropocentrismo e a soberania do eu, o conceito de Individualidade evoluiram em toda a renascença até o romantismo.Outros conceitos que remetem ao homem moderno também podem ser observados na mais longa peça de Shakespeare. A subjetividade e a melancolia são aspectos culturais constitutivos do homem moderno. Hamlet sofre de si próprio, como afirma Pondé; ele tem conhecimento que não é compartilhado por outros, o qual lhe exige uma tomada de decisão moral. O contexto sócio-histórico, com o fim da era medieval, apresenta e valoriza o espírito da liberdade humana, do novo empreendimento e da celebração do homem mais do que de Deus. A personagem Hamlet está em busca de um encontro consigo mesma. Esta é uma característica relacionada à construção da subjetividade do homem moderno. Hamlet toma decisões (algumas tardias, talvez?) baseado em reflexões lógicas e na análise dos resultados de suas estratégias (por exemplo, incluir uma peça dentro da peça).

OP - A trajetória do personagem de Hamlet é marcada pelo constante confronto entre consciência e ação. É essa uma característica que abre as portas para um novo modo de se fazer literatura?

Paulo - Sim. De fato, as inúmeras reflexões e as frequentes confrontações da consciência e da ação de Hamlet a que os leitores e público são expostos, muitas vezes por meio de seus solilóquios, se apresentam como um novo traço na produção dramática. Talvez um exemplo prático seja uma das mais conhecidas frases não apenas do teatro inglês, mas da própria língua inglesa, a qual abre um dos solilóquios de Hamlet (To be or not to be: that is the question). Esse tormento individual e íntimo, presente no individualismo moderno, evidencia o surgimento de uma nova forma de se relacionar com o mundo e de se desenvolver artefatos artístico-culturais. No caso de Hamlet, pode-se exemplificar com a opção pela ambiguidade – Hamlet acaba chamando mais atenção com sua teatral loucura ao mesmo em tempo que seu discurso é percebido por interlocutores como bastante lógico. Shakespeare parece trazer a tragédia para dentro do homem. Também constrói um grande número de personagens não lineares; tem capacidade de explorar os contraditórios da sociedade e da vida humana.

OP - A figura de Shakespeare sempre esteve envolta em mistérios que dizem respeito a sua aparência, religião, sexualidade, e também em relação à autoria de suas obras. Considerando o que sabemos do autor, é possível afirmar que ele, como seus personagens, representou o espírito do homem moderno?

Paulo - Esta preocupação com a biografia do autor aparentemente ganha força na contemporaneidade. É importante mencionar que há registros sobre a vida de Shakespeare (certidão de nascimento, testamento, impostos) que não era um nobre, portanto, em um contexto histórico diferente de nossa época de registros, burocracia e novas tecnologias. Não era comum no século XVI ou início do século XVII termos rostos dos autores retratados na obra (o que ocorre com Shakespeare). Sobre religião, ele tinha um histórico familiar católico, o que poderia gerar alguma cautela da parte do autor tendo em visto o cenário político religioso da Inglaterra Elizabetana. Sugiro leituras de Stephen Greenblatt (Will in the World: How Shakespeare became Shakespeare) e James Shapiro (1599: A Year in the Life of William Shakespeare; Quem Escreveu Shakespeare) àqueles que buscam aprofundamento em aspectos da vida do autor ou até mesmo responder à pergunta se Shakespeare realmente existiu e se o próprio Shakespeare teria escrito as famosas peças e sonetos que lemos até hoje. Para registro, sim: Shakespeare existiu e escreveu as peças e sonetos que lemos. Há também registros de seu casamento e de seus três filhos. Shakespeare foi um escritor, ator, empreendedor do teatro. Sua obra apresenta aspectos que são associados ao homem moderno, como discutido anteriormente

OP - Shakespeare foi um autor popular durante sua vida? Ou foi só a partir do século XIX que ele realmente começou a ser visto como um dos maiores da língua inglesa?

Paulo - Shakespeare já era um dramaturgo famoso em vida. Logo após usa morte, o First Folio (1623) já poderia ser considerado como um sucesso de vendas para a época. Já no século XVII, era considerado um clássico. O século XVIII iluminou a carreira da dramaturgia shakespeariana; houve lançamentos de edições completas de seus trabalhos. No século XIX, o Romantismo parece ter consolidado a reputação de Shakespeare. No fim desse mesmo século, estudos e pesquisas acadêmicas em Oxford e Cambridge contribuíram para a elevação de sua obra. Ainda hoje suas peças são encenadas em todo o mundo, novos estudos acadêmicos são conduzidos, novas traduções são lançadas. Diferentemente, de muitos autores, pintores e compositores que morreram pobres e no ostracismo, os registros históricos disponíveis apontam que Shakespeare foi muito bem sucedido ainda em vida.

OP - Por que Hamlet, Romeu e Julieta, Macbeth e muitos outros continuam sendo revisitados 400 anos depois da morte do autor? De onde vem o caráter atemporal de Shakespeare? O que há em seus escritos que o torna universal?

Paulo - Há inúmeras razões para o caráter atemporal e universal de sua obra, como de tantos outros escritores. Este advém de um conjunto de fatores. No caso particular de Shakespeare, antes de qualquer especificidade técnica, gostaria de dizer que parece haver um Shakespeare para cada leitor. Refiro-me ao leitor não especialista em Shakespeare ou em teorias da literatura, aquele que lê pelo simples prazer de ler um excelente livro que o faça apreciar a leitura e sentir diversas emoções quase ao mesmo tempo, pensar, refletir, chorar, sorrir, gargalhar, temer, entre tantos outros efeitos que a arte pode proporcionar. O leitor parece se relacionar facilmente com a obra sendo tocado por ela em vários níveis: psicológico, social, emocional, cultural, espiritual, econômico, legal, entre outros.

Shakespeare, em minha modesta visão, consegue perquirir a alma humana como poucos. Morte, finitude humana, o significado da vida, inveja, ciúmes, ganância, para onde vamos após a morte? Estas e outras questões transversais estão nas obras que você mencionou e em outras. Por exemplo, o solilóquio de Macbeth abaixo (ato 5, cena 5) traz questões que caracterizam a tragédia e geram nos leitores mais atentos uma reflexão profunda sobre sua própria vida, suas escolhas ao longo de sua vida e o significado ou a falta de significado da mesma.

Out, out brief candle!
Life's but a walking shadow, a poor player,
That struts and frets his hour upon the stage,
And then is heard no more. It is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.

Em termos acadêmicos, devo afirmar que a qualidade de sua obra (tanto as peças quanto os sonetos) tem sido vastamente estudada, avaliada, discutida e reconhecida por estudiosos e pesquisadores do mundo todo como singular e incomparável. Destaca-se também a fertilidade de sua obra, ou seja, o grande número de sonetos e peças que escreveu. Além disso, os temas abordados em sua obra tratam com profundidade elementos da psiquê humana e têm se mostrado trans-históricos. As questões, conflitos, desencontros, fraquezas humanas são tão atuais hoje quanto em 1600. Acrescentem-se as inesgotáveis novas leituras e abordagens críticas, a feminista e materialista cultural, para mencionar apenas duas, que surgem e exploram as peças e trazem à tona novas perspectivas para as peças de Shakespeare. Devemos adicionar a importância que sua obra tem para a composição língua inglesa moderna, em sua formação no início do século XVII. A Shakespeare são atribuídas tanto a massiva difusão de milhares de palavras existentes na época quanto a criação de centenas novas palavras, além de inúmeras expressões e ditados populares conhecidos e utilizados na língua inglesa até hoje. O público ia ao teatro para “ouvir” uma peça e a maestria com que o autor usou a língua inglesa é um marco de sua obra.

OP - Em quais autores - nacionais ou estrangeiros, contemporâneos ou não - é possível perceber influências da literatura de Shakespeare?

Paulo - Shakespeare certamente influenciou diretamente ou indiretamente a maioria dos grandes autores que o seguiram, uma vez que, em geral, os grandes autores leram suas obras. Deve-se registrar que sua influência transcendeu a literatura. Por exemplo, há reconhecidos registros da influência de Shakespeare sobre Freud, compositores, entre tantas outras grandes mentes e artistas que se seguiram ao dramaturgo inglês.Poderia fazer uma lista enorme. Alguns são H. Melville, C. Dickens, A. Huxley, S. Becket, James Joyce, Fernando Pessoa, Goethe. No Brasil, não é fácil não mencionar Machado de Assis. Há perceptível influência de Shakespeare em sua crítica dramática e em suas obras com trechos e referências claras ou subliminares a obras de Shakespeare, como, por exemplo, em Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Ressureição e em A Cartomante (vide a frase de abertura do conto: “HAMLET observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia”). Após a Bíblia, a obra de Shakespeare é a que Machado mais cita e alude.

OP - O que o bardo teria a dizer do atual cenário político que vivenciamos

Paulo - Penso que talvez Shakespeare recomendasse a leitura de seus poemas para fomentar o amor em suas diversas formas e de suas peças para mais profundas reflexões sobre aspectos da vida humanos como: honestidade, amizade, rivalidade, vingança, intolerância, conspiração, preconceito, loucura entre tantos outros tão contemporâneos.

Entrevista: Maria Inês Pinheiro Cardoso

Professora do departamento de Letras Estrangeiras da Universidade Federal do Ceará (UFC) e doutora em literatura espanhola pela Universidade de São Paulo (USP)

 

O POVO - Em que medida o Quixote de Cervantes ajuda a representar as novas configurações do homem dito moderno? O que há no Quixote que o difere do homem da antiguidade e do medievo?

Inês Cardoso - Talvez a pergunta deva realmente referir-se ao livro como um todo, mais do que ao personagem. O livro é um divisor de águas, sim. Ele não representa apenas o nascimento do romance moderno, mas também o do leitor moderno, se levarmos em conta que a narrativa até então (à exceção talvez apenas do Lazarillo de Tormes), não estabelecia uma relação dialógica com o leitor. O professor e ensaísta Prof. Mário González muito acertadamente escreveu que no Don Quijote de la Mancha, Cervantes acaba com o monólogo dos oniscientes historiadores das novelas de cavalaria. O diálogo entre o fidalgo e o camponês representa a base da estrutura do romance cervantino, e é confiada ao leitor a tarefa de fixar a pluralidade de significados opostos que se espalham a partir dessa realidade ficcional. A ambiguidade, elemento que permeia toda a narrativa, é substituta da alegoria medieval, assim, Dom Quixote é o cavaleiro menos medieval que a ficção poderia criar.

OP - O Quixote é uma figura construída em cima de uma ironia que permeia todo o romance. É essa uma característica do drama moderno?

Inês - Na verdade, a leitura do Quixote oferece várias camadas do humor cervantino. Uma primeira, desperta o riso fácil, resultante das trapalhadas de Dom Quixote. Logo há uma riso que decorre da ironia que o texto destila e que está um pouco abaixo dessa fina pele que cobre o que está mais aparente. Existe ainda o humor decorrente da paródia, mais evidente em algumas passagens. Em todo caso, a leitura se acompanha do riso, seja ele qual for.

OP - Falando do autor, pode-se dizer que Cervantes foi um homem moderno? É possível estabelecer semelhanças entre criação e criador?

Inês - A vida de Cervantes foi digna de um romance, o que talvez o haja convertido em um homem extremamente agudo, perspicaz, um crítico de seu tempo, e isso, como da vida de um escritor se tratava, transformou-se em matéria poética. Ele transitou por todos os gêneros literários e se exercitou em diferentes estéticas. Escreveu nos moldes dos romances pastoril, bizantino, flertou com a picaresca, sua poesia e seu teatro não foram muito expressivos talvez (e ele tinha consciência disso) talvez porque a alquimia da síntese possível do que viveu e de como o sentiu, ele só conseguiu registrar na largura do romance, enquanto recorria com Dom Quixote e Sancho as paisagens espanholas. À cavalo entre dois séculos, ele recebeu influências do renascimento, maneirismo e barroco e conseguiu tirar dessa mescla uma síntese superior. Tantos fatores conjugados talvez tenham sido responsáveis por lançá-lo para além, muito além de seu tempo. Sobre as semelhanças entre criador e criatura não sei se não seria suficiente lembrar que muitas pessoas, ao verem a pintura (que se diz ser) de Cervantes, muitas vezes se referem a ela como se de Dom Quixote se tratasse.

OP - Dom Quixote foi um livro muito lido na ocasião da sua publicação? Quando ele se tornou popular?

Inês - Sim, foi. Há registros de danças e bailes que não muito depois do lançamento do livro já aludiam aos personagens. Mais a prova mais cabal dessa popularidade imediata do livro é o prólogo da sua segunda parte.No prólogo de O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha, de 1605, Cevantes não parece seguro da recepção de seu livro e por isso mesmo pede a benevolência de seu leitor (embora esse fosse um tópico, à época), enquanto que, à altura da publicação de O Engenhoso Cavaleiro Dom Quixote de La Mancha, dez anos depois, o autor, já no prólogo, faz uma verdadeira demolição do falso Quixote , publicado pouco antes daquela segunda parte. Consciente da inferioridade do falso Quixote, escrito por um tal Avellaneda, Cervantes o ataca duramente e acaba louvando os muitos méritos do livro original. Por outro lado, em um genial jogo de intertextualidade (há quem prefira falar de metatextualidade) com a primeira parte, Dom Quixote e Sancho falam sobre o sucesso de suas aventuras. Dom Quixote pergunta a Sancho sobre o que se diz dele, mundo afora. Noutro momento, Sansão Carrasco dirá a Dom Quixote que já se imprimiram mais de 12 mil exemplares e menciona as edições feitas em Portugal, Barcelona e Valencia, proximamente em Amberes, e que logo estará traduzido em todas as línguas. De fato, a noticia dada pelo Bacharel ainda está aquém do real, pois na época da publicação da segunda parte, a primeira já havia sido traduzido também para o inglês e o francês.

OP - De onde vem o caráter universal e atemporal de Cervantes? Por que sua obra, em especial o Quixote, continua sendo revisitada e redescoberta?

Inês - Tantos grandes escritores louvam esse aspecto do Quixote! Muitos desenvolvem suas teorias a respeito, e embora essa pareça uma pergunta fácil de responder , não é assim. Parece fácil porque basta ir à crítica canônica da obra, ou a esses muitos escritores e escolher alguns dos muitos méritos da obra aos quais se costuma atribuir esse caráter universal, atemporal de Dom Quixote, pois não acho que isso se aplique à obra de Cervantes, como um todo)... e voilá! Se nos arvorarmos a dar uma explicação para esse fenômeno, estaremos contrariando o pacto que Cervantes inaugura com seu leitor.

OP - Em quais autores - nacionais ou estrangeiros, contemporâneos ou não - é possível perceber influências da literatura de Cervantes?
Inês - Bem, se levássemos em conta o que disse Alejo Carpentier , de que "tudo está já em Cevantes" seria complicado dizer que escritores não seriam influenciados por ele. Mas, acho que, a começar pelos brasileiros, Machado tem sido alvo de estudos comparados. De todo modo, o excelente livro A Narrativa Engenhosa de Miguel de Cervantes, de Maria Augusta da Costa Vieira, professora da USP e uma autoridade em Cervantes no Brasil, dedica um capítulo às andanças quixotescas e às vozes cervantinas no romance brasileiro. Nele, a autora faz uma retrospectiva desses "diálogos" que remontam ao século XVIII, a Antônio José da Silva, e prossegue citando ensaístas como Bilac, Veríssimo, Josué Montello, Câmara Cascudo e tantos outros. Chega a Monteiro Lobato, mas dedica mais atenção ao quixotismo de personagens como Policarpo Quaresma, o Coronel Vitorino de Fogo Morto. Já em Machado de Assis, a influência pode ser mais difusa, algumas convergências se dão no âmbito da narrativa, outras envolvem personagens, temas. Particularmente, acredito que
nenhuma obra brasileira dialoga mais de perto com Dom Quixote que O Romance d´A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna. Certa vez, a professora e pesquisadora Idelette Muzart escreveu-me uma mensagem onde me alertava para a "presença" de Cervantes no romance de Ariano. Desde então, passei a perceber isso que de fato, como disse ela, não é uma influência, trata-se de uma presença mesmo. Mas, isso é tema de tese, tema que não cabe em umas poucas linhas. A título de curiosidade e pra amarrar as pontas, lembrei-me da sensibilidade do diretor Luís Fernando Carvalho ao adaptar o romance de Suassuna. Sensível à presença de Cervantes na obra, ele recria um narrador que é a cara, aliás, é o próprio D. Quixote. Veja o filme (A Pedra do Reino), observe o cenário, o figurino, e compare os personagens, principalmente com o Quixote de Fernando Rey. É realmente incrível a semelhança.

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