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Marcas de identidade

Émerson Maranhão Émerson Maranhão emerson@opovo.com.br

A ferração de gado diz mais do consumo urbano contemporâneo do que é possível imaginar. É nos primórdios da prática de marcar no couro do animal um símbolo para atestar sua procedência que está a gênese da logotipia – o conjunto de ícones gráficos tão usuais para identificar marcas e empresas, conferir-lhes valor de mercado e, assim, apontar-lhes diferencial em relação a concorrentes.

Sem risco do exagero, a maçã mordida que eleva smartphones de última geração a sonho de consumo de tantos nada mais é que uma atualização das tatuagens abrasadoras que há séculos sinalizam rebanhos.

“Num momento inicial, no Egito, milênios antes de Cristo, estas marcas a ferro e fogo tinham a função de apenas identificar os animais. E por mais que a moeda da época fosse o escambo, não existem indícios de que aquele símbolo, aquela marcação ligada a determinada pessoa ou família conferisse um valor diferenciado ao rebanho”, explica o designer, escritor e professor da Universidade Federal do Maranhão, Delano Rodrigues.

“O segundo momento se dá nos Estados Unidos, lá pelos séculos XVIII, XIX, com a criação dos Livros de Marcas de Ferro, com interesses claramente comerciais. É aí que estes ícones passam a conferir valor aos animais, a indicar particularidades, a testemunhar que aquele determinado dono do rebanho tem certos tipos de cuidado com o animal ou com o pasto que outros não têm, por exemplo. Isso acontece num momento histórico em que o rebanho já passa a ter valor de troca”, acrescenta Delano, que é consultor de Branding, área do design responsável pelo processo de construção e gestão de marcas.

Atividade profissional que chegou ao Brasil em meados da década de 1990, e que tem obtido grande visibilidade nos últimos anos, curiosamente o próprio Branding também está relacionado com a marcação de gado. Uma das explicações para a origem do termo remete ao verbo to brand, marcar, em língua inglesa, e que é usado para nominar a ferração de rebanhos. “O termo ‘branding’ possivelmente vem de ‘branding iron’, que é como são chamados os ferros de marcar gado nos Estados Unidos”, afirma o professor.

Historicidades à parte, o fato é que nada é mais atual que as referências icônicas que emprestam credibilidade e concedem atestado de qualidade para as mercadorias que disputam a atenção do consumidor hoje, exatamente como as marcas de ferro o faziam quando surgiram e ainda o fazem. Ao identificar um puma em pleno salto, um crocodilo abrindo a boca, ou duas letras sobrepostas numa bolsa de couro ou numa peça de underwear, este consumidor recebe as informações de procedência e sinalizações de qualidade que precisa para se decidir em uma compra.

A marcação continua, só que se dá em outro nível. Ou melhor, em outros níveis. “A marcação hoje é simbólica e transcende o produto. Ela chega até você, você também está marcado. Você quer comunicar algo ao ostentar determinadas marcas. Por mais que uma pessoa não carregue uma tatuagem no corpo, ela está sinalizando fazer parte de um grupo, ou querer fazer. De uma forma mais aprofundada, a gente não deixa de ser rebanho”, provoca Delano.

Design
O designer de joias Claudio Quinderé recriou, com exclusividade para este caderno especial, o tradicional ferro de marcar gado. O resultado é esta delicada peça composta por um pingente de prata, com base em turquesa, e seis centímetros de comprimento, e um torçal de couro grego preto.

Ferro de marcar gado recriado por Cláudio Quinderé. Foto: Sara Maia

Rude e delicado

Os ferros de marcar rebanhos não passaram despercebidos pela indústria cultural. A beleza e originalidade de seus traços e a simbologia de suas formas conquistaram adeptos. O mais famoso deles foi o pesquisador e escritor paraibano Ariano Suassuna, que se baseou no que classificou de “heráldica nordestina, mais especificamente sertaneja”, construída a partir destes símbolos e de outras manifestações culturais da região, para conceituar sua Estética Armorial.

Longe da academia e da elaboração de um pensamento teórico a respeito, os ferros foram transformados em produtos para consumo imediato, ainda que em releituras, esvaziados de seu sentido original e com novas significâncias para sua iconografia. Um dos mais populares novos usos para estas marcas é a tatuagem, com fins meramente acessórios, numa curiosa retroalimentação de sua função primeva, onde indicavam pertencimento.

É possível, também, encontrar as marcas de ferração como estampas de camisetas, inspiração para coleções de estilistas, objetos de decoração. A partir destas múltiplas possibilidades de usos, O POVO convidou o designer Claudio Quinderé para criar livremente uma joia inspirada neste universo.

“Minha primeira preocupação foi contrapor a delicadeza que é natural a uma joia à rudeza que caracteriza o ferro de marcar gado”, conceitua Quinderé. “Depois, optei por reproduzir o próprio instrumento de ferrar em vez da marca em si. As marcas são mais conhecidas, ainda que menos compreensíveis numa leitura rápida. Já o ferro pouca gente conhece, era uma coisa menos óbvia. Dá um elemento surpresa. Apesar do distanciamento original que é inerente neste tipo de representação, procurei me aproximar do objeto pela forma, não descaracterizar a peça em si. Por fim, substitui o cabo do ferro, que geralmente é de madeira ou osso, por uma pedra turquesa para dar nobreza ao pingente, dentro daquela contraposição entre a força do ferro e a delicadeza da joia”.