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O relicário maia

Demitri Túlio Demitri Túlio demitritulio@opovo.com.br
“Sesmeiro fui
Das longas
Largas léguas
Medidas
Pelos passos
Dos meus bois”
(Decassilábico de Virgílio Maia)

A fidelidade às marcas de família e à heráldica sertaneja está no rastro da vida de Virgílio Maia. Um pesquisador vertical de parte do que forja a história do sertão e o modo como foi se fundando o homem de lá e daqui. Chocalhos, esporas, insígnias, brasões, couro de proteger o vaqueiro e o cavalo, mascaras (sem acento mesmo), discursos poéticos, aboios, ferros de boi...

Por esse último, a escrita referência de Rudes Brasões - Ferro e Fogo das Marcas Avoengas. Uma “bíblia” encarnada (em brasa) sobre a tradição ibérica-moura-cabocla de assinar a posse e a propriedade de uma rês. Antigamente criada nas terras que não tinham cercas e o mandatário do colonizador foi acuando e dando nome aos bois nascidos na floresta fechada da caatinga (agora de donos).

Nominação chiada no couro vivo do barbatão, quando era tempo da “apartação” e o fogo imprimia para além de uma posse de reses marruás. Era também o “selo” de domínio do território antes habitado por índios do semiárido. Eram as famílias do “mar além” se estabelecendo na terra rude.
Virgílio Maia. Foto: Iana Soares

Foi, foi, geração após geração, e veio até que chegou... No Limoeiro do Norte, terra onde rebentou Virgílio Maia. E antes de arribar, aos 13, para se letrar e virar advogado em Fortaleza, deu tempo marcar na memória “o gesto de ferrar um boi, aquele movimento todo, o corre-corre, os desenhos das marcas, o cheiro de pelo, de couro e de carne queimados”. Lembranças indeléveis.

A história da ferra a fogo, narra, passa de pai para filhos e netos. Sua investigação afetiva e etnográfica puxa a raiz “Fidélis” que deu origem aos Maia de Limoeiro. Um estudo particular que vai contar muito sobre os caminhos do gado no Ceará. O português Manuel Fidélis da Costa, trisavô de Virgílio Maia, era vaqueiro de um fazendeiro que possuía terras em Aracati e aceitou a sugestão do patrão em usar a letra “S” como base da assinatura do gado que fosse futurando com a lida.

Em 1848, Manuel Fidélis se casou com uma Maia (Francisca Thereza da Natividade). Filha do sesmeiro Luciano Cardoso de Vargas. Conhecido, conta Virgílio, por Abraão do Jaguaribe, tamanha sua rama naquela ribeira. Fidélis e Natividade espalharam filhos, gado e, nas reses, a marca puxada pelo “S”. Avoenga que dela descende mais de 100 assinaturas na pele em brasa.

Heráldica
O “S”, com uma “flor” e uma haste vertical, foi a marca usada por tempos quando Virgílio Maia criou gado em Limoeiro do Norte. Ferro herdado do trisavô Manuel Fidélis Costa. Um vaqueiro que viveu pelas bandas de São Bernardo, hoje Russas, que abarcava o território de onde se esquadrinha Limoeiro.

Suassuna
A pesquisa para Rudes Brasões - Ferro e Fogo das Marcas Avoengas tem parte com Ariano Suassuna (Ferros do Cariri: uma heráldica Sertaneja) e com livros de Oswaldo Lamartine de Faria (Ferro e Ribeiras do Rio Grande do Norte).