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Sinais de um clã

Émerson Maranhão Émerson Maranhão emerson@opovo.com.br

No dia 16 de junho de 1956, num bilhete em folha de caderno, dona Maria de Deus Alves Feitosa, conhecida em Tauá como Dondon Feitosa, confirmou a negociação: “Declaro que na presente data vendi ao sr. Pedro Gonçalves de Almeida os lugares Mato-Grosso e Trapiá por 60 gado macho na idade de novilhote a mais de ano”.

“O gado tinha valor naquele tempo. Era uma moeda valiosa”, exalta Francisca Gonçalves, 71 anos, a professora Chichica, garimpando de seu baú de memórias particulares e documentos familiares o dito bilhete que garante a aquisição feita pelo Major Gonçalves, seu pai. Ele é o comprador citado. A Mato Grosso, segundo ela, tinha para mais de 2 mil hectares. E esse nem é um tempo tão distante.

Dona Chichica junta, há alguns anos, este e outros papéis para o projeto de um memorial da família Gonçalves. Ainda sem data. Tem resgatado também fotos, escrituras, livros, peças das casas e fazendas que pertenceram à rotina do clã. O que mais achar vai caber.

“Os Gonçalves vieram de Pernambuco, seguindo o curso do rio. Chegaram no Ceará no século XIX, depois das sesmarias. Nem eram grandes pecuaristas. As famílias principais daqui eram os Feitosas, os Montes, os Araújos...”, e Chichica vai fiando o começo de sua linhagem. Tauá ainda era chamada de São João de Príncipe e a ribeira do Jaguaribe, que nasce ali, servia de referência para os viajantes.

Na mesa de dona Chichica, fotos e histórias que serão o memorial da família Gonçalves. No documento maior, o registro em cartório da marca de ferrar gado usada por seu avô. Abaixo, o bilhete que confirmou a paga de uma fazenda por 60 bois. Foto: Iana Soares

Muitos dessa parentada ficaram pelo caminho das primeiras viagens e se espalharam também por Arneiroz, Quiterianópolis, Assaré... “Num dia, conversando com o Patativa do Assaré, descobrimos que somos dos mesmos Gonçalves. Ele era Antônio Gonçalves da Silva, da mesma raiz”, diz, do encontro com o poeta.

Numa outra pasta, de muitas espalhadas sobre a mesa, outro documento valioso. Amarelado de história e tempo, com letras de bico de pena, dona Chichica tem um registro das marcas de ferrar gado de seu avô, João Gonçalves de Sousa, feito em cartório. É datado de 4 de setembro de 1886. Nos escritos aparecem dois desenhos reproduzindo os ferros que carimbavam a boiada. A freguesia religiosa era marcada pelo R (impresso deitado), referente à padroeira Nossa Senhora do Rosário.

Os vaqueiros e senhores da fazenda tinham a generosa tradição de cativar suas reses dando nomes e apelidos a cada bicho do rebanho. Dona Chichica também recuperou vários cadernos listando vacas, bois, novilhos e garrotes que viveram nos currais de seu pai.

“Maravilha, Nevoeiro, Jandaia, Grandeza, Simpatia, Palmeira, Alvorada, Chumbada, Sabonete, Amazona, Calunga, Imperoza, Novidade, Mangaba, Avoante, Soberana, Pontiada, Ouro Branco...” Todas marcadas pelo sobrenome Gonçalves.

Marcas
O Ceará, há 75 anos, tem o decreto nº 523, de 29 de março de 1939, que regula o registro de marcas de gado no Estado. O então interventor federal, Francisco de Menezes Pimentel, ordenou, no artigo 1º: “A propriedade sobre o gado bovino, equino, asinino e muar é comprovada, no território do Estado do Ceará, por meio de marca a fogo”.

Os tempos são outros. Já se faz marca também por tatuagem sem ferra quente, chips, brincos. Mas todas precisam ser oficialmente registradas. Segundo Geraldinha Barroso dos Santos, do Setor de Registro de Marcas de Ferrar Gado, da Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA), desde o início da legislação foram criadas 34.696 marcas.

“Antes da lei, registrava-se marcas em cartório. Hoje muitos ainda fazem isso, mas por desinformação. Não tem validade nenhuma. Vale a oficial”, diz Geraldinha, servidora no setor há 48 anos. Por mês, chegam a apresentar de 30 a 40 novas marcas.

A primeira marca no Ceará, guardada no fichário do setor, pertenceu a João Batista Cunha, morador do sítio Cacimba do Cunha, na Vila Alto Santo, em Limoeiro do Norte. O desenho é o de uma forquilha com o vértice para baixo. Eram comuns, à época, marcas traçadas mais por linhas retas.

Geraldinha esclarece que toda marca, antes de registrada, passa por análise comparativa para evitar repetições. Paga-se taxas - a mais cara é 10% do salário mínimo. O setor na SDA atende pelo número 3219 6396.