Logo Portal O POVO Online

Há de resistir

Émerson Maranhão Émerson Maranhão emerson@opovo.com.br
Não é apenas o calor do ferro em brasa que tem marcado o rebanho bovino no Ceará. A rigorosa seca que se abate sobre o estado nos últimos anos também tem deixado suas marcas. Uma das mais visíveis, e impactantes, é a redução do número de cabeças de gado.

De acordo com a Pesquisa Pecuária Municipal, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2009 e 2012, o rebanho bovino no Ceará passou de 2.494.482 cabeças de gado para 2.714.713, apresentando uma média de crescimento anual constante de pouco mais de 55 mil reses.

Em 2013, ano em que os rigores da seca se fizeram sentir mais severamente, esta trajetória foi interrompida. Num intervalo de 12 meses, o número caiu para 2.580.233 animais, uma redução de cerca de 5% no rebanho, segundo levantamento da Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Ceará (Adagri).

“É preciso entender que esta redução não significa necessariamente morte de gado por causa da seca”, pontua o secretário do Desenvolvimento Agrário do Ceará, Nelson Martins. “Ela acontece por vários fatores. Um deles é a migração para outros estados, onde os grandes criadores têm reservas de pastos.
2.611.317 é o rebanho bovino do Ceará em 2014. Foto: Iana Soares/O POVO

Quando o inverno retorna, esses animais voltam. Outro fator é o abate para consumo. E há também, claro, o gado que morreu por conta da estiagem. Mas a redução que houve no período mais drástico, entre 2012 e 2013, foi de 5%, o que é considerado normal. Além disso, é muito menor que a perda de rebanhos em outros estados nordestinos”, garante o secretário.

Números são exatos, mas suas leituras podem ser relativas. O impacto da seca no rebanho bovino cearense é visto através de outro ângulo pelo presidente da Federação da Agricultura do Estado do Ceará (Faec), Flávio Saboya. Apesar de não questionar os percentuais apresentados pela Adagri, ele aponta efeitos práticos desta redução na economia do setor.

“A seca nos tem impactado significativamente. A atividade leiteira, que é uma das principais no semiárido nordestino, sofreu uma redução em torno de 30% nos últimos três anos de estiagem”, afirma Saboya. “Esta situação levou as empresas industriais do leite a ter que importar produtos para atender às suas necessidades. E, veja bem, só a atividade leiteira corresponde a mais de 40% do setor agropecuário do estado”.

Mesmo tendo compreensões distintas a respeito das implicações da seca na atividade pecuária do Ceará, as visões de Martins e Saboya apresentam um ponto de interseção. Ambos indicam uma mudança comportamental e de mercado como a outra grande marca que o período prolongado de estiagem tem deixado de legado.

“A grande lição desses anos de seca foi a criação de um mercado especializado na produção de forragens. Hoje, existem agricultores que produzem forragens para vender para aqueles que não têm”, explica Saboya. “Estamos nos aproximando do modelo do Oriente Médio, de Israel, que é produzir alimento para o rebanho no litoral e levar esse alimente para o deserto onde o rebanho está, no nosso caso, para o semiárido”, completa.

“Nosso criador já está acostumado a conviver com o semiárido, faz reserva estratégica de alimento”, reforça o secretário. “Hoje, suplementamos o alimento do gado com feno e cilo, forragem, sal proteinado. E assim (o rebanho) vai sobrevivendo, não estamos refém do pasto seco”.