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Poder indelével

A memória histórica mais remota sobre o início da tradição de assinalar o gado, nos sertões do Ceará, alcança as naus portuguesas do século XVIII. As letras e os desenhos que dobram o ferro são marcas de um poder que descende dos colonizadores lusitanos. “Nunca fomos o paraíso, mas as relações entre o homem e a natureza, antes da chegada dos portugueses, eram menos agônicas e mais amistosas. Os audazes navegantes desembarcaram aqui com a ideia de propriedade, de domínio, de posse”, anexa o escritor Gilmar de Carvalho, estudioso da cultura popular, em entrevista por email.

No processo de colonização, em que tudo passou a ter dono legitimado em cartório, o couro do boi se tornou documento. “Vaqueiro era livre. Gado era ferrado. Era a forma de trazer impresso no couro o sinete, a logomarca de seu dono”, ratifica Gilmar.

Esta “quase escrita à mão”, realizada com o fogo, revela significados na ocupação dos sertões cearenses. Além da ideia de propriedade, “o autoritarismo das elites se evidencia, desde sempre... A marca de ferrar consolida uma força icônica muito grande”, acrescenta o pesquisador.

A prática cria um sertão armorial. “O que mais me chama a atenção nas marcas de ferrar é o desenvolvimento de uma grafia peculiar, nascida do improviso dos ferreiros e dos fazendeiros, com os possíveis palpites dos vaqueiros. Grafia que incorpora influências, ao agrupar letras que se fundem, se enlaçam, se distanciam e se tencionam para significar mais. Estas marcas de ferrar formam um repertório básico de um design popular, que se trama com o artesanato, no improviso, e dobra a dureza do metal”, une Gilmar de Carvalho. A cultura de ferrar o gado é ainda marcada por uma “violência inquestionável” contra o animal, ele atenta: “A marca de ferrar é irremovível. A queima é indelével”.


Janela marcada numa ferraria em Tauá. Foto: Iana Saoares

 

O poder que submete o gado a ferro e fogo também quis dominar gente. Correm pelos sertões do Nordeste, nos rastros dos escravocratas ou dos cangaceiros, notícias de pessoas marcadas como bois. Mas Gilmar de Carvalho pondera: os anúncios que comercializavam escravos, ainda que descrevessem cicatrizes e amputações, não registram torturas com marcas de ferrar.

E, mesmo bebendo em nascentes sertanejas, o escritor não acredita que os cabras de Lampião marcassem pessoas com ferro em brasa. “É bom desconfiar de boa parte das façanhas atribuídas aos cangaceiros. Existe muito achismo e poucas comprovações”, conclui o autor da peça-cordel Orixás do Ceará (1974) – na qual figura parte deste imaginário: entre as personagens, está a filha de um fazendeiro que lhe marcou o rosto porque ela engravidou de um cangaceiro.

Couro encantado
”Sorte”, explica Dolores Feitosa, 89, presidente da Fundação Bernardo de Castro Feitosa (Tauá) e ex- do Museu dos Inhamuns, era a forma de pagamento ao vaqueiro pela lida diuturna com as crias do patrão. Em Sobral, lugar onde nasceu, era cinco-um. De cada cinco reses nascidas, o boiadeiro tinha direito a uma como paga. E fazia o que bem entendia com o bezerro.

Ou construía um pé de meia juntando umas cabeças de gado (sonhando ser, um dia, um criador) ou negociava o animal com o próprio fazendeiro. Do queijo produzido na fazenda, recorda Dolores Feitosa, os encourados tinham direito à metade. Trabalho puxado.
Rotina de vaqueiro, canta o repente de Severino Pinto, “... era para pegar touro. Amansar bezerro e vaca. Cortar pau, fazer estaca e consertar bebedouro. Fazer queijo, beber soro. Curtir couro, raspar sola. Fazer freio e rabichola. Tanger cabra e capar bode. Quem é vaqueiro não pode ser cantor de viola”.