Logo Portal O POVO Online

Tino de rastrear

Demitri Túlio Demitri Túlio demitritulio@opovo.com.br

Vaqueiro jacu seu Alberto Araújo de Freitas não é. O dizer é dele num sotaque ligeiro, típico de quem nasceu, estudou pouco e se criou nas brenhas do Vale do Jaguaribe. A imagem do jacu, ave morosa da caatinga e de outras florestas, é usada para dizer dos que não trouxeram de nascença a virtuose para a lida nos sertões com gado barbatão, solto na “brabeza”.

Uma história é o vaqueiro das pegas heroicas nas capoeiras, quase um legionário sertanejo. E outra coisa é o vaqueiro de vaquejada, “um jacu”. Sem menosprezo, mas uma diferença que se conta em léguas.

O traço de jacu não cabe em Alberto. Ele é descendente da família “Moiar”. Linhagem rude de uma nobreza caatinga, homens que rebentaram talhados para “vaqueirar”. O avô Augustinho Moiar veio ao mundo assim, herdou do pai e passou para o filho Gustavo que ensinou ao sobrinho Alberto. Uma tradição de varões.

Tinham marca de ferrar gado e respeito, mesmo sendo vassalos da casa grande de cumeeiras sustentadas por troncos de carnaúba. Mais antigamente, tempo do avô Augustinho, quando não havia cerca e o gado dava cria solto no mato ou nas mangas do rio Jaguaribe, a paga era em bezerros nascidas. Numa proporção apalavrada com o patrão. De quatro reses nascidas pelas mãos do vaqueiro, uma era dele e podia marcar o ferro dos Moiar.

Vaqueiro Alberto. Foto: Iana Soares/ O POVO

Soube dos predicados de seu Alberto por onde fomos passando e assuntando entre Morada Nova, Limoeiro do Norte e Jaguaretama, no Ceará. Estávamos em Limoeiro e a professora Francisca Girão, autora dos hinos de Morada Nova e do Vaqueiro, não poupou sinônimos para dizer dele. “Um vaqueiro completo”. Desde os 12 anos e até hoje, aos 62, monta, ferra, aparta, laça, caça boi na mata, capa, mocha, lidera boiada, ajuda parir, vacina, cura bicheira e, principalmente, é um rastreador invejado.

Pelas pegadas, vai tateando a vaca ou o touro desgarrado. Pode estar a uma lonjura de quatro léguas. Sai feito cão farejador, a cavalo, descendo e subindo para apurar o rastro do vacum. Dependendo da fundura e do cheiro do rastro do bicho, sabe se está longe. Esquadrinha se cansado, se estropeado... “Já saí daqui (Morada Nova) e fui bater em Jaguaretama para arrastar uma rês”, conta sem se empabular.

Encourado pra essa vida de vaqueiro, como diz em ladainha, Alberto escapou da morte por vezes. Dificilmente caiu da montaria, mas aconteceu. Herdou um talho de oito pontos na cabeça, consequência de uma chibatada num galho durante uma carreira atrás de uma vaca. Um “ferro” no antebraço e a ausência de duas cabeças de dedos na mão direita. Um laço que lhe decepou o prumo. “Meu ramo foi esse, não quis aprender a ler. Gosto de ser vaqueiro”.

Vaqueirinho taludo
Sonho de menino é virar jogador de futebol famoso, certo? Não em Morada Nova. Lá os garotos fantasiam em ser o tal dos pegas de boi na pista de areia. É o que nos diz a história de Dayron Ravel de Lima. Não tão rara por aquelas bandas. Ele é de uma geração de meninos que “entaluda”, ainda na infância, para um dia ganhar fama de vaqueiro de vaquejada, mesmo com todos os riscos a que estão expostos.

Vaqueiro mirim. Foto: Iana Soares/ O POVO
Ravel que fez a mãe ir à Associação dos Vaqueiros e Criadores de Morada Nova (AVCMN) para autorizar sua inscrição como sócio da entidade. Aos 12 anos, franzino, derruba bezerros na festa anual do Vaqueiro e corre nos prados em fazendas do município cearense.

Na verdade, Dayron Ravel começou nas vaquejadas sendo “esteira”. Um espécie de escudeiro do vaqueiro competidor e que tem a função de passar o rabo do boi para a a derruba.

O problema, entre alguns existentes na mais tradicional e concorrida das festas da região Jaguaribana, é fazer meninos feito Ravel entenderem que eles também têm de ser bons na escola.

“Difícil”, diz Ylzair Castro que é gerente da AVCMN. Geralmente, “o bom vaqueiro não é um aluno exemplar”. Ravel é estudante da 4ª série do Centro Educacional José Epifânio das Chagas.