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Buquê de ferro

Demitri Túlio Demitri Túlio demitritulio@opovo.com.br
O gado, as terras, os ferros de marcar e os afetos se juntaram quando dona Maria Nadir Rodrigues de Castro, 82, aceitou ser desposada, há 53 anos, por Pedro Paulo de Castro, 86. Os Castro e os Rodrigues, das bandas da Vazante em Morada Nova, se perpetuam há gerações no que resta (e ainda é razoável) da herança de propriedades dos velhos Salustiano de Castro (pai de Pedro) e de Gregório Rodrigues (pai de Nadir).

Terra promissora no semiárido brasileiro. Tanto, que o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) pagou indenização para cavar um açude e o governo estadual fez passar, bem no meio da Fazenda Bento Pereira, a CE-265 ou avenida Presidente Geisel. Um estirão de chão, parcela que coube a Maria Nadir. Também herdeira das insígnias de assinar com ferro quente o couro do gado. Marca que desenha em brasa as letras do nome do avô e que chegaram até ela pelas mãos do pai.

Para diferenciar das reses das irmãs, dona Nadir carimbou também os bezerros com o numeral 2, ferro complementar à marca da família. Indicativo que aquele animal é das posses da segunda filha nascida entre três. De seu Pedro e dona Nadir para mais quatro filhos: Salustiano Neto, Francisco, Maria do Socorro e Gregório. Mas apenas um deles, Francisco de Assis Rodrigues de Castro, o Dide, se dedicou ao dia a dia na fazenda.

Dide, um rapaz maduro de 51 anos, pai de sete filhos em seis casamentos ou relacionamentos de “vaqueiro”. Ele prefere não explicar os destinos e onde as histórias se cruzam. É dele a declaração mais amorosa ouvida na Fazenda Bento Pereira. Ao cavalo “Roxinho”, um mestiço de quarto de milha, todo o zelo. Um cuidado de amigo, ainda mais agora na velhice do animal que tanto o serviu nas vaquejadas e na fazenda.

“Roxinho” quando potro era marrom. Hoje, aos 23 anos, foi tomado pelo branco. “Cavalo bom, rejeitei muito dinheiro quando estava no auge. Sozinho, ele tangia um desgarrado”, conta Dide e um álbum de fotografias da Sonora. Não fosse a habilidade do cavalo, companheiro de mais de dez anos nas pistas de vaquejada, não teria ganhado moto, dinheiro, troféus e fama de ser homem de pagada.
Vaqueiro Dide e família. Foto: Iana Soares

Boi encantado
Duas estátuas grandes, pombas brancas do bico vermelho, avisam ao forasteiro que Morada Nova é devota do Divino Espírito Santo. O padroeiro do município, distante 155 km de Fortaleza. Mas a imagem escamotea um culto pagão que atravessa a história naquele pedaço da região do Jaguaribe.

Forte mesmo, ali, é a reverência que se faz ao vaqueiro e a saga histórica no povoamento do Ceará pelas ribeiras do rio Jaguaribe ou nas mangas do Banabuiú. Há também estátuas à vaqueirama, seu cavalo e o boi... Um Museu de referência, onde funcionou a Cadeia Pública, e um Largo do Vaqueiro em construção.

Mais que isso. Há 71 anos, persiste (perto do museu) a Associação dos Vaqueiros e Criadores de Morada Nova. Concebida, conta a gerente Ylzair Castro, 48, para preservar e difundir a memória desse personagem dos sertões. Por Morada Nova, ainda ativo, um dos primeiros fundadores: Clóvis Pereira Lima. Centenário na semana que passávamos por lá, mas em Fortaleza e o desencontro.

Em torno da Associação, mais de 500 sócios entre homens e mulheres. Desses, 380 que disputam a tradicional vaquejada de Morada Nova no segundo fim de semana de junho.
Vaquejada tradicional (da idade da Associação), mas polêmica por causa da “judiação” com o animal na pista. Para minimizar sofrimento dos bichos, “não é permitido mais afugentar nem açoitar o boi e o cavalo. Desclassifica o competidor”, ameniza Ylzair. A competição, diferente de outras pelo Brasil, não tem paga em dinheiro ou automóveis. “É cultural, só troféus e brindes”.

A vaquejada nada mais é do que a releitura das pegas do gado marruá na caatinga. Hoje um jogo para plateias. Quem conta assim é a professora Francisca Carneiro de Girão, uma da 25 madrinhas de vaqueiros da Associação. Mas nem por isso, tão fã da perseguição e derruba das reses na arena.

É dela a autoria do Hino do Vaqueiro e o cordel sobre a saga da “Pega do Boi Moleque”. Uma epopeia da caatinga que narra a audácia do vaqueiro Hermógenes Girão atrás de uma rês desgarrada, em 1894. Primeira notícia que se tem, ali, sobre uma peleja entre o homem e o gado barbatão. Quando Morada Nova era ainda do mapa de Quixadá.