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Aboios e feitiços

Cláudio Ribeiro Cláudio Ribeiro claudioribeiro@opovo.com.br

Quem tivesse medo de boi brabo, ou não achasse jeito de voltá-lo para o curral do dono, que chamasse Raimundo Firmino. Em Quixeramobim, fala-se de uma fama dele como encantador de barbatão. De bastar bater o chicote umas vezes na perna, quando fosse encontrado na mata, junto com uma toada mansa e baixinha, que o indolente amansava e obedecia. Começavam o trabalho nas madrugadas.

Às vezes, o “feitiço” - talvez fosse - era tanto que nem precisava da máscara, botada cobrindo o rosto da rês fujona logo após a recaptura. Se já não fosse novilhote ferrado, esse ia receber a primeira marca quente no couro. Era um dom secreto, mas afamado, o de Raimundo Firmino. História das boas essa contada por seu Oziel Firmino, 80, lembrando dos feitos do irmão que já se foi. “Ele nunca me disse como fazia isso”.

Oziel (tinha sobrenome Avelino Monteiro, mas todos da família ganharam Firmino por causa do pai) não seguiu as manhas de tanger e acuar boiadas. Mas teve três de seis irmãos – Chico, Zé e Raimundo - nesse domínio. Ele conta que sua família também tinha seu avô, Zé Romão (José Domingos de Lemos), como sertanejo mandingueiro. No caso dele, orações para proteger roçados. “Ele sabia fazer reza pra derrubar lagarta das plantas. Protegia a roça das pragas. No dia seguinte da reza, a lagarta que tava sumia”. E disse que os roçados vizinhos que não tivessem essa proteção de prece continuavam sofrendo da larva.

O que é o aboio senão também um chamamento mágico? A toada de ajuntar rebanho sumido pelo sertão é da vida de Luiz Monteiro. Aos 86 anos, ele já não corre mais atrás de animal desgarrado, o que fez muito, mas é celebrado como um dos vaqueiros mais antigos de Quixeramobim. E ainda canta aboios, faz versos de improviso e exalta suas próprias histórias.

Como narra do dia em que, ainda rapaz desconhecido, inexperiente, mas valente, ganhou a primeira reverência como vaqueiro de respeito. Por conseguir pegar um bezerro corredor no meio da mata num lance que impressionou outros vaqueiros tarimbados.

Luiz, nesse dito dia, havia saído pela mata formando dupla com Nonato Tinoco, “que era corredor afamado, fizeram até chateação nimim” - relembra. Achavam que fôra atrevido demais ao se oferecer como dupla para o vaqueiro conhecido.

Luiz Monteiro domina aboios e versos, aprendidos no tempo em que dominava bois barbatões. Hoje, gosta de contar seus feitos, com a memória precisa e certeira. Foto: Iana Soares

Numa garrancheira de pau branco, o novilhote deu olé, tirou Nonato Tinoco do páreo e Luiz Monteiro seguiu. Corria muito. Outra dupla que tentava a mesma captura, na freada brusca da rês, acabou caindo, com montaria e tudo. “Mesmo na hora, pulei por cima dos quatro (os dois cavalos e os vaqueiros) e arrastei o novilho pelo rabo”. Os que presenciaram deram o testemunho aos demais da região. “Aí peguei a fama”, lembra. E, de gibão e chapéu de couro na sala de casa, cantarolou: “Êêêê, ôôôô, gaado mansooô...Ê, boooi”. É nos aboios e preces que todo vaqueiro se resguarda.

Domador de couro
Em Nova Olinda, no alto do Cariri, na mesa de sua oficina - que até chamam de ateliê -, Espedito Seleiro, 74 anos, é domador do couro. Ou um encantador da pele do boi. É dela que imagina, corta, cola, desenha, tinge, sofistica e também marca. Assina a ferro quente. E esse couro vira sandália, bolsa, bota, sela, gibão, chapéu...

Espedito Seleiro é feito poucos em seu ofício. Só que ele descobriu que suas criações de couro estavam sendo copiadas e vendidas como se dele fossem. Daí resgatou uma tradição dos vaqueiros-seleiros de sua família, o pai e o avô, de ferrar o gado e, há cerca de 10 anos, passou a carimbar a ferro as peças produzidas. A marca que usa está na foto acima.

No balcão onde trabalha, com caneta e papel na mão, foi à memória e trouxe o desenho do ferro que via seu pai usar no gado. Um R que emendava a ponta ao P e se juntava ao C. “Todos conheciam ele por Raimundo Seleiro,mas era Raimundo Pinto de Carvalho. Quando tacava no gado, ficava”. A dele próprio era E e S e C, de Espedito Seleiro de Carvalho. “Nunca gostei de ser vaqueiro. Caí de um cavalo quando tinha 16 anos”. Preferiu fazer outra arte.

Batismo
Em Quixeramobim, as vacas são de ubre farto e tornam a cidade uma das principais produtoras de leite no Ceará. Pelo Censo do IBGE de 2012, o rebanho passa de 82 mil reses. Os lugares e a cultura da cidade se referenciam daí. Batizaram fazendas e distritos: Vaca Serrada, Cabeça do Boi, Lagoa dos Bois, Cacimba Nova (onde gado sempre busca água), Gangorra (onde o rebanho descia a serra e era acuado por vaqueiros)... Na literatura, com o realismo sertanejo, Manuel de Oliveira Paiva escreveu Dona Guidinha do Poço, em 1891. Criou a personagem Margarida baseando-se na história de Marica Lessa, fazendeira da cidade que traiu o marido com um sobrinho dele.