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"Foici, xibamca e letra"

A sete léguas e meia de Tauá, no sertão dos Inhamuns, uma placa na BR-020, indicando o distrito de Santa Teresa, quase despercebidos (a placa e o lugarejo), faz o viajante voltar no tempo. O calçamento, a partir dali, vai bater à porta da oficina Orienti F.G.B, de tijolo e pó, de um senhor de mãos escurecidas, Francisco Gomes Bezerra, 72 anos – 60 dos quais, ferreiro.

Seu Chico Gomes foi alfabetizado, aos 12 anos, pela cartilha das marcas de ferrar gado. A educação para a vida, quem lhe ensinou foi o pai, João, do distrito de Santo Antônio (mais despercebido ainda), “o mestre dos mestres” – como ressoa na oficina dos Gomes há três gerações. João ensinou a Chico que ensinou a Iran, o filho, entre seis e mais 25 netos, que segue a tradição do avô.

“Foi a vida inteira fazendo isso”, pausa seu Chico. O martelo, o fogo e a paciência (a cada dia, mais do que a força) dobram o ferro bruto em “maxado, picareti, labamca, xibamca, foici, badal, xucai”. Ferramentas escritas na tabela de preços (de R$ 4 a R$ 60), afixada na parede, em letras que inspiram a tipografia usada neste caderno especial.

Chico Gomes, ferreiro habilidoso do distrito de Santa Teresa, em Tauá. Foto: Iana Soares

Além delas, o ferreiro se especializou nas curvas, extensões e soldas das marcas inventadas por fazendeiros e vaqueiros para assinalar o gado. Ele conta que manufatura uma centena de marcas de ferrar por ano, “até do Pará, vem gente encomendar”. A modernidade lhe apresentou o maçarico, e seu Chico demora, hoje, cerca de duas horas para fazer cada peça (negociada a R$ 70, em média).

Mas, “de primeiro”, ele emenda, usava o fole, “era o dia todim pra acender o fogo e esquentar o ferro... Criei meus filhos foi trabalhando nesse bicho!”. Nesta esquina da prosa, está Cecília Maria de Jesus, 71 - quase 60 dos quais, a outra metade de força e paciência de seu Chico. “Começamos a namorar com 12 pra 13 anos... Ela me ajudava muito, batia marreta (para moldar o ferro)”, os dois se dizem.

A narrativa é sob a luz da tarde que entra pela única janela da oficina e parece desenhar um palco de onde seu Chico protagoniza outra arte: a de tocar rabeca. Então, as mãos escurecidas puxam um assento, afinam o instrumento semelhante a um violino e entoam a trilha sonora de uma vida vivida a ferro e fogo. Nuances entre lamento e beleza.“Vocês gostaram?”, seu Chico espera os aplausos da pequena plateia em redor. (Quem não espera, ao final?)

Despercebido naquele esquecimento do mundo, ele é dos últimos ferreiros que domina a artesania das peças de ferrar gado. “Só tem eu que faço”, afirma com simplicidade e a existência própria dos sertões. Nas histórias do Ceará, Chico-ferreiro, com suas mãos de rabeca, é um homem importante.

Lida rara
No rastro dos ferreiros pelo meio do Ceará, é obrigatória a passagem por Potengi (540,8 quilômetros de Fortaleza), cidade conhecida como “a terra dos ferreiros”. “Os ferreiros de Potengi abastecem os mercados do Norte e Nordeste. Vão até o Pará, Tocantins, Maranhão, Goiás”, informa Jefferson Gonçalves de Lima, 31, secretário de Cultura do município.

Já houve uma oficina ao lado da outra, margeando a rodovia estadual. Tem pra mais de cem pessoas na lida que arrima famílias por gerações. Mas rareou o comércio das marcas de ferrar.

Oficina em Potengi, município que concentra grande número de artesãos ferreiros. Foto: Iana Soares

“É pouca as encomenda, porque, na região, é pouca a criação”, explica Cícero Laurindo dos Santos, 37, ferreiro igual o pai, desde criança, e o único que diz ainda fazer as marcas por ali.

Procuram muito é “foice e roçadeira, mais de mil por mês. Marca, não dá nem dez por ano”, completa. Sete ferreiros, revezando-se na quentura e poeira da oficina, da primeira hora da madrugada à tarde, dão conta do serviço pesado.

Aqui e acolá, resiste a memória dos antigos. Em uma mercearia de Quixeramobim (206,1 quilômetros de Fortaleza), Antônio Ferreira, 87 (seu Amoroso, por educação do pai gentil “de nascença”), derradeiro de 15 irmãos, ainda se lembra da “bigorna, do fole, do torno, da lima” que o fizeram ferreiro por 40 anos. De quando o trem trazia a matéria-prima da Capital.