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O senhorio do rebanho

Aos 88 anos “e quase oito meses”, o fazendeiro Raimundo Castelo Cidrão tem a vida que pediu desde menino: deitado em uma rede, no alpendre de casa, ele apenas espera a hora do almoço e dos remédios, o dia de fazer exames em Fortaleza, o anoitecer. O chocalho das vacas voltando do pasto, de muito longe, marca o tempo: já começou a tarde.

O canto do rebanho de 200 gados restantes é música para a memória do fazendeiro: faz Raimundo Cidrão lembrar o quanto é bom viver no quente e empoeirado distrito de Marrecas, a 22 km de Tauá (Sertão dos Inhamuns). Um povoado de 301 anos, comemorados em abril com a festa dos padroeiros Jesus, Maria e José – “a terceira maior do Estado”, engrandece seu Raimundo, a vila de 4.544 habitantes (Censo 2010/IBGE).

Da rede, com vista para o rebanho bebendo água na pequena lagoa em frente, ele restaura o começo daquele mundo. “Partia-se do zero: o rio Puiu” e contava-se légua e meia de frente e de fundo para se instalar uma fazenda. Marrecas cresceu na soma dos currais.


A Fazenda Monte Cristo, da família Cidrão, é das pioneiras. João Freire Cidrão, o patriarca paterno, ensinou a marcar boi e posses. “Se a vaca não tiver marca, qualquer um pode ser dono”, aprendeu seu Raimundo, que repassa a sabedoria ao filho mais novo, Bruno, 25. E se o couro do bicho é documento válido entre os da lida, o registro das marcas da família na Secretaria do Desenvolvimento Agrário é a garantia legal de propriedade.

Na fazenda, as histórias em torno do gado são contadas também pela árvore de pau-ferro, plantada há mais de cem anos e que alimentava as reses nas secas. As estiagens têm subtraído os rebanhos da região: seu Raimundo diz que, das 800 cabeças de gado que enchiam o curral, restam 600; 400 delas num arrendamento no Piauí. “Em 2010, a coisa arruinou aqui”.

A falta d´água sempre castigou os sertões e desafiou os viventes. Em Tauá, outro município do Estado que se fez mais por insistência da criação, o fazendeiro Honório Alves Feitosa e Castro, 80, “era um rico de terras secas”. Aos três anos de idade, ele herdou pra mais de sete mil hectares, espalhados em quatro fazendas que foram povoando a região de gente e de gado, bode, ovelha.

“Eu era muito ruim de enxada. Pra pegar gado, eu era bom. Com dez, 12 anos, já andava encourado... Minha vida foi no rio Jucá. Andei muito no campo, apanhei muita oiticica”, lembra-se, antes de correr o País trabalhando em uma multinacional estrangeira. De falar inglês e cantar tangos.

Hoje, depois de secas e da reforma agrária, as fazendas somam 4.200 hectares, do rio à serra do Coronzó; a criação tem cerca de 200 reses mais uns mil caprinos. E o que foi a vida é servido com cachaça branca, “vinho bom e simples, whisky bom e simples”, seu Honório oferece na conversa.

Uma mulher no comando

O escritor cearense Gustavo Barroso (1888- 1959) abriu olhares e percepções para as marcas de uma heráldica sertaneja na prática de ferrar o gado. A primeira obra dele, Terra do Sol (1912) contribuiu, inclusive, para que a “raiz subterrânea do sangue aflorasse à consciência” do armorial Ariano Suassuna (1927 - 2014), como mesmo reconheceu Ariano. Para Barroso, as marcas no gado são “o desenho mais original e mais digno de estudo; já pelas suas denominações interessantes, já pela importância que assume na vida dos sertões”.

Dona Nira, fazendeira em Milhã. Foto: Iana Soares
 

“É a melhor forma de identificação. Quando sai uma rês, o povo diz logo: vamos olhar de quem é a ferra”, a fazendeira Maria Alzenira (dona Nira) Fernandes, 54, dialoga com o escritor. Uma de suas quatro fazendas, a Ipueiras, na paisagem de Carnaubinha, distante 17 quilômetros carroçais de Milhã, tem mais de 200 anos “e, desde sempre, foi assim, a ferração”.

A marca de ferrar que pertenceu ao pai, de 1922, ressurge em brasa para atestar a tradição. Outra assinatura em ferro é a do marido, Jorge Bezerra (JB), falecido em 2013. Naquela tarde quente da entrevista, dona Nira comandava nova rodada de ferração do rebanho. Ao lado do vaqueiro Bel (José Wagner da Silva), 43, deixava sua marca, para sempre, na história do lugar. (AM)