Logo Portal O POVO Online

Donos de gado e de gente

Cláudio Ribeiro Cláudio Ribeiro claudioribeiro@opovo.com.br

Noutros tempos cearenses, o ferro abrasador que carimbava o lombo do bicho marcava mais. Ia além de desenhos ou letras simbólicas da nobreza sertaneja. A tatuagem quente demarcava patrimônios, territórios, história, tradição e os muitos que estavam sob a influência do patrão do lugar. A ferra era a assinatura de um poder bem maior.

“O fazendeiro era dono de gado e gente. Ali ele marcava tudo, tudo era dele. Aqueles ao redor eram gente dele, a expressão da família clânica, patriarcal. Era gente para castigar e para defender, gente que ninguém toca. ‘Só eu’, ‘outro não pode’, dizia esse senhor”, ilustra Oswald Barroso, jornalista, dramaturgo e pesquisador da cultura popular.

A medida do poder, pelo chão, ia longe. Latifúndios ainda sem cercas, terras de léguas. As referências usadas eram marcos das regiões: de uma ribeira a uma pedra, de um pé de serra à morada vizinha, do que a vista alcançasse até onde o gado bebesse água. A fazenda adotava a cerca para definir suas plantações de subsistência. E os pequenos proprietários, bem mais modestos, se avizinhavam dos poderosos, trabalhavam para eles, viravam “gente” deles.

Na segunda década do século XVIII, com o aparecimento da cultura algodoeira - e depois da matança de índios na disputa por faixas de terra, ou incorporados como mão de obra, as propriedades ganharam delimitações mais visíveis. Mas os rebanhos ainda pastavam soltos, lembra o historiador Francisco Pinheiro, hoje parlamentar e também estudioso dos núcleos familiares precursores de poder no Estado. O Ceará, segundo ele, chegou a ter mais de 800 sesmeiros (titulares de terras distribuídas pela Coroa portuguesa).

As marcas espalhadas nos rebanhos andarilhos eram o emblema desse domínio. Nessa plebe rural, no entorno do senhorio, destacavam-se os vaqueiros. Eram o povo da confiança do patrão, o lugar-tenente do fazendeiro, o substituto na ausência do dono.

“O vaqueiro é um índio, nômade, caçador, que se aliou ao branco”, amplia Oswald Barroso. Quando obedientes, tocavam o dia a dia operacional da propriedade. Cuidavam do boi, faziam a ferra, recapturavam os fujões. Eram imprescindíveis, protagonistas de pouca posse naquele universo de três séculos atrás.

Conta-se a sina de um vaqueiro assim, quase nesse mesmo enredo-tempo-cenário, desde os primeiros clãs se sedimentando no Interior, no fim dos anos 1600, até os anos 1960, segundo Pinheiro. “Ainda alcancei essas grandes festas de ferra na fazenda do meu avô, em Jaguaribe, que ficava a 24 km da sede da cidade. A gente ia e no caminho não via nenhuma cerca. Na feira, reconhecíamos animais pela ferra do dono”, remonta à infância.

A maioria dos sem-sobrenome ou sem-letra-na-vaca preferia aceitar o compadrio destes senhores à rivalizá-los. Muito por falta de opção. Também havia fazendeiros generosos, amados de sua gente, e igualmente também surgiam vaqueiros insurretos, rebelados, que acreditavam em honra maior que obediência. “Pelo casamento (entre as famílias poderosas) ou pelo compadrio (afilhados menos abastados) dá para entender como se dava a estrutura e a articulação de poder nessa época”, resume Pinheiro.

Porteira no curral da fazenda Ipueiras, em Milhã. No detalhe, fotos antigas de gado raceado em Tauá, a amarração na hora da ferração e um ferro usado por família em Morada Nova. Foto: Iana Soares/ O POVO

As dores da alma

Oswald Barroso, dos seus escritos e leituras sobre o vaqueiro, dá a descrição de “um drama quase trágico”. O homem que no sertão reina (na mata) e obedece (na fazenda) é às vezes obrigado a se desfazer de sua cria, mas ele próprio matando-a. “Porque é ele que cuida do boi, dá nome ao novilhos, cria como a um filho. E depois é ele mesmo que tem que abatê-la, matá-la, pra tirar a carne e o couro. Isso é uma dor profunda que ele traz na alma como um estigma”. Aí nem citadas por ele as dores da ferra, sofridas pela rês.

As brincadeiras do boi, folclore muito presente no Interior, teriam nascido no Brasil dessa reverência e respeito ao animal. Como se amenizassem essas dores presentes e permanentes no ofício sertanejo. Na história do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, nas brenhas do Crato, seguidores do beato Zé Lourenço optaram por viver numa comunidade fraterna e à parte da sociedade cratense.

Lá, obedeciam ao líder e também cultuavam o Boi Mansinho, um touro reprodutor dado de presente pelo padre Cícero. Um dia, em 1937, já tratados como hereges pela Igreja, foram atacados a bombas pelo Exército, lançadas de aviões. Morreram mais de 400. Boi Mansinho sobrevive santificado pelo povo.