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Curral de ferração

Cláudio Ribeiro Cláudio Ribeiro claudioribeiro@opovo.com.br

Quando o ferro sai do fogo em brasa, empunhado pelo vaqueiro, o animal já está dominado. Vista arregalada, a íris querendo se desgarrar do branco do olho, as arrobas do corpo sem chances de reagir. O garrote foi deitado à força no areal do curral por três ou quatro peões. Por isso berra e bufa, esperneia. Vai estrebuchar mais quando a brasa lhe arder a carne.

As quatro patas precisam ser atadas, nó firme numa corda só. Um homem lhe dobra o pescoço, intencionalmente sem piedade. Outros dois contêm no animal o que ainda é derradeiro de resistência. É uma futura leiteira, raceada de vaca Gir com touro Holandês, de pouco mais de um ano de vida. Tamanho, força, mas completamente vencida. A marca incandescente é encostada de uma vez pelo vaqueiro. Não há vacilo na lida sertaneja.

O couro assa, sobe fumaça. A labareda até se molda direto na carne, vez em quando, no mesmo desenho de uma das letras da linhagem Castelo Cidrão. Sobe também o cheiro da pelagem queimada. O ferro com o símbolo do dono queima a pata traseira direita, o da freguesia religiosa marca a pata esquerda. Lugar certo, não desvaloriza o couro na venda. Dali, a família desenha-se para sempre no bicho.

A faca afiada complementa o serviço. Decepa-se a ponta de uma das orelhas, faz desenhos com vários nomes e significados. Sangra. (Em Dona Guidinha do Poço, de Manuel de Oliveira Paiva, é “canzil, mossa redonda, buraco de bala, pé de viado, ponta de lança, ponta troncha, brinco, levada, barbil, forquilha, garfo, mossa quadrada, bico de candeeiro, rabo de piranha, dente, entralhada, e não sei que mais…”) Por ali, em Tauá, informa-se nisso a idade, se é novilho, garrote ou bezerro. A rês está marcada.

Foto: foto: iana soares/ o povo
No couro, calor e fumaça trazidas pelo ferro incandescente desenham letras da família Cidrão, de Tauá. Na imagem menor, o fogo do maçarico esquenta o que vai marcar o rebanho

Seu Raimundo Castelo Cidrão, 88 anos, o dono da fazenda na vila de Marrecas, em Tauá, vê isso desde menino. Assistia ao avô, ajudou o pai, ensinou aos filhos... A ferra do gado é desde os tempos do rebanho que corria em pastos livres no Ceará. De quando o vaqueiro bravo trajava couro, selava cavalo, desviava de espinhos e galhos da caatinga dos Inhamuns até resgatar o boi barbatão - o que saltava do curral e fugia por dias. Ou tangia até a fazenda a criação, solta por meses na mata.

O fogo para a ferração agora sai de um maçarico, alimentado por botijão de gás. Em terra de tanta seca e cercas, o gado come mato pouco e ração de saca. Senão afina e morre. A água pra amenizar a sede é de poço ou resto de chuva que não virou inverno. Mas ainda é certo só ferrar uma vez por ano, depois que acabam as nuvens e quando some a mosca varejeira, perigo de doenças para o animal.

O heroísmo do vaqueiro também se confinou. Marcar a rês ainda é sabedoria, mas já não há festança no povoado. Usa-se brinco de plástico, tinta, chips. O boi de curral dá menos trabalho, há cada vez menos gado em anos seguidos de estio.

Ferrar o animal não deixa é o dono e essa gente se desgarrarem da própria história.