Logo Portal O POVO Online
artigo -

O sertão em toda parte (a parte que me toca)

O umbigo da criança, seguindo o costume, foi enterrado no mourão do curral, espaço masculino por excelência onde reinava o tio Zé de Elias, vaqueiro de outra era trajado com sua véstia majestosa curtida de garrancho e poeira. O quarto dos arreios, das espingardas e dos ferros de marcar anexo à sala grande da casa, lá dentro o cheiro dos couros, cotidiano e trabalho, suoresanimais ao sol de 365 dias por ano. Sóis. A casa do avô está de pé, larga e chã, com seu piso de tijolos, o fogão a lenha, a velha cumeeira de aroeira que viu tantas gerações. Mas o entorno mudou. Não há cataventos na paisagem vestida de ouro gasto, verde algum. Parabólicas apontam o violento céu azul.

Sumiu a lagoa aonde, em antigo inverno, reinavam paturis com seu colar negro no longo pescoço e outras aves, marrecos, pernaltas, tanta pena multicor. E a mata, enfezada, firme e densa, espinhosos cardeiros, o alto pé de sabonete, árvores rijas, um caminho vegetal e mais seria o tabuleiro da Serra Dantas que se vê no horizonte, o território do clã de vaqueiros e plantadores de algodão, de onde vieram os meusantepassados, o bisavô Nenel e sua mulher, magra e alta, Rufina. Gente de muita fé, de palavra, de hábitos austeros e bigodes. Os mais velhos gostavam de propor adivinhas, charadas, testando as inteligenciazinhas afiadas na escola da capital. O avô ouvia cantoria pelo rádio, um aparelho estilo capelinha sintonizado na estação de Limoeiro do Norte e pegava bem até a emissora de Mossoró, a famosa cidade do lado de lá da serra, para a qual demandava a estrada do fio, com os postes desativados do telégrafo, e que passava ali adiante. Pela estrada afora rodavam raros automóveis, naquele tempo.

Dizia o povo do lugar, além do rio que rodeia Jaguaruana, que por aquele caminho andou Lampião em demanda de Mossoró, na divisa com o Rio Grande do Norte (na beira da praia havia um marco de pedra com o timbre português, do século XVII). Francisco Manuel do Carmo, o Titico, conta com minúcias o pavor que Rufina sua mãe teve de que os cangaceiros o raptassem e de que modo as sertanejas previdentes esconderam seus meninos sonhadores na capoeira e nos pastos, e foi assim que Titico, 102 anos, nunca viu o capitão Virgulino, cuja história acompanhou pelos folhetos de cordel. No entrevero, era junho de 1927, perdeu a vida o cangaceiro Jararaca, o túmulo mais florido no cemitério de Mossoró, arranjos renovados por quem acredita que o bandido, redimido pela paixão de sua morte, faz milagre acontecer. O que lembra outro sertão bem mais ao norte, em Sinaloa, no México, onde se dá a reverência mística popular ao santo criminoso JesúsMalverde.

Do sertão de carne e osso ao sertão encarnado nos livros, romances, relatos, narrativas, o mundo estranho e líquido de Guimarães Rosa, a convulsão de Canudos nas malacachetas afiadas da escritura de Euclides da Cunha, o sertão nordestino marcado pela seca dos romancistas da geração de 1930 (editorialmente, surgida em 1928, com A bagaceira, de José Américo de Almeida, mesmo ano do Macunaíma, do mestre Mário de Andrade, que sabia andar pelo mato e tinha o ouvido atento e teve o corpo fechado num catimbó da periferia de Natal, levado por ninguém menos que outro mestre entendidíssimo de sertão, Câmara Cascudo). No manifesto de José de Alencar, “Como e por que sou romancista”, ele recorda o menino que foi – chamado pelos seus de Cazuza – e na viagem de mudança para o Rio de Janeiro, aos noves de idade, quando seu pai foi eleito senador. De carro de boi, com toda a família, agregadose costumes até o porto da Bahia de São Salvador, de onde pegariam um navio para a corte.

O cenário do romance O sertanejo cruza este chão áspero no estio, recoberto de mata em flor, se choveu, também paisagem de outra novela, baseada em fatos reais: Quixeramobim, a terra natal de Antônio Conselheiro, afilhado de dona Marica Lessa, a senhora que mandou o amante matar o marido e inspirou a Dona Guidinha do Poço, de Oliveira Paiva.

Emblemático, o livro de Rachel de Queiroz, este sim, publicado em 1930, a estreia da escritora que fixou a literatura cearense na inclemência da seca de 1915. E se outras sucessivas secas ainda mais dramáticas tem havido nestes sertões, nenhuma ficou assim marcada feito ferro quente em couro manso de boi. Será por causa do livro de Rachel? A menina magra que eu era, me chamavam Seca do 15, ou simplesmente Do Quinze, pelas meninas malvadas, pernas finas de sibite baleado. Infâncias velhas ficam para trás.

1997.O ano do centenário da destruição de Canudos. Para entender o que foi Canudos, é preciso sentir Juazeiro. Por trás das janelas fechadas, os Aves de Jesus entoam a ladainha das seis horas da tarde, quando a irmandade se tranca em casa, pois o diabo se solta no mundo, mal escurece o dia. Em Barbalha, ouvi o cantochão dos penitentes que um dia tiveram por mestre o santeiro Joaquim Mulato. O Cariri sagrado se revela em plenitude, a natureza vigorosa da Chapada do Araripe, as águas do Caldas, o frescor de Jardim, o casario do Crato, os engenhos de rapadura, as igrejas de Juazeiro, a Casa dos Milagres de Juazeiro, o Centro de Cultura Mestre Noza de Juazeiro, a ladeira do Horto, a casa de madrinha Dodô, o casarão do Padrinho, a figura santa de Monsenhor Murilo, a paz da irmã Anette, que escolheu seu caminho de ação, os brincantes, os festeiros, os romeiros, os artistas, os doidos: um sertão deste tamanho.

Em Morada Nova, a tradição do vaqueiro se reinventa e é atualizada pelas crianças que participam de vaquejadas, entre jogos e brincadeiras. Foto: Iana Soares
 

1997. Três pessoas, o fotógrafo, a repórter, o motorista. E a estrada. Pelo sertão do Conselheiro, por Quixeramobim, Assaré, Guaraciaba do Norte, os lugares por onde o santo de Canudosnasceu e viveu no Ceará. E depois, ultrapassando a Chapada do Araripe, na direção do sertão do Pajeú, a terra de um cangaceiro de fama e de um sanfoneiro ainda mais afamado, e além o rio São Francisco que vem se esgueirando pelo Raso da Catarina, beirando os lugares em que o Conselheiro deixou a marca de sua intervenção prática e estética: açudes, igrejas, capelas, cemitérios e cidades. Uauá, Cansanção, Monte Santo, Euclides da Cunha, Bendegó, Canudos: era um ano tão seco, que as cicatrizes submersas ergueram-se resistentes das águas rasas do Cocorobó.

No sertão eu vi o começo do mundo. Era o ano de 2000 e toda a efeméride da aventura marinheira de Pedro Álvares no comando de umas tantas caravelas. Enquanto os meios de comunicação pensavam em 500 anos de Brasil, o jornal O POVO foi na Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, no Piauí, um dos mais importantes sítios arqueológicos das Américas, e ao pé da parede pintada com capivaras, baleias, espirais, decalques de palmas de mãos – quais existem, das mesmas, parelhas, em cavernas da Chapada do Araripe – uma fogueira ardeu ou foi ateada há 50 mil anos. Ainda no Piauí, mas na franja da majestosa Ibiapaba, de onde se ouviu o sermão de António Vieira e da qual nasceu a lenda linda inventada por José de Alencar, metamorfoses minerais se desdobram em sete cidades imaginárias. E no deserto há cachoeiras.

Também vimos uma cidade que se mudava. As ruas de Jaguaribara quietas, as árvores pressentindo o fim, debaixo das águas do Castanhão. Um homem não escondia de ninguém as lágrimas que corriam no cânion do rosto, o papagaio mudo no poleiro esperando a vez de subir no caminhão. Na caçamba, os móveis, as louças, os baús, geladeira, televisão, as fotografias, e em nenhum lugar caberia amemória e a saudade. De outra vez, em Ocara, era o fim do dia, e aí vem Adrião em seu cavalo, apeia junto ao alpendre, tira a sela, as compras que trouxe da cidade, naquele dia da aposentadoria. E depois, tocando na rabeca, que ele diz rebeca, um baião lento e triste, enquanto lá fora descia o breu. E o encontro com Zé do Mestre, seleiro, cuja sabedoria está posta na frase que me diz na tarde quente, ao som das bagens da leucenadesfolhada inventando chuva no oco seco do sertão pernambucano: “Sou feliz de ser eu”.

Em Quixadá, a galinha choca está perdendo o bico, perdeu. A figuração faz parte de um território de extrema beleza insólita, porque do solo cristalino emergem aqueles fósseis de montanhas, pedras polidas pelo vento de outras eras, incrustadas de moluscos de um mar que há muito deixou de existir. E sobre estes ossos minerais, quando é tempo de chuva e ela não falta, faz-se da noite para o dia o vestido mais bonito que se viu, todo em rama, flor em flor. Outra imagem sertaneja: o aglomerado de baldes, panelões, cabaças, latas, todo tipo de depósito enfileirado em desarmonia diante do chafariz mal abastecido. Os jumentos sem rumo no asfalto. Aquele menino segurando o rabo do tatu, oferecido ao passante por quaisquer dez reais. Ainda a fome, a seca. E a resistência desconfiada nos acampamentos dos trabalhadores sem terra. O sertão é uma paisagem móvel. Não foi apenas a cidade que avançou sobre o sertão, o movimento é um passo a dois, coreografado: o sertão entrou pela cidade, fez-se espaço de atuação intersticial, periférico, o trajeto realizado por uma força lenta, a massa em expansão.

E o que dizer deste outro sertão que já começa na beira da praia? Aldeias de dunas e oásis, pescadores e rendeiras. Canoa Quebrada tinha seu sertão, lá nos Esteves (as placas bilíngues na Broadway trazem atualmente a denominação “Estêvão”), casas de taipa e palha que acolhiam mochileiros das galáxias, no tempo em que vivia aquela velha bem velha cor de oliva, mãe do poeta Zé Melancia, que tirava da parede da sua cozinha a areia acumulada pelo vento, todo santo dia, com a cuia da infinita paciência. Pontal do Maceió, cenário de tantos carnavais, a turma acampada em barracas debaixo da sombra movimentada dos coqueiros. Agora, só pagando o preço das pousadas e hotéis que brotaram nestes sertões de verdes mares bravios. Mas o sertão é impagável.

O sertão é impagável quando a esperançados teus olhos se espalhar na plantação. Porque vem vindo a notícia de trovoadas no Piauí, e no horizonte apareceu um torreame de capelo, anunciando a chuva. Mestre Raimundo Aniceto aperta os olhos miúdos de índio cariri e sorri, contando sua experiência de profeta ao mesmo tempo em que arrocha a corda encerada no zabumba que acabou de encourar. O sertanejo é mestre em perceber os mínimos sinais da chuva, desejada e necessária. Há experiências conhecidas de muito tempo, com sua forte inflexão religiosa, registradas nos arcaicos Lunários Perpétuos, tal a das pedrinhas de sal na noite de Santa Luzia. É costume se reunirem os entendidos em princípios de janeiro, em Quixadá, cada qual trazendo a ciência que lhe é própria. Chico Leiteiro, por exemplo. Como se fosse jangadeiro, ele se orienta pelas estrelas e pelo vento. Observa a posição dos astros efareja os quatro pontos cardeais. Do alto da pedra lisa que se ergue em frente de sua casa, em Quixadá, tal como o flagrou Cláudio Lima, o profeta vaqueiro vara madrugadas, investigando o roteiro das estrelas e sentindo o mundo respirando ao seu redor.

Sertão, tantos e quais. Experimentadodesde o primeiro ar e reescritoao depois, no ofício de repórter.E atravessando a vida, ou através, moldura presente. Sim, o sertão surpreendente. Encantado, feito este sertanejo que foi o artista Ariano Suassuna. O seu Romance d’A Pedra do Reino, de 1971, transfigura e atualiza o sertão dos sonhadores, dos profetas, das lendas de reis desterrados da Idade Média ibérica, perdidos em África, encantados nas pedras do sertão nordestino. Por ali passou a velhinha do tempo, o bando jovem de Lampião, a Coluna Prestes, por ali passaram cangaceiros e fanáticos modelados em letras de fogo. O fogo das coivaras neste outro sertão em que me encontro, relembrando o traçado entre fronteiras da palavra e da história nos dez anos de trabalho na redação. (E, se couber disto tudo uma imagem – registro de Antônio Duarte: a visita de Ariano Suassuna ao jornal, ele entre Tânia Alves e eu, no tempo do cajueiro).

 

Eleuda de Carvalho, profa. adjunta do curso de Letras (UFT-Araguaína)