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EDITORIAL -

Mundo recriado em invenções e memórias

Nos sem-fins dos sertões cearenses, onde o mundo é recriado em invenções e memórias, acontece de o homem ser dono de tudo: terra, bicho, fidelidade. E acontece assim: a ferro e fogo. Desde os mil setecentos e pouco, quando os navegantes portugueses desembarcaram aqui com “a ideia de propriedade, de domínio, de posse” - avista o pesquisador Gilmar de Carvalho, estudioso da cultura popular.

O Ceará foi colonizado aos poucos e ao contrário, do Interior para a Capital, à força e pela resistência. Era preciso se arranchar onde houvesse um fio d´água que desse de beber aos viventes. Dos rios, traçaram-se léguas e léguas de fazendas de criação de gado. Foi o primeiro desenho de civilização do Interior, desdobrando-se em vilas, distritos, cidades inteiras. E poder, registrado na carne da rês, para sempre.

A ribeira do Jaguaribe é considerada a porta de entrada de incontáveis rebanhos que adentravam o Estado no tempo das vacas gordas, como se diz. Neste caderno especial, seguimos por ela e por mais três mil quilômetros de rodovias e meio do mato. Viajamos por cinco regiões do Ceará – além do Jaguaribe, a Zona Norte, os Inhamuns, o Cariri e o Sertão Central – para reencontrar a origem nordestina em histórias marcadas no couro do boi.

As marcas de ferrar gado, como primeiro observou o escritor cearense Gustavo Barroso, no livro Terra do Sol (1912), assumem importância na vida dos sertões. As letras e os desenhos que simbolizam famílias tradicionais se constituem em uma herança de “nobrezas sertanejas”, dialoga o pesquisador Oswald Barroso. Perpetuam patrimônio e significam poderio.

Neste percurso pela heráldica sertaneja, a morte do escritor Ariano Suassuna, fundador do movimento Armorial, cruzou o caminho. Mas, naquela tarde em que o vaqueiro de dona Nira ferrava o novilho assustado, parecia que Ariano estava tanto no céu de Carnaubinha quanto na marca indelével do ferro em brasa.

O Ceará chegou a ter mais de 800 sesmarias, contam estudiosos da colonização. A partir delas, o boi nomeia propriedades e festas e tem valor de ouro e de afeto. Nossa viagem vai também por casas de vaqueiros e oficinas de ferreiros, antigos e novos. E segue adiante, até os atuais mercados de consumo, que atualizam sentido e significado das marcas de ferrar em logotipia tão valorosa quanto a memória que temos de nós mesmos.

Ferretes em bytes

Não é de agora que os meus olhos deitaram sobre as marcas de ferrar gado. Encantei-me pela possibilidade de releitura do rude ferro em brasões ancestrais que contavam a história das famílias do sertão. Pelas mãos do jornalista e pesquisador Gilmar de Carvalho, que me revelou um universo de nuances.

O assunto silenciou em mim por mais de 10 anos. Eis que em 2013, voltou a me sussurrar possibilidades. De lá para cá, O POVO abraçou a ideia e ampliou imaginações. Ferros polifônicos, rastros de tradição, poder e territorialidade, traços dos nossos quintais que desconhecem fronteiras. O mundo é aqui. E o design um canal para traduzi-lo.

Desenhar esse conceito é navegar num universo concreto e, ao mesmo tempo, simbólico. O projeto gráfico rasga o conteúdo. Marca, tal qual estigmas, o couro, a foto. Aponta leituras. As colunas de texto são forjadas na bigorna. A tipografia, criada especialmente para este caderno e batizada de “Chico Type”, homenageia e reproduz a letra do ferreiro Chico Gomes, de Tauá. Redesenhada pelo nosso infografista Pedro Turano, ressoa moderna, digitalizada. Marcamos no computador com ferrete de bytes.

As manchas pretas são lembranças do ferro virgem, protegido por um óleo para não enferrujar. Uma promessa de permanência para as histórias que estão nas próximas páginas.

É fogo, é ferro, são vários caminhos. Um universo de possibilidades que se abrem. Os sentidos estão em chamas